Analisando a Letra: 1 – Charlie Brown Junior

Pediram-me dia desses para analisar a letra de “Ela Vai Voltar”, do Charlie Brown Jr. Gostei da brincadeira e fiz a análise. Se os leitores do blog gostarem, continuo fazendo outras.

As canções do Charlie Brown Jr. não se caracterizam pela sua coerência e nem pela profundidade dos assuntos abordados. Muito menos pelo bom tratamento lírico dos temas escolhidos. Como a grande maioria das canções da banda, esta se caracteriza pela letra paupérrima e incoerente, que comete certos preconceitos (lembra do “eles são gente, mas não são gente como a gente”?).

Segue uma análise da letra, segundo minha perspectiva. Se está certa ou errada, impossível dizer com certeza. Somente o Chorão poderia decifrá-la, e ele está morto. De qualquer forma, a obra, uma vez publicada, é de livre interpretação.

Minha mente nem sempre tão lúcida
É fértil e me deu a voz
Minha mente nem sempre tão lúcida
Fez ela se afastar

O eu lírico do cantor confessa que não tem um bom julgamento moral, porém possui uma mente “criativa” (segundo crê) e que isso lhe deu capacidade de conquistar a sua amada. Porém, essa mesma mente “fértil”, devido aos seus problemas de julgamento moral, fez a moça se afastar.

É fácil enxergar nesse trecho uma sugestão da bipolaridade do eu lírico, que tem um lado sedutor e outro que provoca o medo e a fuga da amada.

Ela não é do tipo de mulher
Que se entrega na primeira
Mas melhora na segunda
E o paraíso é na terceira

Aqui vemos que o eu lírico espera que a insistência no relacionamento produza uma melhora de sua qualidade. A amada não se entregou, ou seja, não o aceitou, em sua primeira investida, tendo sido necessário que ele insistisse.

Ela tem força, ela tem sensibilidade,
Ela é guerreira ela é uma deusa
Ela é mulher de verdade

A razão da insistência é que o eu lírico enxerga na amada uma pessoa moralmente superior, a quem associa atributos positivos (“força”, “sensibilidade”, “guerreira”, “deusa”, “mulher de verdade”). Podemos dizer que a busca da “mulher superior”, da “mulher de verdade”, tem certa correspondência com a aceitação pelo eu lírico de sua própria incompletude e inferioridade (“Minha mente nem sempre tão lúcida”).

Ela é daquelas que tu gosta na primeira
Se apaixona na segunda
E perde a linha na terceira
Ela é discreta e cultua bons livros
E ama os animais, tá ligado eu sou o bicho

Esta estrofe tem duas partes. A primeira revela que o relacionamento do eu lírico com sua amada é caracterizado pela crescente obsessão (1 – gostar, 2- apaixonar e 3- perder a linha). A segunda parte volta a acumular elogios à amada (“discreta”, “cultua bons livros”, “ama os animais”).

Aqui vale a pena parar e mencionar que o eu lírico atribui à sua amada papeis estereotipicamente femininos: não se entregar da primeira vez, ter sensibilidade, ser bela (“deusa”), ser feminina (“mulher de verdade”), ser discreta, ser culta (“bons livros”) e ser gentil com os animais.

Ao terminar esta enumeração, o eu lírico se manifesta como o oposto de tudo isso (“eu sou o bicho”), ou alternativamente, como alguém que se coloca diante da amada como um animal de estimação. Porém, é mais provável a primeira interpretação que a segunda, porque a canção começa com a confissão de que o eu lírico não tem a mente sempre lúcida (portanto ele não é tão inteligente quanto a amada idealizada) e nem tão gentil (pois a fez se afastar).

Apesar de ter sido ele próprio o causador da separação, justamente por causa de seu temperamento, ele acredita que amada espontaneamente voltará.

Deixa eu te levar pra ver o mundo, baby
Deixa eu te mostrar o melhor que eu posso ser

Aqui o eu lírico se coloca em uma posição economicamente superior à da amada. Supondo que ela é pobre e/ou tem uma vida reclusa ou restrita, é ele que se propõe a “levá-la” (ela ativo, ela passiva) para “ver o mundo”. Observe que ele não a convida com um “vem comigo” e nem lhe pede que o leve, é ele que se propõe a “levá-la”.

Até aqui, em toda a letra, a única iniciativa da amada é uma possibilidade, a de que ela acabe por “voltar”. Toda descrição do relacionamento se baseia na insistência do eu lírico, que a assediou até que na terceira vez ela o aceitasse e que posteriormente a afugentou com sua atitude “nem sempre tão lúcida” e seu lado “bicho”. Agora ele lhe promete, caso ela volte, “levá-la” para ver o mundo. Por sua vez, a promessa de que lhe mostrará “o melhor” que pode ser deixa implícito que ele já lhe mostrara o pior.

Fazer da vida o que melhor possa ser
Traçar um rumo novo em direção ao sol
Me sinto muito bem
Quando vejo o pôr do sol
Só pra fazer nascer a lua

Esta estrofe continua a anterior, com promessas de fazer da vida da amada o melhor que possa ser e traçar um novo rumo “em direção ao sol”. Aqui, porém, o eu lírico comete um lapso e denuncia que ele deseja levar a amada em direção ao sol porque é ele que se sente muito bem sob o sol. Ou seja, o eu lírico promete levar a amada a um programa que é o favorito dele, ele não pergunta qual seria o programa ideal dela. É a amada que vai acompanhá-lo ao sonho dele.

Sinceramente, a moça não deve voltar para esse cara não. Ele é um sujeito de temperamento imprevisível, com uma atitude controladora e uma concepção conservadora do que deve ser a mulher e do que deve ser um relacionamento. Isso é a receita para um relacionamento infeliz, com grandes chances de se tornar abusivo.

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