Os Urubus Estão Sempre de Olho

Quase é clichê dizer que a morte é a obra final do artista, sendo poucos os que conseguem planejá-la, fazer dela realmente uma realização. Para a maioria, a morte acontece sorrateira, fora dos palcos já há muito abandonados. Poucos têm, como David Bowie teve, a chance de deixar um verdadeiro testamento à posteridade. Sorte que ele teve por ter conseguido se manter relevante até o fim, quando muitos outros nomes, talvez iguais ou maiores, ficaram pelo caminho.

O que não é mais incomum é o uso da morte de uma personalidade como palco. Há um ditado antigo, que dizia que depois da guerra há muitos valentes que vão ao campo de batalha saquear espólios e cuspir nos mortos. Se já é desagradável explorar a morte de uma pessoa para se promover, ainda fica pior quando a exploração se faz para denegrir o falecido e exaltar a si mesmo ou a alguma causa.

A morte é, também, o momento a partir do qual a imagem de uma figura pública fica menos protegida. Uma vez que não existe mais a figura do indivíduo que possa se sentir pessoalmente atingido e buscar reparação contra acusações injustas, exageradas ou falsas; uma vez que está morto o indivíduo que produzia valor para o espólio legado a seus herdeiros; já não existe mais o mesmo ânimo em perseguir certos objetivos. Iniciar um processo pode ser custoso, e o morto provavelmente já não ganhará tanto dinheiro. É praticamente racional que os herdeiros do espólio não sejam tão agressivos na defesa da reputação de seu originador. Desta forma, muitas acusações que seriam alvo de impiedosos processos durante a vida do acusado acabam sendo deixadas ao esquecimento por seus herdeiros, pois estes não se sentem pessoalmente atingidos por coisas ditas a respeito de outra pessoa, ainda que querida.

Agora que David Bowie morreu, surgiu um artigo inacreditável na revista americana “The Establishment” acusando-o de vários crimes sexuais, ou de atos que hoje são considerados crimes sexuais. Enquanto vivo foi, o cantor nunca foi condenado por nenhum destes atos, embora alguns deles certamente fossem controversos. Não pretendo falar sobre esses atos porque não tenho conhecimento suficiente do assunto, quero falar sobre o oportunismo de se requentar as acusações depois da morte dele, sendo que estavam praticamente esquecidas enquanto ele esteve vivo. E, mais que isso, a natureza absurda de alguns argumentos feitos no texto.

Comecemos por este:

Bowie may have transformed pop culture, but his work cannot stand apart from its creator. It may feel worse to reject his music than it does to mourn his death, but no amount of talent transcends rape and sexual assault. He does not get a pass because his lyrics and persona made you feel good.

Ou seja:

Bowie pode ter transformado a cultura pop, mas o seu trabalho não pode ser separado de seu criador. Pode ser pior rejeitar a sua música do que lamentar sua morte, mas nenhuma quantidade de talento transcende o estupro e os crimes sexuais. Ele não tem imunidade só porque suas letras e sua personalidade te fazem sentir bem.

O resumo deste parágrafo atroz é que nenhuma realização do ser humano tem valor maior que o ser humano em si. A arte não produz transcendência. Esta é uma afirmativa tão enorme que a gente demora a perceber as implicações disso. A implicação mais direta é que a arte não tem valor se o artista não for perfeito na visão de quem o resolva julgar. E o artista, por ser pessoa pública, está exposto ao julgamento, claro, de qualquer um que o queira julgar. Eu diria, com uma certa necessária maldade, que se você não é capaz de produzir uma obra como a de David Bowie, você tem, pelo menos, graças à internet, a possibilidade de atacar o valor artístico dele. Ou, de forma mais sucinta: você tenta transformar em chumbo o ouro alheio se não consegue obter o seu.

Rejeitar a música de David Bowie por causa de suas acusações de estupro não faz nada pelas supostas vítimas, apenas torna o mundo um lugar menos transgressor e menos colorido. Um lugar mais controlado por gente que é especialista em medir o mérito alheio, caga-regras.

Os artistas, enquanto pessoas, não têm, de fato, imunidade alguma. Se alguma têm, é pelo dinheiro que ganham com a sua arte, e em uma sociedade capitalista os que têm dinheiro desejam (e às vezes conseguem) comprar tudo que lhes seja possível, inclusive o que tem mais valor, como a justiça. Se avis rara avis cara, o valor e a reputação da justiça apenas a tornam uma mercadoria mais desejável. A diferença é que alguns destes que compram a justiça com seu dinheiro produzem trabalhos (artísticos ou não) que podem, e devem, ser julgados à parte de si mesmos. Se você não deixará de comprar carros Volkswagen apenas porque a marca foi estabelecida originalmente a partir de patentes roubadas da Tcheco-Eslováquia e empregando mão de obra escrava de poloneses e judeus, por que deixará de ouvir discos de David Bowie só porque ele, em algum momento, cometeu atos questionáveis? O valor intrínseco dos carros Volkswagen e da música de David Bowie independe de possíveis pecados originais ou crimes associados.

Exigir que o artista tenha uma conduta impecável é um tipo de puritanismo inaceitável em uma sociedade livre. Se o artista é uma pessoa pública, é natural que seus erros se sobressaiam mais do que os erros de pessoas comuns. A pessoa que escreveu o artigo certamente cometeu seus pecadilhos (embora certamente nenhum tão grave quanto aqueles de que acusa David Bowie) mas nós nunca saberemos disso porque é uma pessoa irrelevante. Somente as pessoas relevantes têm seus erros amplificados, portanto, se não quisermos absolutamente renunciar a gostar de tudo quanto seja produzido por pessoas famosas, teremos de aprender a perdoar, a relevar.

É também um recurso ao conforto da ignorância. Aquele artista “indie” de que você gosta não tem graves acusações sobre si porque é totalmente desconhecido. As fofocas contra quem não tem fama não chegam ao conhecimento geral. Se você se sente confortável por gostar de artistas “seguros” que nunca fizeram de errado é porque você é uma besta que ama a ignorância, você se sente bem por não saber nada de errado sobre seus ídolos, o que é uma forma tosca de acreditar que a ignorância é uma virtude ou que a irrelevância (do seu ídolo) é um superpoder moral.

Bowie não foi nada disso, foi um homem acossado por uma infância traumática (que incluiu a perda quase total da visão do olho esquerdo em uma briga besta com o seu melhor amigo) e que viveu boa parte de sua vida padecendo de toxicomania. Que tenha conseguido produzir uma obra relevante no meio de tudo isso é algo que deve nos espantar. Durante boa parte de sua carreira, na segunda metade dos anos 70, Bowie esteve perto do colapso por causa da cocaína e das anfetaminas, chegando a aparecer em público como uma figura pálida e esquálida (“Thin White Duke”), de aspecto doentio. Esperar que uma pessoa nessas condições diferencie corretamente o certo do errado é uma ingenuidade (embora, claro, uma pessoa que cometa crimes nesse estado não mereça leniência).

Não há nada de errado em lembrar que o artista agora morto era uma alma atribulada, que cometeu muitos erros e teve muitos motivos para arrependimento. Mesmo porque, isto ele mesmo o fez em seus últimos álbuns. O errado está em querer isolar este aspecto do artista para negar o valor de sua obra, como foi feito naquele tétrico parágrafo.

Vivemos tempos estranhos, em que o conservadorismo extremo, o moralismo mais exacerbado, travestidos de progressismo, atacam as bases iluministas de nossa sociedade e negam valor aos aspectos mais belos da cultura ocidental.

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