19 Microcontos de Cortar o Coração

Alexandre não consegue abandonar seu filho, apesar de toda a desobediência do rapaz, depois dos anos de vício, da separação forçada e da insistência dele de chamar diversos exorcistas.

Beatriz deixou há tanto tempo de escutar as colegas de trabalho que ainda não sabe que nenhuma delas lhe dirige a palavra mais.

Na quinta-feira da vida Carlos perdeu os cabelos e a dignidade nas mãos de uma denúncia de má conduta profissional. Ao retirar sua vida em uma caixa, encontrou o inútil arrependimento a lhe pedir desculpas, dizer que fora um engano. Aceitou as desculpas, mergulhou no sol candente do entardecer que prometia chuva e foi sonhar com outra cidade e outra placa para pôr em sua mesa.

Débora descobriu o gatinho enrolado em um canto da área de serviço, quase já não ronronando mais. Ele nem se importou de arranhá-la quando ela o pegou, não miou com raiva como costumava. Nem conseguiu respirar até o veterinário, assim são os gatos.

Elisa ouviu cada palavra, arrependida de perguntar. Eduardo nunca falava, sempre se escondia atrás de cortinas de desculpas, até o assunto esfriar na mesa, mas, naquele dia, quando ela finalmente se fez ouvir, com muito esforço, ele arregalou os olhos, arrastou a cadeira para trás, desastrado, caiu de costas, levantou-se a catar cavacos e saiu a correr como quem ouviu um fantasma.

As piores expectativas de Fernanda se realizaram. Olhou através da janela da clínica, com vontade de pular e morrer, ou de voar até um canto oculto do mundo onde estaria a anestesia necessária. A ciência exatamente lhe provava que Flávio não era, mesmo, o pai de seu filho. A tragédia disto poderia ter sido menor, talvez até evitada, se ela fosse a mãe.

Geórgia veio de um país distante e cheio de sonhos. Queria ter sido diferente, viver o calor e uma cor de um modo que lá seria impossível. Vivia em paz até demais, mas Gustavo não era desses em que se pode confiar para compartilhar uma vida longa.

Quando Hélio finalmente quitou o financiamento da casa, com o resto do valor da rescisão do contrato de trabalho, recebeu a notificação da vara de família e o resultado do exame de próstata.

Quando Inácia ligou de Brasília dizendo que ia se casar, Ígor lhe desejou felicidades, sem pestanejar. Chorava de indiferença, era isso. Alegria pela felicidade de quem passou. Por que ela tinha de ligar? Que espírito de porco a levava a futucar feridas esquecidas? Um dia, ele pensou, ela descobrirá que não se pode confiar que um Hícaro possa dar um amor verdadeiro escondendo-se atrás de um agá que ninguém sabe para quê existe. Inácia desapareceu no paraíso de sua vida e Ígor se mudou para uma quadra mais tranquila, nos braços de Vitória, e ambos desencontraram-se dos pares preparados pelo horóscopo.

Jucimar tira fotos sensuais em sua casa que o marido mobiliou ricamente no aniversário de casamento, um ano antes de ser descoberto com uma amante e uma filha em outra cidade. Os pais não permitem o divórcio e Deus não permite o adultério.

Kelly comprava por impulso, acreditando que o amor lhe valeria um cartão internacional ilimitado e por toda a vida, nunca imaginou que o tédio cancelaria sua análise de crédito.

Esperava a vez no banco quando Luciana entrou. Lucas a olhou com cuidado de não ruborizarem-se e ela foi esperar em outra fila. Muitos anos antes tinham tentado, as engrenagens de suas vidas nunca coincidiram, porém. Ao vê-la no corpo de uma mulher de quarenta e dois anos, Lucas se assustou com o tempo. Tinha espelho em casa, claro, mas só entendeu o que ele mostrava quando viu o acontecido a alguém que conhecia. Passou as mãos pela cabeça e sentiu falta de algo, ali e no coração. Baixou a cabeça para esconder um rubor momentâneo e apertou o dedo anelar, incomodado com a marca de uma aliança posta há meses, em um momento de conformismo, mas quando levantou o rosto de novo ela já saía, e algo dourado não brilhava em sua mão esquerda.

Mesmo depois do último freguês do dia, Maria demorou para baixar a porta da lanchonete. Sempre esperava que alguém entrasse e se interessasse em acompanhá-la até em casa. Não naquela noite, pela trecentésima vez no ano. Então colocou os últimos salgadinhos numa bolsa térmica e saiu. A cidadezinha estava quieta e só os cães da praça a conheciam. Eles sabiam que ela era boa e confiável, porque lhes dava sempre um salgado dos mais murchos antes de ir embora.

Nélson ouviu a história inteira, sem interromper a mulher. Não acreditava, nunca, mas aceitava, sempre. Era outra vez obrigado a mudar, para proteger as filhas e a testa, mesmo sabendo que era inútil nas palavras de Gracinha, que nunca o acompanhava e que sempre se sentia abandonada no meio do caminho.

Todas as vezes em que se sentiu só, Ofélia ofertou a Santo Antônio simpatias e velas. Tantas que queimariam até a altura do céu, era assim antigamente. Duas décadas iluminando o oratório lhe valeram finalmente uma viuvez depois de onze meses de casada e finalmente pôde vestir luto orgulhosa.

Pedro sente ciúmes quando a mulher, geralmente aos sábados pela manhã, viaja até um subúrbio distante para visitar parentes. Ele sabe que ela vai se encontrar com um amigo, em um motel discreto. Ângela não o faz por crueldade, mas por amor, pois não consegue se imaginar abandonando o marido e destruindo a família, apesar dos seis anos passados desde que ele ficou impotente.

Todas as colegas do escritório achavam que a agressividade misógina de Ricardo parecia um tanto exagerada, mas nenhuma estava preparada para descobrir que ele era Thauanne nas sextas-feiras e sábados.

Sílvio mantém há três anos o hábito de viajar a outra cidade e contratar uma prostituta para tomarem sorvete juntos na praça. Depois ele posta as fotos nas redes sociais e volta para casa sozinho.

Téo se casou muito cedo e muito rápido, com a ingenuidade de quem acredita em inocência. Divorciou-se tarde, com algum esforço e prejuízo, olhou para trás, tantos domingos perdidos, duas vidas estragadas e a certeza de que não conseguiria alcançar a estrela que sonhava quando era menino.

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