A Virgem do Sabá

> Baseado, em linhas muito vagas, em “The Queen of the Shabbat”, uma sinopse nunca desenvolvida por Clark Ashton-Smith.

Jovita emba­lava a menina nos bra­ços e Jerônimo as con­tem­plava, entre embe­ve­cido e des­con­fi­ado. Lembrou da noite em que a conhe­cera, não teve receios nem remorsos — sen­tiu-se, na verdade, cheio de orgu­lho de ter sido tão homem e recos­tou na cama, arfando o peito como se os pulmões inflassem dentro de uma estreita gaiola enferrujada e dezenas de nava­lhas subis­sem com a res­pi­ra­ção. Fechou os olhos, igno­rou o cheiro dos remé­dios e dos chás, e sentiu-​se de novo na noite da Serra dos Caramonos.

A noite era fresca e a mata con­ser­vava um silên­cio agra­dá­vel. Apenas ao longe, muito longe, ouvia-​se a pas­sa­gem dos car­ros na dis­tante curva de Camargo. Os faróis deles, luzindo no fim de uma dis­tân­cia imensa, como estre­las no fundo do céu, ser­viam como única prova de civi­li­za­ção naquele canto do mundo.

Mas logo Jerônimo ultra­pas­sa­ria a crista do Pico dos Caramonos e dei­xa­ria para trás aquela pálida visão de ati­vi­dade humana. Restaria diante de si ape­nas o ondu­lar escuro das ser­ras tão logo as cida­des dor­mis­sem e res­tas­sem ape­nas suas cons­te­la­ções seme­a­das no len­çol frio da terra e ele se sentiria seguro.

Pela quinta vez no ano Jerônimo inva­dia os limi­tes da Fazenda Caramonos em busca de um ganho adi­ci­o­nal, o que cos­tu­mava fazer sempre que a renda do tra­ba­lho pare­cia pouca para o fim do mês. Isto era sem­pre à noite, não por receio de que os donos lhe fizes­sem qual­quer mal, mas pela ver­go­nha do pró­prio ato, filho que era de uma famí­lia de prin­cí­pios, tri­cen­te­ná­ria e reli­gi­osa. Sua avó índia teria ver­go­nha de vê-​lo inva­dir a mata sem cerimô­nias, cor­rendo o risco de ser aba­tido pela seta de um curupira, para roubar palmito e negar vida a uma bela palmeira.

A fazenda estava aban­do­nada desde antes de qual­quer lem­brança de sua infância. O pro­pri­e­tá­rio vivia na cidade. Era parente de metade da famí­lia Rodrigues, fun­da­do­ra do muni­cí­pio de Itabaté, mas tra­ba­lhava a dia para os outros e nunca visi­tava mais as suas ter­ras. Diziam que não voltara a pôr os pés nelas desde que enterrara do pai, morto viúvo e ainda jovem. Abandonara-a dizendo bobagens, temendo que ali houvesse algo que devorava a vida do homem, algo que extinguira o seu galho da família e que espreitaria quem lá fosse — e Jerônimo nunca esquecia esses boatos, mas mesmo os temendo sempre eles não o impediam de entrar mais uma vez, de até mesmo aventurar-se em torno da sede arruinada.

O aban­dono fora cri­ando uma atmos­fera fan­tás­tica no lugar. As cer­cas enfer­ru­ja­ram e apo­dre­ce­ram, o pasto se cobriu de ervas, de arbus­tos, e logo de árvo­res. A casa secu­lar fora arrom­bada pelo gado e pelos ani­mais da mata, as telhas foram revi­ra­das por mor­ce­gos e tem­pes­ta­des, o madei­rame apo­dre­ceu no tempo, ervas cres­ce­ram nas gre­tas dos pisos. No ter­reiro da sede o tra­tor Fordson, dois cami­nhões International e uma cami­nho­nete Studebaker foram entre­gues à fer­ru­gem e estavam cobertos de ervas. Nos cin­quenta anos desde a mudança de Rui Rodrigues para Itatinga cres­cera um pé de canela atra­vés da car­ro­ça­ria da Studebaker, até romper pelo teto, e os dois International estavam tão verdes de ervas que pare­ciam monstrengos de um pântano assombrado. Na ausên­cia do dono, o maior dos peri­gos fora, nas pri­mei­ras déca­das, o gado bra­vio. Mas deste os ladrões de gado e as doen­ças deram cabo em pouco mais que uma gera­ção. Bem, pelo menos era o que pen­sa­vam as pes­soas raci­o­nais. Para as outras, porém, havia outros peri­gos lá, que não se deve mencionar. E reses de espécies inauditas que nenhum ladrão roubaria.

Havia décadas que Rui Rodrigues não dizia mais nada dos motivos de sua vinda para a cidade. Preferia per­der a ami­zade a fazer uma con­fi­dên­cia, e já as perdera quase todas. Restava à gente do lugar criar histórias sobre os seus moti­vos, e havia tan­tas quanto seus contadores. Essas teorias tinham de se basear nos murmúrios dos antigos e nas discutíveis lembranças que tinham sobre as palavras que Rui Rodrigues chegara deblaterando, com olhos vidrados, boca espumando pelos cantos, ressequida por longas horas de correr pelas estradas sem parar para tomar água.

Acostumado ao tra­jeto, Jerônimo já des­cia a tri­lha reta pela face do pico, em dire­ção ao bai­xio onde o brejo se unia à mata vir­gem, e onde tabo­as e lírios ocul­ta­vam o tre­me­dal, tor­nando peri­gosa a entrada de incau­tos, quando per­ce­beu a luz inco­mum que tre­me­lu­zia no topo de uma colina baixa mais ou menos no meio daquela grota. O tre­mu­lar da luz não era fogo fátuo e nem ilu­são, e nem tam­pouco um prin­cí­pio de incên­dio cau­sado por um raio. Na luz ver­me­lha das laba­re­das ele pare­ceu divi­sar for­mas que dan­ça­vam. A pele eri­çada de medo pare­ceu fazer-​se toda ouvi­dos e logo ele escu­tava dis­tan­tes mur­mú­rios tra­zi­dos pelo mesmo vento que lhe arre­pi­ava os pelos das costas.

Mas a curi­o­si­dade era maior que o auto­ma­tismo do medo, espe­ci­al­mente acon­se­lhada pelo orgu­lho de caça­dor de tesou­ros e amigo do alheio. Caminhando com a sua­vi­dade dos que sem­pre vive­ram em con­tato com a mata, aproximou-​se da colina, sua conhe­cida, pen­sando em ocultar-​se por trás de uma grande pedra que havia à som­bra de cen­te­ná­rios jaca­ran­dás, e de lá obser­var o que acon­te­cia. Enquanto se apro­xi­mava, deu-​se conta de que mui­tas vezes pas­sara por aquele canto da flo­resta, ao pé daquela mesma colina, mas nunca a per­cor­rera. Que espé­cie de receio subconsciente o detivera?

Lembrou mais uma vez da avó índia, com quem, por azar, não apren­dera a falar. Ela apa­re­cia diante de si, como em um sonho, lhe dizia pala­vras que ele mal com­pre­en­dia, e ele afas­tava a visão, como a uma teia de ara­nha sobre seus olhos. Tinha de afastar a língua trancada dos mortos e viver entre os vivos.

Logo estava tão perto que final­mente pôde ter a cer­teza de que real­mente havia gente a dan­çar e can­tar em torno da fogueira, pro­du­zindo um ala­rido curi­o­sa­mente baixo. Quando che­gou ao fundo do vale, para con­tor­nar a colina, per­ce­beu que as mace­gas e arbus­tos toldavam-​lhe a visão do topo, impe­diam ante­ci­par o que ocor­ria em torno das laba­re­das. Teve de subir por outro barranco e mais outro, até alcançar, finalmente, um lugar que lhe permitia ver o que acontecia. Lá se ins­ta­lou entre as pedras para olhar. Nesse momento teve, pela pri­meira vez, a dimen­são de algo muito mais mons­tru­oso do que supusera.

Em torno da fogueira que cre­pi­tava acima das vozes, havia um cír­culo de pessoas nuas, mulhe­res e homens de várias ida­des, dan­çando uma maca­bra ciranda e can­tando ver­sos incom­pre­en­sí­veis, mas ver­sos, posto que rima­dos e rit­ma­dos como uma can­ção do inferno, na lín­gua do pró­prio Belzebu. À esquerda de si, à mar­gem da cla­reira que o machado e o fre­quente ritual tinham aberto entre as plan­tas, em um impro­vi­sado trono de pedra, estava um abjeto casal que pre­si­dia aquela cena digna de um pesa­delo de inqui­si­dor: um homem nu do peito para baixo, envolto em uma capa de pele e de face oculta por um elmo em for­mato de cabeça de bode. A sua mão esquerda segu­rava um báculo ade­re­çado com ino­mi­ná­veis penduricalhos e a direita repou­sava sobre os ombros de sua con­sorte, uma jovem pálida, que pare­cia dopada ou em transe. A ciranda ter­rí­vel girava em torno da fogueira, can­tando aque­les ver­sos tétri­cos e o cara-​de-​bode aca­ri­ci­ava gen­til­mente, com as pon­tas dos dedos, os ombros nus da sua companheira.

Hipnotizado pelo ritmo sim­ples dos ver­sos e pelas figu­ras, algu­mas belas, que dan­ça­vam a ence­na­ção infer­nal, Jerônimo não con­se­guia per­ce­ber deta­lhes sutis. E assim ficou lon­gos minu­tos, até que um ínfimo sus­piro da jovem no trono de pedra o aler­tou nova­mente, e nesse ins­tante ele notou o que lhe per­ma­ne­cera alheio até então: a moça ao lado do cara-​de-​bode era Jovita, filha de um vizi­nho rico, amor seu de infân­cia, flor dis­tante demais para ser colhida por suas bru­tas mãos. Mas ali estava, ao alcance de mão ainda pior e destino ainda mais brutal.

Esta per­cep­ção o atin­giu como uma cólica, uma dor, um aperto pro­fundo e longo, um abraço gelado que não o lar­garia. Seus olhos pare­ce­ram abrir-​se final­mente, e come­çou a enxer­gar coi­sas que antes sur­giam bor­ra­das como uma cena vista entre lágri­mas, como a visão de quem está detrás da cacho­eira, como os mor­ros dis­tan­tes, azu­lando no calor da tarde sob as nuvens. Notou vozes fami­li­a­res, cor­pos de talhe fami­liar, cica­tri­zes em bra­ços, for­ma­tos de pés. Notou a blas­fema ere­ção que o cara-​de-​bode osten­tava a con­tem­plar aquilo tudo: seu imenso, quase monstruoso pênis estava ereto e luzia como se lhe houvessem untado com algum tipo de unguento dos infernos. Uma raiva pro­funda come­çou a fer­ver em seu estô­mago. Subia como um arroto ou azia, mas era só ódio fermentado. Um ódio sem dire­ção, sem esperança, que apenas borbulhava e queria explodir.

Os dan­ça­ri­nos inter­rom­pe­ram a ciranda, bebe­ram far­ta­mente de cane­cos pos­tos diante do trono de pedra e reto­ma­ram seus movi­men­tos, que então pare­ciam desen­gon­ça­dos como o tro­pe­çar de um ani­mal bêbado. Até que final­mente ficou claro que esta­vam mesmo sob o efeito de algo da bebida, e come­ça­ram a cam­ba­lear e hesi­tar, e por fim se dei­ta­ram na grama baixa e se entre­ga­ram a toda sorte de hedi­on­de­zas que ofen­dem a Deus e à natureza. E sempre o cara-de-bode acarinhava o ombro de Jovita enquanto sua verga acenava para frente e para trás, como se aprovasse tudo aquilo.

Quando o cara-​de-​bode se ergueu do trono, osten­tando sua blas­fê­mia como um tro­féu diante do cres­cente que sin­grava o céu, a raiva explo­diu. Jerônimo largou-​se de seu escon­de­rijo e entrou na cla­reira, munido ape­nas do por­rete com que se fir­mava pelas tri­lhas, e des­fe­riu tan­tos e tama­nhos gol­pes em tudo o que se movia diante de si que o res­pei­tá­vel pedaço de goi­a­beira se esfa­ce­lou — mas não antes de partir várias costelas, arrancar diversos dentes e instalar o pânico entre os presentes. Vendo-​se desar­mado, tomou o pró­prio báculo do cara-​de-​bode e o des­fe­riu num golpe cir­cu­lar que ter­mi­nou de der­ru­bar os últi­mos dan­ça­ri­nos que ten­ta­vam ainda se erguer para enfrentá-​lo. Nesse momento per­ce­beu que o cara de bode, a quem já fus­ti­gara antes de roubar-​lhe a arma que por­tava, con­se­guira erguer-​se e recu­pe­rara uma arma de fogo den­tre o amon­to­ado de suas roupas.

— Pare, seu grande imbe­cil! Pare ou lhe ponho chumbo quente nos cornos!

Jerônimo então dei­xou cair o báculo e se con­for­mou com o des­tino — imaginou-se morto, heroico, penetrando no céu em paz. O cara de bode lhe man­dou ajoelhar-​se com as mãos à cabeça. Um den­tre os dan­ça­ri­nos veio com uma corda e lhe amar­rou os pul­sos e os pés.

— Você estra­gou o nosso Sabá, ó mise­rá­vel. Esperdiçou semanas e semanas de preparo. Devíamos matá-​lo aqui mesmo e seu san­gue esta­ria sobre a sua pró­pria cabeça!

Os outros tam­bém come­ça­ram a se erguer do tor­por da bebe­ra­gem e das porretadas, entre xingamentos inomináveis e gemidos de dor. O efeito dela pare­cia dimi­nuir na ausên­cia de música, ou de alguma outra ener­gia mística que se rom­pera com os gol­pes da vara de goi­a­beira. Nem todos con­se­gui­ram se erguer, porém, pois os gene­ro­sos gol­pes haviam dei­xado alguns bem estro­pi­a­dos. Havia san­gue em pro­fu­são escor­rendo de cer­tos cor­pos, res­pin­gando pelas folhas de relva. Alguns gemiam, outros ape­nas voci­fe­ra­vam impre­ca­ções a todas as potes­ta­des dos nove cír­cu­los dos infernos.

— Esse é o cão que nos impor­tu­nou! Vamos matá-​lo!

— Não, irmãos! Não basta der­ra­mar o san­gue deste cachorro! Ele tem que con­ser­tar o que fez.
Um mur­mú­rio de apro­va­ção per­cor­reu a multidão.

— Por hoje a noite é per­dida! Nosso sacri­fí­cio não será mais pro­pí­cio. Vamos levar este cão conosco até a pró­xima lua crescente.

Puseram um saco de ani­a­gem sobre a cabeça de Jerônimo e o ati­ra­ram em uma car­roça puxada por dois bois. Os que não con­se­guiam cami­nhar por causa dos gol­pes de vara de goi­a­beira se sen­ta­ram sobre ela e os outros segui­ram a pé. Obviamente não era pos­sí­vel saber para onde iam, mas Jerônimo, naquele momento, estava mais pre­o­cu­pado com os con­tí­nuos chu­tes, socos e mor­di­das que os pas­sa­gei­ros lhe davam, con­forme sua capa­ci­dade remanescente.

— Traste! Estrupício! — gritavam-​lhe.

A via­gem foi assim sofrida, mas não demo­rou tanto quanto Jerônimo temera. A pro­xi­mi­dade lhe suge­ria uma pre­o­cu­pante pos­si­bi­li­dade de que as vagas seme­lhan­ças não fos­sem mais que coincidências.

A escu­ri­dão não ter­mi­nou depois que o carro parou. Ela se ins­ta­lou como uma dor na cabeça e uma exaus­tão dos mem­bros. Quando des­per­tou, viu ape­nas pare­des em torno de si. Paredes de pedra. Acima de sua cabeça, a uns três metros de altura, as tábuas de um asso­a­lho. Passos de pes­soas. Vozes con­fu­sas. Muita gente. Uma dis­cus­são em voz baixa. Fingiu ainda estar ador­me­cido, até que final­mente o silên­cio se instalou.

No calor do que devia ser o meio da tarde, um alça­pão se abriu. Uma cara de bode se enfiou por ele. Aquela expres­são ani­ma­lesca pare­cia ainda mais gro­tesca na luz da tarde do que pare­cera sob a fraca lua cres­cente. O pre­si­dente do Sabá segu­rava a más­cara com ambas as mãos.

— Está com fome, cão?

Jerônimo não res­pon­deu. Não que­ria implo­rar nada que viesse daque­las mãos imun­das que haviam tocado, mesmo que bre­ve­mente, o corpo de Jovita. E se não fos­sem somente as mão? Ó infernos!

— Vou lhe dar um pouco de ração, para que fique vivo até a pró­xima lua.

Dizendo isto o cara de bode sol­tou a mão direita da más­cara e estendeu-​a para pegar alguma coisa que estava ao lado do alça­pão. Atirou para baixo umas broas endu­re­ci­das, dois peda­ços gran­des de carne de panela e uma gar­rafa de metal cheia de água, cuja tampa de pres­são se des­pren­deu quando caiu ao chão.
Jerônimo não deu aten­ção a nada do que caíra den­tro de seu cubí­culo. A não ser quando notou que tam­bém caíra a más­cara, num momento de des­cuido de seu dono quando lhe ati­rara a comida. Olhou para cima rapi­da­mente, e teve tempo de ver, num relance, a cara nari­guda e odi­osa de João Ferraz, grande fazen­deiro e grande filho da puta, dono de metade dos votos da cidade, para dá-​los a quem qui­sesse, e empre­ga­dor dos melho­res gati­lhos num raio de deze­nas de quilômetros.

A cara desa­pa­re­ceu da aber­tura do alça­pão quase ins­tan­ta­ne­a­mente, dei­xando um resto de dúvida, des­tas que reti­nem na mente por muito tempo, porém Jerônimo se fixou na más­cara, que o olhava obli­qua­mente, caída no chão, como a deca­pi­ta­ção dum demô­nio. Trouxe-​a para o tre­cho mais claro do alça­pão e come­çou a contemplá-​la. Que estra­nha espé­cie de encanto aquele arre­medo de cabeça de ani­mal pos­sui­ria, para trans­for­mar pes­soas comuns em ani­mais que se aca­sa­la­vam de um modo tão blas­femo sob o céu!

Enquanto con­tem­plava os olhos oblí­quos daquele arre­medo tosco de um Bafomé alheio à América, distraiu-​se de tal forma que não per­ce­beu a queda da tarde rumo a outra noite. Ouviu ape­nas a fome, que o obri­gou a roer uma das broas, mor­der um naco da carne — que afi­nal estava sabo­rosa — e lamen­tar a perda da maior parte da água. Parcialmente satis­feito, dei­tou de lado a más­cara obs­cena e se recli­nou na palha para ten­tar dor­mir, enquanto pen­sava num meio para sair daquela enrascada em que se metera por causa de seu amor a Jovita, nunca correspondido.

No dia seguinte notou que a más­cara não estava mais na impro­vi­sada mas­morra. Poderia haver alguma porta por onde alguém entrasse sem ser notado? Ou teria alguém des­cido ali durante seu sono para recuperá-​la? A segunda teoria era ridícula demais: não fazia sentido alguém descer por uma corda, com todo o ruído e o risco envolvido. Era mais provável haver uma porta secreta em alguma parede.

Teve muito tempo para pen­sar sobre isso, e sobre muito mais, ao longo dos tedi­o­sos dias seguin­tes. Isolado no escuro daquele cubí­culo, espe­rava, tenso e cheio de ira, pelo momento em que o leva­riam pri­si­o­neiro, para submetê-​lo a alguma suprema indignidade. Per­deu a conta dos dias que pas­sou na mas­morra impro­vi­sada de João Ferraz. Comeu pouco, para manter-​se vivo e alerta, mas comeu com repug­nân­cia aquela comida que tal­vez tivesse fei­ti­ços e eflú­vios que não con­vi­nham a um homem de bem. Comeu-​a entre impre­ca­ções e rezas de exorcismo, lem­brando o rosto enru­gado da avó índia pega a laço no mato e as novenas em latim da avó portuguesa que o criara e lhe ensinara a falar.

Já estava quase pronto para abraçar seu destino quando despertou de sonhos intranquilos sentindo alguma coisa quente roçando sua pele. Virou-​se como quem teme a pre­sença de um íncubo, mas per­ce­beu que era só Jovita que se dei­tara ao seu lado durante o sono por algum motivo. Jerônimo se levan­tou como quem é tocado por uma ser­pente e ela se sen­tou rapi­da­mente quando ele o fez. Lá estava ela, ves­tida com uma roupa caseira e cal­çada de chi­ne­las bara­tas. Trazia os cabe­los dou­ra­dos caindo pelas cos­tas e o pequeno rosto sar­dento pare­cia ainda mais deli­cado e ado­rá­vel na penum­bra da masmorra.

— Jovita!? O que faz aqui?

— Vim para ti. Sei que me desejas.

Jerônimo bai­xou os olhos e disse len­ta­mente as pala­vras “você, Jovita?” Disse-o de uma maneira tão com­pun­gente que ela enten­deu esse pro­nun­ci­a­mento tão breve como um relato sobre toda a com­ple­xi­dade do uni­verso. Existe um certo talento disso nas mulhe­res, uma coisa meio sobre­na­tu­ral de ler men­tes, de enxer­gar entrelinhas.

— Sacrifício de uma virgem, Jerônimo. Mas tu podes me salvar a vida, e tu me queres, sempre soube.

— Salvar a vida para perder a alma?

— A alma já está morta, Jerônimo. Sem esperança a não ser na misericórdia de Deus. Mas tu, tu podes salvar-te.

Ela então mos­trou a corda que trou­xera. Estava amar­rada em algum lugar fora do alça­pão e ficara escon­dida entre as som­bras e entre as palhas durante a conversa.

— Vamos… Hoje é a noite do sacri­fí­cio. Tens de fugir, ou eles o matarão.

Mesmo não crendo na salvação, Jerônimo teve a esperança de pelo menos lutar. Não ficaria mais deitado como um porco na serva à espera do punhal. Subiu pela corda com a agi­li­dade de um macaco e depois puxou-​a para cima. Ela então desa­mar­rou a corda da parede e enrolou-​a em torno dos braços, puxando a manga do vestido sobre ela. Quem a visse teria a impressão de que tinha algum grave inchaço de um dos braços.

O alça­pão ficava exa­ta­mente no meio da casa, sob uma espé­cie de salão cen­tral. Estavam, claro, na casa de João Ferraz. A casa estava deserta, ou pare­cia estar. Apenas os gri­los soa­vam no mato, e raros vaga-​lumes pas­se­a­vam nas tre­vas. Era fim de madru­gada e a lua quase cheia já estava baixa no hori­zonte. O asso­a­lho de tábuas ran­gia com os seus pas­sos, gemendo como almas pena­das. Não, não pode­ria mesmo haver nin­guém na casa, ou esta­riam todos des­per­tos àquela altura. Talvez fosse cedo, talvez estivessem ainda procurando por alguma coisa que faltasse.

— Aonde vamos?

— Espera!

Estavam próximos à porta da frente e tinham ouvido passos. Jerônimo estacou, já com um tambor de circo batendo doido dentro da boca, mas os pas­sos con­ti­nu­a­ram em dire­ção aos cômo­dos que fica­vam mais abaixo na dire­ção do rio, onde dor­miam os empre­ga­dos fixos da propriedade. Jovita então lhe entre­gou o rolo de cor­das de algodão.

— Amarra-​me!

— Não vem comigo?

— Não posso, acredite-​me!

Movido mais pela von­tade de sal­var a pró­pria pele do que por qual­quer afeto humano, Jerônimo fez que enten­deu o que ela que­ria dizer e deu de ombros, no con­forto da covar­dia. Ela esta­ria salva, e ele ganha­ria algum tempo para fugir enquanto durasse a discussão.

Atada Jovita, des­cer­rou o trinco sim­ples da porta prin­ci­pal, des­ceu as esca­das deva­gar, temendo que os degraus ran­ges­sem tam­bém, e tão logo se viu no ter­reiro, come­çou a correr, correr como jamais correra em toda a sua vida. Enquanto cor­ria, a sua mente se nublou de ter­rí­veis pesa­de­los, movi­dos pela honra ferida e pelo remorso. Por fim a ver­dade ven­ceu sua ten­ta­tiva de des­cul­par a pró­pria ver­go­nha e com­pre­en­deu que Jovita se sacri­fi­cara por sua sal­va­ção. O mal­dito fei­ti­ceiro acha­ria alguma forma ino­mi­ná­vel de com­pen­sar o sacri­lé­gio que Jerônimo come­tera, uma semana antes, con­tra o tene­broso Amo.

O ar come­çou a lhe fal­tar, os pul­mões fica­ram duros como foles de couro, a res­pi­ra­ção pas­sava pelas suas nari­nas cor­tando a mucosa com um calor tor­tu­rante e os ner­vos das per­nas doe­ram. Parou para tomar fôlego, bebeu de uma nas­cente à beira da estrada, olhou em volta. Cada mon­ta­nha pare­cia ter mil olhos. Era como se o mundo tivesse se trans­for­mado, todo, em uma grande mas­morra ou, melhor, uma espé­cie de galé cujas gra­des eram povo­a­das de vigias sobre­na­tu­rais. E tudo isto o ten­si­o­nou até estar tão rígido que se o tocas­sem soa­ria como um ins­tru­mento, em um acorde pega­joso de ira e medo.

Então se deu conta de que seguia no rumo apro­xi­mado da Serra dos Caramonos e da fatí­dica fazenda, onde estava a grota que tinha a colina onde encon­trara Jovita, seu des­tino e per­di­ção. Pensara em fugir, mas se ati­rava nos bra­ços do futuro, inú­til ten­tar enga­nar as Potestades Abissais. Suspirou, resignado, e quis cumprir o seu destino.

A mata da fazenda nunca pare­cera tão assom­brada, mesmo na luz quente daquela manhã de verão. Cada capin­zal se com­por­tava como uma moita de nava­lhas e cada árvore pare­cia mover-​se sobre a terra para cercá-​lo. Se não fosse acos­tu­mado desde menino, e se não conhe­cesse de tan­tas vezes cada trai­ção que habi­tava suas som­bras, pode­ria ter se per­dido. Mas esse não foi o seu fim.

A noite caía como um capuz sobre o mundo e ele se viu per­dido, não muito longe do último lugar do mundo onde gos­ta­ria de estar. Teve fome, comeu das fru­tas da esta­ção, lim­pas e segu­ras, mesmo naquele lugar encan­tado. Ao ter­mi­nar de comer sen­tiu voltar-​lhe ao san­gue sua força de homem, um calor que irri­tava os ner­vos e tur­vava os olhos. Ouviu a voz de sua avó índia, grave e pausada, cuspindo palavras na velha língua que não aprendera:

— Okanhanga. Kunhãíté i îukápi rama.

Então teve um medo imenso, des­ses que enchem de cora­gem o cora­ção dos homens. Ergueu o facão e cor­tou uma pal­meira jovem, de caule ainda fle­xí­vel. Lembrou-​se das his­tó­rias que a sua mãe mestiça lhe con­tava, dos tem­pos antes que os bran­cos che­gas­sem. Sentiu cres­cer den­tro de si o valor de uma raça antiga, pisada e humi­lhada. Manuseou o facão com agi­li­dade, extraindo da pal­meira a lasca ade­quada para um arco de guerra. Aplainou-​o com a faca de caça, pre­pa­rando cunhas para pren­der a corda e então ti­rou do embor­nal um pedaço de linha de pes­ca da grossa para com­ple­tar. O arco era de manejo tra­ba­lhoso, mas arre­mes­sa­ria uma fle­cha com a força de um pro­jé­til. Um arco de homens, não de meni­nos. Buscou um taqua­ral e esco­lheu galhos longos, finos e firmes. Cortou dez fle­chas que apon­tou em serra, para que os infe­li­zes não as pudesse arran­car facil­mente. Fez fogo usando galhos secos e o isqueiro, endu­re­ceu as pontas nas cha­mas até para­rem de chiar. E para ter­mi­nar sua obra, espe­tou cada uma delas em um sapo venenoso.

Com a noite já próxima, cobriu-se de lama da beira do rio e escondeu-se entre ramas e folhas, para andar por entre as moitas sem ser visto. Terminado o disfarce teve vontade de rir, lembrando do causo do Bicho Folharada, que a mãe contara uma vez, na varanda da casa grande, à luz do lampião. Jerônimo gostara, mas os filhos do fazendeiro haviam zombado da ingenuidade dele, da história tola e até de se sua mãe de olhos rasgados e rosto redondo. Então tivera ódio deles, mas também de si. Tivera vergonha. Mas naquela noite se sentia o próprio Bicho Folharada, pronto a aterrorizar meninos brancos crescidos sem respeito pela terra.

Com a noite enfim ins­ta­lada, pro­cu­rou um lugar de onde pudesse con­tem­plar o topo da colina da fogueira. Escolheu outra colina mais alta, uns cem metros ao sul. Sobre ela, em uma for­ma­ção rochosa, deitou-​se em tocaia sob as bên­çãos de Iandé Iara e de Tupã Sy. Fez o sinal da cruz com a mão esquerda e come­çou a espera.

Os par­ti­ci­pan­tes do Sabá che­ga­ram, pare­ciam res­ta­be­le­ci­dos da surra de vara de goi­a­beira. Possivelmente se pas­sara um mês, pois a lua estava nova­mente come­çando o quarto cres­cente. Os recém che­ga­dos acen­de­ram a fogueira e come­ça­ram a cozi­nhar as poções mal­di­tas, mas o trono de pedra seguia vago. João Ferraz só che­gou muito tempo depois, tra­zendo Jovita pela mão asquerosa.

Com a ajuda de seus segui­do­res, despiu-​se e enfiou a cabeça na gro­tesca más­cara de bode. Depois forçaram-​na a se des­pir tam­bém e a assen­ta­ram sobre o trono de pedra, coberto com um couro de ani­mal peludo.

O ritual come­çou, a luz da fogueira ilu­mi­nava cla­ra­mente o trono. Jerônimo pode­ria, e deve­ria come­çar. Desceu da pedra e come­çou a se esguei­rar por entre as mace­gas, sutil como um caça­dor índio na mar­gem do rio, teme­roso de espan­tar as garças.

Quando as bebi­das pare­ciam ter efeito, e todos, como cães, já se refes­te­la­vam pelo chão, lambendo-​se, cheirando-​se e esfregando-​se em con­tor­ções abo­mi­ná­veis, quando a blas­fê­mia de Ferraz pare­cia evi­dente e a sua mão imunda ten­tou alcan­çar o corpo esguio de Jovita como da outra vez, Jerônimo lembrou-​se nova­mente da seve­ri­dade da avó e se arre­pen­deu de não ter apren­dido a falar com ela. Envergonhado diante da natu­reza, ape­nas bal­bu­ciou, como criança: “Tupã me guie a mão e o coração.”

Disparou a fle­cha com a perí­cia que nem sabia ter. Ela asso­biou pelo ar e pene­trou o peito de João Ferraz como uma faca quente na man­teiga. Ele levou às mãos ins­tin­ti­va­mente à fle­cha, num gesto de arrancá-​la, mas a ponta em serra se agar­rou a ossos e entra­nhas de uma forma que não cede­ria, enquanto o veneno len­ta­mente entrava.

Os dan­ça­ri­nos demo­ra­ram a ver o que ocor­ria, entre­ti­dos em abo­mi­na­ções. Quando per­ce­be­ram e se ergue­ram, Jerônimo flechou mais, pro­du­zindo cinco rápi­dos cadá­ve­res. Duas erra­ram o alvo, as outras ele guar­dou para uma even­tu­a­li­dade. Os mal­di­tos, então, se assus­ta­ram como se as trom­be­tas do Juízo tives­sem sido sopra­das, como no ter­rí­vel qua­dro que pen­dia da parede da casa materna. A Onipresença de Deus se fizera entre eles, abatendo ereções e destruindo a ousadia dos canalhas.

Começaram a cor­rer em todas as dire­ções, cor­rer por suas vidas, sem nem ten­ta­rem per­ce­ber de onde as fle­chas vinham. Jovita tam­bém cor­reu, sem nem lem­brar das rou­pas. Alguns dos dan­ça­ri­nos, sem muito conhe­ci­mento da terra, se embre­nha­ram entre os lírios e taboas e foram tra­ga­dos pelo loda­çal. Outros pega­ram estra­das que os leva­riam mais para den­tro da mata e seus peri­gos — seria bom se Curupira existisse, pensou Jerônimo. Eram como os demô­nios da pin­tura tétrica que mos­trava o Deus sisudo que con­de­nada os peca­do­res às tor­men­tas eter­nas. Apenas Jovita pare­ceu cor­rer com mais calma, diver­gindo da sara­banda infer­nal de gri­tos, e ten­tava seguir na dire­ção da Fazenda Ferraz. Mas não con­se­guia cor­rer muito bem e nem pare­cia ter muito fôlego. Ele a alcan­çou facilmente.

— Pare de cor­rer! Não tem mais perigo!

Ela se acal­mou então, olhando com os olhos cheios de um amor que nunca esti­vera neles durante os tan­tos anos em que Jerônimo a sonhara.

— Oh, foi… foi você?

Ela se ren­deu em seus bra­ços e Jerônimo sen­tiu con­tra o peito os seus minús­cu­los seios, rijos como mãos fecha­das, com mamilos pontiagudos como setas. Tentou abraçá-​la e suas mãos se per­de­ram entre os cabe­los que revo­a­vam à brisa, ema­ra­nhando os fios nos calos de seus dedos.

A Fazenda Ferraz estava dor­mindo em paz quando che­ga­ram. Jovita encon­trou a chave escon­dida den­tro de um vaso de flo­res no alpen­dre e abriu a porta sem fazer ruído. Dentro da casa rei­nava o silên­cio pre­cá­rio. Logo algum dos capan­gas vol­ta­ria do mato e os dois sabiam que nem Deus os livra­ria. Principalmente depois que o resto da famí­lia, ou o resto da irman­dade, sou­besse do ocorrido.
Tudo que fize­ram foi reco­lher alguma comida da des­pensa, o pouco dinheiro que pude­ram encon­trar nas gave­tas des­tran­ca­das e rou­pas para Jovita usar.

— Precisamos de um cavalo, querida!

— Precisamos de mais do que isso, que­rido! Nenhum cavalo nos salvará.

Ela então exi­biu uma chave de carro que sur­ru­pi­ara do prego atrás da porta. Havia um Corcel esta­ci­o­nado num canto do terreiro:

— Sabe diri­gir? Já diri­giu um desses?

— Sei não. Você sabe?

— Claro. Onde você viveu esses anos todos, Jerônimo?

Ele teve vergonha de responder, vergonha da vida miserável. Entraram no carro, ela o ligou e em três minutos ganhavam estrada, acelerando em direção ao sertão cada vez mais ignorado enquanto a lua se escondia entre gordas nuvens que prometiam tempestade. Perto do ama­nhe­cer, che­ga­ram a um lugar de onde já viam o asfalto — e ainda não havia chovido. O motor do velho Corcel, de tão exigido, começava a engasgar.

— Melhor deixar esse carro e seguir de ônibus. Ele não vai durar muito. Desce que eu vou me livrar dele.

Jerônimo desceu, trazendo as trouxas que tinham. Ela fez um audacioso retorno em cavalo de pau e embicou o carro para o rio. Não havia cercas naquele trecho, só pedras a vencer. Ela deixou o carro em ponto morto em uma ribanceira e o viu cair desastradamente na água funda daquele remanso como um cadáver precoce. Olhando as marcas de pneus na poeira da estrada, Jerônimo e apenas em pensamento desejou que chovesse, que chovesse muito. Quase como se lesse sua mente ela disse a mesma coisa.
Cerca de duzentos metros depois entrariam na estrada principal. Tomariam o primeiro ônibus, para qualquer lugar. Jerônimo ainda tinha dinheiro em seus bolsos. Só tinha medo de sua aparência horrível, coberto ainda de lama e de folhas.

— Tenho de me limpar, Jovita.

Ela finalmente se deu conta do estado lastimável dele.

— Você até parece o Bicho Folharada…

O comentário doeu em sua memória, mas Jerônimo não disse nada que denunciasse mágoas de um passado que talvez ela nem lembrasse.

Depois de se banhar na água do mesmo rio que engolira o carro, e depois, de novo, na chuva torrencial que caiu, Jerônimo finalmente parecia até um pobre pescador surpreendido no temporal. Só Jovita conseguia luzir diferente, e estranhamente. Mas ela não se incomodava com a escuridão que voejava em torno da cabeça confusa dele. Quando finalmente se sentaram no banco de trás do ônibus, deitou a cabeça em seu ombro e sorriu para o homem bem-vestido que os olhava com surpresa e asco no rosto.

O ônibus lagarteou pela estrada e ninguém o perseguiu. Em algum lugar o rastro se perdera, ninguém os queria mais, ninguém os esperava. A manhã acal­mou a ten­são da noite e Jerônimo teve uma rara e agra­dá­vel sen­sa­ção de espe­rança. O calor aumen­tou porém, o peito come­çou a pesar e o choro da menina o des­per­tou das lem­bran­ças doces de um ano antes. Estava nova­mente doente, dei­tado em sua cama, ardendo em febre. Jovita o con­tem­plava apa­ren­tando um dis­tan­ci­a­mento quase desa­gra­dá­vel, fixa que estava nas fei­ções da menina que mamava. “É natu­ral que uma mãe se dedi­que à cri­ança” — ele pen­sava, entre cala­frios de febre e pon­ta­das de dor. “Mas que ama­nheça logo, pelo amor de Deus.”

— Devíamos bati­zar logo a menina, Jovita. Já está gran­di­nha, e há mui­tos peri­gos debaixo do céu.
Jovita res­mun­gava alguma coisa que ele não enten­dia, e não lhe deu atenção. Ele adormeceu de novo, sono entre­cor­tado de mui­tos pesa­de­los. Às vezes pesado, às vezes uma pluma, flutuou ou se espalhou sobre a cama. Em alguns momen­tos via o impos­sí­vel, mas pen­sava estar bem des­perto. Em outros, sonhava o cená­rio mate­rial do quarto, nor­mal e pobre. A menina não con­se­guia dor­mir por causa do vento nas telhas, a tem­pes­tade ribom­bava à dis­tân­cia, mas pare­cia não che­gar nunca.

Em um momento de sonho, ou tal­vez delí­rio, ou tal­vez ver­dade, ele sen­tiu um cala­frio que não era de febre, mas um pro­duto de seus ner­vos ao escu­tar, incré­dulo, a can­tiga de ninar que Jovita can­tava para a menina, tão pare­cida com outras, que outras pes­soas can­ta­ram em outros dias:

Eu invoco a ti, espí­rito luzente,
Vem ante nós, teu povo, tua gente.
Eu invoco a ti, em forma natu­ral,
Visí­vel e tan­gí­vel, humana e integral;
— Modesto servo do Senhor.

Eu invoco a ti, espí­rito potente,
Para nos guiar rumo ao poente.
Eu invoco a ti, sobe­rano antigo
Venha, luz das trevas, amigo;
Sê ben­fa­zejo e leva-​o con­tigo
— Modesto servo do Senhor.

No fundo de seus sonhos estava Jovita nua no meio da pequena sala, um cír­culo de sal e cera de vela dese­nhado em torno do berço e outro em torno de si. Velas quei­ma­vam sobre os móveis, dando um ar lúgu­bre a todo o quarto. Ela parou de can­tar e sus­sur­rou baixinho:

Vem, senhor oculto,
Com calma e paci­ên­cia,
Sem dano nem tumulto.
Vem, apossa-​te dos corpos.
Vem habitar as almas.
Pelos vivos, pelos mortos.
Mas não nos cegues,
Não nos emu­deças,
Não nos ensur­deças
E nunca nos renegues.

Vem, senhor, con­forme te chamo,
Sem tro­vejar e sem relâm­pago.
Vem, senhor, conforme o intento,
Sem gra­nizo e sem vento.
Vem, senhor, pisa minha casa
Com teus pés de ferro em brasa
E busca de nós o que é nosso dever
E leva o que é certo conceder.

Os olhos de Jerônimo fica­ram pesa­dos, pesa­dos, e ele então se lem­brou da velha avó que lhe dava con­se­lhos de cui­da­dos. Ela apa­re­ceu diante de si, na dig­ni­dade de seus noventa anos, e fez men­ção de dizer mais alguma coisa, mas para quê, se ele não enten­de­ria. Por que não apren­dera com ela a falar? Mas ela não falou, nem ele ouviu, mas ambos se enten­de­ram, na lín­gua dos espí­ri­tos. E não havia seve­ri­dade, mas amor e dor nos olhos da velha índia, que não con­se­guira alertá-​lo, e agora ape­nas podia recebê-​lo no seio da morte.

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