Português, Uma Língua Difícil

São mui­tos os bra­si­lei­ros que recla­mam da difi­cul­dade da lín­gua por­tu­guesa. Para a grande mai­o­ria das pes­soas, as “difi­cul­da­des” do idi­oma pátrio são pra­ti­ca­mente um fato incon­tes­tá­vel por­que esta ideia se nor­ma­li­zou no ima­gi­ná­rio cole­tivo, fazem parte das con­ver­sas dos estu­dan­tes desde as fases ini­ci­ais do Ensino Fundamental e vão se man­tendo nas dis­cus­sões fami­li­a­res, nos cur­si­nhos, no local de tra­ba­lho. Português é uma lín­gua difí­cil, que pre­cisa ser estu­dada com afinco, que pouca gente sabe usar direito. Fica-​se a um passo de dizer que […]

Há Escritores Que São Burros

Vou come­çar a patru­lhar minha time­line em busca de escri­to­res que defen­dem essa reforma edu­ca­ci­o­nal só para ter o pra­zer de chamá-​los de bur­ros. Alguém que tra­ba­lha com cul­tura ou é da área edu­ca­ci­o­nal e defende essa mons­tru­o­si­dade enfi­ada pela goela abaixo do país merece ganhar de Natal qua­tro fer­ra­du­ras. É estar­re­ce­dor ver gente da área edu­ca­ci­o­nal ou cul­tu­ral defen­der, por razões ide­o­ló­gi­cas, um pro­jeto que piora ainda mais os PCN e vai na con­tra­mão de tudo que se pen­sou de moder­ni­dade em edu­ca­ção nas […]

Elegia pelo Brasil que Seria

Consumado o ato final das mano­bras ritu­a­lís­ti­cas que resul­ta­ram no fim ine­xo­rá­vel de um governo nati­morto pelas cir­cuns­tân­cias atro­zes da nossa polí­tica, resta-​nos ava­liar a exten­são do des­monte. A impres­são ini­cial des­tes pri­mei­ros dias é a frus­tra­ção de uma der­rota irre­pa­rá­vel, como se o país tivesse deci­dido abortar-​se. Os sinais envi­a­dos pelo novo governo suge­rem entre­guismo, retro­cesso, auto­ri­ta­rismo e obs­cu­ran­tismo, e tudo em modo ber­serk. A reor­ga­ni­za­ção minis­te­rial sina­liza para uma radi­cal inver­são de pri­o­ri­da­des, e a nova estru­tura sugere uma mudança polí­tica que nin­guém […]

A Escola Brasileira Educa Para a Violência

Neste dia em que o país parece assom­brado por fan­tas­mas de um pas­sado que deve­ria ter sido morto e enter­rado há trinta anos, em um outro quinze de março, dedi­quei algu­mas horas a refle­tir sobre o futuro, já que o pre­sente me parece irre­me­di­a­vel­mente per­dido, ainda que os fan­tas­mas sejam der­ro­ta­dos (e eles deve­rão ser). Esta semana que pas­sou ficou mar­cada em mim mais pelo rela­tó­rio final da CPI esta­dual sobre o trote uni­ver­si­tá­rio, con­du­zida pela Assembleia Legislativa de São Paulo, do que por qual­quer […]

Porque Odeiam Machado de Assis

O ódio a Machado de Assis é muito fre­quente entre jovens que ale­gam terem sido “for­ça­dos” a lê-​lo na escola. Aparentemente os jovens acre­di­tam que a fun­ção da escola é exclu­si­va­mente dar-​lhes o que gos­tam e o que esco­lhem, daí a revolta por rece­be­rem uma tarefa tal. Certamente Machado de Assis é difí­cil, mas para quem não tem boa von­tade, não há faci­li­dade em nada a não ser no nada. A culpa que o Machado tem é a de ser um sucesso e ainda ser […]

Tudo Seria Válido em Literatura?

A rela­ti­vi­dade dos gos­tos lite­rá­rios vigora no pre­sente, mas não no pas­sado. Porque gosto é algo rela­tivo, é ver­dade, mas o que define o valor abso­luto de uma obra é aquilo que vai além do gosto. As obras que se limi­tam a aten­der gos­tos pre­sen­tes são esque­ci­das à medida que os gos­tos mudam. Mas há obras que, além de aten­de­rem aos gos­tos, ou mesmo sem atendê-​los, con­têm ele­men­tos que são sig­ni­fi­ca­ti­vos para gera­ções pos­te­ri­o­res. Estas obras per­ma­ne­cem. Não por­que sejam per­fei­tas, mas por­que ainda são […]

13 Razões Pelas Quaes a Orthographia Etymologica Não Deveria Ter Sido Abolida

A lin­gua escripta, nos ensina Marcos Bagno,1 não eh de facto a lin­gua em si, mas uma ide­a­li­za­ção da lin­gua falada em deter­mi­nado momento de sua his­to­ria. Idealização posto que os gram­ma­ti­cos não ape­nas docu­men­tão a lin­gua con­forme a estu­dão, mas tam­bém intro­du­zem ino­va­ções, regu­la­ri­za­ções, sim­pli­fi­ca­ções e, lamen­ta­vel­mente, com­pli­ca­ções tam­bém. Eh neces­sa­rio que a lin­gua escripta evo­lua, para que a dis­tan­cia entre ela e os diver­sos fala­res do povo não se torne tão grande que tenha­mos uma situ­a­ção de diglos­sia. Esta evo­lu­ção, porém, deve ser […]

Residente em Vênus

Quando che­guei em Vênus tinha todas as ilu­sões pos­sí­veis e me achava muito esperto. Estudaria com todas as des­pe­sas pagas, obtendo um diploma de grande pres­tí­gio, cer­teza de car­reira pro­mis­sora, em troca de meros oito anos-​calendário de ser­vi­ços pres­ta­dos a um dos gover­nos de lá. Para um garoto pobre, que nunca pudera estu­dar em boas esco­las e não tinha dinheiro para se pre­pa­rar para os rígi­dos exa­mes de sele­ção das melho­res facul­da­des da Terra, pare­cia ser um trato exce­lente. Os for­ma­dos em Vênus pra­ti­ca­mente for­ma­vam […]

Como Ensinar Literatura a uma Criança?

Este domingo me ofe­re­ceu um desa­fio lite­rá­rio inco­mum: minha filha me pediu que lhe aju­dasse a escre­ver uma reda­ção para um con­curso. Gabriele tem, aos dez anos, toda a inge­nui­dade e a fan­ta­sia de uma cri­ança que ainda não per­deu a pureza. Ela ainda não conhece quase nada das difi­cul­da­des da vida, das frus­tra­ções, des­sas coi­sas que nos fazem des­per­di­çar sor­ri­sos e cabe­los com o pas­sar dos anos enquanto vemos esgotarem-​se todas as opor­tu­ni­da­des que tínha­mos sonhado. Por isso ela acha que é pos­sí­vel, da […]

A Gramática dos Dialetos Brasileiros Merece Respeito

A lei­tura de Preconceito Linguístico: o que é e como se faz — obra semi­nal de Marcos Bagno — me abriu os olhos para algo que eu intuía, mas nunca arti­cu­lava: o viés de luta de clas­ses que está pre­sente na con­cep­ção da lín­gua como algo que pre­cisa ser ensi­nado ao povo igno­rante, ao povo que não sabe falar. Na visão da gra­ma­ti­quice tra­di­ci­o­nal, já devi­da­mente desan­cada por Monteiro Lobato em sua Emília no País da Gramática, o povo é uma espé­cie de pri­mata pelado que não se huma­niza, pela lin­gua­gem, se não for à escola, esse labo­ra­tó­rio do saber onde o tosco bípede é ames­trado naquilo que serve aos obje­ti­vos da soci­e­dade capi­ta­lista.[…]

Continuamos Comprando Espelhos

Não é pre­ciso, abso­lu­ta­mente, dis­cor­rer sobre as vir­tu­des de nosso sis­tema edu­ca­ci­o­nal. Mesmo por­que, tal dis­curso não seria sufi­ci­ente para pre­en­cher uma pos­ta­gem. Suficiente para botar a Indonésia no chi­nelo e gal­gando um hon­roso 36º lugar mun­dial, gra­ças ao fato de não haver dados sobre a mai­o­ria dos paí­ses, a nossa edu­ca­ção goza de um sta­tus de praga do Egito, ape­sar de, segundo nosso governo, estar “no cami­nho certo”. Com alguma boa von­tade, que­rendo crer que ele tem razão, eu diria que demos os pri­mei­ros pas­sos, os pri­mei­ros dois pas­sos, de uma jor­nada equi­va­lente à con­quista da Índia por Alexandre, com a espe­rança de que dará certo, ao con­trá­rio do famoso epi­só­dio his­tó­rico. Alexandre pelo menos sabia onde ficava a Índia, receio, porém, que as pes­soas que gerem nosso sis­tema edu­ca­ci­o­nal tenham ape­nas uma vaga ideia.

A Falta que Faz a Educação

Não me refiro à edu­ca­ção esco­lar, essa que suces­si­vos gover­nos pare­cem que­rer difi­cul­tar, mas à edu­ca­ção cidadã e humana, que cabe às famí­lias e a cada um de nós. Esta é a que faz mais falta, por­que se trata da que não pre­cisa de gran­des inves­ti­men­tos, nem de gran­des cons­tru­ções. Não dis­pende ener­gia, não move ter­ras e céus, não cria dívi­das e nem polui. Não custa livros, não con­some dinheiro, não requer trans­porte. Mas ape­sar de ser tão barata em ter­mos econô­mi­cos, é carís­sima em […]