Da Obrigação de Criar Personagens Negros na Literatura

Como não tenho mais participando ativamente dos grupos ditos de “escritores” em redes sociais, não acompanhei de perto a última polêmica que houve, sobre uma suposta obrigação do autor branco escrever bons personagens negros, motivada por mais uma vez que postaram o link de um estudo acadêmico sobre a diversidade.

Das trevas do debate, deletado pela moderação somente salvaram-se três prints sintomáticos de uma limitação da literatura do Brasil: o autor brasileiro típico está distante da realidade do país e reproduz isso em sua criação. Haveria poucos personagens negros significativos na literatura brasileira porque uns 96% dos autores brasileiros publicados são “homens, brancos, ricos e heterossexuais” (palavras da autora do estudo).

Ainda que se possa argumentar que não podemos relacionar sempre as coisas, ainda que cada autor possa se defender negando o seu racismo e argumentando que apenas reproduz a realidade imediata em que se insere, é difícil demolir com anedotas uma correlação tão forte: 96% dos autores e 79% dos personagens são brancos.

Se considerarmos que uma parte desses personagens não-brancos é composta por personagens que tampouco são negros, é até fácil a conclusão de que o autor brasileiro típico não está interessado em escrever sobre negros, ou mesmo inseri-los marginalmente nas suas histórias.

Vivemos em uma sociedade profundamente racista, e exatamente os maiores perpetradores e perpetuadores desse racismo esforçam-se tremendamente para negar sua existência e apagar sua memória definitivamente, evocando Rui Barbosa, que mandou destruir toda a documentação sobre a escravidão que havia no Arquivo Nacional (como se por meio desse ato se pudesse cancelar seus efeitos).

Por muito tempo a política oficial do governo brasileiro era de “branqueamento” da população através da imigração europeia. Aos recém-chegados, que tinham a cor de pele certa, eram concedidos empregos na indústria, para os quais o negro não servia. Tinha-se, talvez, a esperança de que afastando o negro da civilização e seus avanços ele acabasse por morrer ao deus-dará, finalmente resolvendo a “questão racial” do Brasil. O negro era visto como um indesejável, um “problemão”, visto que era inviável mandá-lo de volta à África e seria caro e impopular exterminá-lo.

A solução encontrada para esse “problema” foi também branquear, na medida do possível, o próprio negro. A miscigenação foi logo vista como solução, permitindo que, após duas ou três gerações, todos fossem considerados “brancos”, pelo menos no aspecto mais tangível do conceito.

Enquanto o negro não se branqueia o suficiente para ser visto e referido como um “branco”, ele é ignorado, a não ser onde a sua presença é conspícua: a música, o crime, a favela. A literatura brasileira está cheia de obras nas quais o negro comparece como um acessório, até difícil de notar. Em alguns dos romances mais famosos de nossas letras o negro é um elemento da paisagem, uma parte da “cor local” (quando o autor resolve usá-la).

Se isso já é evidente na literatura dita “realista” (aquela que ignora a existência de uma “minoria” que perfaz uns 51% do povo do Brasil), torna-se acintoso nas literaturas especulativas. Os brasileiros, quando fantasiam o mundo conforme o seu agrado, se “esquecem” do Brasil, invariavelmente deixando o negro de fora. Dá para contar nos dedos os personagens de ficção científica ou de fantasia negros — mesmo em obras de cunho distópico, o que nos faz pensar que para muitos o negro não faz parte nem de seu pior pesadelo.

Uma rejeição tão completa a retratar personagens negros, que se estende até mesmo a não inseri-los em obras de cunho distópico, não pode ser explicada pelo recurso anedótico do “mundinho” com o qual o autor está acostumada — já é caso para se pensar num silenciamento deliberado a respeito de uma parte da realidade.

Principalmente porque o “mundinho” é uma limitação. De um autor (ainda mais um de ficção especulativa) se espera uma capacidade de “pensar fora da caixa”. Essa “caixa” não é nada mais que uma metáfora insolente o próprio conceito do “mundinho”. Se você se limita a escrever sobre o lado de dentro de sua “caixa”, é meio rude dizer, mas é necessário, você não merece se identificar um autor de “fantasia”, porque você não tem imaginação, a fantasia está morta e mumificada em você e tudo isso a que está chamando de sua “obra” nada mais é que uma calúnia contra aqueles que no passado definiram esse rótulo.

Então, o autor, principalmente o autor de fantasia, tem, sim, a obrigação de trabalhar com personagens negros. Não importa se o autor é negro, branco, oriental ou indígena. Quem nasce, vive ou escreve no Brasil (ou sobre o Brasil) não pode ignorar que a nossa população contém, pelo menos, 50% de pessoas com qualquer grau de miscigenação negra, e aqui me limito àquelas pessoa que são ostensivamente negras ou mestiças, deliberadamente deixo de fora os outros 50% de “brancos”, dentre os quais muitos, como eu, tiveram antepassados negros.

Por que digo que essa é uma obrigação principalmente de autores de literatura fantástica? Porque os ditos “realistas” podem ter a desculpa de descrever o interior fascinante de sua caixa, seu lugar especial, seu mundinho. Não são esses, no fim das contas, que se definem como rompedores de paradigmas, “especuladores” e provocadores de reflexão.

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