Podemos Ainda Perguntar Algum Porquê?

Toda criança já teve a fase filosófica em que perguntava o “porquê” de cada coisa. Há um determinado momento da vida em que desejamos ativamente participar do entendimento do mundo, penetrar o universo das respostas, aparentemente habitado pelos adultos. Perguntamos os porquês de cada coisa que nos entristence, fascina, amedronta ou seduz. Não é uma reação de rebeldia, é apenas curiosidade.

Toda criança que já teve essa fase já passou, também, pela decepção de descobrir que os adultos apenas “parecem” ter todas as respostas. Incapazes de satisfazer a curiosidade em cada pergunta, impacientes em desemaranhar o enredo entre cada coisa que existe e sua origem ignota, os adultos costumam podar a sequência de perguntas em algum ponto, de alguma maneira delimitando para os perguntadores os limites do conhecimento possível, ou do que é “permitido” saber.

A chegada à idade adulta passa a ser, então, o sonhado momento em que, na visão infantil, aqueles conhecimentos sonegados, porque “ainda é cedo” para a sua partilha, serão finalmente revelados. Todo pré-adolescente imagina que, em dado momento de sua vida, desvelará os segredos controlados pelo mundo adulto. Todo adolescente age propositalmente para subverter esses limites, intrometendo-se aonde não deve, vendo os filmes que não pode, fazendo aquilo que é “muito cedo” para fazer.

Essas fases eventualmente passam. Há um momento em que finalmente acreditamos que obtivemos todas as respostas, ou, pelo menos, todas de que precisamos para funcionarmos como adultos plenos. Nessa fase é comum que tenhamos muitas teorias sobre o que nos falta, e pouca paciência para testar todas elas, porque o tempo urge e não devemos desperdiçá-lo a pensar.

A depender da rapidez da maturação intelectual e da profundidade da cultura adquirida por um indivíduo, cedo ou tarde esta fase também passará e as velhas dúvidas do fim da infância e do início da adolescência voltarão a incomodar. Por incomodarem, voltaremos a sonhar com respostas, eis que agora temperados pelas desilusões do passado e pela noção dos limites de nossas capacidades. Esse é o momento em que as Grandes Perguntas são substituídas por pequenas perguntas metódicas, que imaginamos capazes de montar os enigmas da existência, tal como a um quebra-cabeças.

A inevitável convivência entre pessoas de gerações diferentes leva a contínuos mal-entendidos, conforme a fase em que cada um esteja. Como já dito, os jovens se dividem entre os que anseiam pelo arcano conhecimento e aqueles que o desprezam, enquanto os adultos, segundo sua capacidade, buscam-no ou desprezam-no ainda mais.

Fazer perguntas que levam a reflexões profundas é uma das maneiras de ameaçar esse equilíbrio instável que existe na sociedade, sempre que pessoas de culturas e gerações diferentes interagem. Uma maioria dos participantes em qualquer instância social se apegará, sempre, a verdades superficiais que lhes dão identidade. Qualquer ameaça ao conforto dessa estabilidade provocará reações iradas. Normalmente, a minoria que alcança a isca lançada temerá mordê-la, para não se “queimar” com a maioria ruidosa.

Não foi à toa que os gregos condenaram Sócrates a beber cicuta.

Quem faz as perguntas certas será sempre considerado alguém errado.

Esta semana uma escritora chamada Dinah Lemos conheceu na própria pele o custo de se tentar provocar o pensamento em um ambiente no qual todos buscam desesperadamente por respostas. Ela postou em um grupo literário o seguinte questionamento (transcrição editada, ênfase adicionada):

Observe: o menino de dezenove anos virou escândalo por ocupar um cargo de alto escalão no governo. Era nepotismo e corrupção, segundo a grande mídia, porque ele era só um adolescente. Foi o que foi dito. Já o menino da periferia que está sendo editado simultaneamente em trinta países, este é gênio da literatura. Na política tem que ser velho e na literatura atual é louvável que seja muito jovem? Sabemos explicar por que?

Esta é uma pergunta tremendamente carregada — e exatamente por isso perigosa. Fazê-la significa questionar ideologias dadas e comportamentos aprendidos. O perigo é ainda maior em um grupo literário habitado por milhares de jovens que se acreditam possuidores de um talento excepcional e que sonham em ter o mesmo tipo de reconhecimento alcançado por Geovani Martins. Para esses jovens, o reconhecimento concedido ao contista carioca é uma prova de que ainda se dá valor ao “talento bruto” e, portanto, um raio de esperança para eles, que enfrentam descaso e indiferença, frequentemente submetendo-se a editoras picaretas para terem seus livros em mãos.

A reação natural desses jovens é estranhar a pergunta.

Estranham-na porque não conseguem imaginar que alguém não aceite automaticamente a verdade dada, segundo a qual existem talentos em estado bruto, e a situação identificada, na qual ainda existe interesse das editoras por esse talento.

Diante da estranheza, o remédio tópico a se aplicar para evitar a necessidade de pensar. Para alguns basta uma dose de ironia a fim de rebaixar a autora, outros chegam à agressão verbal, dentro dos limites socialmente aceitáveis. Eis uma coletânea de comentários feitos em “resposta” ao convite para se pensar a diferença entre um político e um literato de mesma idade:

Uai, e tem que ser velho pra escrever, agora? Quantos poetas não morreram aos 20, 21 anos? Se fosse preciso envelhecer pra escrever, não teríamos Casimiro de Abreu, Castro Alves, Álvares de Azevedo, John Keats, e tantos outros.

Observe que o questionamento feito quanto à razão de se dar valor distinto à idade dos dois jovens foi substituído pelo espantalho segundo o qual não haveria mérito em autores jovens — sendo que a Dinah nunca afirmou isso.

Outro autor respondeu que “Não faz sentido comparar as duas coisas, são casos completamente distintos”, mas não explicou porque os casos não podem ser comparados. Um outro aproveitou a oportunidade para difamar um livro que nem leu, sendo que esse não era o objetivo da questão:

Tirando a questão do nepotismo, essa coisa do “gênio” nascido em “comunidade” não causa certa desconfiança neste mundo em que “coitadismo identitário” é forte moeda de troca? Não posso falar porque não li, mas perdi a vontade de ler.

Foi somente depois que o debate esquentou e alguém cometeu ofensas machistas contra a autora foi que os demais membros (de ambos os sexos), para não ficarem tão mal no contexto, começaram a dar certo crédito à pergunta. Houve afirmações um pouco mais educadas e algumas teses mais elaboradas, mas, no todo, o tópico se caracterizou, do começo ao fim, pela rejeição plana e completa do convite ao questionamento. Por mais que a autora tentasse elevar o debate, fazendo observações pontuais muito interessantes, continuavam pipocando intervenções curtas que rejeitavam o questionamento. Observe essa intervenção da autora:

Comparações não são feitas apenas para encontrar identidades, também o são para perceber diferenças. O método comparativo é complexo, ele é a base do modo de pensar de Sherlock Holmes. Uma investigação sobre velocidades pode examinar uma tartaruga e um rato, ou dois jovens que apareceram de modo muito visível na imprensa, na mesma semana. E uma comparação pode estimular a capacidade de entendimento de fenômenos distintos. Vivemos em um tempo em que a maioria das pessoas precisa se agarrar a verdades rápidas e fixas. Isso acontece porque nós sentimos inseguros, assustados.

E compare com esse comentário feito poucos minutos depois:

Talvez porque o escritor seja um puta escritor e o moleque de 19 anos nunca tenha trabalhado na vida? Parabéns pela ousadia da pergunta porque inteligência não teve nenhuma!

O ser humano tradicionalmente mede o tamanho do mundo pelo alcance de sua vista, ou, poeticamente, determina a validade do conhecimento pela sua capacidade pessoal de apreendê-lo. “Se eu não entendo, então não faz sentido”. Se o mundo sempre parece mais simples a quem é ignorante, é frequente que a tentativa de desvelar a sua complexidade seja considerada ofensiva, ou até “exibida”, ou mesmo “preconceituosa”. A projeção é um fato.

O que não foi feito no tópico, em momento algum, foi questionar dois valores ideológicos profundos de nossa cultura, que nos condicionam e dos quais raramente tomamos conhecimento:

  1. A tese segundo a qual nossos líderes têm de ter experiência e que esta somente advém da idade.
  2. A tese segundo a qual os artistas têm um talento inato e que a demora em desabrochá-lo pode pervertê-lo.

A fixação na política por pessoas, principalmente homens, de caras enrugadas e cabelos encanecidos nos leva a manter fora de postos chave pessoas dinâmicas e que têm ideias inovadoras para melhorar o país.

Simultaneamente, essa pessoas, não tendo mais a facilidade de interagirem com um mundo em rápido movimento, valem-se de assessores recrutados entre os seus, o que potencializa a já histórica tendência nacional ao nepotismo, e cria situações como a desse rapaz recém-saído do ensino médio e que se tornou, da noite para o dia e por obra de seus laços familiares, o responsável pela administração de recursos relevantes.

A segunda tese, em parte derivada da idolatria dos anos 1960 e 1970 pelos cantores pop, faz com que certas pessoas, a partir de uma determinada idade, sejam consideradas “passadas” — e nesse número me incluo eu mesmo.

Ocorre que a experiência não é um recurso mais valioso do que a capacidade de inovar e de tomar decisões corretas. Normalmente a experiência aconselha-nos à covardia ou à inação. No caso da política, considerando isto em que os nossos políticos são notoriamente excelentes, não creio que seja do interesse popular tê-los sumamente experientes. Exatamente pelo mesmo motivo que precisamos de políticos menos “rodados”; menos habilitados a fazer com eficiência isto que nossa política, em nossa própria opinião, faz tão bem; deveríamos dar mais valor aos autores maturados — e aqui não defendo essa tese só em meu nome.

Na arte, a experiência costuma ajudar a consolidar o que a juventude ainda mal estruturou. Uma das razões do espanto que temos pelos jovens talentos da literatura é justamente que sejam capazes de acertar tão cedo porque isto não é natural. O normal é que os jovens escrevam pessimamente, com excesso de autoconfiança, falta de profundidade filosófica e alguma ousadia baseada na ignorância. Isto pode, muitas vezes, ser bom, mas noutras vezes (talvez na maioria) resulta em muita bravata e pouco resultado.

Precisamos, sim, fazer questionamentos educados sobre os temas que mais nos incomodam. Esta conclusão que dei ao debate, apenas porque me pediriam uma se eu não a pusesse aqui, é somente uma possibilidade de desenvolver a pergunta, extremamente ampla, feita por Dinah.

A maioria dos que a leram, porém, permitiu que sua resposta fosse guiada pela irritação causada pela proposta de se pensar sobre algo que parece tão óbvio.

Na prática, as coisas óbvias são as que mais precisam ser explicadas. As complexas, pouca gente pode explicar e pouca gente pode entender, então elas não produzem tanto alcance, nem tanto impacto e nem tanto conhecimento. As explicações do óbvio, porém, abrem portas, constroem pontes e ajudam, até mesmo, a caminhada até o complexo.

Pobre o país que idolatra o inatingível e odeia as pontes que levam até lá.

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