A Campainha do Apocalipse

Um amigo me per­gun­tou se eu con­si­de­rava uma boa ideia para uma his­tó­ria de fic­ção a pos­si­bi­li­dade de magi­ca­mente matar as pio­res pes­soas do mundo todas de uma vez, até o limite de cinco por cento da popu­la­ção. Eu não gosto de solu­ções mági­cas, então, como você deve estar a ima­gi­nar, convenci-​o a encon­trar outra maneira de dar iní­cio ao fim da civi­li­za­ção humana na Terra. O meu amigo me olhou espan­tado e disse: “Mas eu ima­gi­nei que assim eu aca­ba­ria com o mal no […]

Um Milhão de Motivos para Matar um Gatinho (ou um Mandarim)

Perguntaram-​me se eu mata­ria um gati­nho por um milhão de dóla­res. Bem, eu mata­ria (intran­si­ti­va­mente) por um milhão de dóla­res, desde, é claro, que o pudesse fazer de maneira limpa. Não me cri­ti­que, você tam­bém faria o mesmo. Todos pen­sa­mos uti­li­ta­ri­a­mente, e con­si­de­ra­mos mais as con­sequên­cias do que os meios. O que nos impede, em geral, são con­si­de­ra­ções de ordem esté­tica: matar é um ato bru­tal, ani­ma­lesco, e que geral­mente resulta em con­sequên­cias com­pro­me­te­do­ras para o resto da vida. Os seres huma­nos nor­mais não matam […]

A Vaidade

O pro­blema do escri­tor é a vai­dade. Existe uma obses­são pelo pro­fis­si­o­na­lismo que se deve prin­ci­pal­mente à vai­dade: é pre­ciso ser, ou pare­cer, pro­fis­si­o­nal. Todos que­rem ser pagos pelo seu “talento” e acre­di­tam na teo­ria “tele­van­ge­lista” da “semente” e pagam seu “dízimo” para o deus-​mercado edi­to­rial na espe­rança de que seu inves­ti­mento hoje atraia os favo­res divi­nos (“sucesso, grana, fama e mulhe­e­e­e­res”… con­forme dizia a can­ção da Plebe Rude). Isso é uma mudança radi­cal que houve nos últi­mos 50 anos. Há 100 anos ser conhe­cido […]

A Geração do “Foda-​se”

Comentário lido em uma rede social a res­peito dos médi­cos capi­xa­bas que tira­ram fotos de cal­ças arri­a­das e fazendo ges­tos obs­ce­nos e publi­ca­ram na Internet: FODA-​SE o trauma que isso des­perta em alguem… Minha rea­ção a este comen­tá­rio ina­cre­di­tá­vel foi esta: Esse pen­sa­mento pode até ser acei­tá­vel na boca de uma pes­soa qual­quer, mas nunca na cabeça ou na boca de um médico. Um pro­fis­si­o­nal de saúde é alguém que deve pos­suir e demons­trar três coi­sas que você, por esta frase, demons­trou nem saber o que é: […]

Bob e o Felino

Não temos gato, mas temos o lado ruim de ter um gato. Se é que vocês me enten­dem. O vizi­nho tem um gato, nós temos um cachorro, o Bob (for­mal­mente cha­mado de Roberto Cachorrovich Viralatov, por­que é quase um per­so­na­gem de Dostoievski). O Bob detesta o gato do fundo de sua alma lupina rema­nes­cente. O gato, bem, meh… Toda noite o gato se deita para dor­mir na beira da varanda do vizi­nho, que é visí­vel de nosso quin­tal. Bob vai até o gra­mado, o mais perto […]

Livros “Perigosos”

A for­ma­ção psi­co­ló­gica do ser humano passa por fases nas quais é natu­ral e espe­rado que tenha “ído­los” em quem se espe­lhe. Autores, enquanto huma­nos que são, pas­sam por isso. O ama­du­re­ci­mento do autor é um pro­cesso que passa pela supe­ra­ção da ido­la­tria, substituindo-​a por uma refle­xão mais pro­funda sobre a arte. Esse pro­cesso implica em dei­xar de ver uma ima­gem única do ídolo e de sua obra. Para mui­tos jovens auto­res, a ideia de que obra e autor pos­sam estar tão sepa­ra­dos soa cho­cante, afi­nal […]

Povo Marcado, Povo Feliz

Há dois tipos de pes­soas úteis no mundo. As que acen­dem o fogo e as que o apa­gam ou con­tro­lam. A civi­li­za­ção não exis­ti­ria sem o fogo. Mas seria con­su­mida sem seu con­trole. Por muito tempo foi teo­ria de cons­pi­ra­ção o envol­vi­mento ame­ri­cano no golpe de 1964. Que Vladimir Herzog fora morto no DOPS, onde foi mera­mente “dar depoi­mento”. Por muito tempo foi teo­ria de cons­pi­ra­ção que Jim Jones fora envol­vido com a CIA. Por muito tempo duvi­da­ram que Georgi Markov foi morto pela KGB. A his­tó­ria é […]

Fetiches de Tamanho, Qualidade e Exclusividade

Talvez por inse­gu­rança, ou por algum traço cul­tu­ral que eu ainda não mapeei, o bra­si­leiro tem uma neces­si­dade curi­osa de enfa­ti­zar o tama­nho ou a qua­li­dade de tudo o que vê, espe­ci­al­mente do que pos­sui. O Brasil é um país onde não se com­pra man­teiga que não seja “de pri­meira qua­li­dade”, nem arroz tipo 2, nem carne de segunda ou de ter­ceira (eliminou-​se a dis­tin­ção antiga). Onde qual­quer ven­di­nha se chama “super­mer­cado” e um esta­be­le­ci­mento sem fili­ais se chama “Lojas Fulano”. Onde qual­quer calham­be­que será […]

Por que que a gente é assim?

Mais uma vez? É claro que eu ’tô a fim. Parodio Cazuza para dizer que o escri­tor bra­si­leiro parece não se can­sar de ser humi­lhado. Não basta pra­ti­car uma arte con­si­de­rada “fácil” por quase todo mundo que não a pra­tica, não basta que con­si­de­rem a lite­ra­tura algo supér­fluo “com tanta gente pas­sando fome” e tam­pouco basta que veja­mos as pra­te­lei­ras de nos­sas livra­rias ocu­pa­das majo­ri­ta­ri­a­mente por uma espé­cie de subli­te­ra­tura cagada sobre nós pelo sis­tema hegemô­nico em que esta­mos inse­ri­dos. Nada disso basta, temos de […]

Em Nome de Stallman e Torvalds, Salvai-​me!

Devo ser o único ser vivente neste sis­tema solar que ainda insiste em usar nomes de arquivo padrão 8.3 (não, minha idade não é da sua conta). O arquivo se cha­mava roseira.odt (e isso não tem nada a ver com o título, exceto que em uma das his­tó­rias há um rosei­ral). Se você acha que isso é receita para algum azar, deve ter razão. Não sou, tam­bém, nenhum exem­plo de orga­ni­za­ção. Há mais a fazer do que tempo para orga­ni­zar o feito. Meu com­pu­ta­dor está […]

Há uma Gota de Lágrima em Certas Piadas

Esta semana o humo­rista Sérgio Mallandro foi ao pro­grama “The Noite”, de Danilo Gentilli, e deu uma das mais des­con­cer­tan­tes entre­vis­tas da his­tó­ria da tele­vi­são bra­si­leira. Antes de comen­tar, gos­ta­ria que você assis­tisse, para que eu não estra­gue a sua expe­ri­ên­cia com spoi­lers: O poeta é um fin­gi­dor Finge tão com­ple­ta­mente Que chega a fin­gir que é dor A dor que deve­ras sente. — Fernando Pessoa. Ao assis­tir a entre­vista, espe­ci­al­mente após o seu sur­pre­en­dente final, fui tomado por uma melan­co­lia ines­pe­rada, em vez de mera­mente rir da […]

Se Eu Fosse Voldemort

Uma das razões pelas quais o Mago das Trevas foi tão facil­mente der­ro­tado se encon­tra na sua pés­sima esco­lha dos obje­tos que trans­for­mou em hor­cru­xes. Se é ver­dade que alguns deles eram insus­pei­tos e, cer­ta­mente, durá­veis; — e aqui me refiro à Taça Hufflepuff, ao Anel de Marvolo Gaunt, o Medalhão de Slytherin e a Tiara de Ravenclaw — é tam­bém ver­dade que nenhum deles foi uma boa esco­lha, dada a faci­li­dade com que foram iden­ti­fi­ca­dos pelos ini­mi­gos de Voldemort. Tendo lido 100 Coisas Que Não Vou Fazer se […]