Inversão da Terapia

Na União Soviética o terapeuta é tratado por você
— “reversal russa.”

Eram ainda sete e meia da manhã quando a faxineira deu o grito e os seguranças apareceram no corredor do terceiro andar do Edifício Atlante. Havia um homem sentado no chão diante da porta do consultório do Dr Jair Lima, psicólogo relativamente obscuro e fama duvidosa. Um homem bem vestido e limpo, mas de aparência transtornada, que gaguejava quase sem conseguir falar.

— Tomei um susto quando vi esse sujeito aí. Achei que fosse um ladrão — disse ela.

Os seguranças o interpelaram sobre o que estava fazendo e ele, engasgado com as palavras, só pôde dizer, aos trancos, que precisava conversar urgentemente com o Dr Lima.

— Ele só vem às nove — informou um dos seguranças.

O outro logo depois tomou consciência de uma circunstância ainda inexplicada:

— Como entrou no prédio?

Para sorte do estranho, o Dr Lima chegava mais cedo naquele dia e se deparou com a cena.

— Dr Lima, fui eu quem lhe ligou ontem à tarde. Preciso falar com o senhor, e é urgente!

O médico acenou para os seguranças que deixassem o estranho em paz. Estava interessado no caso. O relato preliminar pelo telefone tinha indícios promissores de alguma variedade. E o Dr Lima, especialista em terapia de regressão, estava cansado de atender senhoras frustradas que desejavam descobrir que haviam sido princesas da Europa medieval.

— Espere a secretária para fazer a ficha. Ela chega dentro de uma hora. Chegou cedo demais.

— Doutor, por favor, não posso esperar. É uma emergência.

— Sem ficha não há como atendê-lo. E você deve saber que a minha especialidade não conhece o conceito de emergência médica, se é que me entende.

— A secretária não vem hoje. Acordou de mal-estar e foi ao hospital. Está grávida, do senhor.

O Dr Lima não se impressionou com esta afirmativa no momento em que ela foi feita. Indicou um assento ao estranho e entrou para o consultório, onde se ocuparia das rotinas preliminares — entre elas ouvir o noticiário matinal do rádio, lavar o rosto e fazer uns alongamentos.

Já de mãos e rosto limpos, sentou-se atrás da escrivaninha, girou a cadeira e abriu o fichário para começar a pensar nos casos do dia anterior. Estava nisso ocupado, organizando seus pacientes e pensamentos quando o telefone tocou. Uma voz pouco familiar, carregada de sotaque indefinível:

— Doutô, a Mirte não vai hoje. Ela ‘tá no hospital tomando soro. Acordou mal e a gente achou melhor ela passar o dia descansando.

— Ela está bem?

— Deve de ‘tá, mas é meó descansar enquanto a gente num sabe o que é.

Depois de repor o telefone no gancho, o Dr. Lima procurou o número da Mirtes e ligou para o hospital, tentando notícias. Conseguiu que transferissem a ligação para o quarto e ela estava bastante bem para atender, embora tomando soro:

— Mirtes, bom dia. O que houve?

— Amanheci com o estômago embrulhando, calafrios, vômitos.

— Espero que seja fígado.

— O médico quer ter certeza, mas ele e eu achamos que não.

O estranho estava encostado do lado de fora da porta quando o Dr. Lima a abriu, com uma expressão de espanto nos olhos.

— Como soube?

— Sei porque o senhor me contou amanhã.

— Que? Que loucura é essa?

— É disso que preciso falar, Dr. Lima.

— Está bem, entre.

Sentados os dois na sala de consultas, o Dr. Lima procurou criar um ambiente relaxado, com um incenso suave, uma música baixa e cortinas semicerradas, favorecendo um clima de sonolência.

— Por que veio até mim, você?

— Há uma semana, mais ou menos, eu o ouvi no rádio. Soube da sua especialidade.

— E o que o senhor quer?

— Normalmente, nada. Mas de uns três ou quatro meses para cá eu comecei a ter episódios de ausência. Eu fico aéreo, lembro coisas que parecem distantes. Pessoas, lugares, datas.

— Regressão espiritual, provavelmente. Algumas pessoas têm facilidade para ter, mesmo em vigília. Em toda a minha carreira só encontrei duas pessoas que entravam em regressão de forma espontânea. O senhor é o terceiro.

— Mas existe uma coisa, Dr. Lima, que torna o meu caso diferente.

O Dr. Lima deu um suspiro. Ali estava outro que se achava especial apenas porque lhe ocorria um fenômeno provavelmente idêntico ao que acometia muitas outras pessoas. Mais do que isso, alguém que se julgava único, diferente até dos dois outros únicos casos semelhantes citados.

— E você poderia me dizer em que consiste a diferença?

— Bem, no princípio era imperceptível, mas depois de três ou quatro dias eu vi um padrão nessas memórias. Comecei a tomar nota, buscar ligações. Então percebi que lembrava as coisas em ordem inversa.

— Como assim? Como um filme ao contrário?

— Não, não! Lembro cenas completas. E cada próxima lembrança é de um fato anterior ao que eu presenciei da vez anterior.

— Como sabe dessa ordem inversa?

— Estou anotando todas. Veja bem, imagine que hoje me lembre de uma pescaria de barco na praia. Então dentro de um dia ou dois eu lembro uma viagem de automóvel descendo a serra em direção ao litoral.

— Ah, entendi. E você acha que existe uma razão especial para as lembranças virem desta forma? Aliás, mais importante, como entende que a regressão explica o que o senhor lembra?

— Eis o problema, Dr. Lima. A regressão espiritual não explica o que está acontecendo comigo.

— Como não explica? O senhor está lembrando o que?

— Não é uma vida passada, doutor! É difícil de acreditar, mas estou me lembrando das coisas desde um futuro distante até o presente, em ordem inversa.

— Desde quando percebeu isso?

— Acho que sempre tive lembranças malucas que eu não sabia o que fossem. Quando criança eu achava que era só minha fantasia. Até cheguei a escrever alguns contos sobre isso. Mas de uns meses para cá as lembranças ficaram mais próximas e mais fáceis de identificar. Como se eu estivesse me aproximando do presente. Nas minhas primeiras lembranças estava velho e alquebrado em uma cama de hospital. Depois uma festa de bodas de diamante. Uma viagem para pescar e um acidente que me fez perder o pé. Depois me lembrei de curtir minha aposentadoria e escrever um romance autobiográfico. Depois me lembro de trabalhar em uma empresa grande, cuja sede era num prédio com longos corredores de chão cinzento. Depois me lembro…

— Por favor, abrevie. Não conte sua vida inteira ao contrário, cena a cena.

— Eu também achava que era a minha vida, doutor. Mas eventualmente eu comecei a ter lembranças nas quais eu teria de ter uma idade menor que a minha atual.

— Nesse ponto, você passou a relembrar o passado. Qual o problema?

— O problema é que não eram lembranças de meu passado. Eu também me lembro do meu passado real. E como não vivi duas vidas simultanemante, estas lembranças são de outra vida.

— Uma vida passada.

— As lembranças foram recuando até eu lembrar de mim criança, de velocípede. Depois me lembrei de aprender a falar, num dia de chuva, e eu tinha febre… Então, doutor, subitamente não me lembrei de nada por semanas. Depois lembrei de estar saindo deste prédio para voltar para casa. Uma lembrança curta, diferente das outras. Até sem sentido. E ontem me lembrei dessa conversa com o senhor, que estava preocupado porque sua secretária tinha engravidado.

A consulta terminou. O Dr Lima recolheu as fichas com anotações e despediu o paciente, marcando uma nova conversa para a manhã seguinte.

— Mas, é só isso? Não vai me receitar nada?

— Um psicólogo não receita remédios.

— Mas eu vim porque precisava de explicações.

— As explicações devem surgir de dentro de você mesmo. Meu trabalho é permitir que aflorem. Não posso lhe dar as respostas prontas.

— Está bem, volto amanhã — disse o estranho, em um tom de voz resignado e medroso.

O Dr Lima passou todo o começo da tarde pesquisando a literatura sobre possíveis explicações. Nesse meio tempo, com a Mirtes já em casa, recuperada, recebeu uma ligação da mesma mãe desatinada, acusando-o e cobrando responsabilidade.

No dia seguinte o paciente não apareceu no horário, mas o Dr Lima sorriu diante da misteriosa sincronicidade quando, voltando do almoço, viu-o de pé no meio da praça, parecendo ausente, como um bêbado que caiu da espaçonave.

Aproximou-se com cuidado, temendo que estivesse em surto psicótico, e abordou-o:

— Vem comigo, camarada. Tinha razão. O mal estar da minha secretária. Mirtes, ela está mesmo grávida. Você realmente previu isso. Mas como?

Mas as perguntas rebatiam na parede de indiferença como bolas de tênis sacadas contra um muro. Puxou o estranho pelo braço, trazendo-o cada vez para mais perto do prédio onde ficava o consultório. Abriria mão de mais meia hora de almoço para poder conversar mais com o sujeito.

— Disse que tinha ficado semanas sem lembrar. Está assim agora? Ou está lembrando?

Silêncio persistente.

— Recomponha a sequência para mim: semanas de apagão, você lembrou que voltava de meu consultório, depois lembrou que eu lhe contava sobre a gravidez de Mirtes, e… depois?

Quando chegaram sob a marquise do prédio, o estranho pareceu acordar do seu entorpecimento. Olhou em volta, situou-se geograficamente no planeta e tentou articular alguma frase. Mas a sua voz saía pesada e fria, a boca se mexendo sem comando.

E então desenvencilhou-se das mãos do Dr Lima e desabalou a correr rua abaixo. Rua abaixo, como quem foge para salvar sua vida. E então, ao chegar à esquina, deparou-se contra o intransponível muro da escuridão da morte, na forma de um atropelamento por um caminhão.

Fechou os olhos para não ver. Dentro de si sentiu culpa por não ter dado mais atenção ao pobre. Agora não conseguiria mais nenhum detalhe sobre seu processo de regressão, que tinha a peculiaridade de retroceder no tempo desde o futuro.

Quando voltou ao consultório, pegou a ficha do estranho, anotada apenas com o prenome que ele lhe dera. Maldita praxe de sigilo! E então, subitamente, uma conclusão se desenhou: agonia, bodas de diamante, viagem, aposentadoria, trabalho, faculdade, velocípede, dias sem lembranças, a volta do consultório interrompida no meio do caminho… Fazia sentido, apesar de inacreditável!

— Ah, pobre amigo. Não me admira. Eu também teria dificuldades para conviver com uma premonição dessas.

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