Branca de Neve no Século XLIV

Meu nome será “Leon”. Não lhe darei outro. Mais detalhes não importam. O que já vou lhe contar será suficiente para me causar problemas demais na vida.

De qualquer forma, não é muito importante saber quem eu sou. Saiba apenas que eu sou um estudioso de línguas antigas. Esta especialidade me levou a trabalhar no Projeto. Precisavam de alguém que fosse capaz de interagir com os reanimados.

Formei-me em Línguas Mortas na Universidade #2, no Continente Ocidental. É uma profissão sem prestígio. Línguas mortas não são chamadas assim por uma boa razão: não temos mais utilidade para elas neste mundo e a razão de seu estudo é puramente acadêmica. Todos os livros antigos estão traduzidos para a língua moderna e não temos esperança de captar radiotransmissões. Foi então que surgiu o Projeto e subitamente os professores de Línguas Mortas se tornaram úteis à ciência.

Por isso eu estava lá quando você despertou.

Você foi o primeiro caso bem sucedido. Havíamos perdido três indivíduos antes por não entendermos corretamente as instruções. Sua língua estava em um estágio posterior ao que temos documentado.

No começo não sabíamos o que fazer com você. Na verdade, nem os próprios idealizadores do projeto tinham uma finalidade em mente. Fizemos o que fizemos pelo puro e simples interesse científico.

Mas queríamos entendê-la, não queríamos contaminá-la com nossas ideias e conceitos. Foi por isso que a mantivemos isolada tanto tempo. Perdoe-me por isso. Se a tivéssemos instruído em nossos costumes desde o início, hoje você saberia como sobreviver nas adversidades.

Da “Autobiografia” de Leon Lages, PhD, CSV e MPP:

***

— Com quem ele estava falando?

— Ora, vocês já sabem.

— Conte de novo a história, papai.

— Está bem, mas depois vocês duas façam o favor de sossegarem porque a noite já é velha e precisam dormir.

***

Minutos antes, “Leon” assistira a desconhecida comer avidamente os nacos da ração:

— Muito, muito obrigado, meu príncipe.

Encarou-a obliquamente, como se não conhecesse o sentido da frase. Mas logo se lembrou e deu a resposta que deveria ser a adequada.

— Não há de que.

— Qual é o seu nome, meu príncipe?

Cobriu a etiqueta no uniforme em um gesto reflexo, mas logo recordou que a desconhecida não saberia ler os caracteres modernos.

— Meu nome será Leon.

Ela pareceu compreender o significado da frase:

— Muito bem, “Leon”. Estou em suas mãos. Dependo de você até mesmo para o de comer. Quanto tempo permanecerei assim?

— Não sei.

— Precisa pensar nisso. Não pode me manter aqui para sempre.

— Trouxe muita comida, água, armas para autodefesa, roupas limpas, alguns produtos de higiene. Você não dependerá de minha vinda diária. Esta caverna é segura.

— Trouxe-me comida que eu nem sei desembalar, armas que eu nem sei segurar, produtos de higiene que não sei usar. Esses objetos não têm significado para mim. Precisa me ensinar.

“Leon” se lembrou, então, do quanto lhe era difícil ensinar qualquer coisa a alguém. Criança, gostaria de ser professor quando crescesse. Crescido, dedicara duas décadas de estudos para se livrar da obrigação de lecionar. Mas tinha de tentar. Como dizia o velho livro, “tu te tornas eternamente responsável por aquele que cativas”. Tinha trazido a desconhecida àquele lugar, tornara-a sua cativa, mais do que a cativara. Era responsável por ela, não podia deixar que morresse.

— Esta é uma embalagem de ração integral. O gosto não é bom, mas ela contém todos os nutrientes. Cada envelope fornece 110% dos valores mínimos diários para um adulto do sexo feminino com um metro e oitenta de altura. Preferi trazer uma caixa disso do que ocupar espaço com comida inútil. Abre-se assim.

Ele fez o gesto, mas não abriu mesmo a embalagem. Não queria estragar um envelope. Mas ela, esfaimada ainda, imitou sua indicação e conseguiu rasgar o lacre inviolável.

A desconhecida então pegou a arma.

— Não! Está ao contrário. Assim atirará no próprio rosto!

Ela mirou num cacto e atirou. Acertou uma pedra que estava meio metro à esquerda.

— Preciso praticar. Nunca fui boa nisso.

— A arma recarrega com energia solar. Uma hora de carga para obter dez disparos. É um laser fraco, mas suficiente para matar pequenos animais. Pode ser útil para caçar.

A imagem mental da desconhecida matando um pequeno animal e devorando-o parecia de um primitivismo asqueroso. Mas até os mais civilizados cidadãos sabiam que, em certos tipos de emergências, era uma forma adequada de obter os nutrientes essenciais.

— O fio dental eu conheço.

Depois de ensinar a desconhecida a usar o resto do conjunto de primeiros socorros e higiene pessoal, “Leon” completou as últimas instruções:

— Não saia ao sol quando a estrela azul estiver visível. Vou tentar conseguir para você um traje diurno, mas mesmo quando o tiver, use-o somente para pequenas caminhadas, quando for muito necessário. Mantenha-se nas sombras, mova-se à noite. O sol laranja, uma anã vermelha, estará sempre visível no céu neste hemisfério. Ele oferece iluminação suficiente. Não há perigo: estamos numa zona desabitada e semidesértica.

— Nenhum animal peçonhento?

— Poucos. Preocupe-se mais com as plantas. Use as botas.

“Leon” então começou a colocar o capacete. A desconhecida o pegou pelo braço, como se tentasse impedir sua partida:

— Por favor, não vá ainda. Há tanta coisa que eu quero saber. De você, de mim, deste lugar onde estamos.

— Tenho pouco tempo. Preciso chegar ao alojamento comunitário antes da ceia coletiva.

— Quanto tempo?

— O sol azul virá nascerá para você dentro de seis horas. Quanto isto acontecer serão setenta e seis horas em Lospar. A viagem dura três horas, o que significa que tenho menos de três horas para chegar à cidade e cumprir todas as obrigações antes da ceia.

— Três horas são mais que suficientes para um banho, uma muda de roupa e uma consulta ao noticiário. Então você pode gastar meia hora comigo e me explicar alguma coisa. Desde quando você me deixou aqui, fiquei sozinha e sem nenhuma noção de nada. Você poderia pelo menos me explicar…

— Não posso — interrompeu ele. Não posso revelar…

— Está bem — disse a desconhecida.

Mas disse-o com um olhar daqueles que “Leon” nunca vira em mulher alguma de Lospar. Um olhar positivamente irracional, e lindo. Por fim ele suspirou e admitiu:

— Creio que posso lhe dizer alguma coisa. O que quer saber?

— Quem é você? Onde estou? Por que você me tirou daquele lugar? O que vai acontecer comigo?

“Leon” suspirou. Lembrou-se

— Leon. Me diga. Com sinceridade: iam me matar?

— Houve um momento em que esta decisão chegou a ser tomada. Foi quando todos ficaram muito assustados com as reações do quinto indivíduo. Ele também parecia dócil no começo. Mas, logo que teve oportunidade, desarmou um guarda e começou a atirar em tudo o que via. Revimos a filmagem muitas vezes, depois que a segurança o executou. Conseguimos traduzir o que dizia, e isso nos preocupou.

— Mas mudaram a decisão, então?

— Sim. Racionalmente falando, matar alguém por causa de atos que pode vir a cometer é injustificável. O indivíduo número cinco foi morto em legítima defesa, porque uma abordagem não violenta permitiria que ele matasse mais de nós. Mas não é a mesma coisa matar… alguém como você.

— O que é mais racional fazer com alguém como eu?

“Leon” pensou, envergonhado, que o plano alternativo fora o de não reanimar nenhum dos ainda suspensos, mantendo-os assim pelos séculos afora. Quanto tempo durariam os sarcófagos? Quanto tempo teriam durado até então? O espaço é tão incompreensível!

Mas que realmente envergonhava “Leon” era pensar que a alternativa para o único indivíduo reanimado e vivo seria tentar recolocá-lo em animação suspensa.

— Queriam mantê-la presa para sempre.

— Você está mentindo, “Leon”. Mas não precisa me contar a verdade, se acha que não deve.

— Eu lhe tirei daquela prisão, e a trouxe para o deserto, onde poderá ser livre.

— Por quanto tempo, meu príncipe? Por quanto tempo?

— Se você e eu formos espertos, por muito tempo.

— Não virão atrás de nós?

— Difícil. Ninguém se aventura no deserto. Temem o brilho da estrela laranja. Ele pode ser letal. Por isso…

A frase de “Leon” foi interrompida pelo assobio fino de uma propulsão iônica.

— Alguém veio, meu príncipe.

“Leon” ficou paralisado pelo terror. Contrariamente às suas expectativas a fuga não fora percebida como algo sem importância. Alguém se importara o suficiente para vir atrás dele.

— O que vamos fazer? Este é o seu mundo. Aqui eu não sei nem escovar os meus dentes.

Mas ele sabia ainda menos. Nunca em toda a sua vida estivera diante da possibilidade real de ser preso. Nunca cometera qualquer ato irracional. Mesmo quando dera fuga à desconhecida ele conseguira uma justificativa perfeitamente aceitável em um interrogatório: fora tomada uma decisão precipitada, sem o devido consenso científico, e o cumprimento da ordem dada ameaçaria a continuidade das pesquisas. O medo ao desconhecido é irracional. Sua coragem, mesmo transgressora, fora um ato perfeitamente racional.

Repetia-se mentalmente esta afirmação, apesar do estranho aperto no peito, uma dor, uma aflição sem nome.

— Você não acha que devíamos fugir?

Fugir? Fugir para onde? Para ainda mais longe deserto adentro, expondo-a mais ainda às radiações nocivas da anã vermelha? Levando-a para mais longe de seu alcance?

— Não. Devem ter visto a motojato.

O assobio da propulsão não se afastou. Permaneceu próximo durante algumas dezenas de segundos e então começou a morrer. Haviam desligado o veículo. Haviam parado.

A desconhecida o agarrou pelo braço:

— Vamos sair daqui!

Arrastou-o caverna adentro enquanto ele parecia desligado da realidade.

— Não adianta.

— Adianta muito menos ficar à espera de que nos peguem.

A caverna tinha um declive imperceptível, devia ser imensamente profunda e longa. Havia lugar suficiente para esconder um exército.

A desabalada corrida foi interrompida por um tropeção no escuro. Caíram os dois estatelados contra um chão empoeirado.

Quando seus olhos se acostumaram à escuridão, a desconhecida percebeu que no imenso salão em que se encontravam, as paredes eram cortadas na rocha em traços retos, e imensas pilhas de caixas se estendiam a perder de vista.

— Que lugar é este, meu príncipe?

Ainda esfregando a canela, onde haveria em breve um roxíssimo hematoma, “Leon” ergueu os olhos e nada viu. Séculos acostumados à proximidade de um astro tão luminoso como a estrela azul haviam incapacitado seu povo para a visão noturna. Mas a desconhecida conseguia divisar perfeitamente as formas, mesmo não enxergando cores nem detalhes.

— Parece um tipo de depósito. Você poderia me dizer o que é?

“Depósito, depósito”. “Leon” tentava puxar da memória alguma informação. Não tinha conhecimento de que jamais tivessem existido depósitos no hemisfério interno.

Ao tentar se levantar, percebeu fachos de luz que se aproximavam, vindos da mesma direção de onde haviam fugido. Como não conseguia enxergar na escuridão, não tinha como saber se havia um caminho ainda. Sentia-se acuado. Haviam sido pegos.

Logo um facho acertou-o no olho, trazendo a doce sensação de uma tarde luminosa. A desconhecida, porém, tentou proteger os olhos. Eram cinco lanternas. Uma voz calma articulou uma frase de gramática rigorosamente correta, mas marcada pelo estilo seco dos burocratas de mais alto escalão:

— Não fujam. Não há para onde. Venham. Não há porque temer.

“Leon” obedeceu instintivamente, pondo-se de pé. A desconhecida ainda tentou resistir, mas assustou-se com um ruído metálico qualquer e fez uma pose de rendição.

Um dos portadores de lanternas afastou-se do grupo, em direção à esquerda, e acionou algum tipo de mecanismo. Logo uma luz macia e uniforme inundou o salão. Ficou então evidente que aquele lugar não era mesmo uma caverna natural. E o que pareciam caixas eram, de fato, os intestinos de algum mecanismo gerador de energia solar, cuja antena deveria ter existido um dia acima da superfície.

Então “Leon” se lembrou dos primórdios da colonização, quando tais geradores primitivos haviam sido empregados para captar energia da anã vermelha e direcionar para as primeiras cidades, fundadas bem próximo da linha fixa do crepúsculo, para baratear a transmissão. Aqueles geradores tinham estado desligados por pelo menos quatrocentos anos. Sua operação se tornara antieconômica.

Entre os cinco que o haviam seguido, “Leon” encontrou somente uma face familiar, a de seu superior imediato, Iair L.

— O que está fazendo, Sr. Lages? Sua atitude nos parece tão, tão antiquada!

O discurso de autodefesa foi instantaneamente ativado:

— Minha ação foi totalmente de acordo com o interesse científico. Não era racional expor o indivíduo Alice Marins a um procedimento que ainda não dominamos. Poderíamos causar a sua perda, com grande prejuízo para a obtenção de conhecimento sobre suas origens e motivações.

— Sabemos disso, Sr. Lages. A determinação de suspender o indivíduo Alice Marins já foi revertida. Inclusive o Coronel Lin M. já está sendo avaliado por esta decisão. Aparentemente ele perdeu o controle de sua racionalidade e agiu motivado pelo puro medo ao desconhecido. Na verdade, o que nos intriga é o seu envolvimento com o indivíduo reanimado.

Nada desta conversa era compreendido por Alice, a desconhecida, que não sabia da língua moderna mais do que algumas palavras e poucas frases rudimentares.

— O que vão fazer?

— Volte conosco, Sr. Lages. Não há previsão de punição para o seu ato. E a sua preocupação científica com o indivíduo reanimado não é mais necessária. Nós o manteremos em segurança para estudos.

— E eu tenho opção?

— Se preferir, podemos simplesmente dizer que não os encontramos no deserto e que provavelmente estão mortos. Claro que esta opção não lhe permitirá voltar periodicamente para comprar comida e remédios, ou serão descobertos.

“Leon” deu de ombros, conformado, e tratou de convencer Alice de que não havia perigo. O que ele tratou de fazer na língua antiga, que alguns de seus captores conheciam.

— De qualquer forma, a alternativa é ficar à míngua no deserto. Temos de ir. Enfrentar as consequências.

Enquanto saíam da caverna, em passos lentos, como os de quem segue para um calvário, Alice teve uma ideia. Deixou que os homens de lanterna se distanciassem e interpelou “Leon” em uma língua antiga pouco conhecida, mas que tinha uma vaga semelhança com o que ele chamava de “língua moderna”:

— Vi amas min?

À parte um vocábulo desconhecido, a frase era gramaticalmente correta mesmo tantos séculos depois. “Leon” a compreendeu. Inclusive compreendeu o conceito, usado tão frequentemente para traduzir palavras de línguas mortas.

— Ni ne scias kio amo estas — ele respondeu.

— Jes. Vi far. Ĝi estas nur vorto por vi

— Amo estas malracia.

— Ĉio estas in ordo kum iom de malracieco.

— Do diris la serpenton en Edeno.*

***

E o Dr. Leon Lages é lembrado naquele busto com a metade branca e a metade vermelha. A metade branca comemora as grandes descobertas que ele possibilitou a respeito da velha Terra. Graças a ele que pudemos entender os Mensageiros da Morte e evitar que tivessem sucesso. A outra metade é lembrança consternada de ele ter sido o primeiro entre os habitantes de Nod a exibir estranhos comportamentos irracionais, que aos poucos se difundiram pela sociedade do planeta, corrompendo a juventude e causando indevidos questionamentos dos valores da a sociedade.

— Quando crescer, papai, eu quero ser como o Dr. Leon.

— Então durma para crescer rápido, minha filha.

***

Com as meninas caídas no sono, o fazendeiro Lamir Lages suspirou contrariado. “A juventude está se perdendo…” Mas o que esperar, se eles eram descendentes do próprio homem que trouxera a ruína aos valores comunitários?

Lembrou-se de que os antigos valores não permitiriam que sua mulher levasse uma gravidez no ventre, nem que as crianças nascidas fossem criadas daquela forma. Mas o mundo já não era tão rígido, e em algumas pequenas cidades já era possível viver como os velhos livros diziam que fora na Terra de milênios passados.

“A juventude está se perdendo…”

E o velhor Lamir Lages foi se deitar ao lado da esposa, obedecendo a um ritual que não fazia sentido.

* O diálogo reproduzido está em esperanto, e deveria poder ser traduzido mais ou menos assim:

— Tu me amas?

— Eu não sei o que é amor

— Sim. Eu sei. É só uma palavra para você.

— Amor é irracional.

— É bom que haja um pouco de irracionalidade.

— Assim disse a serpente do Éden.

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