Quando Meus Personagens Se Revoltaram Contra Mim

Lembro-me como se fosse há setenta anos, posso jurar. Você acreditaria se lhe dissesse que tudo começou numa noite escura e tempestuosa, como nos filmes de terror barato? Bem, não foi exatamente assim, só parecido. Estava escuro porque algum moleque soltando papagaio causara um curto-circuito na fiação da rua. Era noite, obviamente, mas o máximo de meteorologia que me afligia era uma chuva insistente que chegara no fim da tarde e não pensava em ir embora. Depois de me certificar de que o problema não […]

Há uma Gota de Lágrima em Certas Piadas

Esta semana o humorista Sérgio Mallandro foi ao programa “The Noite”, de Danilo Gentilli, e deu uma das mais desconcertantes entrevistas da história da televisão brasileira. Antes de comentar, gostaria que você assistisse, para que eu não estrague a sua experiência com spoilers: O poeta é um fingidor Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. — Fernando Pessoa. Ao assistir a entrevista, especialmente após o seu surpreendente final, fui tomado por uma melancolia inesperada, em vez de […]

Chega de Histórias Machistas

Estamos em pleno século XXI e certas modas parecem não desaparecer de jeito nenhum, o machismo sendo uma delas. Mesmo na literatura, onde supostamente deveria imperar um tipo de artista mais crítico e mais hábil no manuseio de abstratos, o machismo segue dando as cartas. A Jornada do Herói e o Machismo Uma das formas pelas quais ocorre a perpetuação do machismo na literatura é a adoção servil da “Jornada do Herói” como um modelo padrão para toda história. Acontece que este é um modelo […]

Nando Moura e Apeles

Toda vez que assisto um vídeo do Nando Moura eu me lembro da parábola de Apeles e do sapateiro. Moura é um músico que gosta de mencionar um extenso currículo musical para embasar suas críticas ao funk, ao sertanejo e ao black metal; mas também se mete a falar de filosofia, que confessadamente aprendeu com Olavo de Carvalho, política e até padrões de tomadas. Suas críticas musicais são bastante justas — ainda que sejam mais ou menos o que qualquer bípede implume dotado de telencéfalo […]

O Nascimento de Filipe C. Pinto

Tudo começou nos tempos do Orkut. Eu já havia utilizado alguns perfis falsos (“fakes”) para postar naquela plataforma algum conteúdo mais polêmico. Alguns desses perfis eram verdadeiramente lendários, como o “Sumo Sacerdote da Silva”, suposto líder da “Igreja Orkutista da Salvação”, e a depravada “Sofista Loura” (uma alusão a Sophia Loren), que publicou na “Novos Escritores do Brasil” um texto escatológico produzido a partir do [Bonsai Story Generator](http://www.critters.org/bonsai). Filipe C. Pinto foi o ponto culminante das minhas trollagens orkutianas. Percebendo que havia certa resistência à […]

A Fila Não Incomoda

“A Fila Não Incomoda”: Um Manifesto Contra a Jornada do Herói e em Favor do Direito de Fazer Tudo Errado foi uma série de artigos que escrevi entre maio e junho de 2014, baseada em minhas leituras de alguns artigos críticos do conceito do monomito de Joseph Campbell. Estes artigos foram consolidados neste texto único, divido em partes usando a ferramenta do WordPress que eu só descobri hoje. Originalmente foram oito partes, mas eu acrescentei uma nona, e também uma conclusão e uma bibliografia. Os […]

Façamos a Literatura Feia

Em um mundo literário no qual o meu modo de pensar é visto como um desvio, uma falta de educação, é reconfortante, de quando em vez, ler alguém que também não se conforma com as nuvens róseas que pretendem predominar na literatura. Gustavo Czekster lavou a minha alma esta semana ao publicar no LiteraTortura [um artigo devastadoramente bom]) que expressa, melhor do que eu próprio o faria, aquilo que penso sobre literatura. E havia tanto tempo que não lia nada assim, que não me deparava […]

O Terceiro Episódio de Vathek, a Fanfic de Ashton-Smith

Foi através da mera citação deste título intrigante que eu fiquei sabendo da existência de Clark Ashton-Smith e de sua relação com H. P. Lovecraft. Na época eu estava lendo vorazmente todos os textos do cânone lovecraftiano e a sua relação com Ashton-Smith me chamou a atenção. Infelizmente, porém, por ser um texto longo e de linguagem rebuscada, demorei muito a empreender sua leitura. Quando terminei, passei dias estupefacto. Em algum momento eu devo publicar neste blogue uma análise da sexualidade mórbida que transpira das […]

Apaixonei-me pela Vilã, e Agora?

Tenho uma relação de amor e de respeito com os meus personagens. Antes que você, leitor, me elogie por tal postura, devo confessar que isso é uma maldição nos dias de hoje. O público não quer, de fato, personagens respeitáveis, mas anti-heróis. Heróis não são mais críveis, ninguém mais leva a sério quem se move por um ideal. E por causa disso a relação de respeito que tenho por meus personagens, especialmente os que se parecem demais comigo, é um fator de descrédito da minha […]

Dolores, com Pudores

Vladimir contemplou um raio de sol nadando no copo de cerveja e sentiu a leve pontada de um pequeno espinho no peito, que o fez tropeçar nas batidas como se o relógio histórico tivesse uma engrenagem empenada. Era tarde já, embora ainda nem fossem sete da noite. Tarde para sonhar com Dolores. Então ouviu a voz dela no rasgo de um sorriso e teve vontade de pagar conta e sumir, ou ir embora deixando tudo na pendura, pondo pelo menos uma rua entre ele, Dolores […]

Instituições Policiais na Província de Minas Gerais no Segundo Império

O amigo leitor que se pergunta o porquê dessa postagem saiba que se trata de uma descoberta notável, que me salvou do ostracismo um dos melhores contos (quase uma noveleta) que eu jamais escrevi. Terminada a história, maravilhosamente ambientada nos “sertões do leste” de Minas Gerais, em um momento indefinido do Segundo Império (vários elementos na história indicam que se trata de um contexto pós-regencial), eis que me dei conta de um imperdoável e imenso anacronismo: o desfecho da história só fazia sentido mediante a […]

Celebridade

Na “praça de alimentação” de um grande shopping em uma cidade razoavelmente grande as pessoas, de vários tamanhos e cores, se amontoam em torno de mesas e competem pela atenção dos garçons. Termino de comer um sanduíche, sem me sentar e vou saindo daquela aglomeração opressiva quando percebo um diálogo divertido acontecendo numa das mesas. Aparentemente uma moça pedira licença a um desconhecido para se sentar em sua mesa, e ele aproveitara a oportunidade para apresentar-se e tentar alguma coisa.