Phantasmagoria

> Um conto baseado em fatos reais. Ou pelo menos virtuais, sei lá. O texto contém a chave de sua própria interpretação. E não está em latim.

Guilherme construíra a sua casa sobre as ruínas desconhecidas que
ocupavam um excelente terreno urbano. Doze trabalhadores com suas
máquinas removeram os restos, arrancaram os arbustos e aplainaram
cada metro de chão. A construção teve percalços porque havia quem
achasse certa importância histórica no lugar, mas não foi longe a
questão: a casa estava esquecida, parecia impossível de recuperar
e tinha uma fama de assombrada.

A obra transcorrera sem sustos, claro. Os infiéis engenheiros não
teriam visto nada de anormal. Os únicos incômodos materiais foram
os mendigos que haviam habitado as ruínas e insistiam em aparecer
ao entardecer, caçando abrigo no belo prédio que subia. No começo
a presença deles incomodou, Guilherme quisera expulsá­-los, limpar
o terreno das ervas e dos homens, mas preferiu não causar uma tão
ruim impressão na vizinhança e resolveu permitir que passassem as
noites em troca de arrancar a grama, marretar paredes ou qualquer
outra tarefa pequena.

Logo os mendigos eram operários na obra, mas não operários iguais
aos outros. Os engenheiros compraram os apartamentos superiores e
os operários, antigos mendigos, no máximo puderam contemplar como
cidadãos a construção ereta. Quando muito, poderiam entrar no bar
do térreo para um lanche rápido ou passar pela galeria acelerado,
para não dar na vista e atrair a segurança. Assim que o prédio se
deu por terminado, a velha divisão pronunciou­-se, e Guilherme, já
mudado para a cobertura, montado em um patrimônio crescente, pôs­
se a atrair os melhores moradores para o condomínio.

Entre eles artistas, como Guilherme fora na juventude, e não eram
poucos. A razão de sua vinda era meio indefinida, cada um tinha a
sua história, mas vários se disseram atraídos pela ideia de morar
em um prédio construído sobre ruínas mal-assombradas. O estabele­cimento
do Edifício Esperança como um solar das artes não foi nem
repentino e nem demorado. Foi apenas impreciso: entre dois e três
anos depois de ter sido inaugurado, Guilherme se viu ilhado entre
artistas e até redescobriu o gosto pela pintura.

Mesmo assim, parecia que não haveria nada digno de ser narrado na
história do Edifício até que o Fantasma dos Bilhetinhos deixou na
soleira da porta de Guilherme a sua primeira missiva, em elegante
estilo minúsculo carolíngio, tão cheio de abreviações que ninguém
pôde entender. Mas a simples aparição daquele curto bilhete já se
mostrara um portento, embora escrito em papel­-ofício comum, com o
emprego de uma hidrocor vagabunda: quanta gente conhece latim
neste mundo perdido de Deus?

O texto estava dobrado e muito bem dobrado, dentro do bolso da
camisa que Guilherme poria para o trabalho naquele dia.
Foi então se pôde perceber a prevalência de escritores no
Edifício. Na investigação sobre bilhete, Guilherme e seu namorado
não só se surpreenderam por serem reconhecidos, como artistas que
eram, mas acharam muitas teorias do significado da algaravia:

— “Meo primo trato” pode significar “o meu primeiro trabalho”, em
algum tipo de latim bárbaro. Acho que o autor disso é simultanea­mente
um escritor e um adepto de enigmas — teorizou uma moça cujo
olhar era permanentemente protegido por grossas lentes de vidro.

— “Ergo abuterit illae reglae meae” é totalmente estúpido, parece
uma adolescente de quinze anos com um dicionário de latim e muita
merda na cabeça tentando confessar que desobedeceu a mamãe.

— Porém — observou um outro — “Quia est locus meus” é inteligível
e transparente, apesar de ser um latim pior que o de um padre dos
piores anos de decadência da Idade Média. Certamente quem escreve
estes bilhetes está reivindicando a posse do lugar onde os deixa.

— Ou algo assim.

Mas os bilhetes continuaram aparecendo, cada vez num lugar, muito
sutilmente ocultos, cada vez com um conteúdo ligeiramente diverso
do outro. “Ego fac. quo ego voluo in hoc situs. Delero pag. cum reg.
absurdus et nulla obstat.”

Com o tempo os bilhetes perderam o caráter de novidade, Guilherme
se acostumou a ocasionalmente achá-­los e sempre jogar fora. Todos
os conhecimentos travados, porém, acabaram tendo um efeito claro:
todo morador com uma veia artística e morador do Esperança passou
a encontrar­-se regularmente com os outros, para falar de qualquer
coisa, de nada ou até de literatura. E nesses encontros raramente
se falava em fantasma ou bilhetes em pseudo latim.

Os bilhetes pararam. Ou pelo menos ninguém mais os percebia. Tudo
parecia ter retornado à normalidade no Edifício Esperança. Mas as
mãos do morto ainda pregariam outra nos moradores durante uma das
mais promissoras discussões do ano, sobre os benefícios de viajar
no tempo e seus perigos envolvidos. Na saída e passando pelo hall
de entrada, viram mãos invisíveis acabando de escrever a tinta na
parede branca, como os dedos de Javé na festa de Baltazar:

NULLA OBLITERAT NULLAM.

Este evento foi bem mais portentoso que os bilhetes, não apenas só
porque não se pode jogar fora uma parede mas também porque ninguém
poderia negar que o sentido da pichação ectoplásmica era claro.

— Que raio de texto é esse? — perguntou a mais jovem do sarau, toda
inocente como só se pode ser aos quinze anos.

— Um tipo de baixo­ latim. O fantasma, além de porcalhão, também se
dá ao trabalho de nos propor enigmas.

Mas mesmo esta intromissão não interrompeu os planos do grupo, que
resolveu apresentar conjuntamente seus mais recentes trabalhos, em
uma exposição nos corredores do edifício. A inauguração envolveria
até um econômico coquetel, e o sorteio de uma obra de algum
autor estrangeiro, devidamente certificada.

Estavam todos prestes ao início da envernizagem quando ele surgiu
em pessoa, o misterioso fantasma escritor de bilhetes em latim. A
sua presença não foi detectada de imediato, porque ele se materi­alizara
na figura de um antigo morador do terreno, um dos paupér­rimos
populares que muitas vezes dormiam sob as ruínas, sendo até
confundidos com mendigos. Mas o simples fato de ele estar ali não
tinha explicação lógica, não naquele prédio tão exclusivo.

Bem vestido, o fantasma distribuía sorrisos e cartões. Os primei­ros
não tinham nada de especial, mas os segundos eram diferentes,
bem diferentes do que se espera: em vez de detalhes do indivíduo
que os distribuía, tinham na frente apenas um “interrobang” e no
verso, um curto texto em baixo latim renascentista:

> Attemptus primus meum non bonum receptus erat, ergo abutero
regulatii cum secundæ historiæ. Sum proprietor hoc situs, ergo
puo facere cum credo. Delero pagina cum regulationes
contestii præ revelationem solui. In loco positionam dispudero,
cum texto malum, eram secundus. Quis ego sum?

Depois de distribuir uma dúzia ou mais destes curiosos cartões de
visita, o fantasma foi identificado por Guilherme, e iniciou-se um
debate entre os proprietários para decidir sobre o que fazer. Por fim,
devidamente decididos, cinco residentes se acercaram do fantasma
e lhe pronunciaram palavras de exorcismo:

— Reprobus estis.

O fantasma não ficou surpreso. Apenas retrucou:

— Temporibus mutatis. Nova ordo incipita consumata est. Ibo.

O fantasma saiu pacificamente, levando seus cartões. Não olhou para
trás. Em vez disso, abriu a porta de um carro prateado e voou para o
outro lado do céu, deixando uma trilha de bolhas de sabão pelo ar.

— Devíamos tê-lo deixado ficar — sugeriram.

— Não para criar problemas. Se pagasse o aluguel como todos,
poderia ficar. Temos 56 apartamentos. Mas se ele não concorda
em ser apenas um visitante comportado, que se vá.

E assim seguiu a vida no estranho Edifício Esperança, onde logo
ninguém mais se lembrava do fantasma, e nem dos antigos moradores
do terreno abandonado. Apenas ocorria de, quando em vez, passar
pela janela a voar uma máquina prateada deixando um rastro de bolhas
de sabão. E os que viam passar, sem saber o que era, sentiam o impulso
estranho de conhecer o que havia fora das confortáveis portas e do
seguro ar condicionado.

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