Porque a visão positivista da história está obsoleta

Que critérios determinam que o positivismo é uma visão obsoleta da história? Esta pergunta foi feita por mim mesmo, no Quora, para ser respondida por quem se interessasse. Minha intenção, porém, desde o início era escrever uma resposta minha sobre esse tema — motivada pelos comentários recebidos em minha resposta sobre as distorções da História do Brasil que me foram ensinadas na escola. Confesso que fiquei inseguro se poderia fazer isso, mas não encontrei nas regras de lá nenhuma proibição de fazer perguntas a mim […]

A grande mudança de paradigma

Como Marshall McLuhan explica a degeneração da vida política do ocidente iluminista. O mundo inteiro está sofrendo, desde mais ou menos a época da Segunda Guerra Mundial, uma profunda mudança de paradigma cultural, ao fim da qual o ser humano como conhecemos deixará de existir. Caso a própria humanidade ainda exista dentro de cem anos, seu modo de pensar e de agir será muito diferente do atual. A análise desta mudança requer um trabalho muito mais detalhado do que este autor tem condições de fazer, […]

Certos Livros Podem Ser Escritos, Mas Não Precisavam Ser

Há uma antiga lição do mestre Sun Tzu que nos explica bem o dilema de entrar em disputas desnecessárias. Esta semana tive a oportunidade de perceber quão certo é o conselho milenar do general chinês: Não basta fazer algo pelo simples bem de algo: certifique-se de que isso o ajude. Se é para a sua vantagem, faça um movimento para frente; se não, fique onde está. Há lutas que não devem ser travadas por ninguém e outras que alguém deve travar, mas não devo ser […]

Não Matemos os Livros por Causa de Nossos Pecados

Eu entendo muito bem quem se ressente da existência de “sexismo”, “racismo”, ou puro mau-caratismo em obras literárias (ou quaisquer outras), mas acredito que essas pessoas padecem de um imenso equívoco quando começam a focar nessas imperfeições das obras literárias do passado. Não chego a dizer que é “mimimi” (mesmo me coçando a língua para dizer), mas que são três os problemas desse entendimento: Anacronismo — frequentemente queremos cobrar de autores do passado um conhecimento que eles não poderiam ter. Non Sequitur — a incapacidade […]

Ai dos Heróis

Ai de vós que desejais ser heróis. Os vilões não vos perdoarão os pecados da vossa humanidade… — Profecias do Oráculo Cataguasense É relativamente confortável ser mau. Além de incontroverso, pois a média da humanidade só odeia do mau que ele seja revelado, o mal é recompensador. É fácil ser mal. É quase irresponsável. Quem escolhe o caminho do mal pode fazer o que queira e ninguém se desapontará. Dos maus somente se espera que cometam o que há de pior. De fato, algumas pessoas […]

Render-se à Jornada do Herói é Conformar-se

Veja bem. Há uma quantidade limitada de elementos possíveis na ficção. Cabe ao autor utilizar esses elementos de uma forma sábia, para construir uma história legal. Eventualmente você pode até descobrir um elemento novo, mas não veja isso como obrigação. Aqueles que propõem a Jornada do Herói como um paradigma obrigatório estão, porém, muito errados. Comecemos pelo óbvio: impor a Jornada como um método para construção de narrativas significa criar uma receita de bolo, abolir a criatividade do autor, enfiar todo mundo numa forma. Se […]

A Beleza do Coronelismo a Gente Vê por Aí

A julgar pelo que ando ouvindo de comentários, na próxima segunda feira (depois de amanhã) estreará na televisão mais uma novela de época em que o canal [ainda] hegemônico tentará nos convencer que o latifúndio, o coronelismo e a pistolagem são coisas maneiras. Não é nenhuma novidade que a televisão — um meio dominado por umas poucas e poderosas famílias, aparentadas a tudo quanto há de mais retrógrado nesse país — tente fazer a hagiografia da estrutura de classes herdada do período colonial, o que […]

A Mulata Globeleza Não É Beleza

Este artigo é uma resposta a esta postagem no Facebook. Cobri o nome da pessoa porque existe risco de vergonha alheia. A ilusão da liberdade é uma das formas mais eficazes de perpetuar a servidão. Faça com que o indivíduo creia que suas escolhas são livres e ele se orgulhará de sua canga e morderá em quem tentar retirá-la de seus ombros. A mulata Globeleza deve ser combatida, sim, porque aquela mulher que ali está não é livre para escolher aonde pode estar. Quantas opções […]

Ainda Será Possível Falar do Brasil?

Parece que o Brasil virou crime. É impossível falar do país que é nosso sem desagradar a alguém. Para toda tentativa de se abordar a história e cultura nacional haverá um grupo que se ofenda e que se defenda. É como se fosse preciso passar uma borracha sobre todo o tempo até ontem e começar a viver de novo em prol do amanhã. Qualquer coisa menos que isso será controversa. Minha percepção desse absurdo vem crescendo há algum tempo, mas o alarme soou quanto li […]

Impressões da Leitura de “Coração das Trevas”, de Joseph Conrad

> Atenção: Este texto contém “spoilers” e deverá ser lido somente por quem já tenha lido “Coração das Trevas”. Deixei passarem algumas semanas desde minha leitura deste ótimo livro antes de começar a comentar, a fim de evitar que os comentários do tradutor e do editor me influenciassem numa direção ou noutra. Para permitir que somente o impacto potente desta obra fenomenal determinasse o que eu escrevia sobre ela. “Coração das Trevas” é um clássico absoluto, e é um livro também desafiador e simples. Parte […]

Reflexões Tardias a Respeito do Atentado do “Greenpeace” Contra os Geoglifos de Nazca

Aguardei um pouco para escrever alguma coisa sobre o caso da intervenção do Greenpeace no Peru porque as minhas ideias sobre o caso ainda estavam muito misturadas, só que elas ainda estão e eu me sinto ainda assim compelido a dizer alguma coisa, com base em impressões que eu já tinha antes, e que só foram confirmadas pelo que aconteceu. Meu comentário se baseia na paulatina observação da cultura de massas que nos é imposta pelos Estados Unidos — cinema, revistas em quadrinhos, televisão — […]

A Fazenda da Serpente, 8

> Parte da série [A Fazenda da Serpente](/lit/2014/10/nova-serie-a-fazenda-da-serpente) As chances não pareciam boas. Demóstenes e seus homens conheciam os arredores e certamente a fuga de Rufino não era a primeira. Mas o tenente não queria se entregar tão fácil, nem deixar tantas boas armas e munições nas mãos daqueles mise­ráveis. A um aceno Maneco o seguiu, mesmo ainda não entendendo nada, porque adquirira a sabedoria que o medo ensina nessas horas. Correram pelos fundos da casa, mas Rufino sentia nos ossos que seriam cercados. Lembrou […]