Ai dos Heróis

Ai de vós que desejais ser heróis. Os vilões não vos perdoarão os pecados da vossa humanidade…
— Profecias do Oráculo Cataguasense

É relativamente confortável ser mau. Além de incontroverso, pois a média da humanidade só odeia do mau que ele seja revelado, o mal é recompensador. É fácil ser mal. É quase irresponsável. Quem escolhe o caminho do mal pode fazer o que queira e ninguém se desapontará. Dos maus somente se espera que cometam o que há de pior. De fato, algumas pessoas chegarão a descobrir, divulgar e valorizar um “lado positivo” do malvado. A posteridade o humanizará analisando os resquícios óbvios de humanidade que lhe restem. Ah, aquelas fofas imagens de Hitler acariciando um cervo ou sorrindo para louras crianças arianas…

Mas ai de quem pense em fazer o que julgue ser “bom”. Destes que desejam consertar o mundo, não se exigirá nada menos que a perfeição absoluta. Há uma miríade de dedos sujos que apontarão com ânsia e horror para o lado do escuro de quem se candidate a herói. Os braços dos que estão na lama se estendem, carinhosos, para quem tente se limpar.

“Ele é contra a crueldade com os animais, porém sonega impostos.
“Luta contra o abuso sexual infantil, mas já bateu no filho uma vez.
“Defende o socialismo, mas tem ações de empresas.
“Quer a igualdade de todos, mas viaja na primeira classe.
“É nacionalista, mas fala inglês.
“Apoia a igualdade de gênero, mas tem uma amante.
“É contra o uso de drogas, mas já baixou música pirata da internet.
“Prega a paz e o amor, mas tem um vizinho que o odeia.”

Sempre será fácil destruir o trabalho de quem tenta fazer algo pelo bem da humanidade. Só é preciso cavar um pouco. Haverá algo. As pessoas são cheias de pecados, defeitos, contradições. Cada um de nós tem sua carga de manchas, culpas e esquecimentos. Porém, somente aqueles que estão até a garganta na lama universal da espécie humana serão capazes, pela experiência do assunto e pela amplitude de seu radar que abrange muito mais decadências do que o comum dos mortais, encontrar as manchas menos óbvias nas vestes dos anjos. Nem é preciso dizer que é cinismo, que é inaceitável, mas o mundo é dos cínicos.

Ninguém precisa ser perfeito para ter a capacidade de fazer o bem pelo mundo. Não devemos julgar ninguém pelas suas fraquezas, mas por suas forças. A mensagem sempre deverá ser mais importante do que o mensageiro. Por mais que os exemplos cativem, o ensinamento certo não perderá sua razão de ser somente porque o professor não o consegue praticar. A maravilha do aprendizado não está na perfeição do mestre, mas na capacidade que os alunos têm de compreendê-lo e, frequentemente, irem além dele. O feito é mais importante que seu autor. A ideia é mais forte que o pensador.

Não quero aqui dizer que deveríamos perdoar simplesmente os defeitos das pessoas e deixar tudo por isso mesmo. Apenas que não podemos desqualificar o que é obviamente verdadeiro e bom por causa de aspectos menores relacionados a uma personalidade que é imperfeita como toda a humanidade o é. Não podemos exigir que nossos heróis sejam deuses. Eles não são. Seria intolerável um mundo em que os heróis fossem perfeitos, porque eles seriam inatingíveis, uma casta à parte. É bom que os heróis sejam falhos, porque suas limitações nos ensinam que eles são como nós, e que, portanto, nós também podemos fazer o bem.

Escrevo isso porque me perguntaram por que eu simpatizo com Che Guevara. Não podemos descartar seus objetivos, seus ideais e suas motivações porque apenas não concordamos com seus métodos ou pelas imperfeições de seu caráter. Isto é desonesto. Se desejamos rejeitá-lo, que seja pelas suas contradições e pelas falhas inerentes aos seus ensinamentos. E mesmo assim, o que dá grandeza a certos personagens históricos é eles ainda terem algo de relevante a relegar a humanidade, mesmo depois de termos descartado um monturo de erros. Che Guevara é um mito da esquerda mundial, e a sua frase, isolada, já lhe daria este status: “Há que endurecer, mas sem perder a ternura jamais.”

Guevara tinha uma motivação clara: compreendeu que os povos da América Latina eram oprimidos pelo capitalismo multinacional e decidiu fazer algo a respeito. Muitas pessoas antes e depois tiveram compreensões semelhantes em relação ao mesmo povo e a outros, e também decidiram agir de alguma maneira. Gandhi, Martin Luther King, Lenin, Karl Marx, Thomas Jefferson, Robin Hood, George Washington, Jeanne d’Arc, Nelson Mandela, Mao Zedong, Farabundo Martí, Simón Bolívar, Oliver Crommwell — acrescente os nomes que desejar. Alguns fundaram religiões, outros começaram movimentos políticos, outros provocaram guerras. Alguns falharam, outros conseguiram. Uns estavam mais equivocados do que corretos, outros mais certos do que errados. Os métodos variam, mas as motivações são tão velhas quanto a humanidade. Onde houver injustiça haverá alguém pensando em lutar contra ela.

Guevara tinha um ideal: romper os laços de dependência que mantinham os povos da América Latina escravizados em seus próprios países.

Para atingir esse ideal ele escolheu um método violento. Por algum estranho motivo ele não pensou que simplesmente apelar à humanidade dos que controlavam o capitalismo internacional não funcionaria. Talvez tenha visto e aprendido com o que ocorrera aos que tentaram ficar em cima do muro, como Jacobo Arbenz e Jorge Gaitán. Talvez por isso, ou por alguma outra razão, ele tenha entendido que a liberdade precisa ser arrancada das mãos crispadas do opressor, em vez de recebida gentilmente delas se feita a súplica certa.

Alguns discordarão da estratégia ou do método, mas é fácil pensar diferente quando vivemos em um momento diferente. Podemos pensar que a violência não se justifica, mas o mundo melhorou muito de 1955 para cá e não vivemos sob uma ditadura do tipo que envia a uma moça os testículos de seu amor e os olhos de seu irmão em uma caixa de presentes. É um tanto hipócrita pregar aos franceses que a sua revolução foi “desnecessariamente radical”.

Certamente os heróis cometeram erros — e isso vem desde os heróis da antiguidade. Eles são heróis porque fazem coisas grandes, terríveis. O heroísmo está em romper com o senso comum, em superar a mediocridade, tornar-se um Übermensch.

Guevara não foi o único que errou e nem o único que matou e mandou matar. Como ele, Napoleão, Churchill, Lincoln, qualquer líder em posição de comando em operações de guerra ou revolução. Guerra consiste, basicamente, em matar tantos inimigos quantos sejam necessários para convencê-lo a render-se. Raras são as guerras que seguem até o genocídio do inimigo, mas é sempre uma possibilidade. O que se pode fazer é avaliar se a guerra era justificada, necessária ou se foi uma temeridade inútil e sem razão. Podemos também avaliar se as mortes foram em geral necessárias, normais ou se foram exageradas, inúteis. Haverá sempre controvérsias envolvendo o emprego de violência, mesmo na guerra, e a história seguirá a ser escrita pelo vencedor, mas é inegável que a Revolução Cubana foi contra um regime homicida, brutal e corrupto.

Assim, muito há que se admirar em Che, por mais que aceitemos que ele errou, que ele se enganou, que ele fracassou, ou mesmo que ele tenha sido desnecessariamente cruel. Admirar Che não é querer ser igual a ele, mas reconhecer o que lhe resta de grandeza, removendo o resto.

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