{"id":99,"date":"2012-12-02T15:35:00","date_gmt":"2012-12-02T18:35:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=99"},"modified":"2020-06-27T16:09:57","modified_gmt":"2020-06-27T19:09:57","slug":"o-jurado-de-carvalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/12\/o-jurado-de-carvalho\/","title":{"rendered":"O Jurado de Carvalho"},"content":{"rendered":"\n<p>Semanas depois de protagonizar o terceiro esc\u00e2ndalo sucessivo relacionado ao Pr\u00eamio Jabuti, o &#8220;Jurado C&#8221;, o cr\u00edtico paulista Rodrigo Gurgel, finalmente <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/1194742-o-sistema-literario-brasileiro-esta-doente-afirma-jurado-c-do-jabuti.shtml\">deu a sua vers\u00e3o<\/a> dos acontecimentos. Foi justo a imprensa dar-lhe voz, depois das semanas que passou sendo <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/10\/e-la-vem-o-jabuti-de-novo\">malhado<\/a> como judas em S\u00e1bado de Aleluia. O cr\u00edtico teve sua oportunidade de dar suas opini\u00f5es, justificando-se ou n\u00e3o. Muita coisa ficou esclarecida, mas em outros casos a emenda foi maior estrago que o p\u00e9 quebrado do soneto. Com a autoridade de ser a nulidade liter\u00e1ria que sou, atrevo-me a comentar o que ele disse, mais uma vez me esmerando em meu trabalho de queimar todas as poss\u00edveis pontes que me fizessem cruzar o Rubic\u00e3o liter\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A entrevista de Gurgel come\u00e7ou, como n\u00e3o poderia deixar de ser, com a justifica de seu voto. Continuo dizendo que a justificativa n\u00e3o convence, considerando que nenhum trabalho liter\u00e1rio s\u00e9rio merece zero, por\u00e9m, se n\u00e3o \u00e9 convincente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 necessidade das notas zero, ou pr\u00f3ximas de zero, Gurgel pelo menos explica seus crit\u00e9rios para alinhar os romances de acordo com a sua prefer\u00eancia:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Quando eu abri o papel, a primeira coisa que me chamou a aten\u00e7\u00e3o [na lista de finalistas] foi o livro do Wilson Bueno [&#8220;Mano, a Noite Est\u00e1 Velha&#8221;, ed. Planeta], que eu havia colocado em \u00faltimo lugar, apesar de ter dado uma nota de oito e pouco. Se um livro que voc\u00ea colocou em \u00faltimo lugar est\u00e1 em primeiro na lista, a primeira rea\u00e7\u00e3o \u00e9 dupla: voc\u00ea pensa em reler alguma coisa do livro, para ver se o julgamento continua de p\u00e9.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Gurgel poderia ter continuado a p\u00f4r o livro em \u00faltimo lugar, sendo coerente com o que votara na primeira fase. Por\u00e9m, mais do que classificar os livros de acordo com a sua prefer\u00eancia, o que \u00e9, na minha hum\u00edlima e ignorante opini\u00e3o, o papel de um jurado, o jurado resolveu ir al\u00e9m e confessa ter explorado deliberadamente as regras do concurso de forma a decidir o resultado segundo os seus crit\u00e9rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Ocorre que existe uma falha do processo de escolha do Pr\u00eamio Jabuti: ao permitir que os jurados, na segunda fase, tenham acesso \u00e0 ordem de classifica\u00e7\u00e3o obtida pelos finalistas, segundo a nota obtida na fase anterior, o sistema de escolha acaba induzindo os jurados a avaliar, na segunda fase, de uma forma subjetiva, atribuindo notas segundo sua &#8220;estrat\u00e9gia&#8221; para influir na classifica\u00e7\u00e3o, em vez de imparcialmente atribuir conceitos conforme sua opini\u00e3o a respeito de cada livro. Neste sentido, Gurgel se assume como o &#8220;malandro&#8221; que explora as falhas do sistema para seus pr\u00f3prios objetivos. No caso, objetivos que significam usar o seu voto para, isoladamente, determinar o resultado final. N\u00e3o sou eu que estou dizendo, foi ele quem disse:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Essa mudan\u00e7a das notas deveria ter sido pensada. Quem estabeleceu a nova regra n\u00e3o fez as contas. N\u00e3o pensou: &#8220;bom, quais s\u00e3o as situa\u00e7\u00f5es que podem ocorrer?&#8221; Ou ent\u00e3o acreditou que todos os jurados votariam sem compromisso.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A falha da organiza\u00e7\u00e3o do pr\u00eamio Jabuti foi, segundo o jurado, acreditar na imparcialidade dos jurados, acreditar que os jurados votariam sem compromisso. Esta tamb\u00e9m \u00e9 a falha dos que n\u00e3o eletrificam as cercas de suas casas, dos que n\u00e3o p\u00f5em trancas nos seus carros, dos que contam segredos para amigos, das namoradas que se deixam filmar por seus namorados. \u00c9, enfim, a velha fraqueza humana de confiar na confiabilidade do pr\u00f3ximo. Em um mundo ideal ningu\u00e9m precisaria se preocupar, porque as pessoas agiriam sempre com \u00e9tica. Mas Gurgel n\u00e3o se prende a esses limites: &#8220;se me pedem para julgar e me d\u00e3o os crit\u00e9rios, eu uso os crit\u00e9rios.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O &#8220;jurado Carminha&#8221;, como chegou a ser apelidado nas redes sociais, estranha que escritores tenham estranhado as notas estranhas que ele atribuiu (sic):<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>O que, ali\u00e1s, \u00e9 o que mais me chama a aten\u00e7\u00e3o nas cr\u00edticas que recebi. E as mais violentas foram de escritores. Eu acho interessante. Em nenhum momento passa pela cabe\u00e7a deles que eles poderiam ser um dos livros escolhidos por um jurado que luta pelos livros de que gosta. Um jurado que n\u00e3o teme se comprometer.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Como Gurgel n\u00e3o \u00e9 escritor, sua capacidade imaginativa \u00e9 relativamente limitada. Se escritor fosse, saberia que por nossas cabe\u00e7as certamente passou este cen\u00e1rio, de sermos beneficiados por um jurado como ele. Bem, <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/10\/e-la-vem-o-jabuti-de-novo\">pela minha passou<\/a> e eu j\u00e1 disse qual seria a minha gratid\u00e3o a uma escolha segundo tal crit\u00e9rio. Mas a quest\u00e3o \u00e9 que a maioria de n\u00f3s imagina, com nossa f\u00e9rtil criatividade, uma possibilidade muito mais interessante para o uso da &#8220;Estrat\u00e9gia Gurgel&#8221; (que entrar\u00e1 para a hist\u00f3ria com a mesma notoriedade da &#8220;Lei de G\u00e9rson&#8221;).<\/p>\n\n\n\n<p>Imaginemos, apenas hipoteticamente, que a &#8220;editora fulana&#8221;, usando de argumentos exclusivamente art\u00edsticos e \u00e9ticos (claro), &#8220;conven\u00e7a&#8221; algum jurado a induzir a escolha do livro &#8220;sicrano&#8221; do escritor &#8220;beltrano&#8221;. Neste caso, claro, em vez de usar seus poderes para justi\u00e7ar os fracos e oprimidos da literatura, o hipot\u00e9tico jurado estaria apenas fazendo o jogo bruto das grandes casas liter\u00e1rias e seus &#8220;nomes de peso&#8221;. \u00c9 por causa disso que os escritores estranharam o que houve, \u00e9 por causa disso que eu repudiaria um pr\u00eamio assim escolhido, mesmo que fosse eu o escolhido, e \u00e9 por isso que tenho a firme opini\u00e3o de que concursos liter\u00e1rios n\u00e3o avaliam o m\u00e9rito das obras, mas apenas revelam os movimentos tect\u00f4nicos da luta pelo poder no sistema editorial. Briga de cachorro grande, onde um vira latas provinciano como eu dificilmente entra, a menos que concorde em fantasiar-se de palha\u00e7o, segundo o estere\u00f3tipo que se imp\u00f5e das capitais.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o, seca e simples, \u00e9 que, a partir do momento em que se detecta a exist\u00eancia de uma falha no sistema, e de algu\u00e9m que a utilizou com sucesso para obter o que queria, n\u00e3o h\u00e1 como fechar a Caixa de Pandora. Ou a regra muda, ou ano que vem todos os jurados votar\u00e3o com estrat\u00e9gia, mesmo aqueles que n\u00e3o pensam que a sua opini\u00e3o deva prevalecer acima das demais. A falha n\u00e3o est\u00e1 na permiss\u00e3o de se usar qualquer nota, de zero a dez, mas, sim, em revelar aos jurados os livros escolhidos na primeira fase segundo uma ordem de classifica\u00e7\u00e3o, que revela a tend\u00eancia de voto do j\u00fari como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Gurgel, como todo ser humano, n\u00e3o \u00e9 totalmente uma coisa s\u00f3. Se se revela limitado no aspecto \u00e9tico, ele parece ter algumas opini\u00f5es sobre o sistema liter\u00e1rio brasileiro que acabam sendo parecidas com as minhas. O meu medo \u00e9 que elas tamb\u00e9m estejam erradas, e eu as v\u00e1 elogiar aqui somente porque os preconceitos dele conferem com os meus.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira destas opini\u00f5es ele expressa ao comentar, com desd\u00e9m, a rea\u00e7\u00e3o dos escritores \u00e0s suas notas: &#8220;Os nossos escritores n\u00e3o est\u00e3o acostumados a serem julgados. O nosso sistema liter\u00e1rio est\u00e1 doente.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o que parte de um senso comum dif\u00edcil de negar. Isto, claro, se v\u00ea a todo momento, at\u00e9 nos blogues. O autor brasileiro \u00e9 &#8220;estrelinha&#8221;, sim. Desde o iniciante amador que escreveu um pastiche pobre de Crep\u00fasculo at\u00e9 um medalh\u00e3o acad\u00eamico. O primeiro confunde cr\u00edtica \u00e0 obra com um desmerecimento de sua dignidade pessoal, argumenta com as suas limita\u00e7\u00f5es e o seu esfor\u00e7o para que lhe sejam perdoadas as falhas e a falta de imagina\u00e7\u00e3o. O segundo reage com prepot\u00eancia, move seus &#8220;pauzinhos&#8221;, anota no seu caderninho, d\u00e1 seus telefonemas e eventualmente at\u00e9 desce do Olimpo, tonitruante, para reduzir o ousado cr\u00edtico &#8220;ao seu lugar&#8221;. Faz isso porque n\u00e3o se sente seguro de seu lugar. Alguns de nossos grandes luminares sabem muito bem que sua gl\u00f3ria \u00e9 posti\u00e7a, que seu m\u00e9rito \u00e9 mais curto que seus casacos e, na hora do &#8220;vamos ver&#8221;, deixa suas quadradas bundas de fora. Sabem que est\u00e3o sentados, mas n\u00e3o assentados, na imortalidade. Ou melhor, saberiam, se seu talento lhes permitisse compreender a diferen\u00e7a que faz uma letra &#8220;a&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, o escritor est\u00e1 desacostumado a ser julgado. Talvez at\u00e9 seja necess\u00e1rio que, ocasionalmente, algu\u00e9m lhe d\u00ea um zero. Mas a escolha do Pr\u00eamio Jabuti n\u00e3o foi exatamente o melhor lugar nem circunst\u00e2ncia para dar essa li\u00e7\u00e3o de moral nos medalh\u00f5es. Porque por mais moral que a li\u00e7\u00e3o fosse, perdeu-a pela manipula\u00e7\u00e3o a\u00e9tica do resultado, com o pretexto di\u00e1fano de que os crit\u00e9rios permitiam. Nem tudo que \u00e9 legal \u00e9 justo.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem tr\u00eas par\u00e1grafos na entrevista de Gurgel que est\u00e3o de tal forma coincidentes com as minhas opini\u00f5es que eu, que comecei este artigo criticando com dureza o jurado, j\u00e1 estou, neste ponto, querendo dar-lhe as m\u00e3os e convidar para um chope. Cito-os nos peda\u00e7os que mais me interessam:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Essas pessoas [que] t\u00eam a hegemonia ideol\u00f3gica nos cadernos culturais, nas poucas publica\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias que n\u00f3s temos, nas editoras de livros. Quando eles escrevem uma cr\u00edtica, as preocupa\u00e7\u00f5es deles s\u00e3o, primeiro, a quest\u00e3o formal, lingu\u00edstica. H\u00e1 um exagero de preocupa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a isso.<\/p><p>Se voc\u00ea n\u00e3o inovar em termos lingu\u00edsticos, se voc\u00ea n\u00e3o tentar recriar o &#8220;Finnegan&#8217;s Wake&#8221; o livro j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 bom, ou \u00e9 um livro t\u00edmido, que revela inseguran\u00e7a. O que n\u00f3s poder\u00edamos chamar de narradores tradicionais j\u00e1 s\u00e3o repudiados por princ\u00edpio. [\u2026]<\/p><p>Em termos de cr\u00edtica liter\u00e1ria, a preocupa\u00e7\u00e3o desses cr\u00edticos, na verdade, n\u00e3o \u00e9 primeiro com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma: \u00e9 exclusivamente com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma. Porque eles partem do princ\u00edpio de que a obra \u00e9 autossuficiente. A obra n\u00e3o tem que dialogar com a realidade. A literatura n\u00e3o tem que dialogar com o mundo. Tem que dialogar com ela pr\u00f3pria.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Eu acho muito bom que um cr\u00edtico liter\u00e1rio cutuque esse tumor, que eu, com minha rid\u00edcula atiradeira de raqu\u00edtico Davi, j\u00e1 havia cutucado em 1997, aos 24 anos, na ing\u00eanua revista liter\u00e1ria que fiz em Cataguases. Qualquer dias desses obterei acesso ao \u00fanico exemplar restante dela, e republicarei aqui o meu ensaio &#8220;Literatura e Consci\u00eancia&#8221;. Que cont\u00e9m par\u00e1grafos quase iguais a esses. O que eu n\u00e3o tinha, nem tenho hoje, \u00e9 o conhecimento te\u00f3rico suficiente para detectar a origem desse fen\u00f4meno:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>O [cr\u00edtico liter\u00e1rio] Antonio Candido fala que o nosso sistema liter\u00e1rio, no in\u00edcio, era assim: as pessoas que produziam eram as pessoas que consumiam. <em>Esse \u00e9 o nosso grande problema, n\u00f3s n\u00e3o temos leitores<\/em>. O escritor escreve para agradar o cr\u00edtico, pra agradar o professor de teoria liter\u00e1ria e para agradar os seus amigos.<\/p><p>Ent\u00e3o ele precisa ser politicamente correto, precisa fazer experimentos lingu\u00edsticos, esconder o narrador, abusar da metalinguagem. <em>Precisa<\/em> fazer do texto dele um resuminho daquilo que a vanguarda fez nos \u00faltimos anos, para <em>agradar as pessoas<\/em>. Se voc\u00ea n\u00e3o tem uma cr\u00edtica que est\u00e1 disposta a agradar o p\u00fablico, numa linguagem que ele compreenda por que aquele livro \u00e9 bom ou n\u00e3o \u00e9, voc\u00ea n\u00e3o forma leitores.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Eu j\u00e1 sabia que este tipo de literatura que frequenta os cadernos culturais tem um car\u00e1ter esot\u00e9rico, j\u00e1 sabia que n\u00e3o s\u00e3o formados leitores a partir de romances da chamada &#8220;alta literatura&#8221;. Sabia tamb\u00e9m que existe um lugar para esta literatura excelsa. O que eu disse na \u00e9poca, e repito hoje, \u00e9 que essa forma de literatura n\u00e3o pode ser a \u00fanica, porque ela n\u00e3o \u00e9 porta, ela \u00e9 esfinge. As pessoas n\u00e3o se atraem por esfinges. Alunos em fase de alfabetiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o querem palavras cruzadas. Tanto quanto alunos de primeiro ano do conservat\u00f3rio n\u00e3o querem tentar tocar Tom Jobim ou Yngwie Malmsteem.<\/p>\n\n\n\n<p>Ocorre que nosso pa\u00eds possui uma ideologia dominante que aspira ao pensamento \u00fanico. Ao partido \u00fanico, ao estilo \u00fanico. Se voc\u00ea discorda de mim, ent\u00e3o voc\u00ea est\u00e1 errado, voc\u00ea \u00e9 um imbecil ignorante, voc\u00ea tem de ser suprimido. E se a minha escolha n\u00e3o est\u00e1 em primeiro lugar, vale depreciar as escolhas de todos os outros para dar primazia ao meu favorito.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sabemos conviver com a diferen\u00e7a. N\u00e3o temos um hist\u00f3rico de fil\u00f3sofos advers\u00e1rios que, depois de se xingarem pelos jornais, se encontravam \u00e0 tarde nos caf\u00e9s para jogar domin\u00f3 e rir das pol\u00eamicas criadas em torno de si. Nossa tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 de autores criticados xingarem os cr\u00edticos, de cr\u00edticos questionados fulminarem os autores, de autores experimentais criticarem os narradores &#8220;prim\u00e1rios&#8221;, dos narradores prim\u00e1rios pretenderem derrubar do Olimpo os acad\u00eamicos. Nossa sociedade tem um esp\u00edrito de rinha, n\u00e3o de disputa. Nossa ideologia \u00e9 o MMA, que ven\u00e7a o melhor, o vencedor \u00e9 quem ficar de p\u00e9. N\u00e3o concebemos um tipo de vit\u00f3ria no qual o advers\u00e1rio permane\u00e7a digno.<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso n\u00e3o convivemos com a diferen\u00e7a, por isso nossa democracia \u00e9 fr\u00e1gil, por isso nossa imprensa tende ao golpismo, por isso nossas institui\u00e7\u00f5es se corrompem, por isso nossos partidos almejam perpetuar-se a qualquer custo. Por isso as brechas dos regulamentos precisam ser exploradas para impor a nossa opini\u00e3o quando as opini\u00f5es dos outros colocam em primeiro lugar aquele que colocamos em \u00faltimo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso nossos cr\u00edticos, incapazes de conceber que outros cr\u00edticos possam dar valor \u00e0quilo que eles escolheram desprezar, se prestam a &#8220;usar os crit\u00e9rios&#8221; para determinar o resultado, tal como um pol\u00edtico que se alinha com for\u00e7as ocultas para dar um golpe de estado e impedir a vit\u00f3ria iminente do advers\u00e1rio no pleito seguinte. Por isso Gurgel segue errado, mesmo dizendo coisas com que concordo. As coisas certas, quando convivem com um mal evidente, tornam-se instrumentos a servi\u00e7o do mal.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, quando Gurgel diz coisas que s\u00e3o obviamente verdadeiras, o que ele est\u00e1 fazendo \u00e9 criar uma cortina de fuma\u00e7a sobre o ato a\u00e9tico que perpetrou, abusando de sua condi\u00e7\u00e3o de jurado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ent\u00e3o chegamos ao fim da entrevista, e a\u00ed compreende-se finalmente, porque Gurgel cometeu o ato que cometeu. Ele se revela aluno de Olavo de Carvalho, o que \u00e9 uma coisa inconfess\u00e1vel para uma pessoa de cultura. S\u00e3o numerosas as perip\u00e9cias de Olav\u00e3o, desde provar que Newton estava errado em sua f\u00edsica at\u00e9 negar a validade da Teoria da Relatividade de Einstein (sendo que o dito fil\u00f3sofo n\u00e3o \u00e9 nem f\u00edsico e nem sequer possui um grau acad\u00eamico de exatas). Some-se a isso o horror m\u00f3rbido \u00e0 mudan\u00e7a, sua rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 novidade, sua agressividade contra as utopias de esquerda e sua cr\u00edtica paranoica ao &#8220;esquerdismo&#8221; e\u00a0 temos provas suficientes de que ele n\u00e3o pode ser levado a s\u00e9rio por uma pessoa de cultura mediana. Uma pessoa culta que se coloca na condi\u00e7\u00e3o de disc\u00edpula de algu\u00e9m como Olav\u00e3o est\u00e1 usando seu diploma para limpar a bunda. <\/p>\n\n\n\n<p>Olavo pertence ao seleto clube das pessoas que nunca erraram (pelo menos nunca o vi retratar-se de uma opini\u00e3o ou expressar qualquer ideia sua de maneira menos enf\u00e1tica do que uma certeza absoluta). N\u00e3o erra porque se coloca como verdadeiro Or\u00e1culo, ve\u00edculo da verdade divina. &#8220;A hegemonia da esquerda foi lentamente constru\u00edda&#8221;, diz Gurgel. Olavo traz a verdade s\u00fabita, o golpe da verdade, o golpe. Se o mundo n\u00e3o concorda comigo, ent\u00e3o \u00e9 porque foi constru\u00edda uma &#8220;hegemonia de esquerda&#8221; e eu sou o paladino que a vai contestar. N\u00e3o estou aqui para dar notas a um livro, mas para combater a &#8220;hegemonia da esquerda&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Golpe que o jurado C desfere contra seus desafetos liter\u00e1rios, contra o &#8220;sistema&#8221; que rejeita. Olavo e Gurgel, cada um em seu papel, Dom Quixote e Sancho Pan\u00e7a, lutando contra os moinhos de vento do mal, para salvar o mundo, ou pelo menos a literatura, da unanimidade burra do esquerdismo.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o me lembro que, no texto introdut\u00f3rio da entrevista, Gurgel revelara ao rep\u00f3rter seu novo projeto: Atualmente, desenvolve um projeto ambicioso: reler todo o c\u00e2non da literatura brasileira e submet\u00ea-lo a seu crivo em textos publicados no jornal &#8220;Rascunho&#8221;. O primeiro fruto, o volume de ensaios &#8220;Muita Ret\u00f3rica, Pouca Literatura &#8211; de Alencar a Gra\u00e7a Aranha&#8221; (Vide Editorial), foi publicado em agosto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Semanas depois de protagonizar o terceiro esc\u00e2ndalo sucessivo relacionado ao Pr\u00eamio Jabuti, o &#8220;Jurado C&#8221;, o cr\u00edtico paulista Rodrigo Gurgel, finalmente [deu a sua vers\u00e3o](http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/1194742-o-sistema-literario-brasileiro-esta-doente-afirma-jurado-c-do-jabuti.shtml) dos acontecimentos. Foi justo a imprensa dar-lhe voz, depois das semanas que passou sendo [malhado](http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/10\/e-la-vem-o-jabuti-de-novo) como judas em S\u00e1bado de Aleluia. O cr\u00edtico teve sua oportunidade de dar suas opini\u00f5es, justificando-se ou n\u00e3o. Muita coisa ficou esclarecida, mas em outros casos a emenda foi maior estrago que o p\u00e9 quebrado do soneto. Com a autoridade de ser a nulidade liter\u00e1ria que sou, atrevo-me a comentar o que ele disse, mais uma vez me esmerando em meu trabalho de queimar todas as poss\u00edveis pontes que me fizessem cruzar o Rubic\u00e3o liter\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[183],"tags":[100,20,77,55,99,57,6],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=99"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7244,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99\/revisions\/7244"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=99"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=99"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=99"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}