Gol de Placa, Gol de Pato — Parte 2

Haviam deixado para mim a camisa 2, embora eu fosse pivô, e eu secretamente gostara disso, porque achava que era o meu número de sorte. Comecei o aquecimento enquanto Leleco tomava analgésicos e derramava lágrimas surdas. Meus companheiros de time pareciam não acreditar.

— Geraldo, vê se não estraga.

— Gente, confiem em mim, quando meu time precisou de mim no torneio, lembrem, eu entrei e marquei três vezes.

— Marcou sim, lembrou o Xandão. Entrou num jogo que ganharam de 26 a zero, quando já estava 18 a zero. Entrou e marcou num jogo em que todo o time se revezou e todo mundo marcou no mínimo duas vezes. Aliás, naquele jogo até a mascote marcou…

— Porra, veado! Deixa de dizer besteira! A bola bateu naquele raio de cachorro vadio que entrou na quadra e entroou. Ele não era mascote e ele não marcou nenhum gol.

— Dois dos seus gols a bola bateu em você e entrou, o terceiro foi um pênalti que te deixaram cobrar.

— Vamos, garotos. Vai começar ao segundo tempo.

Entrei em campo vermelho de raiva, quase com mais raiva de meus colegas de time do que dos fixos do Colégio Cataguases, que encostavam suas virilhas na minha bunda quando eu tentava me posicionar no pivô e falavam gracinhas.

Sete minutos e meio de jogo e eu não recebera nenhuma bola. Olhava para as arquibancadas cheio de vergonha de passar aquele papelão na frente de Marcelina. E lá estava ela, radiante apesar do suor, sentada do lado do Ânderson.

Lembrando hoje tudo isso eu tenho saudades daqueles tempos, apesar de tudo. E ainda não entendo como tudo pôde acontecer daquela forma. Sou um tipo de predestinado, creio.

Mas o destino me sorriu pela primeira aos oito minutos de jogo, quando o Gláucio, que não tinha muita habilidade nas pernas finas, foi desarmado pelo fixo do Cataguases e a bola espirrou na minha direção.

— Vem, neném — eu sussurrei e abri as pernas e os braços para cercar o fixo que me marcava.

Dominei a bola com meu pé direito e olhei sutilmente para a esquerda, sem girar o pescoço. Quando vi o Alessandro no apoio pela ala, fiz um movimento estranho que me desequilibrou e bati na bola com o calcanhar. Ela passou por entre as pernas do fixo, sem que eu visse o que estava fazendo, e o Alessandro encheu o pé, finalmente empatando o jogo.

Enquanto corríamos de volta para o campo de defesa, comemorando o gol, a Professora Márcia se descabelava: «Cedo demais, cedo demais!»

O pivô do Cataguases, um negro alto e muito mais forte do que eu, apontou-me o dedo como quem aponta um fuzil. Tremi nas bases e olhei para o banco, mas não havia quem pudesse me substituir.

Ele pôs a bola em jogo e correu para o comando do ataque, enquanto eu corria na direção oposta. Não nos cruzamos naquele lance, porém.

Alessandro reclamou que a chuteira estava machucando e foi substituído por Antônio Cláudio, que era miúdo e fraquinho. Não adiantava passar a bola para ele, coitadinho.

O pivô girou sobre a risca da área. Antônio Cláudio tentou desarmá-lo por baixo. O atacante chutou com força e a perna do Antônio quase voou junto com a bola. Mas foi falta da defesa. Sobre a linha da área. Logo, pênalti.

Beto pediu substituição, apavorado diante da perspectiva de receber o petardo que seria cobrado sobre seu peito. A professora Márcia voltou com o Alessandro, enquanto o Antônio Cláudio chorava. Beto sentou no banco enquanto o Giovanni, segundo goleiro menos vazado do torneio interno, assumiu a meta.

Alto, um pouco acima do peso, feio e cabeludo, Giovanni parecia um goleiro muito mais adequado que o miúdo Beto. Entrou tirando as luvas e pendurando na trave:

— Chuta aqui, negão, que esse seu pênalti de merda eu pego de mão nua.

O negão, que já estava puto por empatar com um time de «frangos», deu-lhe uma encarada que teria feito o Beto borrar as calças. Mas o Giovanni só alongou os ombros e se postou.

Zé Carlos, acho que era esse o nome do pivô do Cataguases, recuou três passos e mandou um tirambaço tão potente que eu nem vi a bola. Ouvi um estalo de metal, o grito da arquibancada e quando olhei eu vi a cara do Giovanni sangrando e a bola dormindo na rede. Zé Carlos ria enquanto punha de novo o calçado.

O árbitro deu-lhe um cartão vermelho, para delírio da nossa torcida, e para pavor generalizado de nosso time. O chute fora tão forte que a bola batera na trave, justo onde Giovanni pusera as luvas, depois no chão e depois entrou. A trave recuou dois centímetros sobre o chão de cimento. Mas no chute o tênis de Zé Carlos se soltara do pé e atingira em cheio o rosto de Giovanni, que saiu xingando e ameçando pegar o pivô adversário na saída. Para nosso desespero, Beto voltou ao gol, e o portentoso goleiro ítalo-brasileiro saiu do torneio sem pôr a mão na bola uma só vez.

Cobrança lateral. Adílson não sabe o que fazer com a bola. Inclusive eu, só que eu achava que era isso o que um pivô deveria fazer. De repente, num instante de iluminação, começo a correr de costas em direção ao campo adversário e o Adílson, talvez por falta de opção, chutou para mim.

A bola veio quicando como um porquinho pelo chão de cimento por causa do efeito torto que ele pusera no chute. Não dominei. Virei o corpo enquanto ela vinha, já armando para o chute, mas — que raio! — caiu-me na esquerda, que só serve para subir em ônibus.

O fixo adversário, que não sabia disso, esticou a perna para me desarmar e me derrubou como quem sopra um bonequinho de papelão. Saí catando cavaco e só não dei com a fuça no chão porque acertei a cabeça na boca do estômago do goleiro adversário.

Falta!

Xandão, nosso melhor cobrador, digo, nosso cobrador, estava no banco, ainda pondo gelo no pé.

Peguei a bola como se eu fosse um craque e mandei todos se afastarem.

— Esta bola é minha!

— Mas nem fodendo! — e o Alessandro tomou a bola da minha mão e entregou para o Gláucio.

A barreira tinha os dois fixos, protegendo as bolas com uma mão e a cara com a outra. Eu me afastei, de novo envergonhado na frente de Marcelina, e fui para a direita. Gláucio chutou com força, mas a bola só bateu na barreira e saiu rodopiando em minha direção.

— Esta bola é minha!

Ajeitei o corpo, que continuou desajeitado mesmo assim, e chutei na direção do gol com toda força. A bola pegou uma curva esquisita ao ter o seu rodopio interrompido subitamente pelo meu pé, e mudou de direção quando quicou no chão, enganando o goleiro.

Gol! Gol! Gol? Mas foi gol?

As meninas vibravam na arquibancada. Marcelina me deu um beijo. Três a três. A vaga era nossa, novamente. Meus companheiros se aproximaram, incrédulos:

— Mas, Geraldo, que raio de chute foi esse? Onde você aprendeu a chutar desse jeito, moleque!!?

— Parem de brincar com a sorte — gritou a Professora Márcia — vamos segurar esse resultado antes que eu tenha um troço!

Recuamos todos para a defesa, aproveitando a vantagem numérica, apesar das vaias da torcida adversária:

— Frangos medrosos!

— Têm um a mais e não têm coragem de atacar!

Nossa própria torcida não entendia.

— Vai, Geraldo! — gritou uma menina que não identifiquei.

Enchi o peito de orgulho e fui saindo para o comando do ataque assim que a bola rolou de novo. Alessandro, mancando com o pé cheio de calos, conseguiu desarmar o ala do Cataguases e a bola sobrou para mim.

De repente eu vejo dois fixos correndo em minha direção com caras feias — e do meu lado esquerdo, a voz do Adílson me aconselhava: «cai fora que é fria!

Girei o corpo e recuei decididamente para o Beto, pensando em sair da frente daqueles dois.

Mas quando levantei a cabeça eu não pude crer no que via: Beto estava enxugando as luvas, encostado no poste esquerdo, com o jogo seguindo. A bola rolava em câmera lenta na direção da linha fatal e todos corríamos para ela como aqueles casais de namorados na praia, gritando «não, não, não!» sem esperança. Beto largou a toalha e fez menção de saltar sobre ela, eu já estava perto de mais. Trombamos, a bola passou por baixo dele e foi morrer na rede. A cabeça dura do Beto bateu no meu estômago e me fez ver estrelas instantâneas. O juiz apontou o centro. Enquanto eu caía, meio desorientado pela dor, tive a impressão de ver o massagista abanando a pobre Professora Márcia. A arquibancada oposta, cheia de camisas listradas de vermelho e branco, era um mar de gargalhadas e vaias.

Despertei sentado no banco de reservas, faltando um minuto para acabar o tempo regulamentar. Estávamos com o Gláucio de goleiro, com Beto e Giovanni fora de combate. Perdíamos por três a dois, inapelavelmente. A Professora Márcia tivera de ser levada ao posto de saúde e a nossa torcida nos vaiava e atirava chicletes mascados sobre nós.

— Tremenda falta de companheirismo, Geraldo! — repreendeu o massagista.

— Do que você está falando? — perguntei, enquanto segurava a bolsa de gelo na barriga.

— A última coisa que você disse, antes de desmaiar.

— O que eu disse?

O Beto tirou a bolsa de gelo dos lábios inchados e sangrentos e me disse, numa voz flácida de nocauteado:

— Me chamou de filho da puta e me perguntou por que eu não estava no gol.

Lembrei de tudo. O juiz deu o apito final. Os camisas azuis do Professor Quaresma começaram a bater pandeiros na arquibancada. Estávamos eliminados pelo saldo de gols.

— Beto, você é mesmo um filho da puta e eu nunca vou esquecer disso.

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