Impressões da Leitura de “Coração das Trevas”, de Joseph Conrad

> Atenção: Este texto contém “spoilers” e deverá ser lido somente por quem já tenha lido “Coração das Trevas”.

Deixei passarem algumas semanas desde minha leitura deste ótimo livro antes de começar a comentar, a fim de evitar que os comentários do tradutor e do editor me influenciassem numa direção ou noutra. Para permitir que somente o impacto potente desta obra fenomenal determinasse o que eu escrevia sobre ela. “Coração das Trevas” é um clássico absoluto, e é um livro também desafiador e simples.

Parte da sua simplicidade deriva de sua estrutura narrativa linear. Não existem “flashbacks” ou piruetas estruturais, a história simplesmente flui, de uma forma enganadoramente simples. Isto pode fazer com que o leitor a atravesse com leveza, e somente uma segunda leitura revela o que há de verdade nas entrelinhas. Lendo prevenido pela antecipada noção de que se tratava de uma obra assim, eu pude segurar o ritmo de leitura de forma a notar estas sutilezas e fiquei impressionado como Joseph Conrad consegue levar o leitor pela mão sem nunca entregar o que ele “realmente” está querendo.

Esta novela é mais conhecida por ter sido a inspiração de “Apocalypse Now”, de Francis Ford Coppola, mas reduzi-lo a isso é até ofensivo: por mais genial que o filme seja, o livro está à sua altura, ou até acima. Podemos dizer que o sucesso desta adaptação fílmica diz muito mais sobre as limitações do cinema enquanto linguagem do que se é de supor: apesar de todos os seus recursos visuais e sonoros, o filme não consegue captar o grau de cinismo e de ironia amarga que Conrad distribui tão sutilmente pelas páginas de sua novela. É que as limitações da literatura exigem uma abordagem que o filme não consegue reproduzir. A outra razão é que a transposição do cenário não se fez sem perdas.

“Coração das Trevas”, ambientado no Congo Belga, não é somente sobre um homem ensandecido pelo poder no contexto de uma guerra, é isso e também é sobre as hipocrisias e pequenezas do colonialismo. Este aspecto em particular: o colonialismo, não pode ser transposto para o Vietnã. Por outro lado, o pacifismo latente em “Apocalypse Now” é uma introdução interessante. Pela capacidade de compensar o que se perde com a adição de novos elementos é que o filme consegue se ombrear com o livro.

Estruturalmente, como dito, é uma novela muito simples: um grupo de homens está em um barco no estuário do Tâmisa, aguardando a alta da maré para poderem entrar no mar. Enquanto esperam, um deles, Marlow, começa a contar uma história sobre a época em que foi comandante de uma embarcação fluvial no Congo Belga. A história, inicialmente recebida com desagrado pelos marinheiros, vai aos poucos conquistando sua atenção, de tal forma que eles acabam não percebendo que a maré sobe e baixa, o que dá ao narrador tempo para terminar sua história. Ao final, a história deixa todos transtornados.

Com essa estrutura muito livro já se escreveu, e de fato é um recurso muito fácil para um autor iniciante. O que torna “Coração das Trevas” tão interessante é o seu conteúdo, para além do aspecto formal, e a maneira como o autor distribui parcimoniosamente o conteúdo, fornecendo ao leitor apenas a informação mínima de que precisa para acompanhar a narrativa. O narrador-personagem, definindo-se como uma pessoa de mentalidade prática e isento de paixões políticas, não faz qualquer tipo de consideração ética ou moral sobre o que presencia, em alguns momentos até mesmo as faz no sentido de atenuar o que transparece de desagradável. Estas raras interferências do narrador nos permitem isentá-lo de ser um simplório, situando-lhe firmemente no terreno ideológico da maior parte da população britânica do início do século XX, que era favorável ao colonialismo e o justificava, entre outras coisas, com argumentos como o do “fardo do homem branco” (a obrigação moral da raça “mais evoluída” de apoiar o desenvolvimento daquelas “atrasadas”). Porém, através da idealização do narrador, transparece a verdade que ele deseja nos esconder. Esta luta, entre o fato inarredável e a visão relutante de alguém que teima em justificá-lo é que dá ao livro a grandeza que ele tem.

Um aspecto incômodo do livro é o seu tratamento do racismo. Conrad não nos oferece nenhuma visão edulcorada do negro sendo “civilizado”, nem tampouco o apresenta como uma vítima do grande inferno colonial que o Congo Belga efetivamente foi (e este entendimento já era unânime mesmo durante a Belle Époque). O distanciamento oferecido pelo narrador permite que a história avance sem ser panfletária, nem piegas e nem tão horrível que ela revire o estômago dos sensíveis. A compreensão do horror decorre de uma aproximação estética e intelectual que escorre pelas entrelinhas.

Ao mesmo tempo em que se distancia do negro, para nem reduzi-lo a um bronco que se “beneficia” da civilização e nem elevá-lo cristãmente ao patamar de indefesa vítima de um holocausto, o narrador também se distancia, gradualmente, dos colonialistas, o que lhe permite apresentar o Sr. Kurtz sem demonizá-lo moralmente, permitindo que o próprio leitor faça seus dúbios juízos de valor. Kurtz é o grande protagonista da história, mesmo só aparecendo nela já perto do fim. Ele é a grande esfinge que Conrad se propõe a “não decifrar”, mas que o leitor deve interpretar com base no que lhe é dado.

Gradualmente, a simpatia do narrador pelos belgas se esvai, assim como sua saúde física e mental (Marlow é descrito como magro, pálido e trêmulo no começo da história, o que nos mostra que, apesar de sua fleuma e indiferença em relação ao ambiente congolês, a verdade é que os fatos narrados foram profundamente transformadores para ele). Sua admiração por Kurtz vai crescendo à media que ela se mostra completamente injustificada, de que resulta, no final, ela resultar mais do enigma moral representado por este.

No começo da história, o narrador se identifica com o contabilista que se veste impecavelmente, considera sua capacidade de evitar a “degradação” pelos trópicos uma evidência de força moral. Ao final, ao comentar que Antuérpia é uma cidade que parece um cemitério, o autor deixa transparecer que já não tem os belgas em tão alta conta, enxergando a corrupção subjacente à prosperidade superficial. Esta é apenas uma das muitas transformações pelas quais passa o personagem, porém, curiosamente, esta opinião condenatória (ainda que velada) não se transfere a Kurtz, que poderia ser facilmente considerado “mau” por ser o perpetrador de todo tipo de absurdos. Porém, na visão do narrador, ele é uma vítima “a floresta chegou cedo até ele” é uma metáfora para a sua destruição moral diante de uma exploração colonial que parece cada vez mais absurda à medida que a conhecemos. Esta destruição espelha a do próprio narrador, Marlow, macilento e trêmulo, e temos de considerar que Kurtz esteve por anos no Congo, enquanto Marlow passou por lá apenas um semestre.

O aspecto trágico da novela é dado eficazmente por uma única palavra, “horror”. Se esta palavra fosse empregada pelo narrador, gratuitamente, seria imperceptível. Mas ao fazer com que seja a última palavra proferida pelo moribundo Kurtz, na célebre imprecação “o horror! o horror!” ela serve para potentemente nos dizer que o homem capaz das mais horríveis atrocidades tinha consciência de sua falha moral, tinha se arrependido de seus atos, não era um psicopata. Então ele se torna, realmente, uma vítima, uma pessoa comum que teve de cometer atos imensamente cruéis como parte de um sistema que era, em si, imensamente cruel. Talvez por isso Kurtz tenha sido perdoado por Marlow diante de sua noiva. Ao visitá-la em Antuérpia, Marlow lhe mente sobre a natureza do trabalho de Kurtz e as circunstâncias de sua morte, permitindo que ela conserve uma imagem idealizada de seu falecido noivo, propondo-se a guardar eterno luto em sua memória.

Este é um desfecho absolutamente perfeito e necessário. Um final “feliz” para a noiva, que é uma personificação da própria Bélgica, seria inconsistente com o tom da novela e com as circunstâncias históricas. A ilusão de que Kurtz era um bom homem equivale à atitude da opinião pública belga em relação à colônia, recusando-se a crer que lá fossem cometidas tais atrocidades — uma obstinação que só cedeu em 1912, depois que a condenação internacional dos métodos brutais adotados pelos colonos já se tornara unânime. A noiva, porém, não é uma vítima. Ela sabe a natureza do trabalho de Kurtz no Congo e se ela consegue imaginar que ele o executasse sem crueldade, é por absoluta incapacidade mental ou por ignorância conveniente. Afinal, enquanto Kurtz estava no Congo fluía continuamente para sua família e para ela própria uma riqueza que eles não teriam conseguido facilmente. Assim o leitor não se sente triste pelo destino da moça que se propõe a guardar eterno luto por um noivo morto: ela é prisioneira da memória de Kurtz tal como a Bélgica se aprisiona na lembrança do genocídio congolês. Libertar a noiva de seu luto equivaleria a libertar a Bélgica de sua consciência culpada.

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