Os Dândis do Congo

“The Congo Dandies”, do canal Russia Today, abriu meus olhos para um fato que eu até já intuía, mas que nunca racionalizara, muito menos verbalizara: o impacto que a ideologia consumista tem sobre as culturas do mundo em desenvolvimento, notadamente gerando situações em que o fetiche da mercadoria *cria* subculturas.

Infelizmente ainda não legendado em português, esse maravilhoso documentário explica de maneira bem bruta como o colonialismo destruiu e recriou a cultura popular de um país africano, o Congo.

Tudo começou com os soldados congoleses recrutados pelo exército colonial francês, que foi desmobilizado gradualmente a partir da Segunda Guerra Mundial, devido à descolonização. Esses soldados retornaram ao Congo com uma certa quantidade de dinheiro, ainda que seus soldos fossem menores que os das tropas francesas, e com as malas cheias de roupas e acessórios adquiridos na Europa. Esses itens de vestuário foram usados por eles para se afirmarem perante os locais, apresentando-se bem-vestidos de uma maneira chocante para uma região tão pobre. Com isso adquiriram uma reputação, ainda que postiça, mantendo uma aparente dignidade depois do fim de seu período militar.

Nas décadas seguintes, esses mesmos soldados, seus descendentes e seus imitadores mantiveram o hábito de adquirir e usar roupas extraordinárias como uma forma de elevar a autoestima. O grupo informal a que pertenciam recebeu o nome de sape, *Societé des Ambianceurs et des Personnes Élegants* (Sociedade de Impressionadores e de Gente Elegante, numa tradução livre). Os *sapeurs* cultivaram esses hábitos por décadas, atravessando fases boas e ruins em seu país, expandindo sua influência para as regiões vizinhas (Zaire, atual República Democrática do Congo, e Gabão) e usufruindo de uma certa idolatria entre os locais.

Isto, claro, é algo triste, porque revela a maneira como o fetichismo da mercadoria pode ir muito além do que Marx poderia supor, e como a ideologia consumista, filtrada pelas lentes do colonialismo, pode afetar as pessoas.

Marx cunhou o termo “fetichismo da mercadoria” para descrever a maneira como os objetos produzidos pela economia capitalista assumem um papel subjetivo além de seu uso prático:

> O caráter misterioso da forma-mercadoria consiste, portanto, simplesmente em que ela apresenta aos homens as características sociais do seu próprio trabalho como se fossem características
objectivas dos próprios produtos do trabalho, como se fossem propriedades sociais inerentes a essas coisas; e, portanto, reflete também a relação social dos produtores com o trabalho global como se fosse uma relação social de coisas existentes para além deles. É por este quiproquó que esse produtos se convertem em mercadorias, coisas a um tempo sensíveis e suprassensíveis (isto, é, coisas sociais).[…] Ao invés, a forma mercadoria e a relação de valor dos produtos do trabalho na qual aquela se representa não tem a ver absolutamente nada com a sua natureza física nem com as relações materiais dela resultantes. É somente uma relação social determinada entre os próprios homens que adquire aos olhos deles a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas. Para encontrar algo de análogo a este fenômeno, é necessário procurá-lo na região nebulosa do mundo religioso. Aí os produtos do cérebro humano parecem dotados de vida própria, entidades autônomas que mantêm relações entre si e com os homens. O mesmo se passa no mundo mercantil com os produtos da mão do homem. É o que se pode chamar o fetichismo que se aferra aos produtos do trabalho logo que se apresentam como mercadorias, sendo, portanto, inseparável deste modo-de-produção.

É claro que Marx escreveu há muito tempo e tinha referências limitadas para trabalhar. Isso o impediu de desenvolver plenamente alguns conceitos que intuiu. O fetichismo da mercadoria é um desses casos. A ideia de que as pessoas atribuem valores imateriais e subjetivos a objetos materiais foi bastante expandida desde então, inclusive fora do terreno marxista — o que serve para lhe emprestar ainda mais valor. A ideia mais específica de que as mercadorias adquiririam um valor além das suas propriedades físicas e de sua utilidade, embora *profetizada* por esse trecho de Marx, só encontrou plena fruição no século XX, graças a teóricos como Marshall McLuhan, que cunhou a célebre frase “o meio é a mensagem”, com a qual Marx certamente concordaria. Portanto, você nem precisa concordar com Marx para aceitar a validade do conceito, apenas aprender a ler o mundo com os seus próprios olhos.

Você começa a entender porque quando chega ao trecho entre os 3min 40s e os 4min. “Pela minha dignidade, pela minha autoestima, eu precisava ter um par de Westons”. Nota alguma semelhança entre o discurso desse rapaz de Brazzaville e as letras de alguma música pop que ouviu recentemente?

Ser um membro da sape é uma maneira de buscar um status pessoal além das limitações da pobreza e do isolamento em que vivem as cidades africanas, invisíveis ao mundo. Em anos recentes, com a descoberta dos *sapeurs* pela mídia europeia, aderir ao movimento passou a ser uma nova maneira de obter visibilidade. Os membros, afinal, são procurados para entrevistas a canais estrangeiros de televisão, posam para fotos que sairão em portais de notícias, entram no imaginário coletivo da humanidade. A sape, então *cumpre o seu papel*, o que é suficiente para que os seus membros a vejam como um sucesso.

Buscar dignidade e autoestima naquilo que compra e possui, como, no caso, as roupas que veste, é uma mentalidade capitalista típica. *You are what you wear, wear well*, cantava Peter Gabriel em 1974, quando ainda era vocalista do Genesis. Nas sociedades capitalistas a posse de bens é uma medida de status social considerada válida. Afinal, a burguesia não se originou de guerras (como a antiga nobreza de espada), mas do acúmulo de bens materiais, que em seguida se traduziu no acesso ao poder político. A propriedade demarca a linha invisível entre a elite capaz de consumir e de usufruir do sistema plenamente e uma massa de indivíduos que não tem acesso aos bens de consumo, ou que os consome parcial e indiretamente.

Talvez você tenha assistido esse documentário com um riso no rosto, talvez tenha zombado desses caras “babacas” com seus ternos coloridos, seus relógios de ouro, suas bengalas, seus óculos de grife e suas gravatas espalhafatosas. Talvez. Mas será que o fato de terem escolhido consumir em roupas os torna essencialmente diferentes de pessoas de outros lugares, que escolhem consumir outros objetos?

> Agora eu fiquei doce, doce, doce, doce
> Agora eu fiquei doce igual caramelo
> ‘Tô tirando onda de Camaro amarelo
> Agora você diz “vem cá que eu te quero”
> Quando eu passo no Camaro amarelo
> — “Camaro Amarelo”, de Munhoz e Mariano

> You mad cause I’m stacked up, and you underachiever
> You see the plat’ Amex, you still fuck with Visas
> — “Bling Bling”, de Gucci Mane

> Agora assista aí de camarote
> Eu bebendo gela, tomando Ciroc
> Curtindo na balada, só dando virote
> E você de bobeira sem ninguém na geladeira
> — “Camarote”, de Wesley Safadão.

Qual a diferença entre esbanjar com roupas, com carros, com cartões de crédito ou com bebidas importadas caras? Talvez a diferença seja que as roupas não são tão caras quanto carros e telefones celulares de última geração, nem tão efêmeras quanto uma garrafa de bebida. Por isso são atraentes para os congoleses, são acessíveis e seu efeito de status é mais duradouro.

Esse é um dos aspectos cruéis do capitalismo, no qual as pessoas são frequentemente julgadas pelo que possuem e pelo que consomem, e são, às vezes, forçadas a comprar coisas caras para que possam aparecer socialmente aceitáveis, tudo pela dignidade, pela autoestima ou, quando é ainda pior, para manter uma imagem aceitável e garantir “empregabilidade”, que se traduz na própria sobrevivência.

> Compramos coisas de que não precisamos com dinheiro que não temos para impressionar gente de quem não gostamos.
> Dave Ramsay

Os *sapeurs* congoleses sabem que lhes é concedida parca dignidade, que vivem em abjeta pobreza em um país que ainda é, de muitas formas, uma colônia da França. Os fundadores da sape lutaram em uma terra estrangeira uma guerra que não era sua e usaram o dinheiro que ganharam para comprar coisas igualmente estrangeiras, com as quais se apresentaram como superiores (essa é a palavra que se evita ao falar sobre a sape) aos seus compatriotas que não haviam estado em Paris. Eles, que haviam sentido na pele o tratamento indigno recebido dos franceses, quiseram elevar-se pelo consumo, adquirindo roupas francesas e fingindo-se cavalheiros parisienses.

> Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é tornar-se um opressor.
> Paulo Freire.

A gente pobre das ruas de Brazzaville, a capital do Congo, que ainda leva em seu nome a homenagem a um explorador colonial, celebra e idolatra os *sapeurs*, que se apresentam como os “melhores” entre os seus pares, embora sejam pessoas comuns, que apenas compram e usam roupas bonitas — e caras.

Tirando onda com o Camaro amarelo

Brasileiros tirando fotos com um Camaro amarelo

Aqui vemos algo parecido: brasileiros comuns tirando fotos ao lado de um Camaro amarelo (obviamente alheio). A mera proximidade de um automóvel transformada em um motivo para se fotografar e lembrar, visto que este é objeto de desejo de muita gente, por ter entrado no imaginário popular através de uma canção pop de grande sucesso e pela sua associação com os filmes dos *Transformers*.

Esses são todos exemplos do fetiche da mercadoria desenvolvido além do que Marx poderia sequer sonhar. Carros de luxo não são essencialmente necessários, tal como roupas de grife. Estritamente falando, tudo o que um carro precisa para ser útil é possuir um chassis, um motor, um teto, assentos para os ocupantes e os itens mínimos de segurança. Todos poderiam até ser da mesma cor, como Henry Ford os queria, poderiam ter o mesmo desenho ao longo das décadas — isso não importa para a sua utilidade. Não dirigimos *design*, não transportamos mercadorias usando *design*.

As pessoas querem um carro novo, que pareça novo. Querem carros que se diferenciem dos carros que são acessíveis ao público em geral. O carro deixou de ser um meio de transporte para ser um meio de marcação de status, assim como as roupas dos *sapeurs* deixaram de ser itens de vestuário para serem simbólicas de sua personalidade e de sua autoestima.

Em todos os aspectos fundamentais, os congoleses da sape não são diferentes de pessoas como eu e você. Talvez seja mais agressivo o contraste entre suas roupas e a miséria dos lugares por onde andam, mas isto só muda alguma coisa quanto à facilidade de perceber o absurdo do fetiche da mercadoria.

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