A Pessoa Amada

Rodrigo mirou Amanda nos olhos com uma fúria que ela ainda não conhecia. Mas em vez de um tapa ou de um grito ele derramou uma solitária lágrima enquanto apertava na mão um inimigo imaginário, com tanta força que as unhas feriram a palma e os músculos retesados demais começaram a doer.

— Fica assim, então, Amanda.

— Você vai se arrepender, Rodrigo. Não faça isso comigo.

— Não me arrependerei, Amanda. Nada me fará arrepender porque eu acabei de ver que não poderia mais ser feliz com você. Para ser infeliz, tanto faz com ou sem o seu amor.

E assim Rodrigo deixou o apartamento, levando apenas o seu notebook, uma mala com metade das suas roupas e uma bolsa contendo alguns objetos pessoais avulsos, do tipo que não ficaria bem levar na mala.

Quando ele bateu a porta, Amanda engoliu o choro, xingou para as paredes e foi tomar um generoso sorvete de chocolate. Ele voltaria, ele tinha voltado várias vezes antes. Não seria apenas um erro igual aos outros que o faria mudar. E Amanda precisava dele, desejava que voltasse logo, mas saberia esperar o momento certo, para não ter que prometer nada, comprometer coisa alguma.

Mas no dia seguinte um homem de uniforme azul bateu à porta, acompanhado de um oficial de justiça:

— O Sr. Rodrigo Martins deseja retirar seus pertences que se encontram nesta unidade habitacional — explicaram.

Amanda pôs a cabeça para fora e viu Rodrigo, na quina do corredor com os braços cruzados e os óculos de lentes verdes escondiam sua expressão muito bem.

— Não precisava mandá-los, Rodrigo. Eu não mordo, venha buscar suas coisas.

Ela sabia que era mentira e que, se o companheiro viesse só, ela até mesmo o morderia para impedir que saísse com o resto de suas coisas. Mas na frente da Justiça precisou se conter. E quando tomou um susto o resto de tudo que ele possuía estava dentro de cinco ou seis caixas de papelão, que o homem de azul levava aos ombros como se fossem de isopor.

Quando terminaram o apartamento ficara menos atulhado, mas ainda não chegara a equivaler ao vazio do coração de Amanda. Ela pensava em comprar móveis, mas nada mobiliaria sua saudade suficientemente. Em vez disso, trancou o apartamento e ligou para Cíntia.

— Querida, onde você está? Eu preciso de socorro existencial. Urgente.

— O que houve? — perguntou uma voz sonolenta do outro lado?

— Ele me deixou mesmo, até buscou as coisas.

— Já não era sem tempo, até quando você faria gato e sapato desse coitado? Um dia o chifre dói.

— Mas você ousa me dizer isso, Cíntia. Você é minha amiga ou dele?

— Nem sua nem dele.

Amanda se acabou na dança e no uísque, aquela noite e quatro outras, antes de saber, por tortas vias, que Cíntia abandonara-lhe a amizade em busca do Rodrigo. A vadia, depois de tanta loucura, resolvera sossegar no colo justamente do Rodrigo, do Rodrigo que Amanda tanto achincalhara que lhe doera o chifre.

Mas o tempo cura tudo. Curou Rodrigo, curou a Cíntia. Mas Amanda descobriu, espantada, que de fato amava o homem que perdera. Ou achava que amava. Talvez fosse só a vontade de tomá-lo da Cíntia, que nem era tão bonita, afinal. Queria Rodrigo de volta a todo custo, mesmo que fosse para traí-lo outra vez. Mas o amava, de um jeito torto e público. O tempo não curou isso, fez ficar pior, como uma inflamação que nunca sara, até que finalmente supura e sangra.

Meses depois ainda estava inerte nisso quando viu a Cíntia no supermercado. A putinha havia desaparecido por semanas, vivendo seu amor roubado à amiga. Lá estava ela, a miúda piranha, vestindo um comportado vestidinho preto básico, com óculos escuros de uma grife popular. Comprava verduras, claro. Queria manter-se magra enquanto Amanda se empanturrava de sorvete e de cervejas.

Sentiu-se ferver por dentro. Era uma desfaçatez a piranha agora andar fantasiada de gente normal. Irracionalmente precisava acabar com ela. Fosse qual fosse o meio, desde que fosse naquele momento.

A mente turva nublou os olhos, ou foram lágrimas. As cenas apareceram como pedaços de um filme antigo, entremeadas de borrões. Gritos, algum sangue, ajuntamento de fregueses, uniformes. Acordou de repente em um cubículo escuro, com grades de um lado e uma janela alta do outro.

— Mas, onde…

— Tá no xilindró, mia fia.

Quem falava era uma senhora negra que aparentava-se com Ramsés.

— Mas o que eu fiz?

Pergunta feita, resposta ouvida de sua própria alma: lembrou-se vagamente de ter investido contra Cíntia munida da primeira coisa pesada que pudera pegar: uma peça de salame. Fora trabalhoso manusear aquela clava molenga e escorregadia, mas o golpe fora certeiro no rosto da vadia, quebrando-lhe os óculos e ferindo-lhe perto do nariz. Lembrou do ajuntamento de gente: havia parentes dela por perto, ou amigos, ou talvez somente seguranças. Então fora isso.

Sentou-se no imundo catre, sentindo uma culpa imensa de algo que não entendia o que fosse.

— Arrependida, mia fia?

— A senhora não sabe.

— Brigou por causa de home, não foi mia fia?

— Tá, confesso. Bati numa vadia com uma peça de salame.

A velha deu uma gargalhada de bruxa de filme de terror.

— Óia que eu bem queria estar lá para ver. Uma peça de salame, mia fia. Não tinha nem mesmo um bacalhau por perto para fazer um estrago maió?

— A senhora me faça o favor de não rir. Eu estou me sentindo péssima.

— Eu posso lhe curar da dor de corno ou trazê de volta o homem que ocê perdeu. Ocê iscoe.

Amanda ergueu os olhos. A negra estava sentada no outro catre, cuidadosamente posta no ângulo da sombra. De seu rosto, apenas o vago brilho de seus olhos vencia a penumbra da cela. Mas as mãos brilhavam, calejadas, mas longilíneas, movendo-se o tempo todo, como se manipulassem a realidade a seu prazer.

— Eu queria tanto ter o Rodrigo de volta. De qualquer jeito.

— De quarqué jeito, mia fia? Num é mió isquecê quem já se foi?

Um carcereiro apareceu, destravando a porta da cela.

— Amanda Gonçalves, venha. Seu advogado conseguiu-lhe um *habeas corpus*. Vai responder em liberdade.

Quando ela se levantou para sair, a velha negra lhe estendeu à mão um pedaço de papel cuidadosamente branco e dobrado. Amanda não lhe deu muita atenção. Era, evidentemente, um número de telefone. A velha negra também sairia logo. E teria seu consultório sentimental em algum subúrbio.

— Quando ela sai?

— Quem?

— Ah, não importa.

Finalmente em casa, Amanda desdobrou o papel. Nele estava um aljamiado quase indistinto, uma letra tão lenta e firme que parecia fazer quase parte do próprio papel. Naquela noite Amanda não se importou com o bilhete, mas no dia seguinte, ao vê-lo pela segunda vez, as letras pareciam menos amarradas umas nas outras, as linhas menos doloridamente juntas e as frases se destacavam:

> Pague duas garrafas de cachaça e uma galinha preta numa encruzilhada, numa sexta-feira de lua nova, à meia-noite. Reze sobre três velas vermelhas e sete velas pretas: “Que o tranca ruas abra os caminhos para que volte quem se foi.” Quando terminar, derrame três taças de cachaça em volta da galinha e vá embora sem olhar para trás. Volta a pessoa amada que se foi. Dentro de três dias.

A sexta-feira seguinte seria de lua crescente. Foi uma pena ter que esperar uma semana inteira e mais meia. Nesse tempo Amanda nem se lembrou da preta velha, que talvez ainda apodrecesse na cadeia. “Que me importa, a velha estúpida me deu a simpatia antes de cobrar. Por que teria que pagar?”

Na madrugada do sábado da lua nova, retornando para casa, Amanda começou a sentir um frio vento que se enfiava pelas gretas do painel do carro, por mais que a ventilação estivesse fechada e mesmo sendo ainda fevereiro. Subitamente ouviu um calafrio em sua nuca lhe dizendo que estava feito.

Freou o carro num acostamento precário e olhou para trás. Obviamente não havia ninguém.

Segunda feira, dia maldito. Trabalhou pesada, como se tivesse engolido triplas refeições de cada vez. O espelho andava cruel, nem tanto pelo peso, mais pelas olheiras e pelo viço partido que ia cada vez mais se esfarelando. “Maldito Rodrigo, me usou e abusou, me comeu e me bebeu o quanto quis, e me largou no osso.”

Quando finalmente o ponto caiu, saiu da sala de contabilidade já vestindo um bolero de renda, louca para chegar em casa e enfiar a cara num travesseiro para chorar de novo. Talvez fosse amor, ou só uma dor de corno mal curada. Oito meses.

Estava em casa assistindo uma filmagem de férias com Rodrigo em Ilhabela quando ouviu um ruído fora. Deveria ter sido a campainha, se fosse alguém. Mas, que estranho, trocara a campainha por uma mais ruidosa, melhor para suas ressacas frequentes, e ouvia, mesmo assim, o tilintar suave do sininho de bicicleta que o Rodrigo gaiatamente instalara — ele e sua mania de reciclar coisas, reaproveitar pequenos pedaços luxuosos de lixo, evitando que pequenas bobagens bonitas fossem descartadas.

Levantou-se num sobressalto. Havia no ar um vento estranhamente úmido e um ruído de unhas na porta.

“O cachorro do vizinho veio mijar na minha soleira outra vez!”

— Onde está o viado do teu dono que não te ensina!? — perguntou Amanda, sem educação, abrindo a porta de um golpe só.

Não era nenhum cachorro. Amanda bateu de volta a porta com toda a força que tinha, passou o trinco, tentou arrastar o sofá.

Gritava por socorro, mas se socorria, que nunca fora moçoila indefesa para cavaleiro andante salvar do dragão.

As unhas arranhavam do lado de fora. A umidade parecia aumentar, trazendo um cheiro pantanoso e acre.

— Vá embora! Vá embora!

Finalmente Amanda entendeu o pretinho básico que Cíntia vestia naquela tarde do supermercado.

A gritaria e os ruídos começaram a atrair curiosos. Gente que abria as portas de seus apartamentos e dava com a cena passava a contribuir com mais gritos para a algazarra que se espalhava pelo nono andar. Vizinhos dos prédios em frente acendiam as luzes. Outros xingavam, ameaçando com polícia.

Amanda correu até a cozinha, finalmente se lembrando que o apartamento tinha outra porta.

Lá estava a preta velha. Sentada numa das cadeiras de palhinha, calmamente tomando um chá que ela mesma preparara, em silêncio, certamente antes da chegada de Amanda.

— Mia fia tá satisfeita?

— Mas que merda é essa, senhora?

— Eu ofrici pa lhe curá da dor de corno ou lhe trazê de vorta quem se fora. E ocê iscoeu ele de vorta. Eu vim aqui arrecebê o que ocê me deve.

— Mas eu já paguei, conforme o bilhete.

— Ocê pagou pro Exu, mas precisa me pagar pelo ensinamento.

— Quando eu disse que o queria de volta eu não sabia! Se soubesse não tinha pedido “de qualquer maneira”.

— O que está feito está feito, fia.

— Nem sei quanto a senhora vai cobrar, mas lhe pago o dobro para ele ir embora e nunca mais voltar!

— Está feito, fia.

Passos pesados subiam as escadas, pois os elevadores estavam ocupados por gente desesperada que queria sair. Polícia e bombeiros. Acharam o cadáver deitado no corredor, inerte como se nunca tivesse sido, desde sua morte prematura, outra coisa que não um cadáver. Levaram-no embora. Bateram à porta.

— Senhora Amanda Gonçalves?

— Deseja prestar queixa? Tem ideia de quem lhe fez essa piada de mau gosto?

— Sim. Tenho. Venha comigo.

Entraram até a cozinha. Mas não havia cadeira de palhinha, nem xícara de chá e nem preta velha.

A polícia foi embora, deixando Amanda com a recomendação de comparecer ao distrito no dia seguinte, para dar esclarecimentos e fazer a queixa com mais calma. “Entendemos que está em estado de choque, e lhe recomendamos que tome um calmante antes de dormir.”

Quando, porém, Amanda retornou à cozinha, percebeu que havia sobre a mesa um outro bilhete, na mesma algaravia: “O preço era a metade do resto de seus dias.”

Amanda levou as mãos à boca, assustada. Tão assusta que deu-se conta, de repente, de que seu coração já não batia, que seu pulmão paralisara e que uma vertigem a empurrava para trás, para trás, para dentro de trevas que nenhuma luz jamais rasgaria.

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