“Pseudointelectuais” e Preconceitos

Não é raro ouvirmos o termo “pseudointelectual”, especialmente em debates sobre gostos (musicais, literários ou quaisquer). Em geral se usa para designar alguém que procura exibir uma cultura que não tem. Mais especificamente, quando essa opinião destoa do senso comum e/ou (mais provavelmente) discorda da opinião de quem se sente inferiorizado. O termo é, portanto, um marcador de fronteiras sociais e culturais invisíveis, servindo para legitimar ou deslegitimar opiniões. Por esse motivo, é perigoso que seja usado em vão.

Cultura não deveria humilhar ninguém

A ideia de que possuir um nível cultural “elevado” (portanto “intelectual”) seria requisito para expressar opiniões sobre gostos é uma manifestação tardia dos preconceitos de classe, de nossa antiga “cultura de bacharéis”.

É claro que a educação é importante para a formação do indivíduo, mas não é preciso ter diplomas para ser capaz de gostar de uma coisa em vez de outra. Ademais, dependendo da crítica que pretenda fazer, mesmo uma ignorância bastante extensa não o impede de fazê-la com propriedade.

Opiniões não têm o seu valor necessariamente atrelado a uma abstrata competência ou “intelectualidade” de quem as expressa porque nem todas as opiniões são iguais e atendem à mesma finalidade. Falhar em discernir a finalidade ou o contexto de uma opinião, considerar que todas deveriam estar no mesmo plano de importância; isto, sim, deveria ser considerada uma atitude “pseudointelectual”.

O problema da “pseudointelectualidade” é particularmente visível no caso que me interessa — a literatura.

O autor não escreve para outros autores

Diferente do engenheiro, cujo trabalho precisa atender a limitações objetivas, como a lei da gravidade e a qualidade dos materiais, escritores não têm normas absolutas e preestabelecidas para seguir: o parâmetro é o público e os seus limites são flexíveis (a língua e a página). A amplitude do público leitor pode variar, mas qualquer um que seja parte do universo para o qual uma obra foi escrita deveria estar habilitado a expressar seu gosto em relação a ela.

Isso dá ao leitor a liberdade de gostar ou não gostar, sem ter de se sentir inferior. A ponte é construída para todos que por ela queiram passar, mas o livro, embora possa ser lido por todos que o desejem, não é escrito, nunca, para qualquer um. A ponte não diferencia os pedestres quanto à marca do sapato ou os automóveis quanto ao ano de fabricação ou potência do motor. Mas os livros selecionam os seus leitores segundo vários critérios: língua nativa, origem social, escolaridade, interesses, inúmeros outros.

A crítica de uma obra literária sempre deve partir do pressuposto de que o crítico faça parte do público ao qual a obra se dirige. Colocar um fã de contos eróticos para apreciar poesia religiosa não resultará em uma crítica correta. Em geral, quando temos um crítico “fora de sintonia” com a obra que pretende criticar isso resulta em uma apreciação preconceituosa.

Nesse contexto, quem é o “pseudo”: o autor que não possui a cultura esperada pelo crítico, ou quem exigia do autor que ele fosse como o crítico?

O fã não tem a obrigação de gostar sempre

Mesmo que o fã não tenha a “bagagem” determinada para o gênero, mesmo que não tenha lido ou sequer ouvido falar das “obras seminais” que ele abrange, ainda assim, por sua condição de fã, a opinião do leitor merece ser ouvida, desde que corretamente articulada, porque o autor não escreveu para fãs com requisitos, não esperava que o leitor de um conto sobre vampiros tivesse lido Carmilla ou Drácula.

Ter lido essas obras pode ajudar a o leitor a ter uma compreensão diferente, mas daí não podemos concluir que sejam essenciais a todos porque ninguém está obrigado a ler um livro que não conhece para apreciar “corretamente” aquele que tem diante de si. Mais do que isso, se o livro exige para o seu entendimento que o leitor possua conhecimento de outros livros, esta é uma falha do autor e da obra.

Obras envelhecem. O público que se interessa por livros antigos não é o mesmo que se interessa por obras contemporâneas do mesmo gênero. Então, ao escrever, o autor deve cuidar que sua obra tenha níveis de compreensão e que ela possa ser usufruída por aquele que a lê sem ter qualquer conhecimento prévio daquilo que o autor leu ou em que se formou.

Se uma obra não “funciona” nesse nível mais básico, ela é, sim, falha. Antes da reflexão filosófica precisa vir o aspecto lúdico. Que não precisa ser acessível a todos, mas precisa existir, pelo menos para o público designado.

É preciso respeitar o fã que adquiriu cultura

Não devemos chamar de “pseudointelectual” àquele que se orgulha do que já aprendeu, mesmo que não tenha alcançado o nível em que estamos, ou pensamos que estamos. Não há nada de falho ou postiço em estar ainda no meio da estrada, principalmente de uma estrada que não tem fim e que só se interrompe com a morte.

Quando um leitor alcança um volume de leituras maior do que a média, especialmente quando se aproxima do volume do próprio autor, isto deve ser visto como uma evolução positiva — nunca uma degeneração. Ele não se tornou um “pseudo-intelectual” por saber mais que a média (porém ainda menos que o julgado necessário por algum parâmetro arbitrário). Pode não ter adquirido uma cultura tão abrangente quanto à que cobramos, mas o simples fato de já ter se erguido acima da passividade e se mostrado capaz de emitir opiniões articuladas é algo que já merece atenção.

A cultura não é construída pelas pessoas “cultas”

Por mais que eu deteste o gosto “rasteiro” das massas (e eu o detesto muito), não posso fugir à constatação de que a cultura é uma construção coletiva, que independe de meus gostos e desgostos. A cultura não é algo decidido por uma elite de pessoas devidamente diplomadas e reconhecidas como “cultas”. Essas pessoas, quando muito, atuam como catalogadoras e preservadoras da massa de cultura espontânea que existe. Aquilo a que se costuma chamar de “alta cultura” nada mais é que uma espécie de racionalização algo antropológica da verdadeira cultura, da cultura viva das massas.

Eu particularmente deploro o termo “pseudointelectual” porque ser elitista e eurocêntrico. Ele nega status cultural a certas pessoas através da negação da legitimidade de seus conhecimentos e de suas opiniões. Em geral, isto se faz através de preconceitos geográficos, sociais e de gênero, por exemplo:

  1. “Como alguém do Acre poderia ter uma opinião válida sobre X?” — a ideia de que o isolamento geográfico inferioriza intelectualmente.
  2. “X é um ignorante porque se formou no SENAI” — preconceituar as pessoas com base no seu acesso à formação acadêmica.
  3. “Uma obra de ficção histórica pedante escrita por uma dona de casa sem diplomas” — preconceito de gênero.

Devemos ter muito cuidado para que não cometamos ataques pessoais rasteiros quando comentarmos opiniões alheias. É certo que um acreano não conhecerá São Paulo tão bem quanto um paulista, que um torneiro mecânico dificilmente terá base para falar sobre a história da Rússia medieval e que uma obra escrita por uma dona de casa terá características diferentes de uma escrita por um general reformado e professor de história militar. Essas circunstâncias podem gerar comentários relevantes, ou podem ser uma desculpa para ofender as pessoas sem necessidade.

Não é necessário que o acreano conheça São Paulo muito bem, caso a sua história não faça uso extenso e relevante da geografia e da cultura da cidade. O torneiro mecânico pode não ser capaz de escrever uma obra de fantasia medieval (de fato nenhum brasileiro deveria ainda escrever isso), mas a sua opinião sobre a qualidade de uma obra que leu não está atrelada a um diploma específico. E a dona de casa certamente não saberá escrever tão bem sobre as armas e as táticas militares, mas talvez tenha conhecimentos e talentos que lhe permitirão dar à sua obra uma perspectiva diferente.

A ideia de que a pessoa “culta” ou o especialista estejam em um patamar mais elevado é apenas um tipo de elitismo raso, que em nada ajuda na compreensão da cultura como um todo.

O que demarca a fronteira entre o “pseudo” e o “legítimo”?

Por definição, “pseudointelectual” seria alguém que aparenta ter uma grande atividade intelectual sem a possuir; quem expressa falsos conhecimentos sobre arte, cultura, música, literatura (segundo o julgamento de quem assim o qualifica).

Vimos que há dois tipos de pseudagem: aquele que finge ter uma atividade intelectual que não possui e o que expressa “falsos” conhecimentos. O primeiro tipo é fácil de demarcar: por exemplo, quem se passa por escritor sem realmente escrever ou finge saber inglês sem saber. O segundo é mais controverso: o que, afinal, define um conhecimento como verdadeiro ou falso em um campo de atividade tão subjetivo?

Poderíamos dizer que um autor de maus livros é “pseudointelectual”?

Obviamente ele é capaz de ter uma atividade intelectual (escreve livros). O que tornaria tais livros “falsos” (ou seja, inválidos para legitimar a intelectualidade de quem os escreve)?

Muitas vezes o termo “pseudointelectual” é usado para desqualificar pessoas com quem não concordamos, usando para isso limitações da cultura formal:

Você escrever romances, sim, mas não os publica pela Editora X.

Esse defeito que você enxerga na obra de X é resultado de uma má tradução: no original em chinês não existe isso.

Você tem que ler Y para poder entender X.

Ou do poder aquisitivo:

Quer saber mais do que eu, que possuo toda a obra de X em exemplares de capa dura importados do Canadá?

Eu já fui a Stratford-On-Avon e visitei a casa de Shakespeare.

Sou membro do fã-clube de X desde 1979 e possuo trinta livros dele autografados.

Em alguns casos, a desqualificação chega a usar a carta da formação acadêmica:

Você leu toda a obra de Y, mas eu escrevi uma tese de doutorado sobre a obra dele.

Cara, eu não estou dando uma opinião, eu sou professor disso.

No fundo, a ideia central é a de que haveria um conjunto obrigatório de conhecimentos sem o qual uma pessoa não se torna “intelectual”. Como esse conjunto é de acesso geográfica e economicamente restrito, cria-se uma distinção nítida entre os que podem e os que não podem ter uma opinião.

Nasce aqui o “pseudointelectual”, esse teimoso popular que se mete com sua colher de pau em um assunto para o qual não o aceitaram ainda.

Quando a arma do opressor é usada pelo oprimido

Nem sempre quem emprega essas estratégias de confusão está em uma posição vantajosa para fazê-lo. Parte da ética “olímpica” do típico intelectual convencido é não se meter em discussões, deixar que os fãs (ou, atualmente, seus fakes) o façam por si. Felizmente, para tais soberanos da cultura, existem súditos prontos a entrar na luta.

De fato o termo “pseudointelectual”, embora surgido em um contexto de preconceito de classes, não é usado normalmente para demarcar “de cima para baixo” essa linha de exclusão. Raramente vemos um professor universitário, por exemplo, tentando humilhar um leigo. Quando isso ocorre, em geral é porque o leigo invadiu o espaço do professor — o que tem se tornado mais comum devido às redes sociais.

Os maiores usuários do conceito e do termo são admiradores, seguidores daqueles a quem julgam intelectuais. A acusação é normalmente feita por pessoas que estão mais ou menos na mesma posição do acusado. Não são autores desqualificando leitores que os criticaram, mas leitores (fãs) atacando outros leitores (que não se tornaram fãs) por emitirem opiniões desagradáveis sobre obras.

É uma atitude que reflete preconceito internalizado por aqueles que empregam o termo, que o usam para negar a uma pessoa comum o direito de discordar de quem está em uma posição dominante. Na maioria das vezes, o “pseudo” é a criança que viu o rei nu.

Isso quer dizer, basicamente, que aqueles que empregam o termo “pseudo-intelectual” raramente sabem do que estão falando. Eles próprios são faltos da cultura “necessária” que acusam o “pseudointelectual” de não ter.

Uma acusação que censura

Mais do que somente negar legitimidade a discursos discordantes, o emprego do termo “pseudointelectual” objetiva exercer uma censura contra pessoas que se insurgem contra o pensamento dominante.

É muito fácil acusar aqueles de quem discordamos de serem os possuidores de cultura falsa (“pseudo”) ou capacidade mental insuficiente (“intelectual”). Quando se faz isto, automaticamente fica “lacrada” a cabeça contra a possibilidade de considerar uma opinião perigosa.

Historicamente, porém, são os outsiders, os “pseudos”, os que criam as visões inovadoras da cultura. Porque, afinal, os elementos da cultura podem ser múmias estudadas em laboratórios, mas tiveram de ser vivos um dia, antes de coletados e catalogados pelos “cultos”.

Sabemos que o pensamento coletivo brasileiro se caracteriza por um fascínio extremo pela ignorância, vista quase como um “superpoder”. Quando esse fascínio se alia à inveja daqueles que começam a galgar os degraus do conhecimento e é legitimado pela adoração comum a um fator externo (como a obra de determinado autor), temos a situação ideal para que esses sábios incompletos sejam torpedeados com críticas cruéis, o que tem o efeito, talvez o objetivo, de abater seu voo intelectual.

Precisamos avaliar com um pouco mais de critério a quem chamamos de “pseudointelectual”.

Conclusões

  • O termo “pseudointelectual” reflete marcações invisíveis de classe.
  • Não há requisitos prévios para que alguém expresse uma opinião.
  • Nenhuma obra literária é universal.
  • Ninguém está obrigado a ler obra alguma.
  • Se uma obra de literatura apresenta demasiados “prerrequisitos” para sua leitura, isto não é uma qualidade, mas uma falha.
  • O termo “pseudointelectual” é frequentemente usado para deslegitimar opiniões expressas por pessoas de classe social “baixa” ou de origem geográfica “periférica”.
  • A cultura não é monopólio das elites.
  • Os critérios para definir o que é próprio e o que é “pseudo” são baseados em privilégios de classe, cor de pele, origem geográfica e acesso a determinadas instâncias educacionais.
  • A internalização desses preconceitos, aliada ao fascínio nacional pela ignorância, faz com que as pessoas que começam a elevar-se culturalmente sejam atacadas como “pseudointelectuais”, o que tem o efeito, se não o objetivo, de desestimulá-las.

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