Os Casacos Azuis

A escuridão é um lugar confortável para a minha gente. Estamos acostumados a ela desde há tantos séculos que nem nos lembramos mais; porém; quando a noite é alta, a lua está redonda e uma brisa fria vem cortando; os homens olham para cima com receio e as mulheres, com medo, para os lados. O desconforto de nossa lembrança ainda não foi esquecido, apesar de estarmos aquietados. Achamos graça nesse medo que vemos nos olhos do povo, sinal de uma grandeza perdida. Somos poucos agora […]

Saque em Espécie

O cliente se aproxima do guichê. Um senhor entre cinquenta e sessenta anos de idade presumíveis. Pede o saldo da caderneta de poupança. A jovem caixa pede o cartão, digita alguma coisa no teclado e solicita digitação da senha. O saldo é impresso e o cliente pergunta: — Moça, como faz para eu tirar tudo que eu tenho na minha poupança que eu tenho com a minha mulher? A funcionária, vamos dar-lhe um nome qualquer, um nome simpático, porém, como “Manu”. Ela olhou o saldo […]

Aquele que eu não fui

John me ligou da Austrália através dos oceanos. “Como está?” — ele me perguntou numa voz tão sonolenta quanto a minha. Eu resmunguei que não sabia, e estava tão confuso que não consegui lhe explicar que não o reconhecera, mas que, sim, sabia como estava. Ele riu de mim e começou a metralhar uma história sobre voltar para o Brasil em breve. Então o reconheci. “Caralho! John!” “Não tenho grana para falar durante muito tempo. Passa-me teu email, um celular, qualquer coisa.” “Tá, eu passo.” […]

Dois Viajantes e um Ruído na Floresta

Dois viajantes percorriam uma floresta, cheios de medo dos perigos que lá poderia haver, quando escutaram um ruído bem perto de onde estavam e ficaram em dúvida sobre o que poderia ser. Um deles, que tinha um guarda-chuva, disse: — Oh, não! Vai chover! Ainda bem que eu tenho um guarda-chuva. Mas é uma pena que você não se preveniu e vai se molhar. O segundo viajante, porém, passou a olhar em volta nervosamente: — Que mané chuva, seu bobo! Isso é um rugido de […]

O Escolhido

O Depoimento Deixa eu explicar, senhor delegado, não fiz por maldade não. Eu nem conhecia o garoto pessoalmente, sou novo na cidade, no prédio. Mãe dele eu nunca nem tinha visto passar na escada, porque eu, ela, todo mundo trabalha oito horas por dia, fora condução e almoço na cantina do serviço. Nada pessoal, foi por causa do sono. Acredite, sono. A falta de sono é capaz de levar um sujeito a fazer coisas que nem ele depois acredita, de repente eu que estava possuído, […]

Quando Meus Personagens Se Revoltaram Contra Mim — II

Já lhe contei dias atrás, ou anos, que cada vez é mais difícil asseverar, que fui visitado, em uma noite escura e tempestuosa, por Epidermion, Kindy Káfti, Koilos Kéfalis e Anoitos Kákos, respectivamente o rei e três cidadãos do reino de Agnoias. Quando saíram pela porta; me deixando só com a dor de uma mão ferida, de um chute dado na porta e de um beijo roubado no escuro; senti-me determinado a descobrir o que tinham em mente ao roubarem o pendrive vermelho onde eu […]

Quando Meus Personagens Se Revoltaram Contra Mim

Lembro-me como se fosse há setenta anos, posso jurar. Você acreditaria se lhe dissesse que tudo começou numa noite escura e tempestuosa, como nos filmes de terror barato? Bem, não foi exatamente assim, só parecido. Estava escuro porque algum moleque soltando papagaio causara um curto-circuito na fiação da rua. Era noite, obviamente, mas o máximo de meteorologia que me afligia era uma chuva insistente que chegara no fim da tarde e não pensava em ir embora. Depois de me certificar de que o problema não […]

Protocolos

Não basta anotar o protocolo, conforme aprendi. A primeira lição do curso recebido por todo operador de telemarketing é como pronunciar o próprio nome de maneira ininteligível. — Suporte técnico, ãefoñhonis, bom dia. — Bom dia, er… com quem falo? — ãefoñhonis (anota: “Afonso”) — Bem, o problema é…. — A solução é… — Obrigado. — Anote o protocolo, pf. — Manda — 9458495834 — Anotado. (problema não é resolvido) (liga de novo) — Suporte técnico, Ũealditon, bom dia. — Bom, er… estive ligando mais […]

Quatro Vezes Amor

O rapaz se aproxima de sua amada à moda antiga, apesar do velho tênis e da calça desbotada. Vem com as mãos nos bolsos e fingindo uma timidez fora de moda, parte do ritual. — Amor eu preciso lhe dizer uma coisa. — Sim, querido. Ele se ajoelha como numa ópera bufa e abre uma caixinha revestida de veludo azul. — Quer se casar comigo? A moça pega o objeto e o contempla: — Nossa, querido! Que lindo! Que lindo! Quatro cores! Amarelo, ciano, magenta […]

Silêncio

Evaldo compraria todo o seu dinheiro em silêncio, se houvesse à venda em alguma loja. Costumava dizer aos amigos que no ruído estava a origem de todo o mal que havia no mundo. Eles achavam que era apenas uma frase de efeito, mas era algo que ele dizia para si mesmo com frequência — como, por exemplo, na manhã modorrenta de vinte de junho. Sentiu-se como quem é arrancado do útero do sono. Havia um peso nos olhos e um silvo agressivo insistindo nos ouvidos, […]

Terceira Encruzilhada no Caminho da Esquerda

Texto apresentado ao Desafio Entre Contos “Folclore Brasileiro”. Hoje vocês me dizem que eu estou em segurança e tudo parece ter sido um sonho. Assim me dizem sempre que essas coisas acontecem. Hoje está tranquilo, madrinha, mas não quero visitas, estou doente ainda, quero remédios e não quem me teste a paciência e diga que estou corado e bonito. Para essas coisas tive a minha mãe, que Deus a tenha. Agora quero é a misericórdia de Deus e tentar parar com esses sumiços. Disseram-me que […]

Como um Passarinho

Não pude resistir ao “pequeno apartamento de dois quartos, sem garagem, por apenas R$ 350,00”. Aluguei. Não precisava nem de dois quartos, bastava-me um. Mas não havia aluguel mais baixo na cidade, fazer o que? Algumas novas peças de mobília e lá estava em meu pântano particular. Eu não conhecia quase ninguém na cidade ainda, então ficava andando de lá para cá depois do trabalho enquanto ainda não escurecia, para ver gente, cumprimentar e esticar as pernas duras de ficar sentado o dia todo. Mas […]