História de Gente Trabalhadora

Essa história não é só engraçada, ela é completamente surrealista e não ficaria mal em um filme do Buñuel.

Era 1993 e eu estava em uma “missão secreta” a serviço do BEMGE, banco em que eu então trabalhava. O Credireal estava fechando várias agências no estado e o BEMGE as assumiria para manter os serviços em funcionamento. Como os fechamentos de agência eram segredo, não foi possível fazer preparativos: nos reunimos no domingo de manhã para um dia inteiro de treinamentos em Juiz de Fora, dormimos num hotel em Juiz de Fora, no dia seguinte foram escolhidas as equipes que assumiriam cada agência do Credireal que fechava. Eu fiquei na equipe que ia para São João Nepomuceno.

Não tenho esperança de que algum dos envolvidos confirme a história (por motivos que o leitor entenderá), mas faço questão de dizer que foi mesmo em São João Nepomuceno.

Então, as 8h00 da manhã saímos de Juiz de Fora em kombis alugadas pelo BEMGE (cada equipe em uma) e nos dirigimos aos lugares devidos.

Quando chegamos a São João Nepomuceno (faço questão de frisar que foi lá) tampouco houve oportunidade para fazer planos. Tivemos de chegar, executar a intervenção, absorver o prédio, o numerário e um monte de outras coisas. Mal tivemos tempo de comer (nos enviaram sanduíches na hora do almoço) e só saímos do serviço às 19h.

Apesar de ser segunda-feira, para nosso espanto não havia vagas nos hotéis da cidade. Se não me falha a memória (algum corajoso sanjoanense me corrigirá) havia uma espécie de congresso evangélico na cidade.

Alguns de nós pensamos em voltar de carro e dormir em casa, mas eu era quem morava mais perto, não tinha carro e minha casa não poderia hospedar os colegas. Então decidimos nos hospedar, por sugestão do gerente, no “Hotel Motel Trevo”, localizado na saída da cidade, em direção a Juiz de Fora e Rio Novo. O dono do local nos prometeu que nos forneceria uma nota com nome de “Hotel Trevo” para pedirmos o ressarcimento ao BEMGE.

Chegamos ao motel às 21h, já meio bêbados, porque tivemos que ir a um bar encher a caveira depois do serviço. Uma vez no motel, ficamos eu e mais três caras em um quarto e as duas meninas no outro. O dono do motel providenciou para nós uma beliche no jardim de inverno (onde eu dormi) e um colchão no chão ao lado da cama de casal.

E assim fomos dormir. O primeiro dia foi tranquilo. Nada de anormal.

Mas no segundo dia, história parecida, todo mundo cansado e dormindo cedo. Lá pelas onze da noite nós nos despertamos com uma algazarra incrível.

Em um quarto ao lado acontecia uma festa improvável, entre o que parecia ser pelo menos um homem, duas mulheres e um travesti. Ou entre dois homens bissexuais e duas mulheres bissexuais. Não sei exatamente o que. Só sei que pelos gritos exagerados eles estavam se divertindo muito e que em dados momentos as mulheres estavam somente estimulando e rindo do que quer que os rapazes fizessem. Um desses rapazes tinha uma voz afeminada e era o que mais gemia.

Como estávamos fora do nosso elemento, achamos por bem ficarmos quietos. Afinal, lá é justamente lugar para se fazer isso — não lugar de bancário cansado dormir. Mas quando a algazarra já passava de quarenta minutos (e nem havia Viagra naquela época), ouvimos alguém dizer a fala mais surreal que eu já ouvi até hoje:

— Vocês façam o favor de parar com essa balbúrdia porque aqui tem gente trabalhadora precisando dormir para acordar cedo amanhã!

Eu tenho a certeza de que o único motivo pelo qual a gente que participava da balbúrdia não deu a resposta merecida foi por receio de que o dono do lugar espalhasse a história na cidade.

Então está. Vinte e sete anos depois eu a estou espalhando. Se você é de São João Nepomuceno, tem mais de 50 anos e disser que me odeia eu saberei que você estava no quarto ao lado…

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