Sobre Preconceito Linguístico — Parte 2 de 3

Na semana passada comecei a falar sobre o preconceito linguístico que grassa em nosso país de uma forma particularmente intensa. Lembrei que a Linguística é uma ciência estabelecida solidamente há mais de duzentos anos, com copiosa produção de conhecimento, mas que persiste uma profunda ignorância sobre seus aspectos mais básicos, ignorância alimentada pelos meios de comunicação, que somente dão espaço ao discurso retrógrado e pseudocientífico daqueles que rejeitam o conhecimento científico por razões ideológicas. Perguntei também por que razão pessoas que são céticas de várias outras formas, e têm tanto a criticar na postura, por exemplo, dos criacionistas, não percebem que sua posição em relação à Linguística é idêntica à daqueles em relação à Biologia: rejeição irrefletida e a priori motivada por preconceitos e razões de foro íntimo.

A língua é um enorme iceberg flutuando no mar do tempo
— Marcos Bagno

Hoje pretendo explicar melhor em que consiste o famoso “preconceito linguístico” que é tão ou mais negado que o preconceito racial.1 Para isso tomarei como guia a obra “Preconceito Linguístico: O Que É, Como Se Faz”, de Marcos Bagno. Sei que alguns leitores torcerão o nariz, pois o autor tem uma reputação de “comunista” entre o baixo clero da direita hidrofóbica que cola esta acusação coringa na testa de quem a incomoda, para não ter que discutir suas ideias.2 Mas eu reajo com a mesma resposta que os debatedores “céticos” mais afoitos costumam dar aos criacionistas mais folclóricos quando vêm com histórias de “hidroplacas” e “baramins” em alguma discussão sobre Biologia ou Geologia: “Vão estudar para pelo menos entenderem onde estão errando.”

O preconceito linguístico é ligado à confusão criada entre a língua em si e a gramática normativa. Mas uma receita de bolo não é um bolo, um molde de roupa não é uma roupa e uma gramática não é uma língua. Esta confusão, alimentada pela mídia e por uma série de mitos que fazem parte da autoimagem (muito negativa) que o brasileiro tem de si, resulta em uma percepção distorcida de nossa cultura e nosso papel no seio dela. Os mitos a que Bagno se refere são os seguintes:

A língua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente
Este mito foi o primeiro a ser contestado pela ciência, existindo pesquisas etnográficas e linguísticas datadas desde o início do século XX que comprovaram que: a) existem dialetos regionais no Brasil, b) os dialetos regionais se diferenciaram bastante cedo em nossa história, com base nas origens diversas dos imigrantes que se estabeleceram nas diferentes regiões e c) apesar da força homogeneizante da televisão e do rádio, tais dialetos seguem se diferenciando.

É um mito prejudicial porque, ao não reconhecer a variedade regional do português falado, oferece um diagnóstico incorreto da situação sociolinguística dos alunos, criando mais uma dificuldade para trabalhar eficientemente o ensino da língua padrão. Na cabeça dos preconceituosos, reconhecer a existência dos dialetos é um “perigo” porque legitimaria o “falar errado” em detrimento do “falar certo” (conforme o entendem). Trata-se de uma concepção anticientífica por duas razões: 1) a realidade não precisa ser “reconhecida” para existir e 2) o diagnóstico incorreto do problema cria novos problemas em vez de preveni-los ou solucionar os existentes.

Brasileiro não sabe falar português.
A ideia de que não sabemos falar a nossa própria língua geralmente vem associada à de que em Portugal, sim, se fala direito. Não é preciso mencionar que essa concepção é fruto de uma mentalidade colonizada, que imagina que um povo “mestiço” ou, dito de uma forma menos evidentemente racista, “tropical”, não seria incapaz de falar direito nem a “sua” própria língua.3 Obviamente ninguém diz abertamente a razão pela qual o brasileiro “não sabe falar português” porque envolveria a sugestão de que o brasileiro é uma espécie de bípede implume que só apreende a falar se for amestrado na escola. Muitas das pessoas que têm tal concepção nunca visitaram outros países para ver como seus habitantes também “não sabem falar” suas respectivas línguas,4 outros aderem ao preconceito para vender livros.

Este preconceito não resiste à comparação com nenhum país de mais de um milhão de habitantes: italianos de diversas regiões quase não se entendem em dialeto, franceses tampouco, os falares alemães chegam a ser agrupados em duas línguas diferentes (alto e baixo alemão). O árabe da Arábia Saudita é ininteligível por um egípcio, que, por sua vez, quase nada entende da fala de um marroquino, que, por sua vez, sofre para entender um sírio. E nem se fale da salada de dialetos que cruza os Bálcãs, da Ístria à costa do Mar Negro. Por que, então, diferentemente da maioria dos países do mundo, o Brasil teria uma “uniformidade surpreendente” de sua língua? Se existe tal uniformidade, como tanta gente “não sabe falar”?

Em todos esses países, a solução para o problema da comunicação é a difusão de uma língua padrão, a norma culta, geralmente baseada em um dialeto de prestígio. Em nenhum desses países se aceita que idiotas apareçam na televisão dizendo que o povo não sabe falar. Ai de quem o diga, pois as pessoas consideram os dialetos parte da sua identidade e não aprendem a língua padrão porque “não sabem falar” direito, mas sim porque desejam integrar-se ao conjunto da nação.

Português é muito difícil.
“A desculpa do preguiçoso é a dificuldade”, dizia o ditado popular. A dificuldade pode ser uma ilusão, causada pela abordagem incorreta do problema. Quem tentar carregar água na peneira terá muito mais dificuldade do que quem usar uma caneca.

A ideia de que o português é muito difícil resulta do fato de o ensino de português no Brasil partir de um diagnóstico errado da situação do aluno, de uma apresentação incorreta da matéria e da apresen­tação da matéria errada. Imagina-se que o aluno, mesmo “não sabendo falar”, fala uma língua que tem “surpreendente unidade”. Esta língua lhe será então ensinada através de um sistema educa­cional precário, por profissionais mal treinados e mal remunerados. Por fim, a língua que se ten­tará ensinar é uma versão arcaizante, desconectada da realidade do aluno. Então, quando os alunos falham em massa no aprendizado, a culpa é da língua. Da pobre língua, única que não pode se defender. Gramáticos e pedagogos discursam bonito. Políticos, que fazem escolas e definem currículos, podem defender-se. A língua, porém, é um ser abstrato e leva a culpa calada.

Nota-se o quanto esse mito está equivocado quando analisamos a percepção que os outros povos têm de nossa língua. Numerosos levantamentos feitos internacionalmente com estudantes de diversas partes do mundo colocam em “2” o nível de dificuldade do português, numa escala de “1” a “5”. No nível “1” ficam as línguas de gramática mais simples e regular (como esperanto e indonésio) e no nível “5” línguas como coreano, mandarim, japonês, cantonês, sânscrito e árabe. Sempre em tais levantamentos o português é colocado no mesmo nível de dificuldade do inglês, do espanhol e do italiano, e um nível mais fácil que francês, alemão, ou holandês.

As pessoas sem instrução falam tudo errado.
Aqui o preconceito fica um pouco mais claro. A falta de instrução está associada à falta de contato com a língua propagada através do sistema educacional que, obviamente, é a língua da elite. Existe uma estigmatização do falar das classes populares, não por causa de suas características, mas por serem populares. Todos os “erros” do português coloquial também são encontráveis em textos de grandes escritores do passado, evidenciando que tais “erros” nada mais são do que fenômenos linguísticos que já aconteceram antes e podem acontecer de novo. A troca do “L” por “R”, por exemplo, considerada a “marca da besta” entre os “erros” de português, pode ser lida abundantemente nos poetas portugueses e brasileiros entre os séculos XV e XVIII: “frecha”, “pranta” e “frauta” se encontram aos montes em Camões, Bocage, Sá de Miranda, Gregório de Matos e Guerra e numerosos outros, provando que estas pronúncias eram correntes na época. Tanto isso é verdade que se você as digitar no seu programa de edição de textos se surpreenderá ao constatar que elas não são marcadas como erros!

Ora, se é válido admitir variações como “flauta/frauta”, “flecha/frecha”, “planta/pranta” e outras, por que não admitir “plano/prano”, “claro/craro” e outras? Trata-se do mesmo fenômeno linguístico, operando da mesmíssima forma. A única diferença é que as palavras do primeiro grupo foram legitimadas pela elite através de sua literatura, enquanto as do segundo grupo são estigmatizadas por serem encontradas somente nas variantes populares do português. Mas os preconceituosos, em vez de imaginar que estamos diante da persistência, no seio do povo, de um fenômeno linguístico que existe há séculos, prefere pensar que quem fala “craro” possui algum tipo de atraso mental. Talvez se os preconceituosos lessem mais, aprenderiam sobre a própria língua e sua história, em vez de confiar em preconceitos alimentados pela ignorância.

Onde melhor se fala português no Brasil é o Maranhão.
Parte do complexo de inferioridade do brasileiro em relação à sua língua se baseia em sempre deslocar geograficamente o lugar onde se fala o português ideal. Muitas pessoas dizem que é o Maranhão, afinal ele é suficientemente remoto. Em Minas Gerais muitos acreditam que os cariocas falam melhor. No Rio de Janeiro existe essa crendice sobre o Maranhão, mas também sobre o Rio Grande do Sul. Os paulistanos estigmatizam os “caipiras” do interior, enquanto reverenciam os gaúchos.

Em geral se acredita que onde se fala ainda o “tu” o português é melhor (tanto cariocas quanto gaúchos e maranhenses o empregam ainda, embora raramente conjuguem o verbo de acordo). Esta fixação com o pronome da segunda pessoa é mais um reflexo da subserviência a Portugal, que se manifesta no persistente luto de nossos gramáticos pela morte do sistema pronominal clássico, que ocorreu no Brasil ainda durante o século XIX, mas ainda hoje não foi assimilada.

É preciso falar como se escreve.
Se estivéssemos apenas falando de padronizar a pronúncia da norma culta para facilitar a comunicação inter-regional, seria aceitável preconizar a pronúncia baseada na ortografia, ainda que de forma limitada. Mas ocorre que nem mesmo norma culta padrão segue tal regra. A abolição dos acentos diferenciais tornou ainda mais vaga a relação entre a letra e a leitura, a ponto de termos pares de palavras que se distinguem pelo timbre, mas têm a mesma grafia (“olho” e “olho”, “molho” e “molho”, “porto” e “porto”, “pelo” e “pelo”). Como então cobrar que um mineiro leia “móínho” em vez de “mũe” citando que é preciso falar como se escreve? Obviamente esta é uma desculpa para negar voz aos dialetos regionais e forçar a homogeneização a partir de uma norma culta ideal que não é falada nem mesmo pelos cariocas e paulistas em cujos dialetos ela supostamente se baseou.

Ocorre que a escrita é representação da fala, tal como o desenho é uma representação do objeto. A função da escrita é nos lembrar dos elementos que empregamos na fala, tal como o desenho nos relembra o objeto. Subordinar a fala à escrita é como querer que as coisas reais passem a parecer com os desenhos que são feitos delas. Imagine se um erro de impressão faz com que o desenho de uma galinha saia sem crista. Quem sairá pelo mundo amputando cristas das penosas? Existe um erro na avaliação da função da escrita em relação à língua, e certa categoria de gramáticos “pop” e professores seus fãs
parece querer andar pelo mundo, de estilete à mão.

É preciso saber gramática para falar e escrever bem.
Se o bom conhecimento da gramática fosse requisito para falar e escrever bem, todos os bons escritores seriam exímios gramáticos, e um bom número de gramáticos teria talento literário. Ocorre que nenhum gramático jamais escreveu coisa que preste em termos de literatura e os grandes escritores costumam ser unânimes críticos deles. A lista de escritores que destilaram veneno contra os gramáticos é extensa e notável, com nomes como Rubem Braga, Vinícius de Morais, Leon Eliachar, Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, Monteiro Lobato, entre outros. Todos, sem exceção, viam a gramática mais como obstáculo do que como ferramenta de seu trabalho. Machado de Assis escreveu uma crônica sobre sua incapacidade para ajudar um sobrinho a fazer seus deveres de português, por exemplo. Se nem o Bruxo conseguia se dar bem com as absurdidades da gramática, como podemos esperar que um aluno comum o consiga?

Mesmo assim, existe uma “propaganda enganosa” de que os alunos passarão a falar e a escrever melhor se aprenderem gramática. Esta propaganda esconde que as gramáticas foram inventadas muito depois da literatura (e esta muito depois da escrita). A gramática não é a base de coisa nenhuma, apenas um guia para os que desejam dominar uma determinada variedade linguística. A primeira gramática grega surgiu somente no século II a.C., séculos após Homero, Xenofonte, Safo, Platão, Aristóteles, Eurípides, Aristófanes, Ésquilo, Anacreonte, Hesíodo e outros. As primeiras gramáticas do português surgiram no século XVIII, séculos após Sá de Miranda, Camões, Dom Dinis e outros. Como explicar que tantas obras de tão alta qualidade tivessem sido produzidas antes da existência de gramáticas? Inspiração pelo Espírito Santo?

O domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social.
Este mito retorna ao primeiro e ao segundo, aqui se considerando uma “boa ação” dar uma língua aos “sem língua” para permitir que eles superem sua condição de pobreza e marginalização. Existe certa verdade na ideia de que a educação é transformadora da sociedade, para melhor, mas não se deve levar isso a ferro e fogo. Se dominar a norma culta fosse um instrumento eficaz de ascensão social, professores de português (e gramáticos, principalmente) seriam pessoas extremamente poderosas e prestigiadas.

A verdade fica muito longe disso, com pessoas de pouca ou nenhuma instrução adquirindo ou conservando popularidade e poder por vários meios. Mais do que isso: ninguém corrige o falar de um político poderoso, por mais que cometa solecismos e “erros de concordância”. Não dominar a norma culta não lhe impediu de galgar o poder e não o expõe à crítica. Portanto, quando criticamos o falar de uma pessoa do povo, não estamos criticando o falar propriamente dito, mas a sua condição social.

É fato que a profusão de “erros” está relacionada ao posicionamento do falante na estrutura da sociedade: quanto mais baixo mais “erra”. Não somente por falta de acesso à “cultura”, mas também porque as classes dominantes não aceitam como legítima a cultura das classes subalternizadas, a não ser quando apropriada na forma de folclore ou artesanato.

O preconceito linguístico é uma ferramenta de exclusão e de humilhação daqueles que se encontram na base da pirâmide: para eles o reconhecimento só pode vir através do domínio de uma norma culta que lhes é imposta, domínio que não lhes ga rante ascensão social e não os isola de serem ridicularizados ainda assim, por sua “correção pedante”, quando se defrontam com pessoas dotadas de poder, que não precisam se preocupar com todos os “esses e erres”.

Estes oito mitos do preconceito linguístico se sustentam em um tripé perverso: a gramática tradicional, o ensino tradicional e o livro didático. A gramática tradicional (normativa, intolerante, preconceituosa, arcaizante e lusófila) inspira um sistema educacional tradicional (excludente, intolerante, unilateral, colonizado), que alimenta a indústria do livro didático (instrumental, unilateral, alienante, superficial) que, por sua vez, recorre à gramática tradicional para fonte de sua ideologia e de seus métodos. Fecha-se um círculo vicioso difícil de romper, pois livros que tentem desviar da norma serão combatidos pela mídia (que está associada à indústria do livro didático e ao ensino particular instrumental) e ignorados pelas escolas (que são cobradas pela mídia, pelos pais e pelo “mercado” de acordo com a sua fidelidade ao ensino tradicional).

Escolas que tentem inovar terão dificuldade para conseguir livros didáticos e sofrerão ataques da mídia e boicote dos pais de alunos, especialmente se tal escola for particular. E assim se perpetua a concepção de que o povo não sabe falar, uma situação na qual a escola não sabe ensinar e um resultado de que o povo nunca saberá o que precisaria saber: o domínio suficiente da norma culta.


  1. Eu digo que é até pode ser mais negado, porque a prática de tal forma de preconceito é uma maneira menos rude de discriminar as pessoas sem evidenciar uma posição abertamente racista. 

  2. Uma reputação evidentemente absurda, pois Bagno não é um político, mas um cientista, e quase tudo que ele escreve é corroborado por pesquisas feitas no mundo todo. Chamá-lo “comunista” ou termo que o valha é como acusar todo o estabelecimento universitário da maior parte do planeta de estar envolvido em uma conspiração. 

  3. O pronome possessivo vem entre aspas porque nesta série estamos justamente discutindo “de quem” é a língua que a escola pretende ensinar. 

  4. Para os que consideram a Argentina uma espécie de ilha de cultura nesta América Latina mestiça e chucra, sugiro fortemente qu e pesquisem sobre o Voseo, um fenômeno linguístico característico do espanhol portenho (comum à Argentina, ao Uruguai, ao Paraguai e ao sul da Bolívia) que consiste na substituição do “tú” e do “vosotros” por um “vos” que se comporta de forma análoga ao “vous” francês e ao “você” brasileiro. 

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