O Barco de Milhões de Anos

“Não vamos às estrelas, baby” — assim começou o discurso do capitão. “Em vez disso, vamos impedir que o inimigo vá.” Os soldados, irrequietos, nada perguntaram. Era bom saber que os capitães e coronéis sabiam o que fazer. Pena que não soubessem. “Ordinário, marche!” E a tropa adentrou o deserto em busca do inimigo impossível, marchando deze­nas de léguas sob o sol cada vez mais forte, até cada um deles cair, de fome e sede ou trucidado em conflitos previsíveis diante do desespero. Na verdade a marcha era em vão. Nos desertos radiativos sob sol, apenas redemoinhos de poeira se erguiam contra as armas e nas florestas contaminadas apenas as plantas mais fortes se trançavam entre os tanques. Não havia mais inimigos: sob a aparência de permanente guerra, todos os governos do mundo cooperavam na construção do barco de milhões de anos. Mas havia gente demais na terra.

“Ele derrama as suas lágrimas vendo o barco de milhões de anos.”
Peter Hammill – “The Boat of Millions of Years.

“A arma é uma coisa boa. Ela asperge balas que podam vidas e limpam a terra. O pênis é ruim. Ele esparge esperma que fecunda vidas e semeia a maldição.” Outra seita fanática, esta não pregava suicídio. A polícia, ocupada demais sal­vando os ricos e a si mesma. Somente quando as balas chegaram a lugares altos foi que algo se tentou fazer, mas já havia rifles demais do lado de Deus. Em breve descobriram que rifles são insuficientes, embora sirvam para vencer sentinelas. Bombas explodem coisas e há coisas que não se pode abrir no ar.

Estas e outras guerras duraram poucos anos. Guerras assim produzem deser­tos, e desertos não lutam. “O deserto é liberdade. Onde o homem não pisa, a vida retorna. Aprendam o exemplo de Chernobyl.” Deser­tos que dura­riam inúmeros anos antes da volta do homem, anos em que a vida estaria exposta e o barco de milhões de anos singraria os céus levando as sementes do passado.


O barco de milhões de anos permaneceu em torno da terra, brilhando sobre os desertos e a morte. Hórus contemplava a terra fértil, ansioso pela pos­si­bi­li­dade de voltar. Mas Set continuava no deserto, pertencia-lhe a terra devastada, senhor de todas as mortes, duque sobre todas as ruínas. E Set segurava suas lágrimas ao ver o barco de milhões de anos singrar o céu, belo como um planeta, infalível como uma lua.

Em seu coração Set invejava aquela luz do passado, citada em lendas que o tempo esquecera. A inveja resultava em desejo, era preciso ser forte, para matar o falcão quando pousasse, pois a flecha mais veloz não alcança a altura excelsa do voo de tal deus. Matar o falcão quando pousasse, derrotar a beleza e o passado. Em Set repousa o mal e a escuridão, repousa a corrupção e a morte. Mas Hórus sorve a alegria do sol e singra o céu, puro e alheio a todo mal.

Os filhos de Set compreendiam. A beleza os abandonara, em um passado de milhares de anos. Deixados para trás no apocalipse, eles, os degenerados, os que herdaram a Terra. Eles derramavam suas lágrimas impotentes ao ver o barco de milhões de anos singrando os céus, além de toda flecha, depois além de toda bala. Figuras solitárias contemplando, sombras nas sombras dos morros. No fundo dos vales, onde ainda havia paz. E a morte espreitando, a peste percorrendo o mundo com seu dedo irresistível.

Na centésima quinta lua nova de sua vida, ele foi iniciado no ódio, como todos os ancestrais. Apontaram-lhe o céu: somos os descendentes de todos os deserdados, mas eles não são senão os mesmos que uma vez mataram o mundo. E eles retornarão um dia, tão vazios quanto partiram. Devemos viver sem medo, ansiar por sua volta, e quando pousar o barco de milhões de anos, matar cada um que desça, purificar a terra do pecado do passado que ainda vampiriza o sol e nos desafia, sorridente, sobre os ossos de nossos antepassados. Não há deuses de nenhum lado, mas os que quiserem marchar conosco, que venham, não é uma peregrinação, não é uma boa obra. Vamos matar, matar e matar. O sangue regará a terra, manchará a lisura deste barco que flutuou acima da lama, inerte. E os que morrermos, seremos como nossos pais, parte desta terra que nos concebe e devora.


O foguete subiu pela décima quinta vez naquele ano, levando mais gente e mais sementes para Hórus. Em breve o barco ficou cheio, pronto para navegar as órbitas da eternidade. Mas não partiu num jorro de mortífera luz para sangrar o espaço à cata de estrelas distantes. Em vez disso permaneceu a flutuar, lugubremente, em uma órbita polar. Mecanismos automáticos, movidos a energia solar, estavam programados para corrigir o seu rumo cada vez que se desviasse nas variações gravitacionais da Terra.

Isto foi tudo que os governos de todo o mundo puderam fazer. Não havia orçamento, não havia energia, não havia conhecimento. Presos à poça natal, agora envenenada, os terráqueos tinham de se conformar com a posteridade. Raul era um deles, e o sono de milhões de anos era o seu destino. “Não vamos às estrelas, esperaremos que o mundo se recupere, e voltaremos. Enquanto isso, Hórus cuidará de nós, em nossos leitos de animação suspensa.”


Safeth amanheceu tranquila naquela manhã, como quase em todas as outras. Havia dezenas milhares de anos que a última guerra terminara. Forçados a sobreviver na adversidade, os humanos sobreviventes tinham perdido a ânsia de matar-se. A náusea da morte presente aniquilara todo impulso, o resto se completara, espertamente, no culto do ódio ao barco de milhões de anos. Era fácil, visível, um alvo distante demais para ser atingido, portanto adequado para receber o ódio de milhões de almas. Amaldiçoá-lo fazia parte de toda saudação, mais como uma fórmula do que como intenção. Mas milhares de anos de ódio cultivado em cultos e ritos, de preparações mentais incessantes… isso não se perderia facilmente. Safeth estava em paz, à espera do pouso do falcão, e nos últimos anos havia alguns de seus habitantes que temiam o dia em que tal acontecesse. “Como reagiremos se os homens do passado retor­na­rem mesmo, como dizem as lendas?”

Safeth amanheceu tranquila, e assim teria continuado, se o jornal da tarde não tivesse saído com uma nota enigmática na seção de ciências: “observou-se uma alteração do curso do barco de milhões de anos”.

Como era possível? Ainda não haviam se passado os necessários milhões de anos! Não, nin­guém poderia precisar quantos anos: a civilização era muito recente, pouco mais que cinco ou seis mil anos de registros, mas os vestígios arqueológicos não davam ideia de mais do que uns dez mil anos para os eventos cataclísmi­cos que haviam destruído o homem e para a estrutura que lançara a famosa criação da antiga humanidade.


Hórus consultou os sensores e ajustou novamente o curso. A terra estava quase toda livre de quase toda radiação, a camada de ozônio protegia eficazmente dos raios sola­res inadequados, a camada de nuvens era límpida, o ciclo da água estava restabelecido, até mesmo sinais incipientes de geleiras apareciam nos polos. Não seria preciso esperar os milhões de anos que os humanos, num exagero retórico, haviam atribuído ao seu exílio. Era a hora de pousar o barco em um local tranquilo e semear de volta a vida preservada.


O aeroplanador chegou a Safeth no cair da tarde, lá pela sexagésima hora. Sua pintura amarela e branca indicava neutralidade. Cientistas? Diplomatas? Quem have­ria de ser o passageiro? O presidente Harran reuniu o ministério para receber o visitan­te tão logo a bandeira quadriculada de Kalahar foi hasteada pelos tripu­lantes em seu estacionamento designado no aeroporto. Kalahar era um país importante demais. Seus diplomatas deveriam ser recebidos com o status de um chefe de estado.

Harlan Eng era baixo e esguio, com pouco cabelo na carapinha e uma irritante forma de falar substituindo ocasionalmente alguma consoante pelos cliques equi­valentes. Mas os próprios governantes de Safeth haviam se acostumado ao sotaque de Kalahar e conseguiam ocultar o incômodo auditivo na presença dos visitantes.

“Senhores, recebemos em nossa Academia a informação telegrafada de seu obser­vatório e pude­mos verificar, para nosso espanto, que coincide com os registros feitos em nossos próprios observatórios e por outras, anteriores, feitas nos países mais a leste. Tudo parece indicar que estamos diante da possibilidade real de que o falcão pouse, o que significará um evento trans­formador de nossa história. E a república de Safeth, herdeira dos ideais e da religião dos mais antigos, precisa estar preparada para esse momento, ou as massas sairão de controle e as conquistas da civilização podem ser destruídas.”

“Vossa Excelência saiba que nós e toda a nossa classe dirigente nos pre­paramos por todos esses séculos, mesmo quando os outros países aban­do­naram a velha religião e retornaram à fútil e destrutiva busca de civilização. Aqui estamos, como sempre estivemos. Perdemos a preeminência no mundo, per­demos a maior parte de nosso território original para senhores da guerra que só enxer­gam em curto prazo, mas não perdemos nosso comprometimento com nosso objetivo supremo, de guardar os ideais da civi­lização. Embaixador Eng, saiba que já começamos os pre­pa­rativos.”

“E Kalahar estará com vocês, conforme a promessa de nossos ancestrais.”

Eng voou de volta a Kalahar ainda naquela noite, apesar do medo que todos os habitantes do continente de Afar ainda tinham das trevas. Voaram baixo sobre o mar, de luzes apagadas para não despertar nenhum monstro marinho. No dia seguinte o ditador perpétuo de Kalahar seria comunicado da boa disposi­ção de Safeth e todos começariam a se preparar para o pouso.


As torres de rádio experimentais de Kaap começaram a emitir sinais em dire­ção ao barco de milhões de anos. Tais sinais seriam, de alguma forma com­pre­en­didos pelos seres que navegavam: as lendas lembravam que o homem ante­rior costumara comunicar sua voz através do rádio. Mas os sinais nunca eram respondidos, revelando toda a hostilidade do barco e seus tripulantes. Ele con­tinuou a singrar o céu sem emitir nenhum rádio em retorno.


Trigésima terceira hora de um dia límpido, seguinte a uma noite de pesadas chuvas sobre as planícies alagadiças de Mispí. Os selvagens dourados viram a estranha nuvem caudalosa cruzar o céu de norte para sul. Eles não conheciam as lendas sobre o barco de milhões de anos, para eles era apenas uma maravi­lha a mais em um mundo misterioso. Mas entre eles havia um que se deteve de suas tarefas brutais, entrou em uma cabana, lavou as mãos em uma grande bacia de terracota, pressionou um botão em uma caixa de metal pintada de negro e começou a martelar ritmicamente. Sua mensagem foi recebida pelas forças aéreas de Kalahar e Fermott, que já manobravam sobre o Oceano do Norte em grandes dirigíveis. Mais uma vez as antigas lendas estavam cer­tas: Hórus pousaria entre as charnecas e brejos do norte selvagem, no lugar onde, milênios antes, teria existido o porto de onde partiram. Mas como pou­sa­riam, sem o porto, consumido pelas florestas e pelo verme do tempo?

O Almirante Kung consultou suas instruções e ordenou à frota que se apro­xi­masse da costa o mais possível, para que o apoio naval fosse eficaz, mas longe o bas­tante para evitar que os navios encalhassem nos traiçoeiros mangues e ala­ga­di­ços costeiros. Quarenta belonaves de aço e madeira de lei, construídas exclu­si­va­mente para este dia apareceram como um portento diante dos sel­va­gens. Amedrontados, eles cobriram de lama suas cabeleiras douradas, tal como lendariamente teriam feito seus antepassados para se proteger do calor incle­mente de um sol que se tornara mau. E desde então sempre faziam isso diante dos destemperos da natureza, diante da guerra, diante de qualque tristeza par­ticular.

“Almirante” — indagou o comandante Yalp, do couraçado Karoo — “nunca imaginamos que estas coisas tivessem uso real em combate. Estaremos real­mente preparados para isto que pretendemos fazer?”

“Comandante, eu nunca me perguntei se estaríamos prontos, mas sempre tive a certeza de que cada homem cumpriria com o seu dever quando chegasse a hora de agir.”

Do outro lado do rádio de intercomunicação se ouviu apenas o silêncio cons­trangedor de Yalp entre seus imediatos. Sim, todos haviam crescido supondo o dia em que teriam de cumprir seu dever. Entre todos os povos do mundo, Safeth e Kalahar eram os que portavam com mais luz a tocha da civilização. Eles deviam cumprir este dever, mesmo que nos desertos e florestas do planeta o resto da humanidade não se lembrasse mais. Porém todo o preparo ritual então parecia vazio e ineficaz. Os séculos e milênios haviam transfor­mado a sanha guerreira em um ódio metafórico, que se exercitava em festivais anuais e peregrinações, mas sem vontade de lutar. A não ser nos mais faná­ticos, que estavam dispostos a morrer em nome das lendas. Por fim, Yalp rom­peu o silêncio para se justificar:

“Não foi o que quis dizer, Almirante Kung. O Sr. sabe, tão bem quanto qual­quer de nós, que Fermott manterá sua palavra. Nosso receio é de ordem téc­nica apenas.”

“Receio anotado, Yalp. E que não seja compartilhado com outros oficiais, para que a covardia de alguns não produza mais receios técnicos.”


O barco de milhões de anos repousou sobre uma colina baixa, no centro da única planície de terra firme num raio de milhares de quilômetros. Dizia-se que no passado o lugar fora uma cidade. O antigo homem terraplenara os brejos, trouxera pedras, cimento e outros materiais. Com eles compactara o solo a ponto de restar aquele círculo sólido mesmo quando o mar derretera o chão ao redor. E no centro, após milênios de ruína, os prédios amontoados restaram como uma colina de detritos imprestáveis. Dizia-se que os antigos fizeram prédios tão altos que ameaçavam os pássaros e os dirigíveis. Prédios tão altos que ao cair comprimiram tudo dentro de si até nada restar de indício para os arqueólogos.

Tão rapidamente quanto possível a esquadrilha de dirigíveis se aproximou e estacionou ao redor do barco de milhões de anos. Todos os canhões prepara­dos para disparar ao mínimo sinal de vida. Mas não sem cumprir o ritual imaginado pelo lendário Abdallah Romanov.

Do dirigível principal desceu um aeroplanador pequeno, movido a energia solar. Tinha as cores da paz: amarelo e branco. Voejou em torno da planície circular, perdendo altitude lentamente, e por fim pousou a menos de cem metros do barco de milhões de anos, ali ainda deitado como um paquiderme aban­do­nado em terra firme, zumbindo discretamente.

Terry Eng desceu, ostentando o uniforme adequado, com todas as insígnias civis e religiosas devidas. Era um terrível papel o que tinha de desempenhar o primogênito de Kalahar quando o barco pousasse, mas ele nunca duvidara que poderia conseguir. Logo atrás desceu o presidente Sorez, também paramen­tado. Sobre sua cabeça um imenso chapéu dourado com símbolo verde que lembrava uma serpente retorcida em torno de um poste. Este seria o sinal reconhecido pelos antigos. Símbolo, talvez, da religião esquecida. Eles pre­cisavam saber em nome do que morreriam.

Ian Sorez foi o primeiro a tomar alguma iniciativa. Desceu do aeroplanador e se aproximou do barco de milhões de anos com o báculo erguido e fez a sau­da­ção ritual: “Câmbio”.


“Sr. Eng?” cumprimentou uma voz discreta. Harlan Eng se distraiu dos relató­rios e voltou sua atenção ao recém-chegado.

“Pois não, Ministro”.

“Tenho me preocupado com a possibilidade desta guerra. Sei que o barco de milhões de anos é bastante pequeno e não poderia conter mais do que umas poucas centenas de sobreviventes mas… eles podem ter alguma técnica que não dominamos. Existe alguma chance de que sejamos destruídos por alguma coisa que nos façam?”

“Certamente que há. Se não houvesse nenhuma chance, os nossos ancestrais não nos teriam pre­venido sobre o que chamaram de ‘guerra do fim do mundo’ e não nos teriam aconselhado a conservar nosso poderio militar. Mas não con­signo compreender a razão de sua preocupação. Não é isso o que todos nós esperamos durante milênios?”

“Não exatamente, Sr. Eng. Sabemos, nós dois, que há vários séculos que nin­guém mais acreditava na realidade desta guerra.”

Eng se levantou, empregando um pouco da força de homem que a idade ainda não lhe roubara e estendeu a bengala na direção do infiel:

“Pessoas como você, Ministro Dorf, causaram a ruína da antiga humanidade.”

“Isso é o que dizem. Eu não creio muito nos registros daquela época. Sabemos, ambos, que durante o cataclismo a humanidade produziu relatos contraditó­rios de suas causas. Tendo a acreditar que as coisas, talvez, não sejam como foram contadas. Que os antigos não eram tão poderosos nem tão demoníacos quanto a religião nos diz.”

“Eu não sei se eram poderosos ou maus. Sei que eu cresci vendo o Barco de Milhões de Anos singrando o céu, como um olho de demoníaco, ansiando pelo dia em que os malditos o fariam pousar, e enfrentariam o julgamento dos deserdados.”


As horas foram se passando e nenhuma luz se acendeu, nenhuma outra porta se abriu. Os dois dignatários, indignados, se retiraram no aeroplanador para novo conciliábulo a bordo do dirigível principal. O restante do dia se passou sem que sinal algum fosse emitido do barco de milhões de anos. Mas quando o dia novamente amanheceu os receptores de rádio começaram a zunir com raiva, em um louco ritmo alterando de estalos e silêncios. Após minutos sem sucesso em acabar com a irritação, os operadores os desligaram.

Por fim, lá pela trigésima hora, quando o sol começava a aquecer a terra com mais firmeza, uma portinhola se abriu no barco de milhões de anos. Mas dela ninguém saiu. O interior estava escuro, exceto por raras luzes que oscilavam com uma vagareza melancólica. Exaustos da contemplação, os dois dignatários decidiram descer até lá e contatar os insolentes Antigos que, afinal, deveriam morrer em breve, tão logo possível.

A saudação foi repetida. Ninguém respondeu. O interior continuava escuro, exceto pelas rútilas luzes que zombavam da paciência dos dignatários. Por fim, Eng não suportou mais e, desembainhando sua espada cerimonial, que segurou com a destra, e uma pistola de ar comprimido, que manteve à mão esquerda, entrou no corredor escuro, resoluto a morrer com a dignidade que convém a um grande ditador. Sorez, enver­gonhado, seguiu atrás.

Ao fim do corredor, que era bem mais curto do que parecia visto de fora, havia outra porta, com uma janela de vidro. Ambas resistiram às balas e à espada de Eng. Por fim, convencido de sua impotência, ele berrou: “Eu sou Terry Eng, primogênito do grande ditador de Kalahar, venho em nome de meu povo e de toda a humanidade, cumprir o papel que as Tradições e a Religião me deter­mi­naram. E quem sois vós que insolentemente retornam a este mundo que abandonaram?”

O silêncio sepulcral continuou. Mas foi brevemente interrompido pelo estalo metá­lico do que pareceu ser uma dezena de fechaduras dentro de um porão. Então a porta cedeu, deixando passar uma réstia de luz. Eng chutou a porta e uma lufada de ar empestado lhe soprou no rosto, o ar de uma tumba fechada por milênios. Suor, putrefações, acidez. O ar limpo e saudável das planícies salinas invadiu aquele ambiente mefítico, logo formando gotículas de con­den­sação nas paredes, que pareciam estar bem mais frias do que a saudável tem­peratura exterior.

Sorez e Eng tossiram vigorosamente quando receberam aquela lufada pesti­lenta. Mas o jorro de ar limpo os aliviou, e logo puderam respirar normal­mente, apesar de persistir um forte cheiro de podridão guardada.

“Não há ninguém, Sorez.”

“Isto realmente é uma pena. O que terá acontecido?”

Os dois entraram. A porta dava para uma sala octogonal. Cada lado terminava em outra porta, todas abertas. Ao centro havia uma mesa de material indefiní­vel, branco opaco e ligeiramente maleável, fixa ao chão por parafusos. Sobre tal mesa havia um objeto metálico, preso pelo que pareciam ser fitas de tecido adesivas. Em sua ansiedade kamikaze, o primogênito Eng tocou o objeto, que produziu um ligeiro estalo, iluminou-se e projetou no ar uma imagem tridi­mensional de um jovem de feições impossivelmente lisas e regulares, de uma raça que Eng e Sorez não conheciam.

O jovem começou a falar, muito devagar, com um sotaque que o tornava quase ininteligível, na língua antiga de Safeth, a língua sagrada do passado.

“Saudações, visitantes do futuro. Meu nome é Hórus. Não sei quem são vocês, mas vocês ouviram falar de mim. Eu sou quem navega no barco de milhões de anos e eu o aportei novamente entre vós. Eu lhes apareço nesta forma porque não poderia lhes aparecer sob nenhuma outra, uma vez que estou morto há mais tempo do que as suas lendas imaginam que a civilização existe. E mortos estão todos os que habitariam o barco de milhões de anos.

“Eu sei que vocês, provavelmente, desenvolveram lendas cheias de ódio contra nós, mas agora vocês sabem que este ódio é infrutífero, pois não se pode mais matar os mortos. Em vez disso, saibam que nós, os que morremos, lhes trou­xe­mos de volta a vida que existiu no mundo antes das contaminações: semen­tes de vegetais nutritivos, embriões de animais que repovoarão a terra de criaturas úteis. Todos esses presentes são seus, pois vocês são os nossos filhos que nós nunca veremos.”

Sorez e Eng deixaram o recinto do barco de milhões de anos e viram um cenário impressionante. Os dirigíveis disparavam suas armas, mas os projéteis não alcançavam alvos, como se fossem disparados contra fumaça e afundas­sem em areias movediças. Em torno do barco de milhões de anos havia uma dezena ou mais de pequenos aeroplanadores de modelos desconhecidos, que pare­ciam ter saído de dentro dele. Cada um deles era carregado de caixotes metá­licos que eram trazidos por coisas parecidas com homens, mas feitas de metal, e por coisas parecidas com insetos, idem.

Quando o carregamento terminou, cada um dos aeroplanadores decolou em uma direção e desapareceram no horizonte, a uma velocidade além da imagi­nável, produzindo um grande estrondo no ar. Sorez e Eng entraram em seu próprio aeroplanador e retornaram ao aeróstato militar, de onde comunica­ram a seus países a descoberta feita e pediram instruções para agir, diante da ineficácia de toda arma conhecida.

Do outro lado da linha, no discreto palácio de inverno de Safeth, ocupado temporariamente por tropas de Kalahar, o ditador perpétuo apertou o queixo estreito com a sua mão magra de pai do povo. Nos olhos baços brilhou uma lágrima pelos milênios perdidos no preparo de tal falha. De repente sentiu-se inútil e nem conseguiu se erguer do trono móvel que Sorez lhe cedera, trono que um dia pertencera ao grande Imperador do Sul, cujos palácios arruinados nas colinas ocidentais testemunhavam o grande esforço dos povos da Árica na aurora dos segundos tempos. Sentara-se em tal trono sentindo-se um grande homem, um sucessor de dominadores de continentes. Mas dele se levantava como somente um velho cruel e impotente, cujo poder logo escorreria para as mãos de um garoto estúpido. Por fim, com uma voz exausta, ordenou o retorno das tropas.


Houve grande júbilo em Safeth e também em Kalahar quando as novidades foram anunciadas. Todos se sentiram vingados por saberem que os Antigos não tinham, de fato, fugido da terra, mas morrido com o velho mundo cuja destruição fora, afinal, sua culpa. Em vez de preservados para uma parusia futura, os antigos haviam apenas deixado em órbita uma herança para a nova humanidade, os sobreviventes de uma terra moribunda.

Por algumas semanas os paí­ses trocaram congratulações, enquanto as equipes de cientistas de Kalahar, Safeth, Bonaar, Rus, Daruslam, Sind, Fermott e todo o ori­ente monitoravam o com­por­ta­mento dos estranhos aeroplanadores saídos do barco de milhões de anos, e do próprio barco, que permaneceu no norte sel­vagem. Nas primeiras semanas estes pousaram diversas vezes em cada um dos con­ti­nen­tes, liberando sementes no solo e soltando mais daqueles mis­te­ri­o­sos ser­vi­çais de metal, que derrubaram árvores, arrancaram pedras e cons­tru­íram labo­ratórios, dos quais saíram, ao fim de semanas ou meses, animais estra­nhos, alguns parecidos com aqueles conhecidos pelos habitantes do mundo, outros nem tanto. Também cresceram plantas desco­nh­e­cidas, que mais tarde produ­ziriam fruto, outras se espalharam como ervas, mudando a paisagem. Todas essas coisas, ocorridas no espaço de uns poucos meses, soa­ram como promessas de um novo mundo, a recupe­ra­ção da lendária ferti­li­dade do mundo anterior, possibilitando a volta de uma fartura que nenhuma civilização nova conhecia. Poucos continuavam céticos. Era como se a antiga crença na batalha do fim do mundo tivesse sido substituída pela crença na sal­vação final trazida dos céus.


No alto da montanha mais elevada de Safeth, respirando o ar impossivel­mente ralo, Ian Sorez colecionava relatórios sobre uma mesa, tentando expli­car o mistério que acontecia no mundo, quando tossiu e sentiu um gosto estra­nho na garganta, com algo gosmento em sua boca. Foi ao banheiro e cus­piu na pia uma massa malcheirosa e esverdeada. Calafrios percorreram a sua espinha, e uma lassidão acometeu seus membros e nublou sua mente. Mas antes de se sentar para descansar da longa noite de vigília sobre mapas e manuscritos, telegrafou à capital: “Algo imprevisto no presente deixado pelos antigos.”

Esta foi a última mensagem enviada por Sorez. Mesmo que tivesse enviado outras, ela não teria chegado a ninguém. Na orgulhosa cidade, a duzentos qui­lômetros da montanha, instalou-se o caos quando as mortes se tornaram por demais numerosas para serem escondidas.

Em Kalahar, a primeira vítima foi, porém, o ditador Eng, encanecido e frágil pelos anos. Terry o sucedeu no governo por três dias, e então uma linhagem bissecular de ditadores se extinguiu, mergulhando novamente a metade sul de Afar em uma grande guerra civil, que só não causou mais mortes que o mal misterioso, que não se conhecia, que não se explicava, que não se curava.

Então, dentro do Barco de Milhões de Anos, os relatos estalaram nos moni­tores e Hórus, computando tudo em seus circuitos, registrou no Diário de Bordo que ninguém talvez lesse jamais: “Aparente falha na esterilização do ambiente originalmente ocupado pelos pseudotripulantes. Vírus influenza sobreviveu e infectou visitantes.”


Inspirações:

  • “Zardoz”. John Boorman (1973).
  • “The Boat of Millions of Years” (H to He, who am the only one). Van der Graaf Generator (1970).
  • “Electric Funderal” (Paranoid). Black Sabbath (1970).
  • “Who’s Gonna Win the War” (Levitation). Hawkwind (1980).
  • “A Dança da Morte”. Stephen King (1985).
  • “Apogeu de Novo”, de Bryan Aldiss.

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1 resposta a “O Barco de Milhões de Anos”

  1. Não consegui ler tudo. É longo e confuso demais. Talvez seja melhor transformá-lo num romance, ou reescrevê-lo com menos elementos e menos eventos.

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