O Dia em Que Anna Maria Machado Virou Ozzy Osbourne

Somos ainda um país em luta contra uma limitação incapacitante de nossa cultura: nosso difícil relacionamento com o conhecimento de uma maneira geral e com a palavra escrita de forma particular. Este autor já se aventurou, em vários momentos, a comentar manifestações dessa relação conflituosa do brasileiro médio com os elementos característicos da cultura formal. Não espero que você leia todas as iterações anteriores do debate, mas as hiperligações para as postagens transversais ao assunto estão ao final. Esta postagem é sobre mais uma polêmica […]

A Arte Que A Gente Não Entende

Você já parou para pensar que algumas pinturas parecem um monte de rabiscos ou manchas de tinta que até uma criança seria capaz de fazer, mas são, ainda assim, valorizadas em milhares ou milhões? Ao mesmo tempo, você já se deu conta de que há artistas que produzem obras de uma incrível beleza, mas estão nas esquinas das grandes cidades, vendendo-as por trocados em vez de terem o devido reconhecimento? Se você alguma vez já pensou assim, saiba que não está sozinho. Muita gente também […]

O Escolhido

O Depoimento Deixa eu explicar, senhor delegado, não fiz por maldade não. Eu nem conhecia o garoto pessoalmente, sou novo na cidade, no prédio. Mãe dele eu nunca nem tinha visto passar na escada, porque eu, ela, todo mundo trabalha oito horas por dia, fora condução e almoço na cantina do serviço. Nada pessoal, foi por causa do sono. Acredite, sono. A falta de sono é capaz de levar um sujeito a fazer coisas que nem ele depois acredita, de repente eu que estava possuído, […]

Certos Livros Podem Ser Escritos, Mas Não Precisavam Ser

Há uma antiga lição do mestre Sun Tzu que nos explica bem o dilema de entrar em disputas desnecessárias. Esta semana tive a oportunidade de perceber quão certo é o conselho milenar do general chinês: Não basta fazer algo pelo simples bem de algo: certifique-se de que isso o ajude. Se é para a sua vantagem, faça um movimento para frente; se não, fique onde está. Há lutas que não devem ser travadas por ninguém e outras que alguém deve travar, mas não devo ser […]

Lovecraft e as Escuridões da Intelectualidade

Certos autores, quando criticados, seja com justiça ou não, costumam provocar debates intensos e ácidos, em que, invariavelmente, preferências e ideologias prevalecem sobre uma apreciação correta de seu mérito literário. Lovecraft é um desses autores. Ídolo de muitos fãs de ficção científica, horror e fantasia; o americano tem uma herança pesada. Racista a ponto de ser eugenista, criou todo um universo de fantasia baseada naquilo que se poderia chamar de “medos do macho branco”: um universo hostil no qual a “pureza” e a “sanidade” de […]

Não Matemos os Livros por Causa de Nossos Pecados

Eu entendo muito bem quem se ressente da existência de “sexismo”, “racismo”, ou puro mau-caratismo em obras literárias (ou quaisquer outras), mas acredito que essas pessoas padecem de um imenso equívoco quando começam a focar nessas imperfeições das obras literárias do passado. Não chego a dizer que é “mimimi” (mesmo me coçando a língua para dizer), mas que são três os problemas desse entendimento: Anacronismo — frequentemente queremos cobrar de autores do passado um conhecimento que eles não poderiam ter. Non Sequitur — a incapacidade […]

O Que Fazer com a Arte de Pessoas Execráveis?

Com o recente terremoto de acusações de assédio sexual contra personalidades do mundo do cinema voltou à baila um antigo debate, nunca inteiramente superado, sobre a maneira como a sociedade deve lidar com a obra de pessoas que se mostraram detestáveis. Esse debate talvez tenha sido feito pela primeira vez de maneira ampla após a Segunda Guerra Mundial, quando várias personalidades do mundo da arte e da filosofia haviam simpatizado com o nazismo: Martin Heidegger, Knut Hamsun e Louis-Ferdinand Céline foram autores que enfrentaram graves […]

Ler a Vida, Escrever a Vida

Não podemos ter uma visão elitista da arte porque vivemos em uma sociedade determinada a destruir a arte, coração do povo e luz do futuro. Somente a arte pode nos salvar, mas antes precisamos salvá-la. O Brasil que eu conheci está morrendo e não é uma morte natural: é um assassinato. A morte do Brasil moreno e mestiço faz parte de um plano para esvaziar esse território, transformar seu povo em mera “força de trabalho” a serviço dos que virão remover a riqueza e deixar-nos […]

Leitores Não São Iguais, Leituras Também Não

O grande furdunço esta semana foram uns tweets antigos de meu amigo Pedro Nunes, nos quais ele, algo controversamente, defendeu a ideia de que certas pessoas dizem “amar a leitura” mas, de fato, permanecem a vida toda lendo o mesmo tipo de livro que liam quando adolescentes. Esse tipo de comentário não se caracteriza por sua capacidade de fazer amigos e atrair a simpatia espontânea de desconhecidos. Ninguém gosta quando um estranho vem e chuta suas muletas, querendo dizer “levanta-te e anda”. Do hábito de […]

A Família Duplipensare

“Duplipensare” é um sobrenome de origem europeia. Ítalo-alemão ou franco-italiano, o Sr. Duplipensare não se importa, o que importa é que é de origem europeia e lhe ajudou a conseguir um passaporte comunitário, que ele basicamente usa para dizer que não é brasileiro, porque não tem dinheiro para viajar nem até o Paraguai para trazer muamba. Mas ele é um típico proletário que se orgulha da empresa em que trabalha e do carrão comprado pelo seu patrão. Acredita que ganha pouco pelo que faz, mas […]

Os Vendedores, os Mascates e os Vendilhões

No cenário literário de hoje existe hoje uma crença generalizada de que tudo deva ser vendido pela mesma pessoa que produz. Na prática, isso coloca o “vender” acima do “produzir”. É uma visão diferente de outras artes. Por exemplo: no cinema existem produtores, roteiristas, diretores, atores, contra-regras, operários, etc. Papeis muito bem compartimentados. Há quem trabalhe em mais de um (atores que também são diretores, diretores que também fazem roteiro, roteiristas que também produzem, produtores que também dirigem etc.), nem sempre em um mesmo filme. […]

Pagando Bem, que Mal Tem?

Recentemente descobri que há um mercado de resenhas pagas, no qual se cobram valores entre R$ 500 e R$ 8.000 para que algum blogueiro ou YouTuber resenhe sua obra prima e, obviamente, fale bem dela. Eu mais ou menos sabia que o jabá é praticamente uma instituição sacra de nossa cultura, mas julgava, ingenuamente, que eram as editoras que subornavam os jornais, as revistas e as livrarias para alavancar as vendas de seus lançamentos. Mas não imaginava que existisse um “mercado” de exploração dos autores […]