Epifania

À frente de Kenji está o sistema solar escolhido para segundo lar de sua raça, condenada pela lenta morte do planeta original. Kenji pilota sozinho a imensa nave de transporte, com orgulho e com senso de dever: ele controla o destino de milhares de almas. Mas Kenji não tem uma alma, é um autômato insetoide, metálico e desprovido de beleza. Foi construído para ser redundante, seguro, definitivo. E esse ser que não vive trará de volta à vida o precioso conteúdo dos frascos de suspensão, onde hibernam homens, mulheres e crianças.

A viagem de todo um povo, movida pela esperança de salvar-se da própria estupidez. “Nas crianças está a esperança” — diziam os líderes, mas na hora de partir elas não vieram sozinhas, pois os poderosos não aceitam morrer. Vinham hibernados em suas cápsulas para trazer o seu mal antigo ao novo mundo, restabelecendo estruturas que haviam causado a desgraça de uma esfera que Kenji nunca vira.

A viagem rigorosamente planejada durante séculos. Pelos que temiam a destruição que fatalmente viria. Kenji tinha todos os dados em sua mente de silício e carbono. Tinha consigo ferramentas e matéria para consertar-se e melhorar-se. Durante as décadas de duração do périplo estelar, tinha se esmerado em espandir-se, tornar-se mais perfeito, maior, mais poderoso. As crianças precisariam de sua ajuda para resistir à maldade dos homens quando chegassem.

O sistema a que chegavam era o mais promissor que o homem encontrara na busca vertiginosa por um novo lar: nove planetas, os rochosos próximos à estrela, os gasosos fora. Uma conveniente bolha de poeira estelar variada envolvendo o conjunto, até mesmo um espaço faltante referente a um planeta que nunca se formou. Praticamente um espelho do distante lar que Kenji nunca vira com olhos, apenas com dados de sensoriamento remoto e estatísticas.

O terceiro planeta, embora um pouco maior do que o necessário, e um pouco menos metálico do que o que seria apropriado, tinha uma atmosfera respirável. Infelizmente estava quase afogado em oceanos, com os blocos de terra ilhados por infinitudes de águas. Mas mesmo isso seria bom, afinal, pois na água poderia haver muita vida que se pudesse comer.

Kenji não entende muito bem o conceito de “comer”. Ele nunca foi humano e não possui parâmetros de prazer e nem de dor. Está ligado à energia da nave, o fluxo de elétrons é a coisa mais parecida com alimento que ele pode conceber, e a beleza de uma estrela, que irradia partículas que podem ser capturadas e consumidas… é a melhor semelhança de cornucópia que o robô imagina. Na mitologia dos robôs sencientes o paraíso deve ser a órbita de um sol jovem e forte, conectado a velas solares que recarregam seus duros maquinismos e que proporcionam movimento. Como insetos em volta de uma lâmpada. E Kenji, curiosamente, é um insetoide. É estranho que uma máquina apenas feita à semelhança de um ser vivo acabe por parecer-se com ela também no modo de “pensar” — se é que máquinas pensam, reflete, recursiva e filosoficamente, o calmo autômato.

A nave se aproxima preguiçosamente, os motores de empuxo reverso já estão desacelerando o imenso caixão de cerâmica e ligas leves. Enquanto contempla a beleza daquele sol laranja relativamente jovem, tão saudável em sua plenitude, Kenji se permite uma atitude ilógica: configura os sensores para trás, como quem olha no retrovisor — se jamais tivesse tido um carro. Nos dados atirados pelas interfaces vêm informações em desencontro: o sol original pode estar vivo, pode não estar, está tão longe, tão perdido entre milhares de outros. Custa a ser localizado. Kenji isola-o num tímido sinal de rádio entre outros. Ele continua cantando sua microfonia cósmica. Mas no terceiro pedregulho a partir dele já não canta mais ninguém, a não ser, talvez, degeneradas formas vivas de uma segunda gênese, estranha à herança que aquela nave leva, talvez nociva a ela.

O planeta de destino foi escolhido, por uma missão não tripulada, séculos antes de Kenji ter nascido de uma linha de montagem pilotada pelas frágeis mãos de moças bonitas e perfeccionistas. Para ele o paquiderme espacial se arrasta, segundo um programa escrito numa linguagem de máquina que nem Kenji chegou a conhecer. Ele se sente jovem ao pensar que Agnes, o computador de navegação, consegue entender as instruções deixadas naquele programa. Agnes, com quem jamais trocou informações. Sistemas diferentes demais, aplicações diferentes demais. Kenji suspeita que Agnes sequer saiba que ele a chama de Agnes, ou que haja humanos a bordo. Tudo que Agnes deve saber é que está indo para algum lugar desconhecido no fundo das trevas do espaço.

Para Kenji o tempo passa rapidamente. Foi programado para não se entendiar com as semanas. Sentiu a aproximação como se tivesse sido breve, mas na verdade durou anos. Anos de espirais em torno da estrela, em busca do melhor perigeu para orbitar. Quando sentiu Agnes estabilizando a nave na órbita, teve uma sensação que os humanos chamariam de medo, mas que para ele aparecia apenas como uma repetitiva computação dos passos a fazer, analisando cada variável.

Com a nave pronta, Agnes enviou pelo sistema uma notificação seca e simples, cujo significado somente os destinatários seriam capazes de entender, uma mera sequencia de caracteres em seu programa: “Órbita estabilizada no destino.” Para Agnes esta sequencia era apenas algo que devia “dizer” eletronicamente quando a viagem terminasse.

Ninguém precisava dizer a Kenji o que fazer. Ele tinha tudo predeterminado desde antes de ser posto em funcionamento. Iniciar a conexão dos sistemas de desembarque e ligar os analisadores de biosfera. Começava ali a fase final do projeto “Terra II”.

Se Kenji tivesse um aparelho respiratório teria suspirado naquele momento, se tivesse uma alma teria sentido algum tipo de emoção. Mas em vez disso, naquele momento tão importante para a humanidade, os passos decisivos do nascimento de um novo mundo eram dados por um artefato cego, cujas emoções eram apenas cálculos que oscilavam, abandonando probabilidades inadequadas.

Seguindo à risca a sequência estabelecida em seu cérebro inanimado, Kenji iniciou o lento, inexorável e irreversível processo de despertar das primeiras centenas de seres vivos, humanos que assumiriam o trabalho de tornar aquele mundo à sua imagem e semelhança. Consultando seus dados, quase com prazer, Kenji considerou o que seria dos pobres seres primitivos que ali viviam: em breve seriam usados pelos colonizadores, como ele próprio o era. Mas as chaves de segurança em seu programa o impediam de completar este cálculo. Os primeiros a despertar seriam os adultos, que teriam a função de ensinar às crianças valores fundamentais da civilização, como poder, ganância, preconceito, superstição, desconfiança e ódio. Dentro dos limites estreitos de sua programação, Kenji tinha lampejos de quase autoconsciência, nos quais ele lamentava o destino daquele planeta que recebia a infestação humana.

Um capitão e alguns oficiais emergiram das salas de descompressão. Ao vê-los, quase instantaneamente, Kenji ajustou sua percepção temporal a algo que tornaria possível acompanhar a existência daqueles seres tão rápidos, tão efêmeros.

O capitão apossou-se de seu lugar, inexpressivo em seu rosto militar, quase tão frio quanto as patas de aço de Kenji, que sustentavam suas toneladas de tentáculos e circuitos. Sua voz insípida deu um comando de voz, declamado ritualisticamente, como um jogral:

— Abrir visores.

Um a um foram aparecendo quadrados luminosos pelos painéis. Toda aquela energia esperdiçada apenas para exibir as informações em um formato que os humanos pudessem entender. A chave de segurança agiu novamente e Kenji passou a concentrar-se na superfície do mundo abaixo de si. Aproveitou para acionar os próprios analisadores de luz visível, para poder obter dados por este meio também.

— Capitão — disse a oficial, ainda incomodada com a lisura de seu crânio depilado — as leituras biológicas não conferem.

O capitão moveu os mecanismos de sua interface superior de uma forma que Kenji fora ensinado a reconhecer como “preocupação”, um conceito que ele quase não entendia. Kenji era permanentemente preocupado. Era assim que agia, em proteção aos sistemas embarcados, inclusive os sistemas biológicos. Por sorte, autômatos não sofrem de nervos.

— Tenente Xu, vamos refazer as leituras após uma recalibragem dos sensores, iniciando agora. Kenji, modo de segurança, urgente! Vamos verificar todos os receptores externos.

Kenji moveu-se para a retaguarda da cabina de comando que ocupara por séculos e dirigiu-se à escotilha para executar o trabalho de verificação externa.

Agarrado com suas várias patas ao casco da nave, Kenji dirigiu seus sensores locais ao planeta abaixo. Enquanto duas de suas patas verificavam a calibragem de espelhos e coletores de partículas, duas outras manipulavam os seus próprios sensores, que eram menos sensíveis e robustos, mas funcionavam, relativamente aos embarcados na nave, tão bem quanto um binóculo funciona em comparação com um telescópio espacial.

Havia, mesmo, algo errado com o planeta. A imagem que ele apresentava, na visão infravermelha de Kenji, era diferente da que fora gravada pela sonda, séculos antes. Estava, ou parecia estar, mais frio e mais calmo: grandes massas de nuvens o recobriam, uma bola de gude branca — se Kenji soubesse o que eram bolas de gude para conceber esta metáfora.

Terminou de circular por todos os sensores externos e esgueirou-se pelos corredores até a ponte de comando, onde estivera por séculos, e a chave de segurança o forçou novamente a mudar seus cálculos, impedindo-o de tomar o lugar que instintivamente buscara.

— Agnes, confirme nossa posição!

O capitão também sabia o nome de Agnes. Kenji computou rapidamente que isso significava que o nome pelo qual sempre chamara ao computador de navegação lhe teria sido ensinado, séculos antes. Por alguém que também o ensinara aos tripulantes. Provavelmente a todos. Todos conheciam Agnes. A chave de segurança agiu novamente. Para Kenji, cada acionamento era parecido com algo a que nós, humanos, chamaríamos de “dor”.

— Não entendo, capitão — disse a Tenente Xu, com seus olhos oblíquos arregalados numa expressão de medo — as coordenadas conferem, mas as características atmosféricas do planeta são diferentes.

— Confirme para mim os dados físicos: quero diâmetro, massa, posição relativa à primária.

O capitão acariciava a bola de bilhar que lhe tapava o pescoço, ainda incomodado com o rude tratamento de depilação a que os viajantes das estrelas eram submetidos, pelo menos os que viajavam vivos. Kenji teria tido prazer em lembrar, se compreendesse prazeres humanos, que era uma condição definitiva. A chave de segurança agiu novamente.

— Os dados conferem, Capitão.

— Então, minha querida, estamos fodidos.

— Capitão…

— Não vamos ainda contar para o resto da tripulação, enquanto eles acordam o resto, mas temos anos terríveis pela frente. Estamos fodidos, fodidos.

— O que terá acontecido, Capitão?

O capitão contemplava os dados que passeavam pelos econômicos visores monocromáticos. Pensava, coisa que Kenji não sabia ou não precisava saber.

— Provavelmente temos um cenário de apocalipse, Tenente. Alguma das espécies detectadas por nossa sonda há séculos, alguma das malditas espécies que a sonda viu rastejando pelos pastos e pântanos e charnecas desse mundo primitivo. Certamente alguma teria inteligência, mesmo rudimentar, provavelmente bem rudimentar. Mas conseguiu inventar coisas, desenvolver armas — a primeira coisa que as inteligências primitivas querem inventar — e deram azar de inventar rápido demais os brinquedos perigosos.

Andréa entrou na ponte de comando. Era da mais absoluta confiança de Capitão, era uma gimnoide hedonística, mas que também tinha conhecimentos de ecologia e música. Ninguém nem nada naquela nave podia se dar ao luxo de uma função só — nem a “boneca inflável” do Capitão, como a Tenente Xu a chamava.

Kenji deu-se conta, subitamente, de que certos dados aleatórios que fora percebendo e acumulando durante décadas e décadas eram os sonhos dos homens e mulheres em seus invólucros estáticos. Tenente Xu não gostava de Andréa e Kenji não sabia para que serviam gimnoides, mas simpatizava com aquele ser que imitava a aparência dos humanos. Simpatizava porque ele próprio era diferente, porque ele não tinha uma aparência agradável aos humanos — e talvez tampouco a Andréa. A chave de segurança parecia não desligar nunca mais.

— Capitão — disse a boneca inflável — os dados que coletei são realmente condizentes com um inverno nuclear.

— Estimativa de tempo?

— Considerando a meia vida dos elementos transurânicos detectados, Agnes calculou em prováveis cinquenta anos.

— Isso é muito tempo? — perguntou o Capitão, como se a inteligência fosse para ele a força de Sansão. Estaria arrancando cabelos se os tivesse. A tensão era visível e Kenji deu-se subitamente conta de que sabia o que era “tensão” e a chave de segurança, mesmo funcionando a todo vapor, não conseguia impedir que ele soubesse isso.

— Alguma área menos afetada?

— Nenhuma. O planeta está coberto de densas nuvens e a radiação choveu mais ou menos uniformemente sobre a crosta. A Idade do Gelo parece estar começando, para piorar as coisas.

— Idade do Gelo… — as palavras do capitão soavam vazias — eu preciso me recolher, para pensar a sós.

— Volte logo, capitão. Temos que decidir o que fazer.

O capitão acenou a Kenji, que o seguiu, como um cão.

— Kenji, ensinaram-lhe a falar?

Kenji produziu uma série de ruídos percutidos, mais ou menos como a conversa das aranhas, que batem os seus palpos para enviar sinais umas às outras. O capitão tinha conhecimento do CCCP1 e compreendeu que sim.

O capitão levou Kenji à porta de um recinto hermético:

— Quando me procurarem, diga que fui.

No instante seguinte, dentro do recinto, ouviu-se um silvo longo, do tipo que irritaria ouvidos humanos. Kenji quis saber do que se tratava e destravou a porta. Lá dentro estava o capitão, ou pelo menos a parte dele que não pensava. A cabeça, esta tinha se espalhado em muitos pedaços. Não compreendia como alguém teria a ideia de voltar contra si mesmo uma pistola de arrebites. Talvez faltasse um parafuso ao capitão, e ele tivesse tentado consertar do jeito errado. Bateu os palpos na parede, esperando que o torso contorcido respondesse. Kenji não sabia que mortos não falam.

A tripulação o viu ali, logo viram o acontecido, instalou-se o pânico. Andréa chegou com a Tenente Xu, ambas atabalhoadas. A colmeia humana continuava despertando, milhares de bocas logo quereriam comer, e abaixo deles estava um planeta morto, envolto em nuvens tóxicas e coberto de uma neve venenosa.

“Há momentos na vida em que é preciso ser homem”, dizia o bilhete encontrado no bolso do Capitão. Ele terminava com uma longa lista de nomes a quem ele pedia perdão por não ter sido.

Os estoques de alimentos da nave eram suficientes para alguns meses, ou anos, dependendo de quantos fossem despertados, de quanto cada um estivesse disposto a engordar. Eventualmente, em última necessidade, o estoque poderia ser prolongado um pouco mais, desde que alguns casulos nunca fossem despertados. Mas a comida fatalmente acabaria se não fosse possível descer em algum lugar e semear a vida.

A Tenente Xu agiu de uma maneira surpreendentemente prática diante das circunstâncias. Tendo compreendido o significado do que o capitão se fizera, Kenji se sentiu atraído pela precisão matemática dos comandos tomados pela segunda em comando. No lugar dela, teria agido de forma semelhante, apenas não tinha, por ser autômato, a permissão de tomar qualquer atitude que envolvesse vidas humanas, não sem a insistente chave de segurança embaralhar os seus circuitos e apagar os dados processados, tornando-o confuso. A primeira coisa que ela fez foi ordenar que os pequenos droides de faxina limpassem a cabina e atirassem a sujeira por uma escotilha funerária. Involuntariamente o Capitão dava início à semeadura daquele planeta esterilizado. Mas semeadura com morte, em vez de vida. Belo início para uma nova civilização.

Os humanos mais graduados se reuniram na ponte de comando, com as luzes desligadas. Falavam em voz baixa, talvez por medo de que Agnes os ouvisse. Kenji não se importou com isso. Seu sistema de comunicação através de batidas dependia da detecção de vibrações. Por isso ele se especializara em detectar a fala dos humanos através de vibrações, não de sons, e conseguia captar muito da conversa que eles tentavam esconder. A reunião era para traçar estratégias. Uma delas, particularmente defendida pela Tenente Xu, envolvia descerem com dois autômatos à superfície destruída do planeta. Os dois autômatos seriam Andréa, a gimnoide, e Kenji.

Mesmo sendo um autômato, ele não gostava da ideia. A chave de segurança zunia em seus circuitos, mas ele ainda acha ilógica a escolha de mandar para a superfície de um mundo morto justamente o piloto. Ainda demoraria algum tempo para que ele percebesse que não havia necessidade de piloto porque não havia para onde ir.

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1 resposta a “Epifania”

  1. Em primeiro lugar, gosto muito de FC.
    .
    O conto é bastante interessante. Particularmente a ideia de que o autômato desenvolveu, ao longo dos séculos, uma esécie de consciência, apoiada na ideia de que ele era capaz de se melhorar, é muito aliciante. Acho que pode ser melhor aproveitada (tanto uma como a outra), mas ficou interessante, mesmo assim.
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    Acho que esse conto tem muito “material” (você poderia escrever um livro de FC bastante interessante, na minha opinião, baseado nesta história)
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    Bom, é isso.
    Abraços!!!

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