Adventavit Asinus

Quando uma pes­soa diplo­mada aprende pseu­do­ci­ên­cias (ou mesmo, ciên­cias sóli­das, mas com uma base filo­só­fica fra­cas­sada e vul­ne­rá­vel), o efeito é tão ou mais per­ni­ci­oso que uma pes­soa comum reco­nhe­cer astro­lo­gia como ciên­cia, de fato. — Glauber Frota

Neil de Grasse Tyson meme

Gostaria, amigo, de expan­dir um pouco esse seu raci­o­cí­nio, mas não antes de cumprimentá-​lo por esse diag­nós­tico. Nunca em sua vida, desde que ainda era um esper­ma­to­zóide nadando em dire­ção ao óvulo de sua mãe, você esteve tão certo sobre alguma coisa.

Primeiramente eu gos­ta­ria de trans­for­mar o seu raci­o­cí­nio numa frase meme­fi­cá­vel:

A mais grave forma de igno­rân­cia é a dos sábios. Ignorantes comuns não con­se­guem fazer com que se res­peite sua igno­rân­cia, sábios, sim.

Só não direi que é um fenô­meno mun­dial por­que não conheço o mundo todo, mas direi que é bem gene­ra­li­zado no Brasil o efeito dele­té­rio do conhe­ci­mento sobre cer­tas men­tes.

Dizia o poeta que “não é por andar com livros que a gente fica dou­tor: as tra­ças vivem com eles, devem sabê-​los de cor.” A sabe­do­ria é fruto da expe­ri­ên­cia, que mui­tas vezes está acom­pa­nhada de títu­los que vie­ram depois de mui­tos livros lidos, mas cum hoc non prop­ter hoc e post hoc non prop­ter hoc: exis­tem pes­soas que estu­dam muita coisa e adqui­rem mui­tos títu­los mas não se tor­nam sábias por­que lhes falta a humil­dade de demar­car seus limi­tes.

Ninguém se torna “supe­rior” por ter um curso supe­rior. Uma espe­ci­a­li­za­ção lhe dá um sta­tus de espe­ci­a­lista, não de gene­ra­lista. Mestre é aquele que pode ensi­nar uma maté­ria e dou­tor é alguém que se pode con­si­de­rar máxima auto­ri­dade em uma coisa. Fora de sua área de conhe­ci­mento, mesmo o mais diplo­mado dos homens deve­ria conhe­cer a humil­dade. Raros conhe­cem, a escada aca­dê­mica parece levar alguns ao Olimpo.

Indivíduos res­pei­ta­dos pela sua for­ma­ção em deter­mi­nada área fre­quen­te­mente abu­sam de suas cer­ti­fi­ca­ções para emi­tir opi­niões sobre outras áreas em que não são auto­ri­dade, fre­quen­te­mente dizendo bes­teira, mas não se con­se­gue ques­ti­o­nar o que dizem por­que seu sta­tus (social, econô­mico e aca­dê­mico) blo­queia quem tenta.

A soci­e­dade é hie­rar­qui­zada de várias manei­ras (uma delas pela titu­la­ção), mas a falta gene­ra­li­zada de conhe­ci­mento da popu­la­ção impede que as pes­soas em geral conhe­çam o sig­ni­fi­cado dos títu­los. Esta é uma das razões pelas quais os mem­bros de cer­tas cate­go­rias anseiam por serem cha­ma­dos de “dou­to­res”. A pala­vra impres­si­ona, empresta auto­ri­dade, e mesmo que o deten­tor seja só um bacha­rel em direito, vai usá-​la para emba­sar opi­niões sobre polí­tica, eco­no­mia, psi­co­lo­gia, teo­lo­gia, direi­tos huma­nos e o que mais lhe der na telha. A busca pela facul­dade de direito é a busca por esse sta­tus. Afinal, o direito é uma dis­ci­plina menos desa­fi­a­dora que medi­cina ou enge­nha­ria.

Falta humil­dade a tais pes­soas. Convencidas de que se tor­na­ram supe­ri­o­res por terem obtido um diploma de grau supe­rior, não con­se­guem assi­mi­lar a ideia de que pos­sam estar erra­das. Quando falam sobre assun­tos que não domi­nam, adven­ta­vit asi­nus pul­cher et for­tis­si­mus, como dizia Nietzsche (o mais meme­fi­cá­vel dos filó­so­fos). Mas a pla­teia não se importa, se você ques­ti­ona, alguém da cla­que rude­mente o adverte: “quem é você para ques­ti­o­nar o dou­tor?” Certa vez eu, que sou for­mado em História, “perdi” uma dis­cus­são sobre História com um bacha­rel em Direito por­que todos em volta me des­qua­li­fi­ca­vam dizendo “você nem é dou­tor para falar assim com fulano”. Creio que você já deve ter visto algo seme­lhante, ou ouvido falar.

Se ocorre de uma tal pes­soa ter, pelo menos, lido os livros cer­tos e che­gado a con­clu­sões cor­re­tas (ainda que sejam pla­ti­tu­des), esta­mos com sorte, mas o que se pode fazer quando a cri­a­tura em seu desa­ba­lado tro­pel piso­teia impi­e­do­sa­mente a razão e os fatos esta­be­le­ci­dos com o poder inques­ti­o­ná­vel de suas fer­ra­du­ras dou­ra­das?

Os sábios são capa­zes de cau­sar grande dano quando apren­dem pseu­do­ci­ên­cias (ou sim­ples­mente che­gam a opi­niões absur­das sobre polí­tica, eco­no­mia ou soci­e­dade) por­que o conhe­ci­mento, que deve­ria abrir suas cabe­ças, falhou nisso. Ficou na super­fí­cie, como uma réplica barata de carro espor­tivo, com motor e câm­bio de Fiat Uno. Quem não entende da “mecâ­nica” do conhe­ci­mento, vê a bela car­ro­ça­ria pas­sar e julga aquela Ferrari supe­rior ao Golf GTI esta­ci­o­nado perto. O cúmulo do absurdo é haver quem se preste a furar os pneus do Golf para impedi-​lo de desa­fiar a Ferrari de ara­que.

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