Gol de Placa, Gol de Pato — Parte 1

Ninguém esperava que a Escola Estadual Dr. Norberto conseguisse passar pela fase de grupos do torneiro de futebol de salão dos Jogos Escolares. O time fora montado às pressas, mas conseguiu uma vitórias e um empate, e poderia se classificar para as quartas de final em segundo lugar se mantivesse outro empate com o Colégio Cataguases na última partida da chave, estando já eliminado o Clóvis Salgado e praticamente fora o Professor Quaresma. E todos estavam em pânico pela possibilidade de sucesso.

Disse que o time fora montado às pressas, mas isso é quase uma bondade. Fora no atropelo mesmo. O torneio promovido para identificar os talentos tivera resultados estranhos e inesperados. O goleiro menos vazado não pudera ser convocado porque tinha sequelas de paralisia, o maior artilheiro também ficara de fora porque, obeso, machucara o joelho na penúltima partida. Acabaram convocando para titular um goleiro que tomara em um único jogo a escandalosa contagem de vinte e seis gols e um pivô que só marcara seis vezes. Bem, não foi culpa do Beto tomar tantos gols: seu time, que fora o mais violento do torneio, tivera um fixo expulso no primeiro lance, por agressão a um adversário, e no início do segundo tempo tivera outro expulso por impedir um gol com a mão na bola. Quanto ao artilheiro dos seis gols, em seu favor há que se dizer que foram os únicos seis gols de seu time, e todos decisivos.

Ao final da partida contra o Clóvis Salgado, apavorados com a inesperada vitória por dois a um, nos reunimos no vestiário do ginásio do Remo pensando no que fazer a seguir. O Colégio Cataguases estava acabando de trucidar o segundo adversário, metendo nove a dois, depois de ter feito sete a zero no primeiro jogo. E nós comemorávamos um empate por dois a dois e uma magra vitória.

Pior era a saúde dos jogadores. Com dois cortados por lesão, um em cada jogo, e uma expulsão, no final do segundo jogo, estávamos reduzidos a nove, e somente um pivô. Para mim isso até parecia uma coisa boa: se Leleco se machucasse ou jogasse mal, eu teria uma chance de pisar na quadra, eu que só fora convocado para compor o grupo.

Dois dias depois retornamos ao ginásio do Remo para a fatídica partida. Na preliminar o Clóvis Salgado se despediu com dignidade, tomando uma goleada de oito a um do Professor Quaresma, que consolidava uma ampla vantagem sobre nós no saldo de gols: sete a um.

Duas da tarde: com a cobertura de zinco ardendo no sol da primavera, vestimos nossos bonitos uniformes, camisa branca e calção azul marinho, e saímos para a quadra, acenando para as meninas nas arquibancadas agitando pompons nas nossas cores. O time do Colégio Cataguases, de camisas listradas de vermelho e branco e calções brancos, já fazia o aquecimento.

— Muito bem, garotos — disse a professora de Educação Física. A tática é simples: jogamos no contra ataque, por uma bola. O Colégio Cataguases já está classificado, não vai forçar muito o jogo para não ter lesões nem expulsões e nem suspensões por cartão amarelo. Vamos fazer nosso jogo, contar com o desinteresse deles para perdermos de pouco e não passar vergonha. Com um pouco de sorte a gente consegue um empate.

— Mas, Professora, se a gente não empatar a gente perde a vaga para o Quaresma, eles tem agora sete gols de saldo.

— Melhor perder a vaga sem passar vergonha do que sonhar com ela e sair daqui chorando. Vamos jogar pelo empate. Vamos lá, começam Beto, Adílson, Xandão, Alessandro e Leleco.

Começamos perdendo cara ou coroa, mas não vimos isso como nenhum sinal. Já no rolar da bola o Alessandro deu um passe errado e o ala do Colégio avançou três passos e fuzilou o Beto, que ficou vários minutos esfregando as mãos depois de espalmar a bola.

Mas o jogo foi mesmo tranquilo como disse a professora. O Colégio não queria se expor, ficou tocando a bola com calma e sem muita vontade, tomamos só dois gols no primeiro tempo. Então, quando achávamos que a goleada viria, embora com classe e tranquilidade, Leleco dividiu uma bola com o zagueiro no pé de ferro, passou para Xandão na esquerda e ele completo de canhota um chute que saiu cheio de rosca porque ele chutou mais chão do que bola. Dois a um. Termina o primeiro tempo.

No vestiário o enfermeiro massageava os pés dos dois sem esperanças: Leleco tinha suspeita de fissura na tíbia e Xandão deslocara o tornozelo ao chutar.

— No lugar do Xandão na ala vai o Gláucio. Para o pivô vai o… — a professora olhou em volta, num gesto de desânimo e, quase pondo a mão no rosto, me apontou — vai o Geraldo.

Comentários do Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *