Gelo Negro

Fjálar saiu de casa ainda em jejum em outro dia cinzento de outono. Não estava feliz, haviam ligado da delegacia avisando que Oláfur não fora tra­balhar e teria de fazer a patrulha matinal com algum novato. Dormira mal. Doíam-lhe os joelhos, doíam-lhe as costas, doía-lhe a alma. Tudo de que não pre­cisava era tentar acompanhar um novato ani­madinho. Por isso regurgitou algumas ofensas ao maldito beberrão e seus antepassados. Ele estaria cer­ta­mente em casa de ressaca, depois de outra noite de apostas e de envolvimentos suspeitos em alguma espe­lunca do porto. Ao acordar encontrara a men­sagem de Oláfur no telefone: “Takk, vinur. Não vou ao trabalho hoje. Estou em algo grande. Não me ligue.”

Icelandic Police OfficersEle podia enganar o chefe de polícia se fazendo de inves­ti­gador, mas não a Fjálar, que sabia muito bem de seus passos. Todos no depar­tamento de polícia sabiam que Olá­fur andava em cima do muro, mas ninguém ainda questio­nara o que andava bebendo, porque voltava de suas noitadas carregado de informações frescas sobre o sub­mundo. Into­xicado, sujo e às vezes ferido, mas sempre com a pista de algum crime, a dica de algum espião ou o fio da meada de uma conspiração.

Algum dia talvez Fjálar tivesse pena do colega, mas não naquela terça-feira. Era outro dia para amaldiçoá-lo. “Algo grande” poderia ser uma investigação ou os peitos de uma prostituta estrangeira, destas que haviam recente­mente aparecido no porto, talvez uma americana de tetas grandes, que nem sabia falar islandês. E Fjálar ainda sofria a falta de Halldóra.

Andava distraído, contemplando a triste imponência do Esja, e nem percebeu as luzes na esquina até que sirene foi acionada quando ele passou pela via­tura, causando-lhe um sobressalto. Ao se virar, reconhe­ceu o rosto amigo:

Skít, Ásgeir. Vai assustar a mãe!

Góðan daginn, Fjálar. Você ia passando sem me ver, só chamei a atenção. Entra aí.

Já dentro do carro, recebeu um envelope pardo:

— Vem comigo. Ordens do chefe. Notícias quentes.

— Aqui na Islândia? Que horas são?

— Seis e vinte. Abra o jornal e veja.

— Mataram alguém?

— Sim, em Grafarvogur.

— Oh, Nei! Em Grafarvogur não!

. Abra o jornal.

Ao abrir o envelope, percebeu a gravidade do assunto. Mesmo o respeitável Morgunblaðið ganhara uma aparência de tabloide com
aquela manchete.

— Não ligue para o Blaðið. São muito comedidos. A diver­são
está no DV.

Tinha razão: o tabloide pingava sangue. A man­chete — letras brancas em fundo preto — era meio ilegível com tanto sangue e miolos. Na capa, o cadáver. Senhor grisalho, roupas joviais, “cabeça aberta”.

— Grafarvogur?

— Já. E você não nota algo familiar?

— Difícil, o efeito do disparo foi bem “dispersivo”…

— Identificaram pelas digitais. Gunnar Davíðsson.

— Qual Gunnar Davíðsson? “O” Gunnar Davíðsson?

— Ele.

Skít, Ásgeir! Você me traz isso em um dia como hoje!

— Você é esperto. O que temos de melhor.

Fjálar sentia o estômago embrulhando, só com a possibi­lidade de envolver-se em uma investigação tão complicada. Tão cedo na carreira. Poderia se ferrar para sempre, ou ficar famoso.

— Vamos tomar um café antes, Ásgeir? Estou ficando can­sado de toda essa agitação dos últimos tempos. Este país não é mais o mesmo, com tantos cabeças pretas pelas ruas.

Nei, Fjálar. Sem café. O chefe mandou que te buscasse e levasse à casa do velho antes das oito.

— Temos uma hora, Ásgeir. Vinsamlegast! Não terei apetite depois.

— Certo. Mas num bar lá perto, caso algo saia errado.

Quando entraram em Grafarvogur havia três carros de polí­cia bloqueando a entrada logo da primeira uma rua, e um cordão de isolamento já na segunda casa.

— Maldito, Ásgeir. Você me trouxe direto!

— Ordens são ordens, Fjálar.

Os dois atravessaram a barreira e se dirigiram à casa do velho Gunnar, um dos mais respeitados membros do Alþingi, não por acaso recém eleito à presidência da república. Tomavam e coragem para entrar quando ouviram um tiro.

Segundos depois uma mulher saiu de uma casa e veio cor­rendo em direção a eles e gritando:

Náið í lögregluna! Náið í lögregluna!

— Calma, senhora — disse Ásgeir — nós somos a polícia. Conte-nos o que houve?

— Meu marido viu o assassino saltando a janela.

Ásgeir e mais dois uniformizados saíram na direção indicada. Fjálar, menos preparado fisicamente, os seguiu com dificuldade. Mas chegou ao quintal a tempo de ver que havia mesmo marcas de sangue no chão, sem nenhum cadáver.

— O suspeito foi atingido após saltar a janela, mas o tiro não foi fatal. O ruído do tiro parecia uma pistola esportiva.

— Uma dessas não mata — concordou Ásgeir.

— A essa distância, não — disse Fjálar, apontando a janela do vizinho, onde um senhor em cadeira de rodas parecia mais perto da morte que o suspeito alvejado. Mesmo assim, não creio que você me permitisse dar-lhe um tiro com uma dessas coisinhas de brinquedo.

— Conhecendo você, não deixaria que você atirasse em mim nem com uma atiradeira de elástico.

— Recolham o sangue para análise. Logo teremos o sequen­ciamento de DNA. Se o suspeito é islandês, em 24 horas teremos nome, endereço, fotografia… saberemos até o que comeu no desjejum.

Os policiais terminaram de vasculhar os quintais:

— Não há mais nenhuma marca de sangue, Fjálar — disse o último a retornar, tirando luvas para esfregar as mãos.

Parecia estrangeiro, não acostumado ao clima subár­tico do país. Fjálar teve até um pouco de pena daquele refu­giado que buscara asilo na terra do gelo. Mas ao mesmo tempo o admirou a perfeição do seu islandês. Era um cabeça preta, mas não do tipo que desgraçava o país.

— Quanto tempo na Islândia… Jon? — o nome ia na etiqueta.

— Desde que nasci. Me chamo Jon Bryndisar, minha mãe é Bryndis Sigurdsdottir, de Akureyri, mas eu nasci aqui mesmo em Reykjavik.

“Nada é o que parece”. O novato era tão islandês quanto todos. Preferiu não espe­cu­lar mais. Deveria ser filho de alguma moça que se encan­tara por um marinheiro. Não pre­cisava especular, só supor. O investigador confiará em suas supo­sições e preconceitos. E che­cará no fim se estava certo ou não.

— Jon, Davíð, Ásgeir. Acharam pegadas?

— Poucas. Parece que o fugitivo estava descalço, deixou poucas marcas no chão gelado — respondeu Jon.

— Descalço?

Jon apontou para o chão, onde uma marca de pé apontava em diagonal para a linha imagi­ná­ria entre as casas vizinhas.

— Descalço não vai longe. Isso é claro. Vamos pro­curar. Davíð, peça a todos os patru­lhei­ros que fiquem atentos a roubos de carros. Ásgeir, peça reforços para um pente-fino em toda Grafarvogur. Jon, vá monitorar a televisão para mim e me relate qualquer coisa inusitada.

Davíð e Ásgeir saíram a cumprir os pedidos, Jon ficou.

— O que foi, garoto? Não vai cumprir a missão.

— Perfeitamente, mas depois de acompanhá-lo à casa do nosso atirador esportivo.

Fjálar sorriu no canto da boca. O garoto era esperto.

— Venha de arma em punho, vai ser perigoso.

Os dois se dirigiram à porta dos fundos, ladeando pela cerca. Tão logo a avistaram, perceberam que estava entreaberta, sem marcas de arrombamento.

— Como adivinhou o meu pensamento, Jon?

— Porque, diferente daqueles hálfviti, eu acompanhei o seu olhar, em vez de admirar o sangue. Vi perfei­ta­mente que olhava fixamente para a janela, que seguiu a pegada exatamente por esse caminho que estamos fazendo agora, e procurou se livrar dos outros de forma estúpida, sem que percebessem. Mas essa cabeça preta aqui não é vazia.

— Não há nada de estúpido no que mandei vocês fazerem.

— Seja franco, Fjálar. Roubar um carro e fugir para onde? Contor­nar o país, enfrentando a polícia em cada vila­? Pene­trar no interior? Tentar sobreviver no deserto? Não somos esquimós, detetive. Se eu fosse esse homem eu não fugiria de Reykjavik, mas tentaria che­gar ao porto o mais depressa que pudesse. Aliás, é de lá que deve ter vindo.

— Muito bem, Jon. Estou começando a gostar de você.

Entraram na cozinha vazia, iluminada apenas pela luz oblíqua da manhã. A cena era quase bucólica.

— O que vai fazer aí, Fjálar? — sussurrou Jon.

— Calma, garoto. Só ligando a cafeteira para um espressó. Graças ao idiota do Ásgeir, estou até agora em jejum.

Jon deu uma risadinha e apontou a mesa junto à pia:

— Aproveita e faz torradas também.

Fjálar pegou quatro fatias, passou manteiga e pôs na torradeira, sussurrando:

— Duas para cada. Temos cinco minutos.

Antes de deixarem a cozinha, porém, Fjálar pediu a arma de Jon:

— Preciso de um calibre mais forte. Você se importaria de trocar comigo se eu for na frente?

Ekkert vandamál!

Feita a troca, cruzaram o saguão central silenciosamente como o inverno. A casa estava imersa numa quietude apa­vo­rante e foi muito devagar que chegaram à escada.

— Veja isto — apontou Jon.

Era o diploma na parede. Ao lado de uma foto emoldurada da mesma mulher que fora dar notícia do foragido. Mais jovem, em um belo vestido azul, usando condecorações e um chapéu um tanto cafona, desses que as nobres britânicas usavam para ir aos hipó­dro­mos. As palavras no diploma tornavam tudo mais interes­sante: Forseti Lýðveldiðs.

— Agora sim estamos fritos, garoto. Ou resolvemos o caso ou estamos acabados. Ou resolvemos e ainda assim estamos.

— Já estou arrependido de não ter ido ver televisão.

— Ninguém nunca se ferrou na vida por ver tele­visão durante uma crise. Aprenda isso se nos safarmos desta.

Aquela não era uma morte como qualquer outra, ainda que qualquer assassinato já fosse uma comoção. Era o assas­sinato do futuro chefe de estado, cometido por alguém que se escondera na casa de uma ex presidente depois de ter sido alvejado ao fugir. E alvejado por quem!

— Fez faculdade, Jon?

— Cursando direito, Fjálar.

— Qual a chance de ir para a cadeia o atirador da janela?

— Menor que a de nós dois, por invasão de domicílio.

Ao fim do corredor havia um quarto praticamente vazio. Junto à janela uma simples cadeira de rodas. O velho continuava imóvel, palidíssimo. A perna engessada servia de cabide para um guarda-chuva e uma toalha de rosto.

Jon penetrou no quarto algo descuidadamente, fruto da falta de costume com casos perigosos. Felizmente não havia nenhuma ameaça dentro, nem mesmo o velho:

— Está frio, Fjálar.

— Tire as mãos dele, seu idiota.

Jon recuou as mãos como se o cadáver desse choque. Mas apenas testara a fronte usando as costas da mão.

— Ele morreu, Fjálar. Não me dê sustos.

— Ele foi morto, você quer dizer.

Onde o dedo do detetive apontava se via claramente um colar de equimoses em torno do pescoço. O cachecol agora pendia frouxo, quase não parecendo fatal.

— Quantas horas, Fjálar?

O detetive usou sua caneta para suspender as pálpebras e forçar a musculatura da boca, rígida.

— Mais tempo do que o transcorrido desde o tiro. Mas cer­teza mesmo, só quando o legista vier.

A arma responsável pelo disparo jazia ao lado do cadáver, tão obviamente quanto possível.

— Quem era ele?

— Haraldur Guðmundsson. Economista, filatelista, filó­logo. Porém mais conhecido como o marido da presidente Jóhanna Þorláksdottir.

— Faz-se muito esforço na vida para ser reconhecido desta forma. Acho isto triste.

— Não se fica famoso como filatelista ou filólogo, Jon.

— Ele era também economista.

— Fama e infâmia, tanto faz, não é?

— Pensando bem, não.

— Vamos sair, não podemos mais ajudar o velho Haraldur, e o
nosso suspeito não está aqui.

Um apito como o de um relógio de alarme soou no andar de baixo, e logo com ele um barulho de coisas caindo.

— Funcionou.

— O que funcionou?

— Corre, Jon. Vem comigo.

Os dois desceram as escadas correndo, a tempo de ver um homem estonteado que tentava se esconder de novo dentro de um armário cuja porta ficava quase perfeitamente escondida pelo papel de parede do saguão. Era um homem muito esquálido, com a barba de vários dias.

— Acabou, Oláfur.

Ele ergueu as mãos, consternado.

— Skít, Fjálar. Tinha de ser logo você?

— A vida não é justa, amigo. Tinha de ser alguém. Pelo menos prometo que não vou lhe matar e nem bater. Quero respostas, e quero meu amigo de volta, se for possível.

Nesse momento, com toda a sua autoconfiança, Fjálar se aproximou do suspeito mais do que devia. O bastante para ele, apesar de uma perna ferida, conseguir subjugá-lo.

— Desculpe-me, Fjálar. Não posso me entregar.

— Eu sabia… que você… não se entregaria — rosnou entre dentes
o Fjálar.

Oláfur já lhe tomara a arma e o usava como escudo, segu­rando o amigo pelo pescoço. Haviam sido muitas aulas de defesa pessoal, as artes marciais do mundo, as técnicas para enfrentar as gangues que pudessem sonhar em assom­brar o porto.

— Não estou entendendo nada, Fjálar! — berrou o pobre Jon, sem saber o que fazer com a sua pistola.

Oláfur estava claramente transtornado. Seu coração batia descompassado e ele suava em pleno outono.

— O que você tomou dessa vez, Oláfur? — conseguiu perguntar o Fjálar, quase se desenvencilhando.

Oláfur não respondeu, claro. Fosse o que fosse, o efeito recrudescera com a subida da adrenalina e, apesar de armado, fez ao Jon a mais descabida das ameaças:

— Saia de perto de mim ou vou morder a cabeça dele!

— Oláfur, acalme-se!

— Nei, Fjálar. Está tudo acabado para mim!

Um estalo metálico se ouviu na cozinha. Na fração de segundo em que Oláfur olhou para o lado, Jon mostrou que treinara bem na academia e lhe acertou um tiro na testa, que pegou de raspão na bochecha de Fjálar. Um tiro que quase não se ouviu, por causa do silenciador.

O cadáver caiu leve no chão, quase sem fazer barulho.

— Pobre Oláfur — comentou Fjálar, apalpando-o — não deve pesar mais do que uns quarenta e oito quilos.

— Mas parecia bem forte.

— A força que tem os que vão morrer, Jon. Nos velhos tem­pos diriam que é a força que a cavalgada das valkyrjur traz aos exaustos.

— Ele matou Gunnar Daviðsson?

— Aparentemente sim, mas pouca coisa do resto parece fazer algum sentido. E agora saberemos menos ainda, pois você matou o suspeito.

— Eu… me desculpe, Fjálar.

— Relaxe, garoto. Eu estaria bravo com você se o tiro tivesse acertado em mim. Vamos tomar o café?

As torradas estavam frescas, exalando um delicioso cheiro de manteiga quente. O café nem acabara de gotejar na cafe­teira. Serviram-se usando os copos de cristal.

— Logo vão procurar por nós, inclusive aqui.

— Quando chegarem diremos que o assassino também matou nosso amigo Oláfur Haraldsson, agente das forças especiais da polícia nacional da Islândia. Ele terá um enterro de herói, todas as apa­rências serão salvas, novas eleições terão de ser fei­tas para a presidência, mas o país vai seguir fun­cio­nando nor­malmente enquanto isso. Melhor do que divulgar para a imprensa que o herói da polícia provavelmente se viciou em alguma coisa pesada, vendera objetos de casa para pagar pelas suas doses e, no fim, cometera um latrocínio contra o vizinho que, por uma dessas grandes coincidên­cias, era o futuro presidente.

— O DV adoraria noticiar isso.

Mas nesse momento ouviram, lá fora, outro estrondo:

Skít, Fjálar. Sua teoria parece não fazer muito sentido agora. Temos mais um atirador.

— Não se preocupe, vinur. É até bom que o impacto seja dividido. Se eu fosse do partido do falecido, estaria agora dando tiros por toda Reykjavik.

O estrondo foi seguido por um longo rangido.

Hvað!? Isso não foi nenhum tiro.

Os dois saíram ao quintal sobressaltados, entornando café na cozinha. Lá fora, pendente de um galho, estava o corpo do obeso Lárus Davíðsson, irmão mais novo do ex futuro presidente. A morte tinha sido há horas, o corpo estava azulado pelo frio da manhã.

— Esse caso está cada vez mais interessante. Como não vimos isso ao entrar na casa?

— Talvez estivesse entre os galhos.

— Só sei que será difícil deixar os tabloides fora disso.

Os dois se encaminharam para a concentração de agentes de polícia diante da casa de Gunnar Davíðsson, ainda com um gosto de café na boca.

— Devia ter comido as torradas, Jon. Será um longo dia.


Este texto não tem por objetivo ser de maneira alguma fiel à cultura ou a qualquer aspecto que seja da Islândia, mas foi escrito, em vez disso, para, através do absurdo, mostrar a jovens autores como fica parecendo quando eles resolvem forçar a ambientação de suas histórias em países que mal conhecem, pesquisando somente pela Wikipedia.

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