Clark Ashton Smith: Além da Imaginação e do Tempo

Os que acompanham o meu blog há bastante tempo já ouviram falar muitas vezes de Clark Ashton Smith, um escritor americano de fantasia, relativamente desconhecido no Brasil, mas extremamente influente entre os autores de ficção e fantasia do mundo anglófono. Inclusive vocês já tiveram a oportunidade de ler aqui algumas traduções amadoras que fiz de seu trabalho, além de alguns artigos sobre sua vida e obra.

Há muito tempo eu tinha o desejo de traduzir Ashton Smith para o português (foi por isso que publiquei minhas tentativas de tradução aqui no blog), uma vez que o autor era (e ainda é) praticamente desconhecido entre nós. Além das minhas traduções, eu só tinha conhecimento de uma ou duas feitas por Renato Suttana (“As Abominações de Yondo” e “O Mundo Eterno” são atualmente as únicas que ele mantém em seu sítio) e não ouvi falar de qualquer livro publicado em português, ou, pelo menos, no Brasil.

Este ano de 2020 este antigo desejo se materializará através da Editora Clock Tower, que encampou meu projeto e publicará uma coletânea intitulada “Além da Imaginação e do Tempo”, título inspirado por uma coletânea diferente, publicada nos Estados Unidos pela Arkham House (“Out of Space and Time”) e também na série “Além da Imaginação”.

Devido às dificuldades econômicas do país, a editora lançou um projeto no Catarse para ajudar a pagar os direitos autorais e os custos de publicação. Se estiver interessado no livro, o seu apoio nesta fase é muito importante.

“Além da Imaginação e do Tempo” pretende dar uma visão geral da parte da obra de Clark Ashton Smith que está mais relacionada ao horror e à fantasia mais mainstream, especialmente os textos que têm algum tipo de relação com as obras de H. P. Lovecraft e seu círculo de amigos e discípulos. Este foco significou, infelizmente, que algumas das melhores criações do autor tiveram de ficar de fora, como, por exemplo, o ciclo de ficção científica espacial, sua prosa poética e a sua poesia. A obra completa de Clark Ashton Smith passa das três mil páginas, e a editora teve de se limitar a 300…

Tendo em vista este foco predeterminado, “Além da Imaginação e do Tempo” conduz o leitor a uma viagem literária pelo tempo (mas não pelo espaço, daí não se ter meramente traduzido o título americano), começando pela época contemporânea e depois retornando à pré-história (ciclo da Hiperbórea), à idade média (ciclo de Averoigne) e ao fim dos tempos (ciclo de Zothique). As histórias contemporâneas e medievais pertencem ao gênero da baixa fantasia, ou seja, histórias ambientadas em nossa realidade, mas influenciadas por alguns elementos estranhos ou sobrenaturais. As histórias da Hiperbórea e de Zothique pertencem ao gênero da alta fantasia, em que todos os elementos são fictícios.

A seleção das histórias se baseou em indicações dadas por S. T. Joshi (crítico literário, biógrafo de H. P. Lovecraft e especialista nas obras de diversos autores americanos do gênero) e William Dorman (enteado de Clark Ashton-Smith e representante oficial de seu espólio literário). As histórias escolhidas foram:

  1. A Prole Inominável (The Nameless Offspring)
  2. Caçadores do Além (Hunters from Beyond)
  3. O Retorno do Feiticeiro (The Return of the Sorcerer)
  4. Ubbo-Sathla
  5. As Sete Obrigações (The Seven Geases)
  6. A Porta Para Saturno (The Door to Saturn)
  7. A Chegada do Verme Branco (The Coming of the White Worm)
  8. A Santidade de Azédarac (The Holiness of Azédarac)
  9. A Besta de Averoigne (The Beast of Averoigne)
  10. O Colosso de Ylourgne (The Colossus of Ylourgne)
  11. Uma Noite em Malnéant (A Night in Malnéant)
  12. O Ídolo Escuro (The Dark Eidolon)
  13. Necromancia em Naat (Necromancy in Naat)
  14. Morthylla

O leitor acostumado ao gênero do horror cósmico encontrará nestas histórias diversos elementos conhecidos, como a Hiperbórea (cenário compartilhado por Ashton Smith e Robert E. Howard, autor dos contos de Conan, o bárbaro), o Necronomicon (criação de H. P. Lovecraft) e o Livro de Eibon (invenção do próprio Ashton-Smith). Encontrará personagens familiares como o deus-sapo Tsathoggua, o deus-aranha Atlach-Nacha e os carniçais (ghouls, em certas traduções). Encontrará, principalmente, histórias que falam dos medos e sentimentos humanos de uma maneira muito mais rica e profunda do que normalmente permitido pelo gênero.

Os heróis e vilões de Ashton-Smith experimentam medo, coragem, luxúria, sede de vingança, amor, arrependimento, crueldade, covardia e senso do dever. São personagens que têm profissões variadas e diversos graus de instrução e de formação. Temos um apicultor, um ex marinheiro, um escultor, um estudante de artes, um monge, um cavaleiro andante, uma prostituta, um poeta, um príncipe, um rei, um nobre, um sacerdote e um escultor — além de, obviamente, muitos feiticeiros, aprendizes de feiticeiro e estudantes de feitiçaria arrependidos. Esta variedade de origens e de formação dá mais densidade e credibilidade a esses personagens, que sempre parecem ter mais cor e humanidade do que serem meramente elementos literários para avançar uma trama concebida desde o início.

Diferente de Lovecraft, que parecia incapaz de conceber um final feliz, Ashton Smith não se recusa. Algumas de suas histórias parecem ter um desfecho quase de conto de fadas, outras caminham previsivelmente para a tragédia, mas o final mais característico dos melhores contos de Smith é aquele em que o desfecho é determinado aleatoriamente. Tragédia ou felicidade, esse tipo de final irônico nos surpreende ao quebrar nossas expectativas: o herói sobrevive, mas não consegue realizar o desejo do amigo moribundo; o herói morre por culpa de um acontecimento fortuito; outro herói sucumbe a uma tragédia por pura teimosia, apesar de muitos alertas de que havia perigo; o herói se sacrifica para salvar o mundo, mas não recebe nenhuma recompensa no além; o herói falha em sua missão, mas encontra a felicidade, enquanto o inimigo triunfa; o herói rejeita o amor verdadeiro quando o encontra depois de buscá-lo por uma vida inteira; o monstro não era o inimigo, mas o herói; o inimigo era realmente horrível, porém mais horríveis foram as pessoas que o tornaram assim e o herói contribuiu para a tragédia.

Cinismo e ironia estão presentes na maioria das histórias de Smith, ao lado de doses frequentes de sensualidade (embora nesta coletânea os seus momentos mais lascivos não foram incluídos). Tanto assim que vários de seus textos podem ser interpretados como sátira à literatura de horror e fantasia. Acima de tudo, a literatura de Clark Ashton Smith parece leve e agradável em português, apesar da fama de difícil que ele adquiriu em sua língua materna. Não se engane, leitor, eu não tive que perverter o texto para obter esse efeito, é que simplesmente Smith gostava de usar um vocabulário pomposo, mas baseado em raízes latinas. Esses termos que soavam como “palavrões” em inglês, para nós soam familiares.

Enfim, caro leitor, se você se aproximar de Clark Ashton Smith com uma mente aberta e a boca disposta a dar os risos amarelos que o autor tenta provocar, poderá talvez se divirta muito ao ler estas histórias que, apesar de escritas há mais de sessenta anos, têm ainda um ar de novidade que pode ser muito mais agradável de se respirar do que os grossos volumes de genealogias e assassinatos que andaram em voga.

Caso este projeto seja bem-sucedido, poderemos ter, em breve, um segundo volume incluindo o ciclo marciano (“Vulthoom”, “O Habitante do Abismo”, “As Criptas de Yoh-Vombis”), as histórias de exploração espacial (“Senhor do Asteróide”, “Abandonados em Andrômeda”, “Os Imortais de Mercúrio”), as histórias de terror exótico (“A Vênus de Azombeii”, “O Carniçal”, “O Beijo de Zoraïda”, “Oferenda à Lua”, “Narrado no Deserto”), de horror cósmico (“A Corrente de Aforgomon”, “Pegadas no Pó”, “A Luz do Além”), as histórias de mundos alienígenas (“O Demônio da Flor”, “O Labirinto de Maal Dweeb”, “Sadástor”, “As Mulheres Flor”), os contos de feitiçaria e ciência (“O Cadáver Adicional”, “O Devoto do Mal”, “A Droga Plutoniana”, “A Epifania da Morte”), as histórias de deslocamento espaço-temporal (“O Mundo Eterno”, “Mudança de Estrela”) e outras inclassificáveis por mesclarem gêneros (“Uma Vindima da Atlântida”, “Viagem a Sfanomoë”, “A Paisagem com Salgueiros”) — além de mais boas histórias de Zothique (“A Viagem do Rei Euvoran”, “Império dos Necromantes”, “O Deus Carniceiro”, “O Jardim de Adompha”, “A Ilha dos Torturadores”, “A Sibila Branca”, “A Escadaria da Cripta”, “A Prole da Tumba” e “Xeethra”), Hiperbórea (“A Sombra Dupla”, “O Roubo das Trinta e Nove Cintas”), Averoigne (“O Sátiro”, “O Fazedor de Gárgulas”, “A Mãe dos Sapos”) e terrores contemporâneos (“Os Fantasmas de Fogo” e “A Cidade da Chama Cantante”).

Um mundo novo de histórias de horror e fantasia está diante de nós. Este é apenas o portão externo que se abre.

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