Autoinfligido

Não sou de sustentar suspense para subverter o enredo lá perto do fim, o que hoje em dia se chama de fazer plot twist, então tenho que começar essa história diretamente dando o spoiler: tudo aconteceu por causa da chuva e de uma toalha molhada.

Por cinco noites consecutivas tinha chovido pesado aleatoriamente. Eu não tinha confiança de sair e deixar a toalha molhada secando no varal por medo de uma ventania arrancá-la dos pregadores e levá-la embora. Era, devo dizer, a última toalha limpa que eu tinha, a máquina de lavar estava quebrada e eu ainda precisava esperar o fim da semana para visitar a minha mãe e usar a dela. Se eu não cuidasse da minha última toalha eu teria que comprar uma nova — e para que faria isso, sendo que eu já tinha suficientes. Chamem-me de estranho, mas eu realmente não acredito que seja certo um homem solteiro possuir mais do que cinco toalhas de banho.

Então foi por causa de ser tão sistemático e sovina que eu resolvi economizar a quinta toalha — e nisso não ajudava a chuva que caía inesperadamente desde cinco dias.

Naquela noite evitei tomar banho. Deixei para a manhã seguinte, para ir fresco para o trabalho. Apenas lavei o rosto, as orelhas, os pés e os antebraços. Assim benzido como a gente de antigamente eu chequei o e-mail e fui dormir.

Foi uma noite cheia de sonhos intranquilos e pesadelos autoinfligidos. Lembro de pouca coisa — exceto que no derradeiro deles, o que mais me incomodou e que me fez acordar, envolvia Drácula e um estranho castelo labiríntico. Não me lembro exatamente como chegara à Transilvânia, ou ao lugar qualquer da beira do mundo onde vivia aquele velho demônio, mas eu caminhava devagar e cambaleante por um longo corredor ladeado de portas de masmorras. Estava frágil de corpo e de alma, como se algum súcubo me tivesse atacado durante o sono, ou como se o vampiro me tivesse levado metade do sangue enquanto eu dormia.

Apoiei uma mão na parede, ela estava fria e úmida, como devem ser as paredes de porões. À minha esquerda uma cela aberta, atulhada de objetos grandes e de formas sombrias, com uma janela gradeada abaixo da linha do chão. O céu azul-escuro parecia iluminado por uma lua gélida e aguda. À direita eu escutava gotejar, plec, plec, gotas caindo de uma altura imprecisa e estalando no chão duro, onde uma poça se firmara.

Eu tinha sede, muita sede. Tinha a sensação difusa de que procurava água, de que sabia onde havia água. Mas tinha medo de algo que havia em frente, entre minha boca seca e o alívio de meu sofrimento.

A coisa aparecera quando o primeiro relâmpago cortara a escuridão. Parecia haver outra janela mais à frente. A luz do relâmpago revelara uma forma vermelha ameaçadora que parecia agachada em um canto, pronta para saltar sobre mim e atingir a minha garganta.

Aquilo estava a uma altura de metro e meio, ou pouco mais. Suas costas, retas, estavam viradas para a minha direita. A cabeça, se havia uma cabeça, olhava para a esquerda, perdida em um halo preto de cabelos indistintos. Eu não via realmente cabeça alguma, apenas supunha que tinha de haver, porque aquela forma seria terrivelmente sobrenatural se não tivesse.

A coisa não se moveu, mas tive a impressão de que se remexia, bem devagar. Um segundo relâmpago a repôs no mesmo lugar, silenciosa e atenta sempre à esquerda.

Quando dei o passo seguinte e fraquejaram-me as pernas, a mão direita não encontrou parede, mas uma porta aberta. Estendi depressa a mão esquerda e agarrei uma coisa que cedeu em minha direção. Forçando-me à frente, tentando não cair, encontrei um desnível do chão e me desequilibrei definitivamente.

Uma queda normalmente não demora mais do que um piscar de olhos, mas aquela me pareceu durar quase tanto quanto um filme. Caí devagar como uma folha que se desprende de uma árvore — ou tive essa impressão. Meu calcanhar achou apoio no desnível, mas as minhas costas encontram algo áspero que se abraçou a mim, com a frieza úmida de um cadáver.

Debati-me, tentando me desenvencilhar daquilo. Outro relâmpago e pude ver melhor a coisa vermelha, tão perto de mim. Eu acho que gritei, não tenho certeza, também devo ter batido a cabeça no chão e perdi os sentidos em uma tempestade de estrelas, mas logo me recuperei.

Estava deitado no chão da cozinha, com uma bruta dor de cabeça e a minha toalha molhada caída sobre a minha cara e o meu peito.

Com alguma dificuldade eu me levantei, acendi a luz e descobri que deixara a toalha pendurada perto da geladeira, para secar à sombra.

Foi somente isso o que aconteceu, essas pequenas cicatrizes que tenho no pescoço não têm nada a ver com a história. Agora tenho de terminar esse conto porque o dia já vai amanhecendo e eu virei a noite cheio de grandes projetos e preciso descansar.

Comentários do Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *