Da Obrigação de Criar Personagens Negros na Literatura

Como não tenho mais participando ativamente dos grupos ditos de “escritores” em redes sociais, não acompanhei de perto a última polêmica que houve, sobre uma suposta obrigação do autor branco escrever bons personagens negros, motivada por mais uma vez que postaram o link de um estudo acadêmico sobre a diversidade. Das trevas do debate, deletado pela moderação somente salvaram-se três prints sintomáticos de uma limitação da literatura do Brasil: o autor brasileiro típico está distante da realidade do país e reproduz isso em sua criação. […]

O Escritor Empresário e o Escritor Poeta

Entrevistado na Bienal do Livro, um autor afirma que, para alcançar o sucesso, o escritor também precisa ser empresário, um empreendedor. Ou seja, decretou a extinção dos poetas. — Alexandre Coslei. A poesia é uma arte em extinção, desde mais ou menos o tempo de Platão, que via em Aristófanes a decadência do teatro grego. Dois mil e quinhentos anos em extinção e ela ainda incomoda o suficiente para que sua extinção tenha de ser decretada pelo menos uma vez em cada geração. Literatura não […]

A Vaidade

O problema do escritor é a vaidade. Existe uma obsessão pelo profissionalismo que se deve principalmente à vaidade: é preciso ser, ou parecer, profissional. Todos querem ser pagos pelo seu "talento" e acreditam na teoria "televangelista" da "semente" e pagam seu "dízimo" para o deus-mercado editorial na esperança de que seu investimento hoje atraia os favores divinos ("sucesso, grana, fama e mulheeeeres"... conforme dizia a canção da Plebe Rude). Isso é uma mudança radical que houve nos últimos 50 anos. Há 100 anos ser conhecido […]

Autores que Não Leem Ensinam o que Não Sabem

Uma das consequências da falta do hábito da leitura entre nossos autores é a falta do domínio pleno da língua portuguesa, cada vez mais tida como disciplina optativa entre os que escrevem o futuro de nossa literatura. O sucesso de autores como Paulo Coelho e Raphael Draccon, que deixam transparecer em seu texto uma imensa ignorância da gramática, da estilística e da tradição de nossa língua serve como poderoso argumento em favor da superfluidade da cultura no idioma pátrio. De repente usar o vocabulário preciso […]

Sue Para Escrever Sua Cota, Seja Como For

Dizer que "os escritores de hoje enfrentam dilemas diferentes dos de antigamente" é uma platitude. Cada época tem seus desafios, gostemos ou não, mas algumas coisas são mesmo novas, outras só parecem. Uma das que me espantam é que tantos autores de hoje se imponham uma cota diária de palavras, como um infeliz sujeito obrigado pelo médico a pagar flexões e puxar ferros para entrar em forma. A ideia de que o autor precisa escrever com frequência e quantidade não é nova, mas a obsessão […]

Precisamos Falar Sobre Reis e Barrigas

Há um espectro que ronda a literatura nacional, desde há algum tempo: o ressentimento de uma classe de autores e críticos contra o maior defeito da literatura nacional, o seu povo. A literatura brasileira é, apesar do que pensem os indivíduos que residem em suas torres de marfim, a literatura de um povo oprimido, uma literatura de resistência. Ela tem de combater a cada dia não somente contra as próprias limitações materiais de um país que ainda é subdesenvolvido, mas também contra um sistema que […]

O Editor Superstar

Esta semana o jornal O Globo publicou matéria sobre Gordon Lish, editor americano que em certa época editou a Esquire. A matéria é extremamente interessante para amadores como eu, mas para profissionais também. Acredito que há muita reflexão produtiva que se pode fazer a partir do conteúdo. A primeira impressão que o texto me deixou foi profundamente negativa, afinal, o tipo de relação entre editor e autor que é defendido por Lish (e pelo autor da reportagem) não me parece nada saudável. Existe uma questão […]

Render-se à Jornada do Herói é Conformar-se

Veja bem. Há uma quantidade limitada de elementos possíveis na ficção. Cabe ao autor utilizar esses elementos de uma forma sábia, para construir uma história legal. Eventualmente você pode até descobrir um elemento novo, mas não veja isso como obrigação. Aqueles que propõem a Jornada do Herói como um paradigma obrigatório estão, porém, muito errados. Comecemos pelo óbvio: impor a Jornada como um método para construção de narrativas significa criar uma receita de bolo, abolir a criatividade do autor, enfiar todo mundo numa forma. Se […]

Chega de Histórias Machistas

Estamos em pleno século XXI e certas modas parecem não desaparecer de jeito nenhum, o machismo sendo uma delas. Mesmo na literatura, onde supostamente deveria imperar um tipo de artista mais crítico e mais hábil no manuseio de abstratos, o machismo segue dando as cartas. A Jornada do Herói e o Machismo Uma das formas pelas quais ocorre a perpetuação do machismo na literatura é a adoção servil da "Jornada do Herói" como um modelo padrão para toda história. Acontece que este é um modelo […]

A Alienação no Processo Criativo

Os autores, especialmente os mais jovens, mas não somente eles, costumam reagir com certa amargura quando o tema "alienação" é colocado em discussão. A ideia de que o conceito sequer exista ou possa ser aplicado à literatura lhes parece ofensiva, como se alguns autores quisessem colocar-se em um pedestal moral -- o que nunca é simpático. Essa reação instintiva ao conceito de alienação reflete uma dificuldade para refletir sobre o próprio fazer literário, que é, em grande parte, causada pela generalizada ignorância daqueles que querem […]

Chega uma Hora em que Cansa

Esta semana eu me dei conta, pela primeira vez na vida, do quanto estou cansado de uma série de coisas, entre elas de escrever. Sim, eu escrevi mais um conto, acho até que ficou bom -- bem melhor do que os que eu escrevia na época em que gostava de fazer isso -- mas a experiência não me gratificou suficientemente. Desde que me mudei para a nova casa, tudo me tem sido mais trabalhoso, o dinheiro anda curto por causa das reformas que tenho que […]

Pense Fora da Caixa e Entre Nessa Caixa Aqui…

O mercado editorial brasileiro se caracteriza, desde há muito, pelo seu conservadorismo. Não me refiro aqui que o mercado seja avesso ao novo, mas que ele seja fechado a questionamentos. Existe uma estrutura de poder, e o autor brasileiro, se quiser chegar à notoriedade, precisa de abdicar de liberdades que deveriam ser essenciais à arte. O establishment literário precisa se proteger de questionamentos, precisa desqualificar quem questiona, precisa infantilizar o discurso desviante. E como ele não ousa fazer isso pela boca de seus membros mais […]