O Preço da Passagem [3]

Não percebi quantos dias passei naquele lugar. Dizem-me que foram cinco. Nos primeiros dois ou três o homem do quepe tentou extrair de mim alguma informação sobre as pessoas com quem estivesse envolvido. Mas de alguma forma, segundo consta dos relatórios a que hoje tenho acesso, graças ao habeas data, eu apenas circulava em torno da ideia de ter entrado em algum barco em companhia da falecida Jurema, de ter saído sozinho e a deixado lá. Assinado um tal Tenente Cavalcanti.

O Preço da Passagem [2]

Tardou ainda por algum tempo incontável, mas não demasiado que nos desesperasse. Soou uma outra buzina de navio indo para o mesmo lado do primeiro. Ouvimos o já conhecido chapinhar de pás, sentimos o farfalhar das roupas da multidão, talvez ansiosa, acendeu-se a trêmula luz vermelha de uma lanterna e o batel encalhou na areia. Desceu o barqueiro vestido da mesma maneira monacal que os anteriores, o rosto recoberto pela sombra de uma dobra de tecido — e dentro dela um brilho desagradavelmente avermelhado e solitário.

O Preço da Passagem [1]

A última coisa que vi na noite escura de 26 de abril de 1967 foram luzes azuis e vermelhas no retrovisor. “Malditos milicos, nos acharam!” — pensei e acelerei na vã esperança de fugir, mas logo perdi o controle em uma curva fechada da estrada para Araruama. Jurema gritou e se encolheu, o carro atingiu a sebe com um baque e um farfalho, tudo muito rápido, e caímos pela ribanceira. Apenas tive tempo de pensar que muitos anos depois da ditadura talvez nos considerassem mártires estudantis e dessem indenizações a nossas famílias. A ironia disso me fez suportar tudo sorrindo, enquanto o rádio do Aero Willys tocava Beatles rumo ao abismo: *She’s got a ticket to ri-i-i-de, but she don’t care…*

Nova Série: O Preço da Passagem (Introdução e Índice)

Em fins de 2008 compartilhei na comunidade literária “Novos Escritores do Brasil” um texto curto intitulado “Ticket to Ride” (infelizmente perdido) no qual eu desenvolvia uma curta história sobre dois (ou quatro) subversivos perseguidos pela polícia nos tempos do regime militar. Este texto, após uma extensa revisão, acabou saindo na coletânea “Sinistro”, da Editora Multifoco, em uma versão condensada que nunca me satisfez plenamente (nada por culpa da editora, apenas percebi tardiamente que o conto precisava de um desenvolvimento mais completo, e que a versão condensada que eu mesmo fizera não conseguia ter a força necessária).A condensação que fiz, a pedido do +Frodo Oliveira, editor da coletânea, aproveitava o desfecho que eu escrevera para uma versão anterior do conto, e tinha cerca de 30% de texto a menos. Na época eu achei que era uma boa opção, pois eu tinha medo que o texto ficasse ilegível de tão grande (hoje em dia já tem quem fale em “literatura no twitter.com”). Hoje mudei de ideia, e por isso aqui estou restaurando a versão original, imensa e mais complexa.Sobre esta complexidade, um dado chamará a atenção do leitor: existem dois desfechos dentro da história, um passado e um presente, e duas técnicas narrativas que se sucedem. Talvez este seja o meu conto mais ousado em termos de concepção estrutural. Tão ousado que deixou de ser conto e virou uma noveleta (termo que eu não conhecia em 2009, época em que o publiquei na dita coletânea).Parte 1Parte 2Parte 3

Tivemos Futuros Promissores

Américo dizia-se amargo de propósito: queria treinar rabugice para quando fosse famoso. Então poderia esnobar entrevistas e desfilar namoradas bonitas em carros do ano. Não conseguia nem ficar famoso e nem realmente ser amargo: era apenas triste e apagadiço. Sentava-se na primeira das carteiras para fingir ser estudioso, mas andava sempre com notas ruins e sapatos rigorosamente engraxados. Meticuloso em suas escolhas, enquanto não ficava famoso e amante de modelos perfeitas deixou-se namorar por Jaqueline, que era vesga, magra, sardenta, desconjuntada e fanha. Casou com […]

Metade

Ele a acorda com um sussurro no ouvido. Está nervoso e cochicha baixo, como se temesse tudo. Ele a acalma, antes que grite, e diz cheio de medo: “Há um barulho na cozinha, amor. Está ouvindo? Fale mais baixo, pode ser alguém que nos ouça. Está ouvindo agora? Então fique bem quietinha aí, só escute. Há um barulho na cozinha, amor.” O silêncio se adensa, o ar parece aparado. O silêncio assobia no ouvido, como uma broca giratória penetrando até o cérebro, um chiado de […]

Ismaël

“O passado nos condena, Ismaël.” Ainda posso ouvir rasgando minha alma essas palavras pro­fe­ri­das pelo velho, com seu porte de capitão Ahab, como se estivesse à amurada de um velho navio con­tem­plando o mar absoluto, à espera de alguma incompreensível fera. Chamo-me real­mente Ismaël, mas ele não se chamava Ahab, e não estávamos embarcados em navio algum, mas per­di­dos nas montanhas poeirentas do Teto do Mundo, fugitivos da impiedosa inquisição de um inimigo invisível e quase incompreensível. Eu piso o chão destas montanhas, e Ahab […]

Momentos Que Marcam

Na vida existem aqueles momentos que se tornam definitivos, para o bem ou para o mal. Olhando em retrospecto, você identifica: antes daquele dia eu ainda era um bobão, desde esse dia eu mudei para melhor, descobri naquela semana que eu amava aquela mulher, etc. Na maioria das vezes essas mudanças acontecem sem que consigamos acompanhar: é como uma lenta subida de enchente, que só o assusta quando a água vem à soleira da porta e você não sabe de verdade quando foi que começou. […]

Meu Encontro com a Magra

Cheguei de viagem cansado, ansioso por dormir. Deixei meu carro na garagem e saí pela noite anódina e sem lua. O ar estava profanado pela chuva ainda recente, exalando uma catinga de morrinha de cachorro molhado e os meus pés chapinhavam nas poças de água barrenta que salpicavam as calçadas. No céu parcialmente limpo algumas estrelas, nenhuma vencendo de todo a iluminação artificial. Havia uma mulher sentada num banco de praça no meio do meu caminho, uma mulher vestida roupas negras e longos cabelos, com […]

O Abismo Também te Contempla

Quando Roberto e Teresa foram vistos a sair da cidade para um passeio no campo ninguém podia imaginar o que estava por acontecer naquela tarde. Naquele domingo nada de especial parecia estar ocorrendo aos olhos de quem os visse passar no jipe: eram os mesmos sorrisos, a mesma falta de precaução que é tão característica do amor. >Quando contemplas o abismo, o abismo também te contempla. — Nietzsche. Iam a um desses lugares calmos onde se pode nadar e permanecer por horas sem ser molestado […]

O Cãozinho Pequinês

Ao mesmo tempo oriental e desorientado o cãozinho deu no jardim e ficou parado pela morte que se apanha no mínimo tato. Deram-lhe bola ou a comeu por destino. A meia-noite chegou cedo, chegou dura com estrelas demais e sem promessas. Assoviaram de algum lugar no escuro, o silêncio dos olhos empoçados não se alterou nem de leve. O silvo passou no ar como uma outra pedra. Originalmente escrito em 1997. Direto do “Túnel do Tempo”