Um Milhão de Motivos para Matar um Gatinho (ou um Mandarim)

Perguntaram-​me se eu mata­ria um gati­nho por um milhão de dóla­res. Bem, eu mata­ria (intran­si­ti­va­mente) por um milhão de dóla­res, desde, é claro, que o pudesse fazer de maneira limpa. Não me cri­ti­que, você tam­bém faria o mesmo. Todos pen­sa­mos uti­li­ta­ri­a­mente, e con­si­de­ra­mos mais as con­sequên­cias do que os meios. O que nos impede, em geral, são con­si­de­ra­ções de ordem esté­tica: matar é um ato bru­tal, ani­ma­lesco, e que geral­mente resulta em con­sequên­cias com­pro­me­te­do­ras para o resto da vida. Os seres huma­nos nor­mais não matam […]

Adventavit Asinus

Quando uma pes­soa diplo­mada aprende pseu­do­ci­ên­cias (ou mesmo, ciên­cias sóli­das, mas com uma base filo­só­fica fra­cas­sada e vul­ne­rá­vel), o efeito é tão ou mais per­ni­ci­oso que uma pes­soa comum reco­nhe­cer astro­lo­gia como ciên­cia, de fato. — Glauber Frota Gostaria, amigo, de expan­dir um pouco esse seu raci­o­cí­nio, mas não antes de cumprimentá-​lo por esse diag­nós­tico. Nunca em sua vida, desde que ainda era um esper­ma­to­zóide nadando em dire­ção ao óvulo de sua mãe, você esteve tão certo sobre alguma coisa. Primeiramente eu gos­ta­ria de trans­for­mar o seu […]

O Que Se Rouba e o Que Se Quebra

Recebi uma curi­osa men­sa­gem de um amigo: “até agora nenhuma livra­ria foi saque­ada no Espírito Santo.” O estado vive um caos de segu­rança pública, a polí­cia deser­tou das ruas, a soci­e­dade regre­diu ao estado de natu­reza teo­ri­zado por Hobbes e todos aque­les ditos em latim se mate­ri­a­li­za­ram: bel­lum omnia omnes e homo homini lupus. Nessa situ­a­ção de total des­con­trole vemos pes­soas apro­vei­tando para resol­ver as con­tas com seus desa­fe­tos e gente rou­bando três tipos prin­ci­pais de bens: ele­trô­ni­cos e ele­tro­do­més­ti­cos, rou­pas e cal­ça­dos, e joias […]

Como Seria a Vida sob o Comunismo?

O artigo a seguir é um exer­cí­cio de ima­gi­na­ção, base­ado nas obras de Karl Mark e Lênin. Não se trata de uma des­cri­ção da vida na União Soviética por­que esta jamais atin­giu o está­gio do “comu­nismo ideal”, embora tenha sido o estado que dele mais se apro­xi­mou. Algumas das coi­sas cita­das aqui exis­ti­ram na União Soviética, outras nunca saí­ram da teo­ria revo­lu­ci­o­ná­ria. A dife­rença entre uma e outra eu deixo como um exer­cí­cio para o lei­tor inte­res­sado. Esta foi ori­gi­nal­mente uma res­posta que dei a […]

As Coisas e os Nomes das Coisas Não Coisam Bem

Em por­tu­guês as coi­sas têm nomes dife­ren­tes con­forme o con­texto. Nem toda coisa é a mesma coisa na mão de qual­quer um, ou em qual­quer lugar. Este é um guia rápido para estran­gei­ros ainda não acos­tu­ma­dos aos nos­sos modos. Mulher rica, quando se veste bem, fica ele­gante. A pobre, quando con­se­gue, vira perua. Mau gosto de rico é kitsch, bom gosto de pobre é brega. A mulher do pobre o trai, a do rico adul­tera. O marido pode ser corno ou um traído, e a […]

Elegia pelo Brasil que Seria

Consumado o ato final das mano­bras ritu­a­lís­ti­cas que resul­ta­ram no fim ine­xo­rá­vel de um governo nati­morto pelas cir­cuns­tân­cias atro­zes da nossa polí­tica, resta-​nos ava­liar a exten­são do des­monte. A impres­são ini­cial des­tes pri­mei­ros dias é a frus­tra­ção de uma der­rota irre­pa­rá­vel, como se o país tivesse deci­dido abortar-​se. Os sinais envi­a­dos pelo novo governo suge­rem entre­guismo, retro­cesso, auto­ri­ta­rismo e obs­cu­ran­tismo, e tudo em modo ber­serk. A reor­ga­ni­za­ção minis­te­rial sina­liza para uma radi­cal inver­são de pri­o­ri­da­des, e a nova estru­tura sugere uma mudança polí­tica que nin­guém […]

Como Dormir num Domingo e Acordar na História

Quebrando ou não o decoro do Parlamento, o cuspe do Jean lavou nossa alma pois recons­truiu o decoro de toda uma classe. Ele “mitou”, como se diz. Acredito que seus elei­to­res esta­rão a pen­sar: valeu a pena votar nesse veado cabra-​macho só para ver ele cus­pir naquele monte de bosta. Não é todo elei­tor que pode se orgu­lhar de não ter des­per­di­çado um voto. Essa cus­pa­rada trouxe mais res­peito à comu­ni­dade homos­se­xual do Brasil do que qua­renta mil tex­tões de inter­net. Jean Wyllys entrou para a […]

Elogio para Manu

Quando o mundo parece exces­si­va­mente careta, exces­si­va­mente nos tri­lhos, quando o triunfo ine­vi­tá­vel da mono­cul­tura ide­o­ló­gica parece impos­sí­vel de con­tor­nar; somente a juven­tude pode nos sal­var. Os par­ti­dos e as ide­o­lo­gias per­dem força quando enve­lhe­cem, per­dem a cri­a­ti­vi­dade atre­vida que somente os jovens, os que nunca erra­ram para apren­der o medo, con­se­guem ter. Nesse país onde todos os meios de imprensa estão aco­me­ti­dos por um mis­te­ri­oso vírus que faz sumir o nome de per­so­na­li­da­des e siglas de par­ti­dos de opo­si­ção quando a man­chete é sobre cor­rup­ção […]

Artistas Devem Ser Progressistas?

Caetano Veloso, que já foi melhor sin­to­ni­zado com tal “espí­rito do tempo”, inda­gou dia des­ses se é pre­ciso que o artista seja pro­gres­sista. A per­gunta, claro, sur­giu por causa da cam­pa­nha feita por alguns artis­tas — entre eles Roger Waters — para que ele e Gilberto Gil não par­ti­ci­pas­sem de um fes­ti­val de música em Israel. Embora eu acre­dite que o artista tenha o direito de tocar em Israel se qui­ser, a maneira como Caetano rea­giu à cobrança que lhe fize­ram foi extre­ma­mente danosa à sua bio­gra­fia: Alguns cole­gas […]

A Escola Brasileira Educa Para a Violência

Neste dia em que o país parece assom­brado por fan­tas­mas de um pas­sado que deve­ria ter sido morto e enter­rado há trinta anos, em um outro quinze de março, dedi­quei algu­mas horas a refle­tir sobre o futuro, já que o pre­sente me parece irre­me­di­a­vel­mente per­dido, ainda que os fan­tas­mas sejam der­ro­ta­dos (e eles deve­rão ser). Esta semana que pas­sou ficou mar­cada em mim mais pelo rela­tó­rio final da CPI esta­dual sobre o trote uni­ver­si­tá­rio, con­du­zida pela Assembleia Legislativa de São Paulo, do que por qual­quer […]

Colonização Cultural — Um Debate

Anteontem come­çou uma longa dis­cus­são no Facebook sobre uma tal “colo­ni­za­ção cul­tu­ral”. O ponto de par­tida foi um “meme” do Dr. House (um ícone cul­tu­ral do colo­ni­za­dor, vejam só) com a frase seguinte: É de se ima­gi­nar o furor que a frase pro­vo­cou, pois ela ataca a jugu­lar dos jovens escri­to­res bra­si­lei­ros, sem lhes dei­xar chance de defesa. Nada afaga mais o ego juve­nil do que a doce ilu­são de ser espe­cial, e nada o ataca com mais força do que a lem­brança de que […]

Recurso Apresentado a um Concurso Público

Provando que eu já era meio ardo­roso na defesa de minhas opi­niões em 1999, vai uma cor­res­pon­dên­cia por mim envi­ada à Prefeitura de um muni­cí­pio do inte­rior mineiro — com cópia para conhe­cido jor­nal de ampla cir­cu­la­ção na região — após ter conhe­ci­mento do gaba­rito final de um con­curso para pro­vi­mento de vagas no magis­té­rio muni­ci­pal, no meu caso para leci­o­nar História. O con­curso aca­bou anu­lado e eu, que havia sido repro­vado por uma ques­tão, tive a chance de fazer a prova de novo, mas da segunda vez o […]