O Último Reduto

Júlio era um “programa humano”. Esse era o nome pelo qual os líderes do Magistério Supremo os chamavam. Pessoas cujos cérebros haviam recebido, ao longo de uma vida inteira, informações subliminares destinadas a prepará-las para o momento em que o Grande Mestre resolvesse usá-las. Todos sabiam que os programas humanos eram amplamente conduzidos na Terra inteira e muitos os odiavam, mas vivia-se um tempo em que até odiar o Magistério já se tornara algo cuidadosamente controlado, pelo Magistério.

Sempre tivera a impressão de que o programa que recebia sem perceber toda  vez que ia à Escola, especialmente nas vezes em que estava só na Biblioteca, era de um tipo diferente, mais importante. Diziam que ele era apenas um convencido, mas ele nunca se importara: durante anos esperara pelo momento do Chamado, que nunca parecia vir. Até o dia em que o Mestre Local o chamou, instruiu-o a limpar os sapatos corretamente e vestir uma roupa mais casual, e então lhe destinou à mais difícil de todas as missões: Encontrar e Destruir o Último Reduto dos rebeldes.

Ninguém sabia onde ficava o Último Reduto. Esta era uma informação mantida em absoluto segredo pelo Magistério, supondo-se, é claro, que o próprio Magistério saberia. Mas o Magistério, logicamente, sabia tudo. Ou talvez não. Por um momento a certeza de Júlio quanto à Verdade dos Ensinamentos vacilou, mas ele se livrou de tais hesitações, argumentou contra sua falta de objetividade e começou a tentar lembrar os detalhes da missão, a fim de reencontrar sua identidade. Ao mesmo tempo, tentava detectar onde estava, saber se tinha chegado ou não ao seu destino.

Saíra da Terra em uma nave Columba-III, subluminal, como todas que ainda se construía. Alguns diziam que no passado houvera naves capazes de viajar acima da velocidade da luz, provavelmente uma lenda plantada pelos rebeldes. Ou talvez os humanos  estivessem perdendo seus antigos conhecimentos. Novamente Júlio sentiu o calafrio da dúvida. “Isto não é possível: sob a condução do Magistério o Conhecimento se multiplica.” Era uma frase feita, programada em sua mente desde a mais tenra infância. Uma frase que lhe dava conforto.

Ao despertar se sentira saindo de um sono de séculos, mas não se lembrava quanto tempo dormira. Na sua mente não havia noite anterior, nem planos para depois de acordar, o que era muito estranho, mas se lembrava que seu nome era Júlio e tinha uma missão: Encontrar e destruir.

Superou a força das lembranças e tentou acostumar-se com a luz abundante. Olhou em torno, mas da cama em que estava deitado não conseguia ver quase nada. Eram paredes verde-pálidas, inodoras. A janela, estranhamente pesada e tosca, não parecia de plástico nem de alumínio. Algum material estranho, meio esponjoso e não totalmente rígido. Estava fechada, bloqueando toda a luz, exceto por furinhos na parte superior, pelos quais se filtrava uma réstia azulada. O quarto era mobiliado apenas pela cama e por uma espécie de roupeiro feito do mesmo material da janela, diferentemente da cama, que parecia ser de aço, embora não muito puro.

Tentou erguer-se e descobriu que estava amarrado pelos tornozelos e suas mãos estavam presas à cabeceira e modo que não pudessem alcançar os pés. Esta descoberta o fez ficar sobressaltado.  Positivamente não o reconheciam como um Aluno. Conseguira reencontrar sua identidade. Isto lhe fez sentir-se melhor. Era um Aluno, mas havia sido tornado em Mensageiro. Mensageiro da Morte. Tinham-no enviado em animação suspensa dentro de uma nave automática do tipo Columba-III, para encontrar e destruir o Último Reduto dos Rebeldes.

Então perguntou-se onde estava: Tinha chegado ao Último Reduto? Tinha retornado à Terra? Ou estava delirando em seu profundo sono criogênico, talvez por indução de um processo de eutanásia desencadeado pelos sistemas automáticos da nave? Ainda precisava de mais informações para decidir no que crer. Então lembrou-se que não podia estar morto, não de acordo com as Lições. Se estivesse, deveria estar no Céu dos Heróis, sendo recebido por Deus.

Ouviu vozes aproximando-se. Como furtivo mensageiro, recolheu-se em uma posição relaxada e fingiu dormir.

Eram dois: um homem e uma mulher. Entraram no quarto. Com os olhos fechados, não conseguia vê-los, restava-lhe ouvi-los e sentir seus cheiros.

O homem tinha um cheiro estranho, ardido, lembrava alguma das fragrâncias padronizadas, mas não exatamente. A mulher era quase inodora, a não ser pelo distante e ácido perfume de alguma coisa que ele nem sabia o que era. Ambos falavam em voz baixa, pausada, mas ele não conseguia entender uma só palavra do que diziam. As palavras vinham ao seu ouvido como uma algaravia qualquer, mas as entonações não deixavam dúvida de que havia um diálogo racional e contido.

Sentiu a algo frio em sua axila direita: estavam-lhe tomando a temperatura. Outra mão o apalpou no abdômen. Entre risos, a voz masculina comentou alguma coisa talvez relacionada às microscópicas reações de seu corpo ao toque daquelas mãos estranhas.

Uma mão feminina o tocou na barriga. Reuniu todas as suas forças para tentar se segurar, fingir ainda que estava a dormir para tentar captar informações. A mão feminina, atrevidamente, deslizou para debaixo do lençol, em direção aos Lugares Interditos. Então foi impossível manter-se quieto. Fingiu acordar.

Estava diante de duas pessoas de aparência saudável, mas não muito natural. A mulher era loura e corpulenta, com seios avantajados. O homem era um tanto atarracado, grisalho e de poucos cabelos. Júlio nunca vira ninguém calvo. Devia estar em alguma região bastante remota, onde o Magistério é menos atuante e as pessoas chafurdam na ignorância.

Lembrou-se de estar em sua nave, em missão. Finalmente sua mente confusa completou o raciocínio suficiente para dar-se conta de que não se lembrava do dia anterior, nem dos anos anteriores, nem das décadas anteriores. Não havia o que lembrar. Passara décadas, talvez séculos, dentro de uma nave subluminal Columba-III, em busca de algum lugar perdido no cosmos onde estivesse o Último Reduto dos Rebeldes. Que deveria encontrar e destruir, de alguma forma que somente o programa posto dentro de si saberia lhe indicar.

Os visitantes o deixaram só. Por algumas horas permaneceu desastrosamente só naquele quarto isento de estímulos. A cabeça lhe doía, as pernas se revoltavam querendo levantar, as costas pareciam passadas em uma lixa. E do lado de fora, aqueles doces mas irritantes pequenos ruídos semi-musicais que iam e vinham, martelando seus ouvidos.

O que mais lhe deixava confuso era a profundidade da amnésia que lhe sobreviera durante a viagem. O destino para o qual sua nave fora programada  era distante para uma vida humana, mas os sistemas de suporte eram suficientes para mantê-lo vivo e saudável por mais que o dobro do tempo da viagem. E deveria acordar suavemente algumas semanas antes do pouso, estar pronto para descer desperto e cumprir sua missão. Mas não conseguia mais lembrar qual exatamente a sua missão. Sim, chegar até o Último Reduto. Mas e depois? O que um homem só poderia fazer para destruir um planeta?

Algumas horas depois recebeu outras visitas. Várias visitas. O homenzinho calvo trouxe cinco outros consigo, inclusive duas mulheres macérrimas e autoritárias, que, no entanto, o olhavam de longe, quase com medo. Por quase vinte minutos conversaram entre si naquela língua diabólica, ao mesmo tempo tão foneticamente próxima, tão musical, mas tão diferente de tudo que ouvira. Algumas vezes as frases pareciam encadear-se, quase fazendo sentido, mas depois degringolavam em longos pântanos inflados de consoantes.

Tinha a certeza de que seu destino poderia ser decidido por aquelas pessoas. A percepção de que o assunto era sério lhe dava um desconforto profundo. Uma vontade de pegar sua arma portátil e acioná-la. Mesmo tendo sido desenvolvida apenas como um  método de suicídio ritualístico, ela poderia causar um bom estrago naquela gente, se disparada a uma curta distância. Mas não seria com um tiro de pistola que destruiria o Último Reduto, por isso se conteve.

Por fim, um dos visitantes determinou alguma coisa que os demais concordaram como apropriada. A consequência disso, minutos depois, foi removerem as amarras que o mantinham preso à cama. Ao se mexer, então, descobriu que estava vestido apenas com uma espécie de roupão de tecido fino, mas engomado a ponto de ficar duro. Seu primeiro impulso foi o de atacar aqueles homens e desfigurá-los a unha se fosse preciso. Mas sua racionalidade, mesmo sob o efeito de anos de condicionamento, lhe dizia que demonstrar imediata hostilidade seria inapropriado, pelo menos enquanto não soubesse onde estava ou, mais importante, onde estava a bomba. Se é que havia uma bomba capaz de matar um planeta.

Levantou-se e começou a tentar caminhar pelo quarto. Haviam sido tantos os anos, ou séculos, que seus músculos estavam presos, tentavam desobedecer à sua ordem de levar o corpo a algum lugar. Algo dizia que demoraria ainda muito tempo a conseguir sair daquele quarto. Algo lhe disse que tentar atacar aquelas pessoas teria sido inútil e teriam interpretado sua hostilidade como um simples esforço de convalescente para erguer-se da cama.

Mas conseguiu caminhar depois de alguns momentos penosos, momentos durante os quais se sentiu como Bambi aprendendo a andar. A lembrança do filme que vira tantas vezes lhe deu mais determinação. Por fim, certificando-se de que não estava demasiadamente nu, resolveu sair pela porta, ver o que havia lá fora.

Durante todo este tempo os seis visitantes apenas observaram. Com curiosidade, como se ele fosse apenas um animal inofensivo. Será que não imaginavam que ele era o Mensageiro da Morte enviado pelo Supremo Magistério?

Abriu a porta e tentou caminhar pelo corredor. Era longo, pavimentado de ladrilhos cinzentos e gastos. Estava vazio e conduzia a um pátio iluminado pela mesma luz azul que filtrava pelos furos na janela do quarto. Seguiu apoiando-se na parede onde fosse necessário. Os seis o seguiam. Ao chegar ao pátio percebeu que era um estranho hospital o lugar onde estava: além de praticamente vazio, terminava em um jardim quase irreal.

O jardim era coberto por uma vegetação uniforme, verde-azulada. A intervalos regulares havia bancos pintados de branco-azulado nos quais os pacientes tomavam sol. O sol!

Ao vê-lo, pôde ter a certeza de que não estava na Terra. Não poderia estar, de forma alguma. No céu havia um grande sol vermelho, de brilho fraco e tamanho angular maior que o da Lua. A pino estava outro, este fortíssimo, azulado. Um sistema duplo? Ou apenas uma estrela vermelha localizada nas proximidades de uma gigante azul? Rígel! Era essa a lendária destinação dos Últimos Rebeldes. Aquele planeta era o Último Reduto! Havia chegado ao destino!

Não conseguiu segurar a felicidade. Ajoelhou-se naquele estranho gramado macio e gritou a plenos pulmões: «O Mensageiro Chegou para os Últimos Hereges!» Mas ao se levantar sentiu a boca amarga e a alma vazia, como um papel de bala que alguém descartou. Não conseguia entender o que devia fazer.

Uma mulher, de aspecto envelhecido, mas ainda bonita, voltou-se em sua direção. Estava, como várias outras pessoas, sentada num dos banquinhos azulados. Ela o olhou fixamente, por um momento, depois soltou uma gargalhada. Que irreverência! Uma rebelde insolente zombando de um Mensageiro da Morte! Júlio anotou mentalmente que a estrangularia com suas próprias mãos, tão logo tivesse novamente força nas mãos, antes de detonar o explosivo e acabar com aquele patético planeta.

Mas a mulher não se impressionou. Levantou-se de onde estava e veio em sua direção. A dois passos dele ela se deteve e fez o sinal secreto! Ela era uma irmã! Uma Mensageira também!

— Há quanto tempo está aqui, irmã?

Entre os iniciados não há necessidade alguma de formalidades. Mas ela não reagiu da mesma forma que esperara:

— Creio que uns dois anos, irmão, mas não deveríamos nos saudar antes?

Júlio se sentiu confuso. «Saudar» não era algo lhe fora ensinado como importante. A menos que ela fosse uma Mestra, mas ela só poderia ser, naquele tempo e lugar, uma Mensageira, como ele.

Deu-se conta, então, do estranho sotaque daquela mulher. Parecia pertencer a uma outra época, décadas ou séculos antes.

— Está aqui há tanto tempo e ainda não destruíste o Último Reduto?

— Não. Por que eu o destruiria?

— Esta é nossa missão. Para isso fomos enviados.

Ela gargalhou de novo, mas desta vez Júlio percebeu que era uma risada tão amarga quanto a bílis que lhe chegava à boca e o fazia querer vomitar.  Um brilho rutilante apareceu em seus olhos. Então ela se aproximou dele, de uma forma que os Mensageiros são ensinados a não fazer, pôs-lhe a mão no ombro e aproximou seu rosto. De alguma forma esse gesto não lhe causou a repulsa que deveria. Então ela sussurrou:

— Estou aqui há tanto tempo que nem me lembro mais.

Um Mensageiro não deve ter sentimentos de compaixão ou pena. Mas Júlio teve, mais por pressentimento, mais por senso de pura profecia, do que por realmente ter alguma empatia com a pobre.

Depois de tentar infrutiferamente comunicar-se com alguns dos outros que vagavam pelo jardim, retornou ao banco onde encontrara a mensageira. Ela ainda estava lá, os olhos protegidos do brilho selvagem da estrela miravam uma planta que parecia crescer a olhos vistos, ou apenas se agitava ao vento. Vento, a primeira vez em anos. Quando ventara pela última vez em sua vida? Todas as coisas boas da vida acontecem quando está ventando, lhe dissera uma tia, quando ainda era menino, quando nem fora selecionado. Duvidara dela: não ventara no dia em que seguira para a Escola.

— Irmã, que lugar é esse onde estamos? O que vamos fazer?

— Irmão — ela disse — tente se acostumar com a ideia de que está morto.

— Eu não estou morto!

— De uma certa forma sim. Eu e você estamos, somos Mensageiros da Morte.

— Sim, o Mensageiro morre para o mundo e nasce para Deus no exato instante em que se dedica.

— Não, irmão. Somos Mensageiros da Morte não mais porque a trazemos, mas porque viemos do Reino da Morte.

Não compreendo, irmã. Isto é uma heresia.

Ela lhe apontou para cima:

— Este não é o sol, e esta noite não terá as estrelas que você conhece.

— Sei disso, irmã, esta é Rígel, a gigante azul.

— Não, irmão, não é. É uma estrela azul, jovem e forte, mas não aquela que nos disseram. Esta é a estrela que iluminará o futuro da humanidade.

Seria possível? Algo dentro de si ainda se recusava a crer.

— Continuo não entendendo, irmã.

— A Terra, querido irmão, a Terra já não existe mais. A única humanidade que resta é a que a Terra rejeitou, a que colonizou as estrelas. E cá estamos, relíquias de um planeta morto, mortos andando entre os vivos, portando lembranças de um mundo que eles não conheceram. Irmão, eles nem sequer sabem que nós os odiamos.

— Isto é ótimo. Significa que não suspeitam de nada. Vamos agir.

Júlio havia sido programado muito bem, mas suas tentativas de dar prosseguimento ao programa eram apenas um disfarce para a confusão e o pavor que começavam a ser formar em sua mente. Talvez a distância do Magistério, o tempo passado no bojo de uma nave-baleia, como um Jonas tecnológico, não por dias, mas por séculos ou milênios, ou talvez as drogas desconhecidas que os médicos daquele lugar que lha haviam dado. Alguma destas coisas estava minando a frieza que lhe fora ensinada: começou a tomar consciência de coisas que sempre soubera, mas que nunca realmente assimilara. Sua viagem era sem volta, seu destino era a morte. Matar e morrer, ou apenas morrer. Aqueles que o enviavam sequer teriam o prazer de ver destruída a civilização herege. Seu projeto não tinha nenhuma dedicação real, era apenas um ritual vazio. Viera destruir um planeta, munido de uma pistola. Nunca lhe disseram nada sobre viver depois, sobre encontrar alguém ou tentar aprender uma língua nova. Não tinha consigo sua arma nem os seus implantes de lavagem cerebral. Sentia-se desprotegido e alienado, obrigado a pensar por si. E com que dureza pensava, ajudado por implantes biônicos que o faziam ter mais memória, pensar mais rápido, entrar em loops confusos de processamento os quais somente chutes irracionais solucionavam.

— O que você está fazendo aqui?

— Tentando aprender a língua deles, para convencer-lhes de que não sou louca.

— O que fizeram com a bomba?

— Venha comigo, vou lhe mostrar.

O hospital tinha apenas uma cerquinha baixa, do mesmo material das janelas. Nada impedia que se entrasse ou saísse, como se naquele mundo entrar e sair fossem coisas somente feitas quando e onde permitido. Mas a Mensageira não o levou para fora, mas para um canto do pátio onde havia um depósito de pedaços retorcidos de metal. Entre eles alguns cascos de bombas.

— Desde que aprendi a falar um pouco a língua deles, irmão, eu consegui entender alguma coisa.

— Se já sabe falar a língua deles…

— Falta-me convencer-lhes de que não sou louca.

— Quer ouvir o que descobri?

Júlio não queria. Queria matar alguém, queria destruir um planeta. Queria cumprir a missão de sua vida. Queria chorar porque de repente se dava conta de que não tinha sua vida, não tivera. Mas uma avassaladora impotência o dominava, talvez efeito daquele maligno sol azul. De repente não ouvia mais nem a irmã, nem a grama crescendo, nem as pessoas passando, nem o próprio coração batendo. Um escuro o cercou e o deitou no chão. No conforto calmo do chão. Mas não era o chão seguro da velha Terra, mas pedra dura de um chão alienígena, onde nem podia morrer em paz.


De trás das grossas janelas de vidro da sala de gerência o Doutor Pankoff observa o novo paciente interagindo com os demais. Seus colegas o observam, com um ar de seriedade científica mesclado a uma forma adulterada de compaixão.

— Quantos esse mês, doutor?

— Este foi só o segundo. Mas no mês passado tivemos nove.

— Não é curioso que tantos tenham aparecido em tão pouco tempo?

— Se os cálculos de nossos Antepassados estiverem certos… — os demais o encararam com reprovação pela ousadia, mas ele continuou — é de se esperar que esta onda Mensageiros da Morte recrudesça dentro de alguns anos.

— Eu nunca entendi este cálculo.

—  Nem eu. Por isso o benefício da dúvida. Afinal, não sou astrofísico. O que sei é que esses centenas de Mensageiros da Morte estão começando a se tornar um problema social. No começo eles chegavam tão raramente que quando aparecia outro o primeiro já estava morto ou muito velho; eles envelhecem cedo, como vocês sabem. Agora nós temos duzentos e quarenta pobres diabos mentalmente imaturos e confusos que se acham Destruidores de Planetas andando pelo jardim usando pantufas de lã e jalecos de algodão. Nenhum deles utilizável em qualquer atividade econômica, mas ninguém sonharia em simplesmente matá-los.

— Não é isso que nós fazemos. De forma nenhuma o fazemos. São seres humanos, primitivos, mas humanos.

— Mais do que isso: eles são um reservatório genético importante, de uma época em que nosso genoma ainda não havia sofrido influência da química deste planeta e dos raios de Rígel. Logo estaremos migrando para um lugar mais seguro, porque esta menina aí — ele indicou a estrela com o queixo — deverá esterilizar uma ampla região do espaço dentro de uns poucos milhões de anos.

— Mas para esta finalidade que o senhor está pensando, Doutor Pankoff, as amostras de sangue e cabelos coletadas já resolvem o problema… — atalhou uma Doutora Lamar de nariz adunco e expressão de quem seguramente jamais tivera um orgasmo na vida.

— Não exatamente da melhor maneira – insinuou Pankoff.

O Doutor Jones observou que, de fato, o genoma sintetizado perdia parte de suas características. Suas melhores características — observou Pankoff. Os outros fizem um constrangido silêncio, entre a reprovação e a incredulidade.

Quando todos saíram, após o esfriamento do assunto, o calvo médico se sentou em sua poltrona giratória à beira da janela e contemplou os pacientes, segurando entre os dedos, escondidos dentro do profundo bolso do jaleco, uma estranha medalha de resina que atravessara anos luz de espaço.

No jardim a conversa da Irmã com o recém chegado terminava. Ela vinha para a ala central sozinha, enquanto o apatetado novato caminhava sem rumo pelo gramado. Pankoff retirou do bolso a medalhe e contemplou nela a empalidecida imagem tridimensional de Alice. Pobre Alice. É lamentável que os padrões genéticos dos terráqueos lhes permitam viver tão pouco…

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