O dia em que a música caipira fez o Brasil progredir nos costumes

A música caipira não é normalmente associada a uma mentalidade progressista nem à liberação dos costumes. Muito pelo contrário: idealiza um passado de pureza perdida em que os homens eram os homens, as mulheres eram bonitas (mas submissas), ser fazendeiro era ser uma espécie de rei e o boiadeiro era nosso herói, uma mistura de cavaleiro andante e caubói. Mas no início dos anos oitenta, época em que o Brasil devagarinho saía de uma ditadura, a música caipira contribuiu para um sopro de novidade nos […]

Relembrando a Crítica Literária Mais Demolidora de Todos os Tempos

Em 1989 o humorista, cartunista, tradutor, poeta e cronista brasileiro Millôr Fernandes publicou uma série de pequenas crônicas sobre a obra do então presidente José Sarney. Estes textos, em seu conjunto, formam a mais demolidora crítica literária jamais publicada em português. Não somente pela notoriedade dos envolvidos — um presidente da república e o outro colunista da revista de maior circulação no país — mas também pelas incríveis tiradas com que Millôr brinda o texto criticado, o que acaba por eternizar a ruindade de uma […]

Minha Primeira Publicação

Aqui está escaneada a página de uma antologia poética publicada pela “Shogun Arte” (a primeira editora do Paulo Coelho”), contendo meu poema “Outonal” (um dos raros escritos naquela época que eu não modifiquei profundamente. Estas antologias poéticas eram um tipo de caça-níquel ainda mais vicioso que as editoras paga-e-publica de hoje, não só porque elas realmente publicavam qualquer coisa, mas porque cobravam caro. Naquela época eu não sabia ainda que poderia haver picaretagens no mundo, e alegremente paguei para que o meu texto tivesse uma […]

Mapas, Cartas, Diários e Outras Antiguidades

Ocorreu-me ontem, ao ler mais uma sinopse de romance, o quanto nós ainda estamos presos ao passado de formas que não percebemos. Os índios do Xingu tem um conceito que expressa bem isso. Segundo narrou Orlando Villas-Boas, quando ele e outros sertanistas acompanhavam os índios em caminhadas pela floresta, se os brancos forçavam muito o ritmo, os índios pediam para fazer uma parada. Depois de ver isso ocorrer várias vezes, perguntaram-lhes por que e os índios disseram que os brancos queriam andar muito depressa, mas […]

À Janela

De minha janela vejo, numa rua do morro em frente, uma moça que desce pela calçada. A distância não me permite conhecê-la, apenas vejo que não é nem muito magra e nem muito alta, que seus cabelos caem pelas costas e que é dessa cor mestiça indefinida e bela. Trajando uma blusa branca do tipo mais usado pelas moças comuns e uma blusa preta de mangas curtas decotada nas costas e – suponho – presa à frente por um lacinho de cordão.[…]

A Persistência

Minhas lista de links chamou-me a atenção hoje pela coincidência de quase todos os membros dela, exceto o infatigável Sérgio Ferrari, do blog “Astro Miau”, estarem encerrando as atividades. Félix Maraganha já havia abandonado a literatura há cerca de um ano, em um episódio triste, que incluiu jogar no lixo todos os seus originais inéditos e os exemplares de suas obras publicadas. Episódio de que não restou registro porque agora o seu “Calango Abstrato” é um blogue privado. Felipe Holloway não atualiza o “Estou numa […]

Desencontro Marcado

Um dos mais antigos contos meus, datado de 2000 ou 2001 e recuperado de um arquivo perdido numa pasta esquecida de um HD que eu nem sabia que tinha mais. Um conto escrito para uma pessoa que nunca mais verei (a moça da banca de jornais é alguém que conheci, há muito tempo, em uma praça que não existe mais, em São João Nepomuceno). Fiz as malas à noite, enquanto todos dormiam, para a definitiva volta para casa. A noite de sexta não fora como […]

Recurso Apresentado a um Concurso Público

Provando que eu já era meio ardoroso na defesa de minhas opiniões em 1999, vai uma correspondência por mim enviada à Prefeitura de um município do interior mineiro — com cópia para conhecido jornal de ampla circulação na região — após ter conhecimento do gabarito final de um concurso para provimento de vagas no magistério municipal, no meu caso para lecionar História. O concurso acabou anulado e eu, que havia sido reprovado por uma questão, tive a chance de fazer a prova de novo, mas […]

Marina

Marina leva a xícara aos lábios e, ao vê-los refletidos no café negro, se despe da dureza que vestiu nos últimos meses. “Que falta me faz a Luísa” — confessa em voz alta, sabendo que não há ninguém perto para ouvir. O último diário de Luísa jaz sobre a mesa do café, ainda lacrado. Justamente neste momento Marina está refletindo sobre o que ainda não leu, enquanto lembra o que viveram. Um mês da morte de Luísa. A gente não se acostuma com isso, acho […]

Matem-se

Segundo me contou o meu amigo, também escritor, Emerson Teixeira Cardoso, ele trocou correspondência com Eugene Ionescu quando era jovem. Ao ouvir isso, fiquei excitado e lhe perguntei que grandes revelações o mestre do absurdo lhe fizera, pois ele e alguns amigos tinham justamente um grupo de teatro amador em nossa Cataguases natal, na época da suposta correspondência.

Literatura e Consciência

Por que fazer literatura? Não há resposta bastante abrangente que resuma a experiência de escrever. A obra é um orgasmo — alguém já disse — mas orgasmo é um instante fugidio, é como tentar tocar o intangível e, após tê-lo vislumbrado muito perto, quedar esvaziado. Por que, então, amamos? Igualmente não há resposta. Todos se sentem tristes após o sexo, o orgasmo é um vazio que nos preenche inteiramente. Nem para o amor e nem para a literatura podemos encontrar uma explicação racional. A não […]

Um Pedaço de Minha História

Há momentos na vida em que nos surpreendo com coisas simples, quase a ponto de algum “suor dos olhos” me embaçar a visão. Sou do tipo emotivo a ponto de não gostar de filmes de guerra para não ver carnificina, mesmo que fictícia, e costumo achar finais felizes para meus personagens. Quão mais emotivo não sou quando me deparo com pedaços de minha própria memória recuperados por pessoas com quem interagi!