Técnicas Esquecidas de Escrita

> Em Homenagem a Sérgio Ferrari, do blog [Astromiau](http://astromiau.blogspot.com.br/2014/08/tecnicas-esquecidas-de-escrita.html).

## Dadaísmo Liquefeito

Se o romeno Tristan Tzara recortava palavras do jornal para sorteá-las aleatoriamente e assim produzir poesia, o mineiro Walito Girão batia páginas de diários em um liquidificador, bem rapidamente, e depois despejava o emaranhado sobre uma cartolina. Tinha uma grande vantagem sobre o método dadaísta de Tzara, pois não apenas permitia descobrir inusitadas relações entre palavras, como também criava as mais estranhas relações entre letras e sílabas.

A obra do extraordinário poeta ficou desacreditada depois de sua condução ao sanatório público, em Barbacena, em 1959, após ter dado de beber a umas senhoras o que ele chamou de “vitamina do espírito”, que nada mais era do que a sua poesia dissolvida em leite. Para grande escândalo da sociedade barbacenense, apurou-se que as obras utilizadas nesse espermimento (sic) foram revistinhas de Carlos Zéfiro.

## A Mão Dormente da Escuridão

Ursolino C. Gaio, de Juiz de Fora, MG, era um engraxate pobre e analfabeto, ainda adolescente, quando se matriculou no Mobral, em 1976. Até hoje se orgulha de ter sido o único brasileiro alfabetizado pelo dito programa governamental. Na época em que ainda mal aprender a ler, fascinou-se pela ficção científica, ou melhor, pelas capas dos livros de ficção científica que via nas bancas e livrarias da cidade. Um belo dia, subindo a Rua Halfeld em direção ao trabalho, teve de parar por mais de vinte minutos contemplando a capa de “A Mão Esquerda da Escuridão”, de Ursula K. Le Guin. Não pode ler o livro, mas o título e a bizarra figura da capa o fizeram perder o juízo durante meses.

Ursolino desenvolveu uma técnica que consistia em sentar-se sobre a mão esquerda até ela ficar meio dormente e depois introduzi-la entre as cobertas, onde estava a pena e caderno. Escrevia poemas eróticos evocando seres abissais e andróginos aliens humanóides, dando de si em cada criação.

Apesar da interrupção representada pela interferência de sua mãe, quando o surpreendeu em pleno ato criativo, Ursolino voltou a praticar sua arte quando, já adulto, passou a viver sozinho, muito sozinho. Atualmente Ursolino descobriu a Parada Gay de Juiz de Fora, onde encontrou várias figuras parecidas com a capa do livro e pôde finalmente viver sua paixão juvenil.

Desde então ele tem produzido pouca poesia, porque se afastou da metafora.

## A Técnica Infernal

João Constantino, de Leopoldina, Minas Gerais, tentou o suicídio várias vezes, por diversos métodos, sempre sobrevivendo. Cada vez que o reanimavam, dedicava-se, por meses a fio, ao insano projeto de um romance que, dizia, lhe fora conferido pelo próprio demônio. Terminado o romance, entrava novamente em depressão e acabava tentando o suicídio mais uma vez. Repetindo o ciclo. Segundo a família, Constantino descobrira a técnica para escrever seus romances quando se acidentou com uma gilete ao tentar se depilar para o Carnaval. Depois disso, passou a provocar situações de quase morte para voltar a conversar com o capeta.

A carreira promissora do jovem terminou subitamente quando foi internado na Clínica São José, para protegê-lo de si mesmo. Lá, durante o banho de sol, encontrou Lúcio Ferraz, um louco que penteava as sobrancelhas para cima e criava uma lagartixa de estimação. Lúcio o reconheceu dizendo: “Salafrário, fiquei sabendo que andas roubando minhas histórias!” Supostamente Lúcio tentou atiçar a lagartixa para que atacasse Constantino com suas labaredas de fogo, mas Constantino morreu de sinopse antes que a micróbia fera tivesse tomado fôlego para incinerá-lo.

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