Os Casacos Azuis

A escuridão é um lugar confortável para a minha gente. Estamos acostumados a ela desde há tantos séculos que nem nos lembramos mais; porém; quando a noite é alta, a lua está redonda e uma brisa fria vem cortando; os homens olham para cima com receio e as mulheres, com medo, para os lados. O desconforto de nossa lembrança ainda não foi esquecido, apesar de estarmos aquietados. Achamos graça nesse medo que vemos nos olhos do povo, sinal de uma grandeza perdida. Somos poucos agora […]

Pegadas no Pó

Original de Clark Ashton-Smith. Traduzido a partir da versão online em Eldritch Dark. …Os antigos magos o conheceram, e lhe deram o nome de Quachil Uttaus. Rara­mente se revela, pois reside além do mais externo círculo, no escuro limbo do tempo e espaço além das esferas. Ter­rí­vel é a pala­vra que o chama, mas tal pala­vra per­ma­­nece impro­­nun­ciada, exceto em pen­sa­men­tos, pois Quachil Uttaus é a última cor­rup­­ção e o ins­­tante de sua vinda é como a pas­sa­gem de muitas eras, e nem a carne […]

Resenha: Vulthoom e o Ciclo Marciano de Clark Ashton-Smith (Sem Spoilers)

Clark Ashton-Smith foi um poeta e autor de ficção fantástica americano, amigo e correspondente de H. P. Lovecraft e de uma penca de outros autores famosos. Apesar de seu inegável talento, passou a maior parte de sua vida na pequena cidade de Auburn, fazendo trabalhos braçais para sobreviver. Morreu em 1961, sem filhos. Sobre sua obra, já escrevi um artigo que seria bom ler antes deste. Vulthoom pertence ao curto ciclo das histórias que Ashton-Smith ambientou em um Marte fantástico que deve muito à concepção […]

O Demônio da Flor

A vegetação do planeta Lophai não é como as plantas e flores da Terra, que crescem pacíficas sob um sol solitário. Enrolando e desenrolando em manhãs duplas, crescendo tumultuosamente sob vastos sóis de verde jade e alaranjado rubi, vibrando se agitando em ricos ocasos, em noites toldadas por auroras; elas parecem campos de serpentes enraizadas que dançam eternamente para uma música sobrenatural.[…]

Impressões Deixadas por “Stalker”, de Andrei Tarkovsky

Ontem, já no comecinho da madrugada, terminei de assistir, via YouTube, o filme “Stalker”, dirigido Andrei Tarkovsky, filmado em 1979, a partir de roteiro escrito pelo próprio diretor, baseado no romance “Piquenique na Estrada”, dos irmãos Bóris e Arcádio Strugatsky, gênios da ficção científica soviética. Romance este que eu já havia comentado elogiosamente aqui, não faz muito tempo.

Contato Mais ou Menos Imediato

Apareceu de repente um barui estrãe no motor do caminhão, chamano a atenção do Remundo, que cochilava no banco de carona pro Jailso dirigir. Tava de madrugadinha e era lua minguante, num dava para ver nada no escuro daquele fim de mundo. — Jajá, para o caminhão. Encostar ali era perigoso: ês tava no meio do nada, estradinha de terra. Canavial dum lado e dotro. Não tinha nenhuma luz de cidade apareceno no céu. — O que foi, Mundim? — Um barui no motor. — […]

Tradução: A Casa no Limiar

Esta é uma tradução para o português o romance “The House on the Borderland”, publicado em 1907 pelo inglês William Hope Hodgson. Trata-se de uma obra obscura da literatura gótica britânica (a meu ver imerecidamente esquecida), que está de certa forma relacionada a dois outros textos do mesmo autor, merecedores ambos de mérito literário: “The Night Land” (A Terra Noturna) e “The Boats of the Glen Carrig” (Os Botes do Glen Carrig) — uma obra de ficção científica e um romance de capa e espada […]

Pela Eletricidade, Por Amor

Adormeci na frente do computador, sem terminar a monografia. Com o prazo quase esgotado, passara mais de quatro horas digitando como louco a partir de notas desconexas que reunira nos meses de pesquisa, mas em vão. Tanto esforço que minha mente começou a sair de controle e acabei caindo de cara no teclado no meio da madrugada, apesar de todo o café. Não sei quanto tempo fiquei apagado. Podem ter sido segundos ou horas, porque não estava prestando atenção ao relógio quando dormi. Sei que […]

O Louco e Seu Deus

O louco dançava à beira do rochedo, desafiando as ondas com seus versos: — Vamos para o céu, ou talvez… pulem, pulem! Andem logo, ele espera. Vocês não tem escolha! Pulem, pulem para os braços do dragão que esconde suas asas e seus dentes na maciez das ondas. Os homens continuavam construindo o barco sobre o gramado. Enquanto as mulheres colhiam frutas e preparavam carne-seca — provisões para a viagem. O louco observava e cantava seus versos desafinados: — Vocês não tem escolha, as velas serão rasgadas […]

Nas Alturas

“Não há uma história para contar” — disse o homem depois de olhar nos olhos os amigos que o rodeavam. “Lá em cima é frio e solitário, não há nada para ver e aquele vento que vem não te traz nenhuma sensação além do desespero. Não há nenhuma sensação mística, nenhuma experiência espiritual.” E desceu, ainda com as botinas molhadas de orvalho, carregando nas costas a enorme mochila de acampamento. Os demais permaneceram ao pé do monte observando o acúmulo de nuvens brancas em torno […]

Na Descida da Serra da Vileta

Era alta noite e eu estava na estrada, ouvindo uma rádio que oscilava e chiava de interferências, enquanto o carro escavava um túnel na escuridão da serra. Meus pés doíam de acelerar há tantas horas, os pneus roncavam na irregularidade do asfalto e eu me sentia profundamente só. De repente uma estação estranha interferiu com a rádio comercial: um som eletrônico longo e agudo irritou-me o suficiente para que levasse a mão ao controle para desligar. Tomei um choque ao fazê-lo e levei a mão […]

Murdinta Robotoj

Estamos em um futuro não muito distante (dez, quinze anos) em uma metrópole sul-americana qualquer. Temos um personagem, vamos chamá-lo por num nome simples, bonito e português: Téo. Nosso personagem trabalha para um serviço secreto da polícia, a que, por falta de nome melhor, chamaremos simplesmente de “P-2”. Sua atual missão é localizar e eliminar quem for o responsável por uma série de brutais assassinatos de empresários e políticos corruptíssimos, mas fedidos de tão ricos (a “P-2” não prende, ela é a “briga de gangues” […]