Livros Para Morrer Antes de Ler?

Este livro é daqueles que quando você larga não consegue mais pegar.
— Millôr Fernandes

A Revista Bula publicou uma lista de vinte obras que o autor considera tão ruins que é melhor morrer antes de ler. Trata-se de uma inversão do comum, que seria uma lista de coisas a se fazer antes de morrer.

Embora eu discorde de alguns elementos da lista e não conheça alguns outros, tenho a minha própria lista de obras que já tentei ler e decidi que a vida é muito curta para eu passar algum tempo lendo-as.

Segue a minha lista:

Guerra dos Tronos (a série), de George R. R. Martin.
Quanto mais informações tenho sobre os desenvolvimentos da história, menos vontade eu tenho de retomar a leitura (que eu parei por volta do segundo capítulo, há muito tempo). Esta é uma série que me parece a epítome da decadência da literatura moderna: um novelão mexicano com violência, incesto e algumas mudanças inesperadas de rumo. Tudo é muito maior, mais estendido, mais detalhado e mais prolixo do que precisaria ser. Eu não diria que a história poderia ser contada em menos livros, mas ela certamente poderia ser contada em menos páginas, e tenho minhas dúvidas se ela precisaria ser contada.
Finnegans Wake, de James Joyce.
Quanto mais insistem comigo que James Joyce era um gênio (apesar de gostar de cheirar a flatulência da mulher) e que esta obra é a sua mais importante, mais me convenço de que eu sou um bronco e que nada entendo de literatura.
Brejal dos Guajas e outras Histórias, de José Sarney.
O falecido Millôr Fernandes praticou contra este livro a mais cruel crítica que se possa imaginar, cunhando a seu respeito uma frase imortal: “essa é uma leitura que quando você larga não consegue mais pegar”. Surpreendentemente, Millôr foi comedido e eu só não digo que cada pontapé metafórico desferido por Millôr era merecido porque acho que o livro mereceria mais. A vida é curta demais para se ler “Brejal dos Guajas”, ainda que ele tenha apenas cinquenta páginas.
Eles Eram Muitos Cavalos, de Luiz Ruffato.
Outro autor incensado pela crítica, mas o incenso caiu nos meus olhos, fazendo-me lacrimejar e impedindo-me de ler. A linguagem é seca e interessante, mas vai se tornando desconfortável a cada parágrafo e então você percebe que não consegue acompanhar a história, que parece não haver uma história, ou que ela é narrada aos arrancos, aos arrotos e aos recortes. Deve ser muito genial, mas eu gosto mesmo é de porcaria.
Veronika Decide Morrer, de Paulo Coelho.
Em meio à leitura você provavelmente decidirá morrer. Se for obrigado a ler até o fim, você provavelmente decidirá matar Paulo Coelho. O mais triste de “Veronika Decide Morrer” é que não parece ser pior do que o conjunto da obra do autor.
Dragões de Éter, de Raphael Draccon.
Raso, mal escrito, vazado em uma linguagem de redação escolar que não tirou média para passar, contando uma história que mistura referências demais e que frequentemente pisa sobre a tênue linha entre a referência e o plágio. Dragões de Éter é um daqueles livros que não te faz perguntar por que alguém leria, mas por que alguém publicaria. Daí você se dá conta de que o autor é um editor e que provavelmente você será um dia avaliado por ele! Daí bate aquele desânimo de que o caolho é rei na terra dos cegos.
As Crônicas de Fedors, de Aldemir Alves.
Falando francamente, eu tenho para mim que um livro com título e subtítulo tem a marca da besta e será preciso muita coisa para apagar essa má impressão. Esta obra de Aldemir Alves não consegue muito nessa direção. Os personagens têm nomes ridículos — como Fedors, Destrus, Panderius, Destructor, Nazebur, etc. — e o estilo narrativo é um tanto xarope, mesclando romance espírita com “O Senhor dos Aneis”. Aqui não há a menor intenção de beleza, apenas a narrativa seca e rasa, de alguém que provavelmente já escreveu mais páginas do que leu.
A Torre Negra (série), de Stephen King.
Esse é um autor que claramente se perdeu em algum ponto de sua carreira. Começou promissor, chegou ao ápice nos anos oitenta, criou algumas obras fodásticas (“O Iluminado”, “Zona Morta”, “O Nevoeiro”, “A Dança da Morte”, “Janela Secreta, Secreto Jardim”), mas depois começou a produzir obras cada vez menos relevantes. Daí resolveu retomar a série “Torre Negra”, que iniciara no começo da carreira, e daí surgiu uma série de livros cada vez mais grossos e cada vez mais confusos (tanto que edições mais recentes dos primeiros volumes contêm mudanças do texto para resolver contradições introduzidas pelas novas partes). Para piorar, surgiu o boato de que ele empregaria extensivamente ghost-writers, o que certamente não é ilegal, mas, se for verdade, é uma mancha inapagável de sua reputação como autor. “A Torre Negra” representa a situação de perda da alma em que King está.
Cinquenta Tons de Cinza, de E. L. James.
Se uma boa sacanagem é o que você quer, tem muito autor melhor aí à disposição, de Anaïs Nin a Adelaide Carrro, de Jean Genet a Nélson Rodrigues. O que este livro faz, de fato, é narrar uma história sem sal e sem açúcar a respeito de uma protagonista besta, um protagonista narcisista que “se acha” e esconde o mito da Ciderella debaixo de uma fina camada de putaria.
A Rebelião de Atlas, de Ayn Rand.
Toda a obra da autora merece a lata de lixo, sem dó. Mas este livro é especial por causa de sua premissa risível, tão risível que a gente fica constrangido de rir (vai que é doença), mesmo sabendo que é a boa e velha máquina de propaganda. A premissa do livro é simples (ou não): os empresários se irritam por terem de pagar tanto imposto e resolvem desaparecer do mundo (deixando para trás aquilo que os torna “empresários”, as suas empresas) atrás de um tal John Galt, que os leva para um esconderijo (Galt’s Gulch) de onde eles esperam que o mundo se foda legal para eles poderem voltar e oferecerem a salvação. A ideia do livro é tentar inverter a lógica do socialismo, de que os trabalhadores são os criadores de toda riqueza, mas o resultado mais comprova do que derruba essa tese, porque o leitor fica se perguntando, como Brecht, quem cozinha para os empresários enquanto estão escondidos com Galt, por exemplo. A tese centra do livro é um primor: se você é um empresário então você é especial, um gênio, e o mundo deveria te servir em vez de te fazer pagar imposto. Mas para isto a autora precisa de mil e tantas páginas.

E então? Tem algum para acrescentar à lista?

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