A Vaidade

O pro­blema do escri­tor é a vai­dade. Existe uma obses­são pelo pro­fis­si­o­na­lismo que se deve prin­ci­pal­mente à vai­dade: é pre­ciso ser, ou pare­cer, pro­fis­si­o­nal. Todos que­rem ser pagos pelo seu “talento” e acre­di­tam na teo­ria “tele­van­ge­lista” da “semente” e pagam seu “dízimo” para o deus-​mercado edi­to­rial na espe­rança de que seu inves­ti­mento hoje atraia os favo­res divi­nos (“sucesso, grana, fama e mulhe­e­e­e­res”… con­forme dizia a can­ção da Plebe Rude). Isso é uma mudança radi­cal que houve nos últi­mos 50 anos. Há 100 anos ser conhe­cido […]

Autores que Não Leem Ensinam o que Não Sabem

Uma das con­sequên­cias da falta do hábito da lei­tura entre nos­sos auto­res é a falta do domí­nio pleno da lín­gua por­tu­guesa, cada vez mais tida como dis­ci­plina opta­tiva entre os que escre­vem o futuro de nossa lite­ra­tura. O sucesso de auto­res como Paulo Coelho e Raphael Draccon, que dei­xam trans­pa­re­cer em seu texto uma imensa igno­rân­cia da gra­má­tica, da esti­lís­tica e da tra­di­ção de nossa lín­gua serve como pode­roso argu­mento em favor da super­flui­dade da cul­tura no idi­oma pátrio. De repente usar o voca­bu­lá­rio pre­ciso […]

Sue Para Escrever Sua Cota, Seja Como For

Dizer que “os escri­to­res de hoje enfren­tam dile­mas dife­ren­tes dos de anti­ga­mente” é uma pla­ti­tude. Cada época tem seus desa­fios, gos­te­mos ou não, mas algu­mas coi­sas são mesmo novas, outras só pare­cem. Uma das que me espan­tam é que tan­tos auto­res de hoje se impo­nham uma cota diá­ria de pala­vras, como um infe­liz sujeito obri­gado pelo médico a pagar fle­xões e puxar fer­ros para entrar em forma. A ideia de que o autor pre­cisa escre­ver com frequên­cia e quan­ti­dade não é nova, mas a obses­são […]

Precisamos Falar Sobre Reis e Barrigas

Há um espec­tro que ronda a lite­ra­tura naci­o­nal, desde há algum tempo: o res­sen­ti­mento de uma classe de auto­res e crí­ti­cos con­tra o maior defeito da lite­ra­tura naci­o­nal, o seu povo. A lite­ra­tura bra­si­leira é, ape­sar do que pen­sem os indi­ví­duos que resi­dem em suas tor­res de mar­fim, a lite­ra­tura de um povo opri­mido, uma lite­ra­tura de resis­tên­cia. Ela tem de com­ba­ter a cada dia não somente con­tra as pró­prias limi­ta­ções mate­ri­ais de um país que ainda é sub­de­sen­vol­vido, mas tam­bém con­tra um sis­tema que parece […]

O Editor Superstar

Esta semana o jor­nal O Globo publi­cou maté­ria sobre Gordon Lish, edi­tor ame­ri­cano que em certa época edi­tou a Esquire. A maté­ria é extre­ma­mente inte­res­sante para ama­do­res como eu, mas para pro­fis­si­o­nais tam­bém. Acredito que há muita refle­xão pro­du­tiva que se pode fazer a par­tir do con­teúdo. A pri­meira impres­são que o texto me dei­xou foi pro­fun­da­mente nega­tiva, afi­nal, o tipo de rela­ção entre edi­tor e autor que é defen­dido por Lish (e pelo autor da repor­ta­gem) não me parece nada sau­dá­vel. Existe uma ques­tão […]

Render-​se à Jornada do Herói é Conformar-​se

Veja bem. Há uma quan­ti­dade limi­tada de ele­men­tos pos­sí­veis na fic­ção. Cabe ao autor uti­li­zar esses ele­men­tos de uma forma sábia, para cons­truir uma his­tó­ria legal. Eventualmente você pode até des­co­brir um ele­mento novo, mas não veja isso como obri­ga­ção. Aqueles que pro­põem a Jornada do Herói como um para­digma obri­ga­tó­rio estão, porém, muito erra­dos. Comecemos pelo óbvio: impor a Jornada como um método para cons­tru­ção de nar­ra­ti­vas sig­ni­fica criar uma receita de bolo, abo­lir a cri­a­ti­vi­dade do autor, enfiar todo mundo numa forma. Se […]

Chega de Histórias Machistas

Estamos em pleno século XXI e cer­tas modas pare­cem não desa­pa­re­cer de jeito nenhum, o machismo sendo uma delas. Mesmo na lite­ra­tura, onde supos­ta­mente deve­ria impe­rar um tipo de artista mais crí­tico e mais hábil no manu­seio de abs­tra­tos, o machismo segue dando as car­tas. A Jornada do Herói e o Machismo Uma das for­mas pelas quais ocorre a per­pe­tu­a­ção do machismo na lite­ra­tura é a ado­ção ser­vil da “Jornada do Herói” como um modelo padrão para toda his­tó­ria. Acontece que este é um modelo […]

A Alienação no Processo Criativo

Os auto­res, espe­ci­al­mente os mais jovens, mas não somente eles, cos­tu­mam rea­gir com certa amar­gura quando o tema “ali­e­na­ção” é colo­cado em dis­cus­são. A ideia de que o con­ceito sequer exista ou possa ser apli­cado à lite­ra­tura lhes parece ofen­siva, como se alguns auto­res qui­ses­sem colocar-​se em um pedes­tal moral — o que nunca é sim­pá­tico. Essa rea­ção ins­tin­tiva ao con­ceito de ali­e­na­ção reflete uma difi­cul­dade para refle­tir sobre o pró­prio fazer lite­rá­rio, que é, em grande parte, cau­sada pela gene­ra­li­zada igno­rân­cia daque­les que que­rem escre­ver a […]

Chega uma Hora em que Cansa

Esta semana eu me dei conta, pela pri­meira vez na vida, do quanto estou can­sado de uma série de coi­sas, entre elas de escre­ver. Sim, eu escrevi mais um conto, acho até que ficou bom — bem melhor do que os que eu escre­via na época em que gos­tava de fazer isso — mas a expe­ri­ên­cia não me gra­ti­fi­cou sufi­ci­en­te­mente. Desde que me mudei para a nova casa, tudo me tem sido mais tra­ba­lhoso, o dinheiro anda curto por causa das refor­mas que tenho que fazer, o cami­nho ficou […]

Pense Fora da Caixa e Entre Nessa Caixa Aqui…

O mer­cado edi­to­rial bra­si­leiro se carac­te­riza, desde há muito, pelo seu con­ser­va­do­rismo. Não me refiro aqui que o mer­cado seja avesso ao novo, mas que ele seja fechado a ques­ti­o­na­men­tos. Existe uma estru­tura de poder, e o autor bra­si­leiro, se qui­ser che­gar à noto­ri­e­dade, pre­cisa de abdi­car de liber­da­des que deve­riam ser essen­ci­ais à arte. O esta­blish­ment lite­rá­rio pre­cisa se pro­te­ger de ques­ti­o­na­men­tos, pre­cisa des­qua­li­fi­car quem ques­ti­ona, pre­cisa infan­ti­li­zar o dis­curso des­vi­ante. E como ele não ousa fazer isso pela boca de seus mem­bros mais […]

Textos Apodrecem

Enquanto luto aqui para ten­tar ter­mi­nar o romance “Amores Mortos” (ter­ceira ver­são), recebo algu­mas opi­niões inte­res­san­tes de minhas lei­tu­ras beta. A pri­meira delas, e a que tem me feito mais pen­sar, é que duas das lei­tu­ras pude­ram iden­ti­fi­car, com certa faci­li­dade, a sequên­cia em que as par­tes do texto foram escri­tas. Considerando que todo ele foi escrito em 2010, com algum retra­ba­lho em 2012 e agora a rees­crita do pri­meiro capí­tulo, o inter­valo total entre o texto mais antigo e o mais novo é de […]

Uma Tentativa de Explicar “A Falta do Grande Romance Brasileiro”

Dizem que deu na Folha, mas eu não leio jor­nal mais — então eu só fiquei sabendo atra­vés do blog do Rodrigo Gurgel, o polê­mico crí­tico lite­rá­rio, de quem tenho apren­dido a gos­tar (falo do blog e não do crí­tico, por­que conhe­cer o pri­meiro não equi­vale a conhe­cer o segundo). Para quem não sabe do que estou falando, dou um resumo e deixo o link para quem queira ler o texto inteiro (e eu reco­mendo, pois vale a pena). Gurgel recorda Nélson Ascher e Manuel Bandeira que, em […]