Tradução: A Vinda do Verme Branco, 7 (C. A. Smith)

Evagh, aturdido, interrogou Dooni e foi respondido conforme o que perguntara. E às vezes a voz de Ux Loddhan lhe respondia e às vezes havia murmúrios ininteligíveis que expressavam aqueles outros entre os fantasmas chorosos. Muito Evagh aprendeu sobre a origem e a essência do verme, e aprendeu o segredo de Yikilth e a maneira pela qual Yikilth flutuara dos abismos transárticos para viajar pelos mares da Terra. Sempre, ao ouvir, o seu horror aumentava, ainda que atos de magia negra e conjurações de demônios houvessem por muito tempo endurecido sua carne e sua alma, tornando-o insensível a horrores incomuns. Mas sobre tudo o que ele aprendeu é inadequado falar nesse momento.

Por fim se fez silêncio no domo, pois o verme dormia profundamente e Evagh já não tinha o que perguntar ao fantasma de Dooni, e os que estavam presos com Dooni pareciam esperar e vigiar em uma paralisia de morte.

Então, sendo um homem de muita firmeza e resolução, Evagh não demorou mais e retirou de sua bainha de marfim a espada de bronze curta, mas bem temperada, que ele sempre carregava junto ao cinturão. Aproximando-se do divã até bem perto ele mergulhou a lâmina na massa intumescida de Rlim Shaikorth. A lâmina entrou fácil, com um movimento de retalhar e rasgar como se tivesse perfurado uma monstruosa bexiga, de forma que ela não se deteve nem mesmo na empunhadura, e todo o braço direito de Evagh foi puxado atrás dela para dentro da ferida aberta.

Ele não percebeu nenhum movimento ou inquietação no verme, mas da ferida aberta esguichou uma torrente súbida de matéria negra e líquida, cada vez mais rápido e com mais força, até que a espada foi arrancada do punho de Evagh como por um redemoinho. Muito mais quente que o sangue e fumegante de estranhos vapores e fumaças, o líquido correu sobre a pele de seu braço e molhou suas roupas ao cair. O gele aos seus pés logo ficou coberto, mas o fluido ainda jorrava como de uma inexaurível fonte de podridão, e se espalhava por toda parte em poças e correntes que se juntavam.

Evagh teria fugido então, mas o líquido preto, subindo e correndo, estava já nos seus tornozelos quando ele chegou ao topo da escada, e corria por ela abaixo como uma catarata rumo a uma caverna abissal. Mais e mais quente ele se tornava, fervendo e borbulhando, enquanto a corrente se fortalecia e o cercava e puxava como mãos malignas. Ele temeu seguir pelas escadas, mas não havia nenhum lugar no domo onde pudesse subir para refugiar-se. Ele se virou, lutando contra a força do líquido apenas para ficar de pé, e viu vagamente através dos vapores fétidos a massa entronizada de Rlim Shaikorth. O rasgo se abrira prodigiosamente e uma torrente saía dele como as águas de uma barragem rompida, cuspida para a frente em torno do divã, e mesmo assim, como para provar ainda mais a natureza sobrenatural do verme, seu volume ainda não diminuíra. E o líquido negro ainda vinha em uma enchente maligna e subia rodopiante em torno dos joelhos de Evagh, os vapores parecendo tomar a forma de uma miríade de formas fantasmagóricas, que se contorciam obscuramente, se juntando e se separando ao passarem por ele. Então, enquanto cambaleava e sentia náuseas no topo da escada, ele foi subjugado e atirado para a sua morte nos degraus de gelo.

Naquele dia, no mar ao leste da média Hiperbórea, as tripulações de certas galeras mercantes contemplaram algo inaudito. Pois eis que, ao se dirigirem para o norte, retornando de distantes ilhas oceânicas com um vento que ajudava o trabalho de seus remos, elas avistaram no fim da tarde um monstruoso iceberg cujos pináculos e cumes pareciam mais altos que montanhas. O iceberg brilhava parcialmente com uma luz estranha, e de seu pináculo mais alto jorrava uma torrente negra e todos os cimos e arcos de gelo abaixo estavam tomados de correntes, cascatas e cataratas do mesmo negrume, que fumegavam como água fervente ao se atirarem no mar, e o mar em torno do iceberg estava turvo e rajado em uma grande extensão, como se lhe houvessem derramado o fluido escuro dos polvos.

Os marinheiros tiveram medo de chegar mais perto. Em vez disso, espantados e maravilhados, suspenderam os remos e ficaram contemplando o iceberg. O vento diminuiu de forma que suas galeras ficaram à vista dele durante todo o dia. Eles viram que o iceberg derretia rapidamente, se desfazendo como se um fogo desconhecido o consumisse, e o ar adquiriu um calor estranho, e a água em volta de seus navios ficou morna. Penhasco a penhasco o gelo foi escavado e devorado, e grandes porções caíram com um poderoso estrondo. O píncaro mais alto também desmoronou, mas o negrume ainda jorrava como de uma fonte profunda. Os marinheiros pensaram ver, em certos momentos, que casas flutuavam sobre alguns dos fragmentos desprendidos, mas disso não tiveram certeza por causa dos vapores crescentes. Ao pôr do sol o iceberg tinha sido reduzido à massa de um bloco de gelo comum, mas inda seguia a fonte de negrume que o cobria, ele afundou entre as ondas, e a estranha luz se apagou por fim. Então, como era noite sem lua, ele se perdeu da visão e uma tempestade assomou, soprando fortemente do sul, de forma que ao amanhecer o mar não tinha mais nenhum sinal.

Sobre os assuntos relatados acima, muitas e variadas lendas surgiram em Mhu Thulan e todos os reinos extremos da Hiperbórea e seus arquipélagos, até mesmo a ilha sulina de Oszhtror. A verdade não está em nenhuma destas lendas, pois nenhum homem a conheceu até hoje. Somente eu, o feiticeiro Eibon, evocando por necromancia o espectro de Evagh, perdido entre as ondas, aprendi dele a verdadeira história do advento do verme. Eu a escrevi em meu livro omitindo o que é necessário para poupar a sanidade dos frágeis mortais. E os homens lerão este registro, junto de muitas outras tradições mais antigas, em dias futuros, muito depois da vinda e derretimento das grandes geleiras.

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3 respostas a “Tradução: A Vinda do Verme Branco, 7 (C. A. Smith)”

  1. NÃAAOO, rsrs, adoro o Ashton-Smith, é pq nem li ainda, pois só quero ler quando estiver completo, e essa sétima parte num tinha indicação que era a parte final, AGORA lerei (rsrs) Continue com as traduções dele, ou talvez do Derleth! Parabéns!

  2. Não, Sílvio. Fiz em sete partes (o original não tinha divisões).

    Ficou frustrado com o fim?

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