Mascarados Dialogando de Dia

O prédio das repartições municipais era bonito, histórico, razoavelmente bem depredado e detestável. Entrei pela porta de madeira bruta, entalhada a machado, em busca do departamento de arrecadação do imposto predial e territorial urbano, onde deveria tentar obter, pela quarta vez em trinta dias, uma certidão negativa que me habilitasse a hipotecar a minha própria casa para poder custear o tratamento da doença terminal de minha mulher. Um dia falarei sobre isso, sobre a obrigação que temos de dilapidar o futuro dos filhos para fingir que tratamos da morte inevitável dos vivos, tudo porque a sociedade nos culpará se sobrarmos razoavelmente ricos depois de uma desgraça na família.

Impus ao meu rosto a melhor seriedade que ainda podia fingir, mascarando bem o alívio de saber que o sofrimento da querida Estela não duraria muito mais, e talvez nem fosse preciso usar a certidão. Somente assim, preparado para o luto, eu poderia transitar entre os conhecidos sem olhares reprovadores.

A sala do departamento de arrecadação era caracterizada pelas cadeiras desconfortáveis, de madeira nua e irregular, e pelo verniz meloso que estragava as calças de quem se sentasse durante muito tempo. Ainda teríamos muitos meses a esperar de pé até que os pobres peões de roupa suja e costas cansadas fossem curtindo o excesso de verniz até aquela cobertura caramelenta se transformasse numa sebosidade escura e segura. Lá dentro não havia senão um ventilador, que girava exclusivamente pelo amor de gastar alguma eletricidade, visto que a velocidade de grama crescendo com que girava não servia nem para refrigerar o próprio mecanismo. A sala de espera, dotada do conforto luminoso de amplos janelões de vidro que davam para o pôr do sol, estava separada do gabinete do oficial por uma porta que dava para uma sala refrigerada. O expediente começava ao meio-dia.

Ainda achei um lugar para me recostar próximo à parede oposta à janela. Se fosse atendido rápido ainda teria a bênção de não ter que aturar o sol das três horas. Teria ficado recostado lá, em cômodo silêncio, se não tivesse entrado o Rogério Justo, que eu não via há tanto tempo que mal lembrava seu rosto. Ele tinha sido um grande amigo de meu pai quando eu era menino, fora responsável por alguns bons presentes que ganhei de aniversário, e por muitas vezes que ele chegou em casa tarde e com cheiro de cachaça, para desespero de minha mãe. Felizmente meu pai nunca chegara sem dinheiro no bolso. Jogava, mas incrivelmente ganhava sempre mais do que perdia, e sempre voltava das noitadas quite com a despesa: o lucro gasto em bebida e salgadinhos. Andava afastado desde que meu pai se tornara abstêmio e ele não, mas ainda se cumprimentavam quando se encontravam pelo mundo.

Estávamos ainda nos cumprimentando quando Eleonora Gomes entrou, carregando um grosso envelope nas mãos. Tinha as unhas pintadas de rosa claro e um par de óculos em uma armação que combinava tanto com elas quanto com o tom dos sapatos, o tipo de luxo que ostenta cuidado obsessivo com a aparência. Era uma das conhecidas que fizera em minha carreira de representante comercial. Conhecida apenas. Mantenho distância de pessoas complicadas, especialmente as ricas. Levo uma vida simples e bastante sozinha. Gosto assim.

Achei-a bastante tranquila, apesar da recente perda de uma prima e o seu gênio, inalterado. Depois de breves minutos alternando entre respondê-la e ao Rogério, dei-me conta da falta de educação que estava cometendo:

— Desculpem-me a falta de educação, eu nem me lembrei de apresentá-los. Eleonora, esse é o Rogério, amigo de minha família, lá de São Pedro. Rogério, essa é a Eleonora, filha do Joaquim Gomes, lá de Leopoldina.

Eles se cumprimentaram cortesmente, com a urbanidade comercial e neutra que se espera nos dias de hoje. Deixei-os à vontade para darem continuidade à conversa, porque estava mais preocupado com a minha vez na fila do que com qualquer assunto que eles pudessem começar. O sol ia avançando pelo chão, como uma doença que se espalha, e a a fila andava lentamente demais. De vez em quando eu interrompia minha preocupação para dar um ou outro empurrão no assunto. Numa dessas vezes o empurrão funcionou tão bem que eles entraram numa conversa que tardou quase meia hora, e me colocou no meio:

— Você sumiu de Leopoldina, Eleonora.

— Estou agora vivendo em Governador Valadares. Meu marido está trabalhando com mineração por lá, temos uma empresa grande, que presta serviços à Vale do Rio Doce.

— Interessante, dizem que aquela região voltou a crescer bastante nos últimos dez anos — comentei, sem nenhuma intenção especial.

Foi a deixa para que ela começasse a falar sobre as maravilhas de lá, do pleno emprego, das oportunidades de negócios, do fluxo de pessoas e coisas. Eu até comecei a ter vontade de abandonar o meu emprego e ir para lá também. Felizmente eu sabia que ela era dada a exageros, especialmente quando falava de si mesmo e de suas infinitas qualidades. A menção de que o marido estava no ramo de mineração acabou atraindo Rogério para o assunto:

— Eu também estou no ramo — ele disse. Mas claro que não tenho uma empresa grande. Aliás, eu não trabalho diretamente com minério, eu alugo caminhões para as mineradoras.

— Pois é, menino. Lá em Valadares o negócio tá crescendo tão depressa que está faltando caminhão. E os que aparecem estão cobrando um horror. Meu marido está tentando conseguir 150 caminhões trucados para transportar minério, mas se for pagar o preço que andam cobrando ele não vai conseguir ter lucro. Você não conhece, por acaso, quem possa nos arranjar esses caminhões?

— Uai, eu posso — disse o Rogério. Eu arranjo esses 150 caminhões para você. E eu sei quanto andam pagando por lá. Eu faço por vinte por cento a menos se me der um contrato.

Eu me assustei um pouco com a afirmação do Rogério, que não me parecia ser o dono de tanto caminhão, especialmente numa cidade tão pequena quanto São Pedro.

— Mas, Rogério. Você tem tanto caminhão assim, homem? Com cento e cinquenta caminhões dá para levar embora São Pedro inteira!

— Uai, só eu tenho uns vinte a meu serviço, e eu arranjo o resto com amigos, parentes ou conhecidos. Fácil.

— Não vai sobrar um caminhão num raio de noventa quilômetros se você arranjar 150 caminhões para ela.

Rogério ficou um pouco ofendido com a insinuação. Mas reafirmou que conseguia.

— Passe o seu telefone, por favor — pediu a Eleonora.

Rogério não se fez de rogado e cantou o número de um telefone móvel. Ela tomou nota dele em uma folha avulsa de papel, retirada de dentro da bola, mesmo estando com o próprio celular à mão. Anotar um telefone num pedaço avulso de papel é desejar perdê-lo, para ter a desculpa de não ligar. Desculpa talvez desnecessária, pois um número citado tão depressa talvez estivesse errado.

Estávamos nisso quando chamaram a senha do Rogério para um dos dois guichês de atendimento, e logo a minha. Saímos de lá, separadamente, para resolver nossos problemas pessoais, deixando Eleonora com o telefone anotado e aquele seu belo sorriso escancarado.

Nunca soube se ela ligou, ou se o número estava certo. Porque eu mesmo não tomei nota dele. Só sei que continuou duvidando que haja tanto caminhão em São Pedro, ou num raio de noventa quilômetros. Tanto quanto duvido que Eleonora tenha uso para 150 trucados em seja qual for a empresa de seu marido. Ela é dada a exageros, só não contava que a gente de minha terra fosse dada a mais. Com 150 caminhões trucados não sobrava nenhuma casa em São Pedro. Não sobrava, talvez, nem a Pedreira Velha.

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