Porque a música pop é “ruim”

Pela própria definição do termo, a música “pop” tem de ser ruim. Se por algum motivo o pop se torna bom, imediatamente adquire outro rótulo. Adicionado (como os subgêneros do rock) ou em substituição ao anterior, como a “black music” dos anos 1960 e 1970. Em qualquer forma de arte, o “pop” é a lata de lixo da cultura. Antes que o leitor se apresse a me agredir, esta não é a minha definição. A crítica musical, incluindo a crítica especializada em música pop, define […]

Fetiches de Tamanho, Qualidade e Exclusividade

Talvez por insegurança, ou por algum traço cultural que eu ainda não mapeei, o brasileiro tem uma necessidade curiosa de enfatizar o tamanho ou a qualidade de tudo o que vê, especialmente do que possui. O Brasil é um país onde não se compra manteiga que não seja “de primeira qualidade”, nem arroz tipo 2, nem carne de segunda ou de terceira (eliminou-se a distinção antiga). Onde qualquer vendinha se chama “supermercado” e um estabelecimento sem filiais se chama “Lojas Fulano”. Onde qualquer calhambeque será […]

A Alienação no Processo Criativo

Os autores, especialmente os mais jovens, mas não somente eles, costumam reagir com certa amargura quando o tema “alienação” é colocado em discussão. A ideia de que o conceito sequer exista ou possa ser aplicado à literatura lhes parece ofensiva, como se alguns autores quisessem colocar-se em um pedestal moral — o que nunca é simpático. Essa reação instintiva ao conceito de alienação reflete uma dificuldade para refletir sobre o próprio fazer literário, que é, em grande parte, causada pela generalizada ignorância daqueles que querem […]

Dos Livros Intermináveis e dos Leitores Abomináveis

Há obras que ganharam para si um status de obrigatórias. Isto praticamente é a morte para qualquer possibilidade de que sejam enca­radas como “divertidas”. Ninguém supostamente se diverte fazendo o que é obrigatório. Como eu, porém, tive a sorte de me apro­ximar da literatura como um selvagem, sem qualquer tipo de ori­entação pedagógica enquadrante, pude ler com prazer algumas des­tas obras e agora me espanto que sejam citadas em tal contexto. É recorrente a citação de listas de tais obras ilegíveis — parece haver certo […]

Por que Chorar Pelo Nobel?

Todo ano, quando sai o nome do vencedor do Prêmio Nobel de literatura, há uma pequena discussão em torno da razão pela qual o Brasil não ganha (nem mais é cogitado). Esse ano aconteceu novamente e segue não havendo muita dúvida sobre as razões de não sermos contemplados (o único autor de Língua Portuguesa a sê-lo foi o Saramago, que não somente é português como pouco se parece com um português “normal” a julgar por seus escritos). À parte o fato de que há muito […]

Pense Fora da Caixa e Entre Nessa Caixa Aqui…

O mercado editorial brasileiro se caracteriza, desde há muito, pelo seu conservadorismo. Não me refiro aqui que o mercado seja avesso ao novo, mas que ele seja fechado a questionamentos. Existe uma estrutura de poder, e o autor brasileiro, se quiser chegar à notoriedade, precisa de abdicar de liberdades que deveriam ser essenciais à arte. O establishment literário precisa se proteger de questionamentos, precisa desqualificar quem questiona, precisa infantilizar o discurso desviante. E como ele não ousa fazer isso pela boca de seus membros mais […]

Os Jovens Não Estão Indo Além

Baseado em um debate sobre o artigo de Ademir Luiz para a Revista Bula. “Não é nenhuma prova de sanidade estar perfeitamente ajustado a um mundo doente.” — Krishnamurti. Bem, li o texto. Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Ele não é tão ofensivo quanto disseram (quem se ofendeu é porque tem a pele fina ou então quis vestir a carapuça) e nem tão brilhante. Diz uma obviedades que pouca gente tem coragem de dizer porque quase todos se escravizaram à opinião da […]

Tudo Seria Válido em Literatura?

A relatividade dos gostos literários vigora no presente, mas não no passado. Porque gosto é algo relativo, é verdade, mas o que define o valor absoluto de uma obra é aquilo que vai além do gosto. As obras que se limitam a atender gostos presentes são esquecidas à medida que os gostos mudam. Mas há obras que, além de atenderem aos gostos, ou mesmo sem atendê-los, contêm elementos que são significativos para gerações posteriores. Estas obras permanecem. Não porque sejam perfeitas, mas porque ainda são […]

A Difícil Facilidade da Escrita

Escrever não é fácil. Se fosse fácil, redação não seria o terror dos estudantes. E não é que a língua portuguesa seja mais difícil que as demais (nada é fácil para quem não domina), mas, sim, que o domínio funcional da língua não implica em domínio criativo: este é o mais alto dos níveis de proficiência em qualquer idioma, fácil ou difícil. Portanto, fazer literatura, embora pareça “fácil” ao olhar leigo, é tão difícil quanto pintar, consertar automóveis ou dançar balé: todas estas atividades requerem […]

Colonização Cultural – Um Debate

Anteontem começou uma longa discussão no Facebook sobre uma tal “colonização cultural”. O ponto de partida foi um “meme” do Dr. House (um ícone cultural do colonizador, vejam só) com a frase seguinte: É de se imaginar o furor que a frase provocou, pois ela ataca a jugular dos jovens escritores brasileiros, sem lhes deixar chance de defesa. Nada afaga mais o ego juvenil do que a doce ilusão de ser especial, e nada o ataca com mais força do que a lembrança de que […]

O Crítico e os Crânios de Cristal

Uma das principais características da mediocridade é o seu amor pela unanimidade. O medíocre, não sendo capaz de causar emoções duradouras e conquistar afetos sinceros, tem verdadeira paúra de ter apontados os seus defeitos. Ele ama e deseja um ambiente confortável de camaradagem e reciprocidade, “eu coço as suas costas e você coça as minhas”. Nesse ambiente se busca o aplauso, a maioria é o poder legitimador e uma simples curtida dada por um “mestre” é exibida como um troféu. Uma das funções mais importantes […]

Yuri e Natasha

Enquanto pesquisava sobre música soviética, em relação àquele post malu­qui­nho sobre a música do jogo Super Mario World ter sido baseada no Hino da União Soviética, fui tendo contato com o universo musical comunista e entendendo como era sufocante a vida cultural então. Certamente nem eu e nem você gostaríamos de viver aquilo. Imaginemos então o nosso herói, o Yuri, um exímio guitarrista, que estudou guitarra clássica no conservatório e atravessou a adolescência ouvindo discos contrabandeados de Black Sabbath, Beatles, Bee Gees, Pink Floyd e […]