A Defesa da Jornada do Herói Através de Falácias

Dizer que você deve começa a usar a Jornada do Herói é um apelo à multidão. O ser humano se sente mais confortável na presença de muita gente, sem se perguntar se essa multidão está fazendo algo correto. É a mesma lógica que permite a pessoas de bom caráter participarem de saques e linchamentos, que levou o povo alemão a apoiar o nazismo. Racionalmente falando, você não precisa seguir o que a multidão está fazendo. Como diz a Bíblia, mil cairão à sua direita, dez mil à sua esquerda (ou o contrário, não me lembro), mas você não precisa ser atingido. Basicamente o que esse argumento sugere é que você deve abandonar aquilo que acha correto e que até então fazia, passando a seguir aquilo que a multidão faz.

O segundo parágrafo é composto. Ele começa com um bem evidente argumento pela antiguidade (ad antiquitatem), sugerindo-lhe que algo que a humanidade faz há milhares de anos deve estar certo. Se formos reduzir esse argumento à sua expressão mais simples, ele pode ser definido como “os antigos não erravam”. Uma pessoa racional rejeita o argumento pela antiguidade quando consegue identificá-lo porque nós sabemos, instintivamente, que nossos pais estavam errados a respeito de muitas coisas e sabemos, pelas aulas de história, que a humanidade já cometeu muitos erros no passado. Como podemos acreditar que os antigos não erravam se foram eles que inventaram a guerra, o estupro, o racismo, as mutilações genitais e outras coisas? O simples fato de algo ser antigo não lhe confere nenhuma validade. O segundo elemento presente nesse parágrafo é o argumento pelo sucesso (ad crumenam), contido na sugestão de que todas as obras mais significativas da literatura universal seguem a Jornada do Herói. A insinuação aqui é a de que estas obras são significativas porque foram feitas segundo a Jornada do Herói. Podemos também verificar, no mesmo parágrafo, um raciocínio circular (as obras são significativas porque seguem a Jornada do Herói? Ou é a Jornada do Herói que se apresenta significativa por estar presentes nas obras mais significativas?) do tipo confusão entre correlação e causa. O fato de duas coisas coincidirem em um mesmo objeto não quer dizer que uma é causa da outra, podendo ambas ser causadas por um terceiro fator. Falaremos mais sobre esta falácia mais adiante.

Em seguida vemos um apelo à autoridade. Considerando que nós estamos falando de literatura, não de antropologia, seria até possível qualificar de “apelo a autoridade irrelevante”, visto que Campbell não era ficcionista, mas não vou ser tão agressivo. A questão é que uma autoridade não tem o poder de determinar a validade de algo. Na filosofia e nas ciências, a autoridade deriva da capacidade de encontrar e difundir a verdade, não o contrário. Embora o trabalho de Campbell seja notável, não podemos evocar seu nome e suas credenciais como defesa da Jornada do Herói enquanto técnica literária porque não é a pessoa de Campbell ou suas credenciais acadêmicas que validam o conceito. Um conceito é válido por ser verdadeiro, não por ser defendido por alguém famoso.

Podemos ver esse uso falacioso da autoridade de uma maneira mais clara no parágrafo seguinte, quando os nomes de George Lucas e Christopher Vogler são anunciados. Citar nomes não é um argumento válido. Porém a principal falácia desse parágrafo é o argumento pela venerabilidade (ad verecundiam) contido na qualificação de Vogler como roteirista em Hollywood e nas subsequentes menções ao emprego da Jornada do Herói pelas produções cinematográficas americanas. O poder de Hollywood é tão grande e intimidador que os jovens se sentem obrigados a seguir aquilo que emana de lá. Desta forma, evocar Hollywood é uma forma sutil de apelo ao poder e à respeitabilidade dessa indústria.

Chegamos então a um simples apelo à quantidade (ad numerum), embora aqui se usem números abstratos (“a maioria”) em vez de tangíveis (“nove de cada dez”). O apelo à quantidade é uma forma impessoal do apelo à multidão (ambos são essencialmente a mesma coisa, só que referentes a pessoas e coisas, respectivamente). Porém, a falácia principal aqui é novamente o raciocínio circular: os filmes de maior sucesso fazem sucesso porque usam a Jornada do Herói, ou a Jornada do Herói entrou em evidência por ser usada pela maioria dos filmes de sucesso?

O sexto parágrafo novamente emprega um argumento pela venerabilidade (ad verecundiam), ao citar a influência dos arquétipos profundos da psique humana (mas de que forma exatamente isso funciona?) e o nome de C. G. Jung. Literariamente falando, Jung é uma autoridade irrelevante, pois era psicólogo (na verdade psicanalista) e não um crítico literário ou escritor. Em geral, a citação da opinião de um especialista em área diferente da sua especialidade é sempre um apelo a autoridade irrelevante.

A afirmativa do parágrafo sétimo é apenas parcialmente verdadeira, porque não se pode resumir a obra de Campbell ao conceito de que todos os mitos seguem um padrão. Nem o próprio Campbell chegou a afirmar isso, mas, sim, que existem padrões mitológicos universais. O fato de haver padrões universais não quer dizer que todo personagem siga esse padrão. Por exemplo, muitos mitos, de diversas culturas, contêm o elemento do “animal trapaceiro” (trickster), mas isso não quer dizer que toda história envolvendo humanos e animais seja uma história de animal trapaceiro. A raposa que surge no “Pequeno Príncipe” não é um trapaceiro, ela é um personagem que interage com o herói a seu modo (e possivelmente seguindo outro paradigma). O simples fato de ser um animal a interagir com um humano não transforma a raposinha em um trickster. Caso você não tenha percebido, a simplificação do conceito de monomito através da afirmativa deste parágrafo nos conduz a uma falácia de generalização (tomar a parte pelo todo) apressada.

Uma outra forma de erro grave em argumentações consiste em atribuir intenções a terceiros. Esse tipo de erro ocorre porque nós estamos acostumados com ele desde a mais tenra infância, pois é justamente nisso que consistem as homilias e sermões de todas as igrejas cristãs. Todo padre ou pastor trabalha, necessária e quase exclusivamente, tentando adivinhar a partir do texto bíblico as intenções dos autores e, mais ainda, as de Deus, que inspirou a estes. Nós não conseguimos achar errado a tentativa de detectar as intenções de pessoas que nunca conhecemos porque fomos ensinados a aceitar a exegese como algo válido, quia absurdum. Ora, por mais que tenhamos lido as obras de um autor, no caso Vogler, nada nos autoriza a dizer quais foram as suas intenções ao escrever seu trabalho. No máximo nós podemos conhecer as que ele alegou serem as suas intenções. Porém há nesse parágrafo um segundo erro lógico: outro raciocínio circular, o de que as obras produzidas segundo a Jornada do Herói, mais particularmente a versão propagada por Vogler, seriam melhores por seguirem a Jornada.

A décima afirmativa retorna a um raciocínio circular, que também pode ser interpretado com uma confusão entre posterioridade e consequência (post hoc ergo propter hoc). Podemos afirmar com certeza que “Guerra nas Estrelas” foi um sucesso porque George Lucas estudou a fundo a Jornada do Herói? Em um nível acima, podemos dizer que as ocorrências intencionais da Jornada do Herói produzem mais qualidade e mais sucesso do que as ocorrências naturais?

A última argumentação de defesa já sai do terreno da mera defesa e parte para a agressão sutil. Podemos ver aqui um apelo às consequências (ad consequentiam) — não seguir a Jornada é excluir-se — e um apelo ao poder (ad baculum) — os que resistem à ideologia da Jornada passam a ser combatidos pelos meios editoriais. Mais do que convencer o jovem a adotar um paradigma, esta afirmativa o está a ameaçar com o “porrete” (báculo) do mercado editorial caso ele não se submeta.

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