Criando Livros Eletrônicos e Físicos para o Kindle, com Software Livre

Hoje estão ter­mi­nando os meus vinte dias de férias anu­ais (seriam trinta, mas eu sem­pre vendo dez, quando posso). Este ano, para variar, não pude via­jar (pagar as con­tas é difí­cil!) e resolvi mer­gu­lhar de cabeça em uma emprei­tada há muito adi­ada:

  1. Revisar todas as minhas obras já escri­tas até hoje (40% con­cluído);
  2. Transportar todas para arqui­vos Markdown ou LaTeX, livrando-​me, enfim, dos últi­mos RTF, DOC e ODT da minha vida lite­rá­ria (50% con­cluído).
  3. Colocar tudo à venda na loja do Kindle Direct Publishing (25% con­cluído).
  4. Profit!

Embora não tenha con­se­guido fazer tudo a que me pro­pus (eu escrevi muito mais do que eu ima­gi­nava nessa minha vida), com a ajuda de algu­mas dicas colhi­das com ami­gos vir­tu­ais (prin­ci­pal­mente o Alec Silva), con­se­gui publi­car sete obras nes­tas minhas férias (pos­si­vel­mente nove até domingo). Foi um esforço tre­mendo, que já con­su­miu mais um pou­qui­nho de meus sofri­dos olhos na ten­ta­tiva de enxer­gar as gra­lhas e os erros mesmo de orto­graphia ou gram­ma­tica. Mas foi com­pen­sa­dor, por­que eu começo a atra­ves­sar a fron­teira entre ser um blo­gueiro que não ganha nada com isso e ser um autor ama­dor da loja KDP, que não ganha quase nada com isso…

Essa minha pos­ta­gem serve ape­nas para fazer o devido agra­de­ci­mento ao Alec (e tam­bém ao Samuel Cardeal, que fez para mim uma linda capa de livro) e para docu­men­tar o pro­cesso que eu uti­li­zei para a cri­a­ção dos livros físi­cos e dos ele­trô­ni­cos.

Espero que este artigo não seja inter­pre­tado como nada mais do que isso: o mapa do cami­nho que eu segui, para o caso de alguém que­rer pisar na mesma dire­ção.

O Desafio

Agora que o Kindle Direct Publishing come­çou a ofe­re­cer a venda de livros físi­cos, come­cei a me inte­res­sar pela pos­si­bi­li­dade de publi­car. Eu já vinha que­rendo isso, mas não me sobrava tempo para fazer, visto que eu tra­ba­lho oito horas por dia, cinco dias por semana, e tenho famí­lia para rece­ber a minha aten­ção.

Minha expe­ri­ên­cia ini­cial com a KDP — publi­cando a pri­meira edi­ção de Mythos Mineiros, em novem­bro de 2016, já me havia apon­tado algu­mas difi­cul­da­des. A publi­ca­ção dos novos livros, agora em março, ser­viu para eu final­mente enten­der todo o pro­cesso e iden­ti­fiar os desa­fios:

  1. O PDF tem que ser em um for­mato acei­tá­vel. Infelizmente o for­mato A5 não é um deles (mas o A4 é, veja só). Assim, depois de já ter­mi­nado o tra­ba­lho de for­ma­ta­ção de um dos livros, O Reino Esquecido, tive de refor­ma­tar tudo em for­mato 6x9 pole­ga­das, que é o pre­fe­rido da Amazon.
  2. Desenhar uma capa segundo as medi­das, que variam con­forme a quan­ti­dade de pági­nas do livro.
  3. O livro ele­trô­nico deve ser no for­mato MOBI. Descobri isso depois de sofrer durante horas ten­tando for­çar a acei­ta­ção de um livro no for­mato EPUB. 
  4. Fazer capa não é fácil. Se fosse fácil, todo mundo fazia.

Software Utilizado

  • Texmaker (edi­tor de tex­tos)
  • LibreOffice Writer (pro­ces­sa­dor de tex­tos avan­çado)
  • TeXlive (sis­tema de publi­ca­ção de tex­tos avan­çado)
  • Poppler Utils (con­ver­so­res e mani­pu­la­do­res de arqui­vos PDF e PostScript)
  • Pandoc (con­ver­sor de for­ma­tos de texto)
  • GIMP (edi­tor de ima­gens)
  • Inkscape (edi­tor de ima­gens veto­ri­ais)
  • Calibre (edi­tor, con­ver­sor e lei­tor de livros ele­trô­ni­cos)

Além, é claro, do bom e velho Linux de guerra, que me acom­pa­nha desde 2000 e nunca me dei­xou na chuva para me molhar e a sua mara­vi­lhosa linha de coman­dos.

Fontes Utilizadas

É pre­ciso ter certo cui­dado na esco­lha das fon­tes a usar, por­que mui­tas das fon­tes comer­ci­ais de hoje vêm com licen­ças bas­tante limi­ta­do­ras. O preço de aqui­si­ção de um arquivo de fonte pro­fis­si­o­nal é bas­tante sal­gado (de cin­quenta dóla­res para cima) e as mul­tas a que você corre risco se for pilhado vio­lando suas licen­ças são de der­ru­bar você no chão.

Por isso, para evi­tar qual­quer tipo de risco finan­ceiro ou de ima­gem, todos os meus tra­ba­lhos foram fei­tos usando fon­tes de uti­li­za­ção irres­trita — as que vêm incluí­das por padrão no TeXLive, ou dis­po­ni­bi­li­za­das pelo Google Fonts.

Estas foram as fon­tes que usei até agora em meus tra­ba­lhos:

  • Para corpo de texto: 
    • Cochineal
    • Old Standard TT
    • CMU Serif
  • Para títu­los:
    • Antykwa Poltawskiego
    • Cochineal
    • Alegreya Sans
    • CMU Bright
  • Para capas:
    • Rubik
    • Alegreya Sans
    • Iosevka
    • Anton
    • Caveat
    • Caveat Brush
    • Permanenet Marker
  • Para infor­ma­ções em código: 
    • Iosevka
    • CMU Typewriter Text

Não estou incluindo ima­gens des­tas fon­tes para não sobre­car­re­gar inu­til­mente meu ser­vi­dor. Elas são fáceis de encon­trar na Internet, seja no Google Fonts, seja no FontSquirrel ou em outros luga­res.

Processo de Digitação

A pri­meira parte do pro­cesso foi “arran­car” os tex­tos que se encon­tra­vam pre­sos em for­ma­tos de arquivo biná­rios. Algumas de minhas obras encontravam-​se em arqui­vos do LibreOffice, outras em arqui­vos do Word (as mais anti­gas) e uma delas eu só encon­trei em for­mato PDF (esta foi o “Praia do Sossego”, que foi sub­me­tido a uma revi­são pela edi­tora e cuja ver­são final só exis­tia no arquivo de prova que ela me man­dou antes de impri­mir). Todos estes tex­tos pre­ci­sa­riam ser con­ver­ti­dos para um for­mato de texto plano para eu poder acres­cen­tar as mar­cas de for­ma­ta­ção do LaTeX.

No caso dos arqui­vos do LibreOffice isso é rela­ti­va­mente fácil, por­que o Pandoc tra­ba­lha com esse for­mato:

$ pan­doc -f odt -o ARQUIVO.tex ARQUIVO.odt

Dois segun­dos ou três depois desse comando no ter­mi­nal, a pasta con­ti­nha um novo arquivo con­tendo o texto do ori­gi­nal já com as mar­cas de for­ma­ta­ção LaTeX. Mamão com açú­car.

No caso dos arqui­vos do Word ou RTF foi um pouco mais difí­cil, por­que eu pri­meiro tive que con­ver­ter para o for­mato OpenDocument (para isso eu usei o LibreOffice). Essa etapa adi­ci­o­nal “sujou” um pouco a for­ma­ta­ção do arquivo, difi­cul­tando o pro­cesso depois.

Difícil mesmo foi o caso de Praia do Sossego, que só exis­tia em for­mato PDF. Foi pre­ciso pri­meiro arran­car o texto puro de den­tro do PDF, usando o pop­pler:

$ pdf­to­text -nopg­brk ARQUIVO.pdf ARQUIVO.txt

De posse do texto em for­mato plano, entrou em ação o Texmaker:

TeXMaker em ação

Numa fase ini­cial o obje­tivo era loca­li­zar todos os erros semân­ti­cos do arquivo e cor­ri­gir, acres­cen­tando as mar­ca­ções LaTeX onde esti­ves­sem fal­tando. O texto em LaTeX é rela­ti­va­mente sim­ples, como no bloco abaixo (eu acres­cen­tei algu­mas for­ma­ta­ções que não há no livro, só para ilus­trar):

\chapter{Dezembro}

\vfill

Trouxe-​a de \emph{passageira} naquela tarde, diri­gindo tão rápida 
e lou­ca­mente quanto pos­sí­vel. Cada \textbf{esquina} era um perigo, 
mas uma opor­tu­ni­dade. Cada lágrima que se for­mava no olho caía na 
alma, mas secava no ar, sem que ela visse. 

Os coman­dos “emph” e “textbf” que­rem dizer “ênfase” e “negrito”, res­pec­ti­va­mente.

Incluídos os coman­dos semân­ti­cos do LaTeX, a fase seguinte, ainda usando o TeXMaker, foi encon­trar a for­ma­ta­ção ideal. Nesta fase eu ainda não estava me pre­o­cu­pando com o livro ele­trô­nico.

Para sim­pli­fi­car o pro­cesso de for­ma­ta­ção e criar um fluxo de tra­ba­lho reu­ti­li­zá­vel (já que pre­tendo colo­car deze­nas de livros no Amazon ao longo desse ano, além de me lan­çar como free lan­cer para quem qui­ser fazer lay-​out de livro comigo) eu uti­li­zei as fun­ções de inclu­são de arquivo e de defi­ni­ção de macros, que são parte do LaTeX. Isso é sim­ples­mente mara­vi­lhoso.

Cada PDF é cri­ado a par­tir de um arquivo mes­tre, muito sim­ples:

%%%%%%%%%%%%%%%%%% BLOCO DE INFORMAÇÕES BÁSICAS %%%%%%%%%%%%%%% 
% Este bloco con­tém os dados do livro e car­rega con­fi­gu­ra­ções %
% glo­bais, que não há neces­si­dade de mudar. % 
\input{metadata} % Informações do livro % 
\input{configs} % Configurações imu­tá­veis %
%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%
%%%%%%%%%%%%%%%% BLOCO DE INFORMAÇÕES ESPECÍFICAS %%%%%%%%%%%%% 
% Certas opções do LaTeX são muito espe­cí­fi­cas e não pre­ci­sam %
% ser car­re­ga­das para todos os livros. Elas resi­dem aqui. % 
%\usepackage{multicol} % Se hou­ver seções com colu­nas. %
%\usepackage{lettrine} % Se for usar letras capi­tu­la­res. %
%\usepackage{paralist} % Opções extras para lis­tas. %
%\usepackage{epigraph} % Se qui­ser epí­gra­fes nos capí­tulo %
%\renewcommand{\textsc}[1]{\MakeUppercase{#1}} % Fonte sem SC % 
%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%
%%%%%%%%%%%%%%%%%% BLOCO DE MONTAGEM DO LIVRO %%%%%%%%%%%%%%%%% 
% As linhas a seguir não devem ser remo­vi­das, elas invo­cam os % 
% coman­dos que mon­tam o con­teúdo do livro. % 
\begin{document} % Começo do pro­ces­sa­mento. %
\make­ti­tle % Inserção das pági­nas de rosto. % 
\sau­da­cao % Inserção de uma folha de sau­da­ção. %
\table­of­con­tents % Inserção do índice. % 
\dedi­ca­to­ria % Inserção da dedi­ca­tó­ria, se hou­ver. %
\front­mat­ter % Inserção da parte pré-​textual, se hou­ver. %
\main­mat­ter % Inserção do con­teúdo do livro. % 
\back­mat­ter % Inserção da parte pós-​textual, se hou­ver. %
\end{document} % Fechamento do arquivo, não remo­ver. %
%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%

No arquivo acima, as linhas ini­ci­a­das com “%” são comen­tá­rios, não são pro­ces­sa­das pelo LaTeX.

Cada livro fica den­tro de uma pasta pró­pria, e den­tro de cada pasta ficam, obri­ga­to­ri­a­mente, o arquivo-​mestre LIVRO.tex e o arquivo de con­fi­gu­ra­ções glo­bais configs.tex. Além des­tes, os seguin­tes arqui­vos são neces­sá­rios para com­pi­lar o PDF:

  1. metadata.tex — infor­ma­ções do livro;
  2. saudacao.tex — arquivo de sau­da­ção;
  3. dedicatoria.tex — se hou­ver dedi­ca­tó­ria;
  4. frontmatter.tex — parte pré-​textual: pre­fá­cio, intro­du­ção, apre­sen­ta­ção, etc.;
  5. mainmatter.tex — o con­teúdo da obra;
  6. backmatter.tex — apên­di­ces, glos­sá­rio, índi­ces, bio­gra­fia, etc.

Destes, somente metadata.tex e mainmatter.tex são obri­ga­tó­rios.

Os arqui­vos metadata.tex e configs.tex são onde eu pus a minha “magia negra” e o con­teúdo deles eu não explico. Mesmo por­que, o arquivo de con­fi­gu­ra­ções tem mais de qua­tro­cen­tas linhas e você não está a fim de ler isso tudo.

Tudo o que você, de fato, pre­cisa enten­der é como esses arqui­vos se con­ca­te­nam atra­vés do pdfLa­TeX, um dos mui­tos pro­gra­mas incluí­dos no TeXLive.

  1. O arquivo mes­tre lê os meta­da­dos e as con­fi­gu­ra­ções glo­bais;
  2. Com estes arqui­vos ele aprende (ou “rea­prende”, em alguns casos) o que fazer com os coman­dos de mon­ta­gem;
  3. Depois de ler todos os arqui­vos e coman­dos, na sequên­cia, o pdfLa­TeX monta o arquivo PDF.

Processo de Polimento e Revisão

Uma vez asse­gu­rado que o texto “com­pila” sem erros, é hora de per­so­na­li­zar a for­ma­ta­ção. Isto pode ser feito atra­vés do arquivo de meta­da­dos, onde exis­tem macros para esco­lha de fon­tes, deter­mi­na­ção de tama­nhos de texto, espa­ça­men­tos entre pará­gra­fos, tama­nho de página, etc. Estas infor­ma­ções são usa­das pelo pdfLa­TeX, em con­junto com as con­fi­gu­ra­ções glo­bais (config.tex) para deter­mi­nar a apa­rên­cia do PDF gerado.

Tendo che­gado à apa­rên­cia dese­jada, é hora de polir e revi­sar, o que sig­ni­fica:

  1. Lidar com as linhas órfãs e viú­vas (o LaTeX não se pre­o­cupa com isso, cabendo ao usuá­rio resol­ver esses con­fli­tos);
  2. Lidar com as linhas muito vazias (rios) ou muito cheias, espe­ci­al­mente estas últi­mas, que enfeiam para caramba o livro;
  3. Localizar erros de ali­nha­mento e que­bras de pági­nas;
  4. Revisão orto­grá­fica e gra­ma­ti­cal.

A revi­são orto­grá­fica e gra­ma­ti­cal tem que ser feita no olho, mesmo, pois não se pode con­fiar em um veri­fi­ca­dor auto­má­tico. Mas eu uso tam­bém um veri­fi­ca­dor, para apa­rar os erros mais cla­ros — espe­ci­al­mente para loca­li­zar pon­tu­a­ção fal­tante ou fra­ses trun­ca­das. Como o TeXMaker não tem essa fun­ci­o­na­li­dade, eu recon­verto o arquivo para OpenDocument e o abro no LibreOffice, onde tenho ins­ta­la­dos um ótimo cor­re­tor gra­ma­ti­cal e um cor­re­tor orto­grá­fico em por­tu­guês bra­si­leiro.

$ pan­doc -f latex -o /tmp/ARQUIVO.odt ARQUIVO.tex

Observe que eu jogo o arquivo gerado para a pasta tem­po­rá­ria do Linux, por­que eu não vou pre­ci­sar dele por muito tempo.

Agora eu abro o LibreOffice e o TeXMaker lado a lado e vou cor­ri­gindo no segundo os erros que o pri­meiro aponta. É um tra­ba­lho bem chato, mas revi­sar é chato.

Criação do PDF para o livro físico

Quando tudo está certo no texto do livro, é hora de gerar pela última vez o PDF. Para evi­tar algum pro­blema de refe­rên­cias cru­za­das ou índice incor­reto, é bom fazer isso duas vezes segui­das:

$ pdfla­tex ARQUIVO ; pdfla­tex –interaction=batchmode ARQUIVO

É bom dar uma última olhada se ficou tudo bonito e do jeito que se quer, por­que a pro­du­ção de docu­men­tos por esse pro­cesso não é WYSIWYG (visual, what you see is what you get, “o que você vê é o que você terá”). Os gru­pos de usuá­rios de LaTeX cos­tu­mam dizer que ele é um sis­tema WYSIWYM: what you see is what you mean, “o que você vê é o que você manda” (ou “quer”).

Criação da Capa para o livro físico

Com o livro físico já pronto (a parte de den­tro), é pre­ciso criar uma capa legal para ele. Para isso eu uso o dois softwa­res, o GIMP e o Inkscape. Dos dois, o Inkscape é o mais útil, mas o GIMP pos­sui algu­mas fun­ções que podem ser úteis na mani­pu­la­ção de ima­gens, afi­nal ele só serve para isso, enquanto o Inkscape é mais vol­tado para lay-​out.

Lá na pró­pria página da Amazon você pode bai­xar tem­pla­tes para a cri­a­ção de capas, como esse abaixo (em reso­lu­ção redu­zida, só para fins ilus­tra­ti­vos):

Template para capa de livro com 210 a 220 páginas

O Inkscape importa o arquivo PDF e o con­verte para SVG (seu for­mato nativo). A par­tir daqui é só inse­rir no arquivo as ima­gens e cai­xas de texto que você qui­ser, não esque­cendo de remo­ver, no momento certo, os tex­tos de ajuda dei­xa­dos pela Amazon, e tam­bém as guias de for­ma­ta­ção.

Quando tudo esti­ver do seu agrado, o Inkscape per­mite expor­tar o arquivo como PDF 1.5, então já é hora de ir tes­tar a obra no KDP.

Obtenção de imagens

Meus livros não têm ilus­tra­ções inte­ri­o­res. Para as capas eu tenho pro­cu­rado uti­li­zar somente ima­gens anti­gas de uso livre (“domí­nio público”), foto­gra­fias que eu mesmo tirei, ima­gens que eu mesmo criei usando o GIMP e, em último caso, ima­gens obti­das do Wikimedia Commons e do Creative Commons. Afinal, não há nada mais chato do que des­co­brir um tra­ba­lho seu apro­pri­ado por uma outra pes­soa, como eu mesmo já expe­ri­men­tei uma vez.

Caso você deseje se tor­nar meu par­ceiro (a gente divide os royal­ties do livro, e nada mais), pode­mos pen­sar em futu­ras ilus­tra­ções ori­gi­nais para outros livros, como, por exem­plo, a minha antiga ideia de tran­for­mar em HQ A Maravilhosa História do Senhor Sombra e da Senhorita Raio de Luar. Porém, sem uma auto­ri­za­ção expressa eu não uso con­teúdo de nin­guém, e não gosto que nin­guém use o meu.

Upload do livro físico

Na sua bookshelf você tem os links para inclu­são do novo livro físico (paper­back). Siga as ins­tru­ções, envie o miolo e a capa e aguarde o pro­ces­sa­mento (demora entre dois e cinco minu­tos).

Nesse momento você vai repa­rar que existe a opção de criar a capa usando o pro­grama da pró­pria Amazon, mas eu pre­firo fazer eu mesmo, por­que as opções ali são bem limi­ta­das.

Um pro­blema que você vai enfren­tar no começo são as rejei­ções de seu lay-​out de capa. Isso acon­tece por­que você demora a pegar as “manhas” da Amazon. Eles são bem exi­gen­tes quanto à qua­li­dade grá­fica dos tra­ba­lhos (afi­nal, a repu­ta­ção deles está rela­ci­o­nada à qua­li­dade do que ven­dem) e cos­tu­mam recu­sar sua capa se ela tiver alguns defei­tos. Eu gos­ta­ria de cha­mar a sua aten­ção para cinco erros bobos (todos come­ti­dos por mim em algum momento) que vão te dar dor de cabeça:

  1. Imagens de baixa reso­lu­ção podem resul­tar em capas bor­ra­das. No meu caso isso não é um pro­blema, pois as ima­gens de baixa reso­lu­ção que eu usei eram mesmo para ser bor­ra­das, mas você não deve des­car­tar esse alerta se não sabe o que está fazendo.
  2. Imagem sobre­posta a texto. Isso cos­tuma acon­te­cer quando você tra­ba­lha com várias cama­das e um “can­ti­nho” de uma camada se sobre­põe a uma caixa de texto.
  3. Texto ile­gí­vel por causa de áreas de ima­gem. Esse é um defeito muito comum em capas fei­tas “nas coxas” (eu já vi isso até em tra­ba­lhos de edi­to­ras). Acontece quando você coloca um texto sobre uma área cuja cor inter­fere com a das letras. Imagens de fundo com muito con­traste de cor cos­tu­mam cau­sar isso, por­que há cer­tas áreas muito escu­ras e outras muito cla­ras, então par­tes do texto se con­fun­dem com o fundo.
  4. Texto fora da área útil da página. É pos­sí­vel colo­car uma ima­gem na borda da página e dei­xar um pedaço “san­grar” para fora. Mas isso não pode acon­te­cer com nenhum tipo de texto. Eu tive que refa­zer a capa de “Amores Mortos” por­que aquele texto que forma o plano de fundo da parte fron­tal da capa estava “san­grando”.
  5. Camadas super­pos­tas. Esse foi outro caso em que a capa de “Amores Mortos” me deu dor de cabeça. A con­tra­capa tem dois arte­fa­tos (minha foto e minha bio­gra­fia) que se sobre­põe como se tives­sem sido cola­das super­pos­tas em uma folha de caderno (inclu­sive uma parte do texto da bio­gra­fia ficava oculto). Tive de refa­zer essa parte do lay-​out, ou a Amazon não publi­ca­ria o meu livro.

Criação da capa do livro eletrônico

Este passo é bem sim­ples. É o momento em que eu uso o GIMP obri­ga­to­ri­a­mente (se não o tinha usado na mani­pu­la­ção da ima­gem da capa antes). Consiste em impor­tar o PDF da capa mon­tada e sele­ci­o­nar a parte direita dele (que cor­res­ponde a capa da frente do livro físico) e copiar. Esta área copi­ada deve ser colada como novo arquivo (“Editar > Colar como > Novo Arquivo”) e em seguida deve­mos redi­men­si­o­nar o arquivo para perto do tama­nho mínimo aceito pela KDP. Eu mando redi­men­si­o­nar “pro­por­ci­o­nal­mente” e esco­lho a altura de 1024 pixels em 96 dpi. Até agora o KDP não recla­mou.

Nos pri­mei­ros livros eu usei o for­mato TIFF, mas logo des­co­bri que os arqui­vos ficam imen­sos e isso, cer­ta­mente, vai fazer os meus lei­to­res chi­a­rem. Então agora estou usando JPEG, enquanto a KDP não come­çar a acei­tar PNG.

Criação do livro eletrônico

Com o livro físico já pronto e aguar­dando a publi­ca­ção pelo KDP, é hora de pas­sar ao livro ele­trô­nico. Para isso vamos recor­rer nova­mente ao Pandoc:

$ pan­doc -f latex -o ARQUIVO.epub ARQUIVO.tex

Este passo demora no máximo cinco segun­dos, se o arquivo for bem grande. Você vai ver a cri­a­ção de mais um arquivo em sua pasta de tra­ba­lho. Mas esse arquivo é pra­ti­ca­mente inú­til. O Amazon não o aceita de jeito nenhum, e não tem choro e nem reza braba que mude isso. Mas tem um pro­grama mara­vi­lhoso: o Calibre.

Abrimos o arquivo EPUB no Calibre ebook-​edit e vamos con­ser­tando os peque­nos pro­ble­mas. Para come­çar, eu subs­ti­tuo a folha de esti­los gerada pelo Pandoc por uma per­so­na­li­zada. Em seguida, reor­deno as pági­nas, para que o arquivo tenha uma sequên­cia lógica:

  1. Capa (com ima­gem)
  2. Folha de rosto (dados da edi­ção)
  3. Folha de sau­da­ção (dados de copy­right e info de con­tato)
  4. Sumário
  5. Parte pré-​textual (se hou­ver)
  6. Capítulos do con­teúdo
  7. Parte pós-​textual (se hou­ver)

O EPUB gerado pelo Pandoc é bas­tante “limpo” em rela­ção ao con­teúdo, mas é bas­tante con­fuso e “sujo” em rela­ção à for­ma­ta­ção e à estru­tura. Mas o Calibre tem um comando de “veri­fi­ca­ção” que lhe per­mite ver todos os erros e corrigi-​los. Um erro par­ti­cu­lar­mente desa­gra­dá­vel do Pandoc é per­mi­tir carac­te­res acen­tu­a­dos nas “id” de seções. Como as URL den­tro de um EPUB não acei­tam carac­te­res além do 128º bit, isso quer dizer que todos esses links ficam que­bra­dos.

Por fim eu insiro a ima­gem no arquivo da capa e defino esse arquivo como capa. Feito isto, valido pela última vez e fecho o arquivo.

Agora vem o pulo do gato.

Arquivos EPUB são rela­ti­va­mente gran­des e cos­tuma haver pro­ble­mas de con­ver­são. Então eu des­co­bri que a con­ver­são para MOBI resolve isso bem, por­que esse for­mato é mais redu­zido (em geral 45% ou menos do tama­nho do EPUB em kby­tes) e por­que, apa­ren­te­mente, o for­mato interno do Kindle, o AZW3, é mais pró­ximo do MOBI do que do EPUB. A con­ver­são é feita por um uti­li­tá­rio de linha de comando que vem com o Calibre:

$ ~/​calibre-​bin/​calibre/​ebook-​convert ARQUIVO.epub ARQUIVO.mobi

Embora seja o arquivo MOBI que nós vamos enviar ao Amazon, eu não apago o arquivo EPUB, por­que na even­tu­a­li­dade de revi­sões e ree­di­ções eu não pre­ciso pas­sar de novo por todo o pro­cesso de con­ver­são.

Tempo Requerido

A maior parte do tempo dis­pen­dido se refere ao tra­ba­lho cri­a­tivo. As tare­fas mecâ­ni­cas, como con­ver­sões e revi­sões, são todas rela­ti­va­mente rápi­das — pelo menos para mim, que já aprendi todo o pro­cesso.

  1. Conversão do arquivo ODT para LaTeX: segun­dos;
  2. Conversão do arquivo PDF para TXT: segun­dos;
  3. Inclusão ou revi­são das mar­cas de for­ma­ta­ção LaTeX: inde­fi­nido, depende do tama­nho do arquivo, de quão “sujo” ele saiu e de quão com­pli­cada será a for­ma­ta­ção;
  4. Inclusão dos meta­da­dos no arquivo: alguns minu­tos;
  5. Um passo de com­pi­la­ção do pdfLa­TeX: entre cinco e dez segun­dos;
  6. Reconversão de LaTeX para ODT usando o Pandoc: segun­dos;
  7. Revisão orto­grá­fica e gra­ma­ti­cal: inde­fi­nido, horas ou dias;
  8. Compilação do PDF: segun­dos;
  9. Criação da capa no Inkscape: inde­fi­nido, entre alguns minu­tos e um dia inteiro;
  10. Upload dos arqui­vos no KDP: minu­tos;
  11. Validação dos arqui­vos pelo KDP: entre 5 e 30 minu­tos;
  12. Prova tipo­grá­fica vir­tual: entre 5 e 30 minu­tos;
  13. Publicação pelo KDP: entre 40 minu­tos e 72 horas;
  14. Conversão de LaTeX para EPUB usando o Pandoc: segun­dos;
  15. Edição do EPUB usando o Calibre: trinta minu­tos a uma hora;
  16. Criação da capa do livro ele­trô­nico: um minuto ou menos;
  17. Upload do livro ele­trô­nico no KDP: entre 30 segun­dos e 5 minu­tos;
  18. Validação de arqui­vos pelo KDP: simul­ta­ne­a­mente ao upload;
  19. Prova tipo­grá­fica vir­tual: entre 5 e 30 minu­tos;
  20. Publicação pelo KDP: entre 40 minu­tos e 72 horas.

Conclusões

Como você poder ver, tra­ba­lhando simul­ta­ne­mante na revi­são e na con­ver­são de mais de um livro, em um esquema “mul­ti­ta­refa”, é pos­sí­vel lan­çar vários livros num espaço de tempo real­mente curto. Como eu fiz.

A reu­ti­li­za­ção do código per­mite que o retra­ba­lho seja man­tido em níveis míni­mos. Cada um dos sete livros que eu fiz para este mês demo­rou menos que o ante­rior, à medida que eu sim­pli­fi­cava o pro­cesso e incor­po­rava ao configs.tex as solu­ções que eu havia encon­trado para os pro­ble­mas do livro ante­rior. O pri­meiro livro me cus­tou uma semana, o último eu demo­rei uma noite (seis horas) e mais uma manhã (qua­tro horas).

Fica assim evi­dente que é per­fei­ta­mente viá­vel uti­li­zar exclu­si­va­mente soft­ware livre para criar livros de qua­li­dade acei­tá­vel para ven­der na KDP. E se você, por algum motivo, acre­di­tar que há alguma coisa que pode ser melho­rada na for­ma­ta­ção de meus livros, é só me dizer o que é e eu imple­mento em futu­ras edi­ções. Muita coisa eu não fiz por­que eu não tenho bom gosto, não por­que fosse impos­sí­vel fazer.

One thought on “Criando Livros Eletrônicos e Físicos para o Kindle, com Software Livre

  1. É bom que você não apa­gue o Epub. Eu tenho um lei­tor da Kobo e ele aceita arqui­vos dá livra­ria Cultura e Epub. Acho q todos os lei­to­res digi­tais acei­tam Epub mas o .Mobi é o for­mato dá Amazon.

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