Letras Elétricas
Textões e ficções. Tretas e caretas. Histórias e tramóias.
by J. G. Gouvêa

Injustiça Poética

Publicado em: 02/03/2014

Escutei as sirenes logo abaixo da minha janela e me levantei para ver. Continuava em silêncio a casa do outro lado da rua. Tinha estado assim durante os últimos doze minutos, contados no relógio.

O policial apeou da viatura e foi até a porta, que dava diretamente sobre a calçada. Bateu sem educação, conforme a situação exigia. Ninguém respondeu, as luzes continuaram apagadas.

— Abra essa porta, ou vamos soprar, soprar…

…

— O que aconteceu com você, querida?

Ela não respondia. Timóteo estapeou-lhe o rosto na esperança de reavivá-la, mas ela continuou com aparência cadavérica.

— Ó, merda!

…

A menina corria descalça pela rua.

— Tio, chama a polícia para a mamãe! Chama a polícia para a mamãe!

…

— Olha o que vocês fizeram, seus filhos de uma puta!

— Mãos para o alto, seu bosta!

Timóteo não as quis pôr ao alto. Que o levassem à força, se quisessem, mas não se renderia à culpa.

— Eu não fiz nada! Eu não fiz nada!

…

Os gritos e ruídos de madeira quebrando começaram por volta de dez da noite. Mais altos do que os gritos da torcida na televisão. Esqueci o jogo e cheguei à janela. Ouviu-se um tiro.

— Veado! Miserável!

— Vadia! Vai se foder! Vai me pagar agora!

Um tamborete de madeira voou pela janela de vitrô e foi parar na calçada. Logo em seguida um corpinho esquálido saltou pelo buraco aberto, milagrosamente não se cortando nos cacos, a típica agilidade do medo.

Eu estava com a cabeça cheia de álcool e enxergava a realidade através de um aquário enquanto Luzia, ainda dormindo ao meu lado, dormia o sonho dos anjinhos pelados.

…

Os policiais se entreolharam e fizeram um gesto de cabeça. Recuaram para derrubar a porta. Ouviu-se um estalo de tiro dentro da casa. Os policiais não pestanejaram e atiraram quatro vezes através da porta antes de saltarem sobre ela, transformando-a em lascas.

…

— Como pôde fazer isso comigo, Marta?

— Não sei do que está falando?

— Como? Como? O que é isso aqui?

E atirou um maço de cartas e fotos sobre a mesa.

…

— Tio, tio! Chama a polícia para a mamãe.

…

De repente senti os lábios de Luzia me convidando de volta.

— Péra, Luzia.

— O que?

— Tem uma merda qualquer acontecendo na casa em frente?

— E você quer ver merda? Vou virar para o canto, até amanhã!

…

— Ah, é disso que está falando?

— É, é disso que eu estou falando! Quem é esse tal de Artur?

— É o meu namorado, Timóteo.

Ele se sentou, com as mãos na testa.

— Você me disse que só queria um tempo.

— Sim, mas muita coisa aconteceu nesse tempo.

— O que vai ser de nossa filha?

— Uai, nada. Ela vai continuar vivendo uma vida normal. Indo à escola.

— Ela é minha filha também, Marta.

— Vai continuar sendo. Não tem nenhum problema.

…

Os policiais entraram na casa apontando os revólveres, prontos para atirar. Na cozinha, caída de bruços, com dois tiros nas costas, jazia Marta numa poça de sangue. Encostado à parede estava Timóteo, apertando com a mão esquerda o ombro direito.

…

— O que houve, menina?

— Mamãe não está bem. Chamem a polícia para ela. Rápido, é o papai.

…

Luzia se levantou, então, e se debruçou à janela comigo.

— Pelamordedeus, Luzia, bota uma roupa. Quer que o bairro inteiro fique olhando pros seus peitos?

— Já que você não está interessado, quem sabe algum dos vizinhos interesse?

E se debruçou mais ainda, deixando os grandes peitos penderem, ironicamente, sobre o parapeito da janela.

…

— Papai, não entre — cochichou a menina.

— Mas, filhinha, você ainda não está pronta?

— Papai, vá embora, por favor.

— Assim você deixa papai triste, Débi.

— Olá, Tim. Já chegou? Entre.

— O que você tem dito para a menina, Marta? Agora ela não quer ir comigo?

— Eu, o que eu deveria dizer, seu frouxo?

…

— Achei o revólver, sargento.

— Preserve a cena, soldado. Vamos algemar o susp… Mas que merda é essa, ô filho da puta? Tira essa mão daí!

— Sargento, ele está ferido.

E Timóteo desabou no chão, de cara sobre a poça do sangue de Marta.

…

— Eu disse, tio! Precisava chamar a polícia para a mamãe! Precisava chamar.

A menina entrou num pranto convulsivo quando os socorristas retiraram o seu pai, entubado, para dentro da ambulância:

— Papai! Papai! Então ela fez! Ela fez!

O sargento se aproximou:

— O que foi, menina? Do que você está falando?

— Mamãe…

— Infelizmente, menina, chegamos tarde demais. Sua mãe já tinha sido… Tarde demais para ela…

— Você não entendeu! Papai!

— Você vai poder ver o seu pai depois, querida. Se ainda quiser vê-lo depois do que ele fez.

— Você não entendeu, polícia. O revólver era da mamãe.

…

No dia seguinte, Artur faltou ao trabalho. Liguei para ele depois do expediente. Ele não sabia que eu era vizinho da Marta, e nem eu sabia que ele andara arrastando a asa para ela:

— Artur, o que houve contigo? Não foi trabalhar, está doente?

— Doente não. Mas acho que vou ficar.

— Por quê?

— Cara, a minha namorada, cara. Morreu.

— Oh, que… que puxa! Eu nem sabia que você estava namorando de novo.

— Pior não é isso. Ela tinha dito que era viúva. Que espanto o jornal de hoje!

— Artur, Artur. Dê-se por feliz que ela morreu.

Artur não entendeu. Talvez minha frase até abalasse a amizade. Mas eu precisava corrigir uma injustiça no mundo, se estivesse ao meu alcance. Pobre Timóteo: batera na mulher durante três anos de casamento e nunca fora preso. E agora estava preso por algo que não fizera. Em algum lugar Satanás estava gargalhando e patenteando sua nova invenção, a injustiça poética.

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