O Dia em Que Anna Maria Machado Virou Ozzy Osbourne

Somos ainda um país em luta contra uma limitação incapacitante de nossa cultura: nosso difícil relacionamento com o conhecimento de uma maneira geral e com a palavra escrita de forma particular. Este autor já se aventurou, em vários momentos, a comentar manifestações dessa relação conflituosa do brasileiro médio com os elementos característicos da cultura formal. Não espero que você leia todas as iterações anteriores do debate, mas as hiperligações para as postagens transversais ao assunto estão ao final. Esta postagem é sobre mais uma polêmica […]

A Hipocrisia do Relativismo Crítico

Gosto de ver quando tantos jovens ofendidos desancam aqueles que criticam os estudos de literatura. Em geral jovens universitários que cursam essas maerias e que sentem a água bater na bunda quando a validade de seus diplomas é posta em questão. Mas eu gostaria mais se esses mesmos revoltados reconhecessem uma obviedade: essas ideias de negação do valor da crítica não nasceram no ar, elas descendem de outras ideias que existem há muito tempo e que são normalmente aceitas como inofensivas. Refiro-me ao relativismo. Quando […]

Podemos Ainda Perguntar Algum Porquê?

Toda criança já teve a fase filosófica em que perguntava o “porquê” de cada coisa. Há um determinado momento da vida em que desejamos ativamente participar do entendimento do mundo, penetrar o universo das respostas, aparentemente habitado pelos adultos. Perguntamos os porquês de cada coisa que nos entristence, fascina, amedronta ou seduz. Não é uma reação de rebeldia, é apenas curiosidade. Toda criança que já teve essa fase já passou, também, pela decepção de descobrir que os adultos apenas “parecem” ter todas as respostas. Incapazes […]

Certos Livros Podem Ser Escritos, Mas Não Precisavam Ser

Há uma antiga lição do mestre Sun Tzu que nos explica bem o dilema de entrar em disputas desnecessárias. Esta semana tive a oportunidade de perceber quão certo é o conselho milenar do general chinês: Não basta fazer algo pelo simples bem de algo: certifique-se de que isso o ajude. Se é para a sua vantagem, faça um movimento para frente; se não, fique onde está. Há lutas que não devem ser travadas por ninguém e outras que alguém deve travar, mas não devo ser […]

O Lugar da Mitologia de William Hope Hodgson no *Mythos* Lovecraftiano

O autor inglês, cuja obra maior, A Terra da Noite, será editada ainda esse ano no Brasil, pela Editora Clock Tower, em tradução minha, foi, de diversas maneiras, um pioneiro da ficção científica. Muito já se escreveu sobre a originalidade de suas ideias, mencionando seu papel no desenvolvimento do gênero “terra moribunda” e na introdução de elementos como campos de força, armas brancas dotadas de energia mística, arcologias (grandes construções contendo ecossistemas fechados) e outros. Mas a obra de Hodgson inclui um aspecto menos lembrado, […]

Lovecraft e as Escuridões da Intelectualidade

Certos autores, quando criticados, seja com justiça ou não, costumam provocar debates intensos e ácidos, em que, invariavelmente, preferências e ideologias prevalecem sobre uma apreciação correta de seu mérito literário. Lovecraft é um desses autores. Ídolo de muitos fãs de ficção científica, horror e fantasia; o americano tem uma herança pesada. Racista a ponto de ser eugenista, criou todo um universo de fantasia baseada naquilo que se poderia chamar de “medos do macho branco”: um universo hostil no qual a “pureza” e a “sanidade” de […]

Não Matemos os Livros por Causa de Nossos Pecados

Eu entendo muito bem quem se ressente da existência de “sexismo”, “racismo”, ou puro mau-caratismo em obras literárias (ou quaisquer outras), mas acredito que essas pessoas padecem de um imenso equívoco quando começam a focar nessas imperfeições das obras literárias do passado. Não chego a dizer que é “mimimi” (mesmo me coçando a língua para dizer), mas que são três os problemas desse entendimento: Anacronismo — frequentemente queremos cobrar de autores do passado um conhecimento que eles não poderiam ter. Non Sequitur — a incapacidade […]

O Que Fazer com a Arte de Pessoas Execráveis?

Com o recente terremoto de acusações de assédio sexual contra personalidades do mundo do cinema voltou à baila um antigo debate, nunca inteiramente superado, sobre a maneira como a sociedade deve lidar com a obra de pessoas que se mostraram detestáveis. Esse debate talvez tenha sido feito pela primeira vez de maneira ampla após a Segunda Guerra Mundial, quando várias personalidades do mundo da arte e da filosofia haviam simpatizado com o nazismo: Martin Heidegger, Knut Hamsun e Louis-Ferdinand Céline foram autores que enfrentaram graves […]

Valorizar a Literatura Nacional

“Precisa valorizar a literatura nacional” — diz o autor que assina com um pseudônimo gringo, cujos personagens têm nomes em inglês e cujas histórias são ambientadas numa gringolândia clichê. Amigo, quem quiser valorizar a literatura nacional deve passar longe da sua obra. Veja bem. Não quero dizer que seu livro seja de todo ruim, sequer em parte, ou mesmo que eu não o leria. É apenas uma questão de identidade. “Literatura nacional” pode ser boa ou ruim. Seu livro pode ser bom ou ruim independentemente […]

Exotismo e Escapismo

A predominância de elementos exóticos entre os gêneros de ficção mais populares no Brasil me dá a impressão de que a maior parte do público leitor brasileiro tem pouca noção de si mesmo e busca na literatura um escapismo. Não é só porque os best-sellers são vendidos de forma massificada. Poderíamos estar comprando best-sellers realistas. Se focamos em certos temas em vez de outros, isso deve ter um significado. A busca do exótico atinge tanto a literatura estrangeira traduzida quanto a literatura nacional escrita sob […]

A Literatura Moderna não é nada além de uma Salada de Palavras Anti-Intelectual

Tradução do artigo de Kitten Holiday para o Writing Cooperative, com autorização. Esta semana dois autores de meu círculo estavam preocupados com a mesma questão: Por que a literatura moderna é tão ruim? Pelo que eu sei, esses dois autores não se conhecem. Eles estão em círculos políticos parecidos (direitistas, conservadores) mas em diferentes círculos criativos, o que fez a coincidência de seu interesse comum ainda mais fascinante. Uma questão semelhante tem também estado em minha mente: “Por que parece que não tem surgido nada […]

Leitores Não São Iguais, Leituras Também Não

O grande furdunço esta semana foram uns tweets antigos de meu amigo Pedro Nunes, nos quais ele, algo controversamente, defendeu a ideia de que certas pessoas dizem “amar a leitura” mas, de fato, permanecem a vida toda lendo o mesmo tipo de livro que liam quando adolescentes. Esse tipo de comentário não se caracteriza por sua capacidade de fazer amigos e atrair a simpatia espontânea de desconhecidos. Ninguém gosta quando um estranho vem e chuta suas muletas, querendo dizer “levanta-te e anda”. Do hábito de […]