Ora, Pombas!

A pomba pousou no teto do casebre que o artista tentava desenhar. Ele agitou os braços na direção dela, como se quisesse estapeá-la, mas em vão, e logo se conformou que não conseguiria proibir pássaro nenhum de pousar nos tetos para descansar de suas aventuras. Então pegou e comeu uma das batatas cozidas que ainda restavam no prato do almoço que mal tocara. Quando olhou de volta, havia outra pomba pousada ao lado da outra e então desejou apagar toda pomba de cada teto. Começou […]

Técnicas Esquecidas de Escrita

> Em Homenagem a Sérgio Ferrari, do blog [Astromiau](http://astromiau.blogspot.com.br/2014/08/tecnicas-esquecidas-de-escrita.html). ## Dadaísmo Liquefeito Se o romeno Tristan Tzara recortava palavras do jornal para sorteá-las aleatoriamente e assim produzir poesia, o mineiro Walito Girão batia páginas de diários em um liquidificador, bem rapidamente, e depois despejava o emaranhado sobre uma cartolina. Tinha uma grande vantagem sobre o método dadaísta de Tzara, pois não apenas permitia descobrir inusitadas relações entre palavras, como também criava as mais estranhas relações entre letras e sílabas. A obra do extraordinário poeta ficou […]

À Janela

De minha janela vejo, numa rua do morro em frente, uma moça que desce pela calçada. A distância não me permite conhecê-la, apenas vejo que não é nem muito magra e nem muito alta, que seus cabelos caem pelas costas e que é dessa cor mestiça indefinida e bela. Trajando uma blusa branca do tipo mais usado pelas moças comuns e uma blusa preta de mangas curtas decotada nas costas e – suponho – presa à frente por um lacinho de cordão.[…]

Por Causa do Mau Tempo

Fechou-se o céu e eu me sentei para lembrar, ouvindo a água calma pipocando impulsos grossos no papel surdo que esqueci debaixo da goteira. Em algum lugar Jacinto se despede, insípido como consegue, e Fabiana está em casa retocando unhas e atormentando os pelos. Todos esperam que esteja um dia lindo quando o sol cantar nos galhos e as asas dos anjinhos ruflarem pela igreja, assustadas com o arrastar arrítimico do zelo apressado. Amanhã se casarão depois de dar-se as mãos por tanto tempo que […]

Celebridade

Na “praça de alimentação” de um grande shopping em uma cidade razoavelmente grande as pessoas, de vários tamanhos e cores, se amontoam em torno de mesas e competem pela atenção dos garçons. Termino de comer um sanduíche, sem me sentar e vou saindo daquela aglomeração opressiva quando percebo um diálogo divertido acontecendo numa das mesas. Aparentemente uma moça pedira licença a um desconhecido para se sentar em sua mesa, e ele aproveitara a oportunidade para apresentar-se e tentar alguma coisa.

Sonhos Estranhos

Esta noite sonhei com o meu melhor amigo. Não, não foi a primeira vez, apenas foi um sonho estranho o suficiente para merecer que eu o lembrasse. Um dia imagino que um semiólogo ou crítico queimará pestanas tentando decifrar-me a partir de textos como esse, então escrevo para dar-lhe trabalho. Ou para apenas me divertir lembrando.Estávamos em uma fábrica, uma fábrica que estava prestes a fechar, mas os trabalhadores não sabiam disso. O ritmo de produção era tão frenético como sempre, os contramestres andavam de um lado a outro pondo na linha quem estivesse morcegando e caminhões chegavam e saíam trazendo ou levando matéria prima e mercadorias. Então, subitamente o Kid Abelha apareceu, com um palco montado sobre uma estrutura de aço, talvez um guindaste, e tocou os operários um rock denúncia que tinha uma letra mais ou menos assim:Vocês que continuam

Janaína e Miguelito

O ganso grasnou na neblina leitosa e Janaína chegou à janela para ver os raios infantis de sol nas teias de aranha que punham um véu nas folhagens úmidas, o orvalho parecia um salpico de perolazinhas: não havia maior troféu no mundo que estar viva e ver aquilo! Dona Gertrudes trouxe uma bandeja de torradas com manteiga, café de rapadura e queijo. Tudo cheiroso como na infância soterrada pelo tempo. Há momentos na vida que parecem durar eternidades, mesmo sendo poucas semanas. E Janaína ouvia […]

Contato Mais ou Menos Imediato

Apareceu de repente um barui estrãe no motor do caminhão, chamano a atenção do Remundo, que cochilava no banco de carona pro Jailso dirigir. Tava de madrugadinha e era lua minguante, num dava para ver nada no escuro daquele fim de mundo. — Jajá, para o caminhão. Encostar ali era perigoso: ês tava no meio do nada, estradinha de terra. Canavial dum lado e dotro. Não tinha nenhuma luz de cidade apareceno no céu. — O que foi, Mundim? — Um barui no motor. — […]

Uma Noite em 1993

Era 1993 e eu estava voltando da faculdade, tarde da noite. Havia um burburinho de flamenguistas em um bar assistindo Boca x Flamengo. Os argentinos ganhavam por 1 x 0. Aproximei-me receoso para ver o placar e justo quando cheguei os argentinos marcaram. Gritei Goooooooooooooool e de repente me vi cercado de olhares ferozes. Algumas pessoas se levantavam da cadeira. Sebo nas canelas. Mas era difícil correr gritando— Felizmente sobrevivi para contar a história, e sobrevivi feliz!

Você Pensa Demais?

Tudo começou inocentemente. Comecei a pensar quando frequentava certas festas, de vez em quando, como uma maneira de me enturmar. Inevitavelmente, porém, um pensamento levava a outro e não demorou que eu me tornasse mais do que um pensador social. Comecei a pensar sozinho — “para relaxar”, conforme acreditava, mas eu sabia que isso não era verdade. Pensar se tornava cada vez mais importante para mim, até que eu comecei a pensar o tempo todo. Eu comecei a pensar enquanto trabalhava. Eu sabia que pensar […]

Pensando o Futuro

Dois escribas, preocupados com o futuro, discutiam à sombra de um juncal, à beira do Rio Nilo: — Imhotep, tu que és tão sábio, diga-me: Crês que um dia a arte dos hieróglifos terá sido abandonada? — Merhemptah, querido, temo que sim. Ela está a se perder: não vês que os sacerdotes de classes inferiores já os abreviam e corrompem, que já não se importam mais como antes com a exatidão da semântica, preferindo recorrer aos símbolos fonêmicos? Oh, temo que um dia a expressividade dos hieróglifos […]