Secretária Eletrônica

6 junho há 10 anos

Um dia Mariana abandonou Roberto, sem explicações e sem rituais. Apenas foi-se embora de sua vida, sem que mesmo fosse para ir viver com outro homem. Revoltado, magoado, diminuído, ele passou dias remoendo a raiva, impotente. Por fim rendeu-se à paixão: ligou para o auxílio à lista e descobriu seu novo telefone. Sem pensar duas vezes, ligou para fazer juras de amor, na esperança da volta. Debalde, quem atendeu foi a secretária eletrônica: — Aqui é 3666–4545. Por favor, deixe seu recado após o sinal. […]

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Pode-se Viver

2 junho há 10 anos

Pode-se viver de amor, mas principalmente morrer. Não faz bem pensar assim, mas é uma verdade que treme quando o homem se consome pensando em pesos contrários e sentimentos marcados. O amor foi uma verdade durante séculos de mito, hoje é um amargo apenas la língua de quem beijou. Fala-se dele como do morto parente que um dia se amou. Pode-se viver de amor, mas principalmente está morto o amor de que se vivia no tempo em que era fácil morrer. Por isso apague aquele […]

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As Vozes

12 maio há 10 anos

As vozes me dizem que você está mentindo, mas eu sei que é mentira delas. Elas estão me perseguindo. Faz uma semana que elas me levaram a fugir de casa, e desde então eu quase não durmo, sonhando com coisas vermelhas e brilho duro. Havia um palor esquisito na face de Helena quando a vi da última vez, estava quieta e nossa relação definitivamente esfriara. Não haviam adiantado as rosas e nem o diamante. Depois de três dias sem mais nos falarmos não consegui suportar […]

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O Salário da Perseverança

7 maio há 10 anos

Rosana se sentia enterrada cada vez que penetrava o recinto asséptico e formal daquele imenso edifício de cimento e vidro em que trabalhava. Para entrar ali tinha de se vestir com a formalidade que não se usa mais nem para ir a casamentos: terninho, lenço ao pescoço, maquiagem, cabelo preso, sapatos pretos de salto, joias de prata discretas e óculos sem aro. Depois que entrava e mostrava seu crachá na portaria, deixava de ser a Zaninha do André e passava a ser Dona Rosana Couto, […]

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A Pilastra

21 abril há 10 anos

Fernanda recebia cada bloco de mármore como outro desafio. Havia muitos, mutilados, espalhados pela sua oficina. Com o tempo aprendera a emendar seus erros transformando grandes obras em pequenos objetos. Uma estátua fracassada virava um monte de pequenos ornamentos, utensílios, pesos de papel em formatos variados. Liberta da necessidade de produzir algo grandioso, infundia ao mármore a inocência de cachorrinhos, escaravelhos, palhacinhos. Tais minúsculas manifestações migravam de seus sonhos para suas mãos e se instalavam na pedra como garatujas de uma adolescente em um caderno […]

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A Livraria do Futuro do Pretérito

19 abril há 10 anos

Existe uma certa magia nas grandes, labirínticas cidades e suas ruas. Uma magia que seduz principalmente aos acostumados com os horizontes curtos de Minas Gerais, onde o hábito de contemplar montanhas bloqueia os voos da imaginação de quem não ousa escalar os topos para descortinar uma vista aberta. Certas cidades possuem um ar ainda mais labiríntico e um fascínio ainda mais palpável do que outras porque justamente colocam lado a lado coisas diversas e surpresas inesperadas. Tal é o caso de Juiz de Fora, com […]

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Os Jovens Johnnies

30 março há 10 anos

“Eis que bem sabemos que certas pessoas, menores de idade no caso, são boas na escrita, desenvolvem bons textos. Porém, será que as editoras aceitariam obras destas? Eis a simples questão” — perguntou no Orkut um jovem que acha que escreve os best-sellers do futuro. A questão não é simples, não. As editoras não tem qualquer preconceito específico contra menores de idade: as mesmas dificuldades enfrentadas por um petiz para publicar seu livro serão enfrentadas por um adulto. Mas eu não acredito que seja fácil […]

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De Improviso, a Alma

24 março há 10 anos

De improviso, a alma lembra algum rastro de um livro que passou pelos sonhos de um dia que senti como outro dia dentro de uma vida que passa de improviso e se arrasta quase livre, mas ainda aqui retida. Na estante do passado existe espaço em um corredor imerso em penumbra, pelas prateleiras pulsam páginas propelidas por pequenos pensamentos e abortos de pensamentos, que caíram antes de serem inseridos em projetos. Cada livro que é largado sem ser lido na biblioteca do profundo esquecimento, cada […]

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Alguém Vai Revisar Para Mim

21 março há 10 anos

Esse negócio de gramática e ortografia é pedantismo, eu sou escritor, não sou professor de portugues. Se eu comete um erro aqui ou alí, não tem probelma porque auguém vai revisa para mim. Sempre tem alguém para corrijir e vc ficar perdento tempo concertando pekenos erros que comete escreveno te distrai do mais immportante que é faze a históira avança. Não que eu esteja planjeado escreve um livro de oitocentas paginas, não. Meu negócio são mini0contos, mas mesmo em duas páginas de texto dá muito […]

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Não Tomo Juízo

1 março há 10 anos

Não tomo juízo: prefiro tomar cerveja, ou um caminho diferente. Estou cansado de gente que tem juízo e tudo, que sempre prevejo vão no mesmo caminho e não sabem da cerveja o que faz de bem. Não tomo juízo: tomo o pé do rio e tento o outro lado. Estou cansado de pensar, creio querer sentir. É uma pena que tanta gente precise pensar tanto: para eles é como se o pensar fosse penoso. Penso como respiro e preciso é sentir.

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Literatura Transistorizada

28 fevereiro há 10 anos

Num mundo em que tamanho é documento (carrão, peitão, sonzão, pancadão, etc.) é paradoxal que em relação à cultura se valorize o oposto (mini-conto, mini-poema, noveleta, músicas de dois ou três minutos, etc.). Dizem que é porque as pessoas hoje “não têm mais tempo” para ler, para ouvir música, enfim, para fazer coisas que não sejam sexo nem necessidades básicas. A moda hoje é a literatura transistorizada: se você pode fazer menor, então isso quer dizer que é melhor. Só que arte não é eletrônica […]

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Dois Gringos na Lapa

23 fevereiro há 10 anos

Shaul pensa no buraco negro que se aproxima, interrompe o gole de uísque para pensar nos tentáculos da destruição que se espraiam pelo cosmos em direção à Terra, prestes a engolfá-la em breve. Esse pensamento parece arejar sua mente com uma rajada de lucidez. De repente tudo se revela tão instável, e cada vez mais próximo. — Há muitos anos — confessa a Randall — eu conheci uma garota lá em Minas Gerais. Era uma pobre coitada que vivia com a avó caduca e três irmãos […]

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