Zumbis e Vampiros Mordendo-​se

Ao con­trá­rio do que possa pare­cer, esta pos­ta­gem não foi, de nenhuma maneira, ins­pi­rada pelo conto “O Ataque dos Zumpiros”, de Alec Silva, mas escrita em 29 de março de 2016 como res­posta a uma per­gunta do Quora.com Se um vam­piro é mor­dido por um zumbi, nada de real­mente bom pode acon­te­cer. Mas o que real­mente acon­tece vai depen­der de que tipo de vam­piro fala­mos, e de que tipo de zumbi. Comecemos, então, por defi­nir ambos. A) O Vampiro Vampiro da mito­lo­gia bal­câ­nica e eslava […]

Ora, Pombas!

A pomba pou­sou no teto do case­bre que o artista ten­tava dese­nhar. Ele agi­tou os bra­ços na dire­ção dela, como se qui­sesse estapeá-​la, mas em vão, e logo se con­for­mou que não con­se­gui­ria proi­bir pás­saro nenhum de pou­sar nos tetos para des­can­sar de suas aven­tu­ras. Então pegou e comeu uma das bata­tas cozi­das que ainda res­ta­vam no prato do almoço que mal tocara. Quando olhou de volta, havia outra pomba pou­sada ao lado da outra e então dese­jou apa­gar toda pomba de cada teto. Começou […]

“Riding the Lightning”

A pri­meira impres­são de que eu estava no começo de algo estra­nho foi quando ouvi um tinir metá­lico vaga­mente rit­mado. Logo acom­pa­nhado por vibra­ções gra­ves e um zunido agudo que ia e vinha, numa osci­la­ção que me pare­ceu fami­liar. Eu cami­nhava por uma rua estra­nha, muito ampla, com uma linha fér­rea à minha esquerda e uma linha de edi­fí­cios que, parede a parede, mura­vam o hori­zonte. As pes­soas ao meu redor se ves­tiam para um frio mode­rado e não pare­ciam ouvir as mes­mas sen­sa­ções musi­cais […]

O Ano do Gato

Minha última par­ti­ci­pa­ção no desa­fio EntreContos (aqui repos­tado com algu­mas cor­re­ções de erros per­ce­bi­dos após a ins­cri­ção). O tema do mês era “his­tó­rias base­a­das em música” e eu o ata­quei uti­li­zando como base para um conto a letra de “Year of the Cat”, sucesso de Al Stewart em 1975. Fiz isso por­que a letra, em si, já con­ti­nha o embrião de uma his­tó­ria. Não é um texto de que eu par­ti­cu­lar­mente me orgu­lhe (e eu nunca o anto­lo­gi­za­rei por­que tenho sérias dúvi­das sobre o sta­tus […]

Por Causa do Mau Tempo

Fechou-​se o céu e eu me sen­tei para lem­brar, ouvindo a água calma pipo­cando impul­sos gros­sos no papel surdo que esqueci debaixo da goteira. Em algum lugar Jacinto se des­pede, insí­pido como con­se­gue, e Fabiana está em casa reto­cando unhas e ator­men­tando os pelos. Todos espe­ram que esteja um dia lindo quando o sol can­tar nos galhos e as asas dos anji­nhos rufla­rem pela igreja, assus­ta­das com o arras­tar arrí­ti­mico do zelo apres­sado. Amanhã se casa­rão depois de dar-​se as mãos por tanto tempo que […]

Injustiça Poética

Escutei as sire­nes logo abaixo da minha janela e me levan­tei para ver. Continuava em silên­cio a casa do outro lado da rua. Tinha estado assim durante os últi­mos doze minu­tos, con­ta­dos no reló­gio. O poli­cial apeou da via­tura e foi até a porta, que dava dire­ta­mente sobre a cal­çada. Bateu sem edu­ca­ção, con­forme a situ­a­ção exi­gia. Ninguém res­pon­deu, as luzes con­ti­nu­a­ram apa­ga­das. — Abra essa porta, ou vamos soprar, soprar… … — O que acon­te­ceu com você, que­rida? Ela não res­pon­dia. Timóteo estapeou-​lhe o […]

Desencontro Marcado

Um dos mais anti­gos con­tos meus, datado de 2000 ou 2001 e recu­pe­rado de um arquivo per­dido numa pasta esque­cida de um HD que eu nem sabia que tinha mais. Um conto escrito para uma pes­soa que nunca mais verei (a moça da banca de jor­nais é alguém que conheci, há muito tempo, em uma praça que não existe mais, em São João Nepomuceno). Fiz as malas à noite, enquanto todos dor­miam, para a defi­ni­tiva volta para casa. A noite de sexta não fora como […]

Branca de Neve no Século XLIV

Meu nome será “Leon”. Não lhe darei outro. Mais deta­lhes não impor­tam. O que já vou lhe con­tar será sufi­ci­ente para me cau­sar pro­ble­mas demais na vida. De qual­quer forma, não é muito impor­tante saber quem eu sou. Saiba ape­nas que eu sou um estu­di­oso de lín­guas anti­gas. Esta espe­ci­a­li­dade me levou a tra­ba­lhar no Projeto. Precisavam de alguém que fosse capaz de inte­ra­gir com os rea­ni­ma­dos. Formei-​me em Línguas Mortas na Universidade #2, no Continente Ocidental. É uma pro­fis­são sem pres­tí­gio. Línguas mor­tas não […]

Nova Série: O Preço da Passagem (Introdução e Índice)

Em fins de 2008 com­par­ti­lhei na comu­ni­dade lite­rá­ria “Novos Escritores do Brasil” um texto curto inti­tu­lado “Ticket to Ride” (infe­liz­mente per­dido) no qual eu desen­vol­via uma curta his­tó­ria sobre dois (ou qua­tro) sub­ver­si­vos per­se­gui­dos pela polí­cia nos tem­pos do regime mili­tar. Este texto, após uma extensa revi­são, aca­bou saindo na cole­tâ­nea “Sinistro”, da Editora Multifoco, em uma ver­são con­den­sada que nunca me satis­fez ple­na­mente (nada por culpa da edi­tora, ape­nas per­cebi tar­di­a­mente que o conto pre­ci­sava de um desen­vol­vi­mento mais com­pleto, e que a ver­são con­den­sada que eu mesmo fizera não con­se­guia ter a força necessária).A con­den­sa­ção que fiz, a pedido do +Frodo Oliveira, edi­tor da cole­tâ­nea, apro­vei­tava o des­fe­cho que eu escre­vera para uma ver­são ante­rior do conto, e tinha cerca de 30% de texto a menos. Na época eu achei que era uma boa opção, pois eu tinha medo que o texto ficasse ile­gí­vel de tão grande (hoje em dia já tem quem fale em “lite­ra­tura no twitter.com”). Hoje mudei de ideia, e por isso aqui estou res­tau­rando a ver­são ori­gi­nal, imensa e mais complexa.Sobre esta com­ple­xi­dade, um dado cha­mará a aten­ção do lei­tor: exis­tem dois des­fe­chos den­tro da his­tó­ria, um pas­sado e um pre­sente, e duas téc­ni­cas nar­ra­ti­vas que se suce­dem. Talvez este seja o meu conto mais ousado em ter­mos de con­cep­ção estru­tu­ral. Tão ousado que dei­xou de ser conto e virou uma nove­leta (termo que eu não conhe­cia em 2009, época em que o publi­quei na dita cole­tâ­nea).Parte 1Parte 2Parte 3

Dolores, com Pudores

Vladimir con­tem­plou um raio de sol nadando no copo de cer­veja e sen­tiu a leve pon­tada de um pequeno espi­nho no peito, que o fez tro­pe­çar nas bati­das como se o reló­gio his­tó­rico tivesse uma engre­na­gem empe­nada. Era tarde já, embora ainda nem fos­sem sete da noite. Tarde para sonhar com Dolores. Então ouviu a voz dela no rasgo de um sor­riso e teve von­tade de pagar conta e sumir, ou ir embora dei­xando tudo na pen­dura, pondo pelo menos uma rua entre ele, Dolores […]

Tempo de Semear, Tempo de Colher

Estas mon­ta­nhas têm uma his­tó­ria, desde os tem­pos dos índios, desde antes do pri­meiro por­tu­guês cor­tar a pri­meira árvore. Eles vie­ram, vive­ram, mor­re­ram, viram o mal que havia e se foram, fica­ram ape­nas alguns pobres puris iso­la­dos, ento­ca­dos quase como bichos. Vieram os embo­a­bas a cami­nho das minas, ten­ta­ram fixar-​se aqui, mas não ficou nenhuma vila, quei­ma­ram todas as casas, sumi­ram no tempo como se nunca tives­sem pou­sado, e a estrada real pas­sou ao largo.