Tradução: Vulthoom (C.A. Smith)

Haines e Chanler, mudos de incomensurável espanto, seguiram o marciano desde o estranho eleva­dor por uma das passagens ramificadas.

— Deve haver um tipo de brincadeira acontecendo — resmungou Haines. Já ouvi falar de Vulthoom também, mas ele é só uma superstição, como Satanás. Os marcianos de hoje não lhe dão muito cré­dito mais, embora eu tenha ouvido falar de um tipo de culto demoníaco entre os párias e as castas mais baixas. Poderia apostar que algum nobre está tentando organizar uma revolução contra o imperador reinante, Cykor, e estabeleceu seu quartel-general no subsolo.

— Soa razoável — concordou Chanler. Um revolucionário poderia se intitular Vulthoom. O truque faria sentido de acordo com a psicologia dos Aihai. Eles têm um gosto por metáforas exageradas e títulos fantásticos.

Ambos caíram em silêncio, sentindo uma espécie de reverência pela vastidão do mundo caver­noso cujos corredores iluminados pareciam estender-se infinitamente. As teorias que tinham acabado de enunciar começaram a parecer impróprias: o improvável se verificou, o fabu­loso se fez fato e os envolvia cada vez mais. Os clangores distantes e misteriosos pareciam ser de ori­gem sobrenatural, os apressados gigantes que passavam através da câmara com car­gas desco­nhe­cidas davam um sen­tido sobrenatural às suas atividades e propósitos. Haines e Chanler eram ambos altos e fortes, mas os marcianos em torno deles eram todos de dois metros e meio para cima. Alguns tinham quase três metros e meio e todos eram propor­cio­nal­mente muscu­lo­sos. Suas faces tinham a expres­são de uma idade de múmia, imensa e incon­gruente com sua agilidade e vigor.

Haines e Chanler foram levados por um corredor de cujo teto arqueado os hemisférios ver­me­lhos, sem dúvida formados de algum metal artificialmente radiante, brilhavam a intervalos como sóis prisioneiros. Pulando de degrau em degrau eles desceram por uma escadaria gigan­tesca, pela qual o marciano passou facilmente à frente deles. Ele parou diante dos portais aber­tos de uma câmara escavada em uma rocha basáltica escura e adamantina.

— Entrem — ele disse, e recuou para permitir que passassem.

A câmara era pequena, mas muito alta, com o reto se erguendo como o interior de um piná­culo. Seu chão e paredes eram manchados pelos raios sanguíneos de um só hemisfério violeta que brilhava lá no alto da cúpula estreita. O lugar estava vazio e mobiliado apenas de uma curi­osa trípode de metal negro, fixa no centro. A trípode sustinha um bloco de cristal e deste bloco, como se nascesse de uma poça congelada, uma flor alvíssima se erguia, abrindo pétalas de um marfim uniforme e denso que recebia uma tintura rosada daquela estranha luz. Bloco, flor, trípode, tudo parecia ser parte de uma só peça de escultura.

Ao passarem a porta, os terráqueos logo notaram que a vibração de trovões e os clan­gores que reverberavam pelas cavernas haviam diminuído em profundo silêncio. Era como se eles tives­sem entrado em um santuário do qual todo som era excluído por uma barreira mística. Os por­tais permaneceram abertos por trás deles. Seu guia, aparentemente, se retirara. Mas, por algum motivo, eles sentiam que não estavam sós e parecia que olhos ocultos os observavam de dentro das paredes vazias.

Perturbados e confusos eles se detiveram na flor pálida, notando sete finas pétalas parecidas com línguas que partiam de uma cavidade em forma de coração, formando um desenho parecido com o de um pequeno cinzeiro. Chanler começou a imaginar se era realmente uma obra de arte ou uma flor de verdade que fora mineralizada por algum processo da química marciana. Então, supreendentemente, uma voz pareceu sair da flor: uma voz incrivelmente suave, clara e sonora, cujas entonações, perfeitamente articuladas, não eram as dos Aihai e nem as dos terráqueos.

"Eu, que lhes falo, sou a entidade conhecida como Vulthoom — disse a voz. Não se surpre­en­dam e nem tenham medo: é o meu desejo ser amigável com vocês em troca de uma atenção que, espero, não considerarão impossível. Primeiro, no entanto, eu devo explicar certos assun­tos que lhes estão deixando perplexos.

"Sem dúvida ouviram as lendas populares a meu respeito e as descartaram como meras supers­tições. Como todos os mitos, elas são parcialmente verdadeiras e parcialmente falsas. Não sou nem deus nem demônio, mas um ser que chegou a Marte proveniente de outro universo, em outros ciclos. Embora não seja imortal, o limite da minha vida é muito mais longo que o de qualquer das criaturas que evoluíram nos mundos de seu sistema solar. Sou governado por leis biológicas alienígenas, com períodos alternados de sono e vigília que envolvem séculos. É ver­dadeiro o que os Aihai acreditam, que eu durmo por mil anos e permaneço consciente de forma contínua por outros mil.

"Numa época em que os seus ancestrais ainda eram parentes dos macacos eu fugi de meu pró­prio mundo até este exílio intercósmico, banido por inimigos implacáveis. Os marcianos dizem que caí do céu como um meteoro em chamas, e o seu mito interpreta a descida de minha nave etérea. Encontrei uma civilização madura, mas imensamente inferior, no entanto, àquela de onde vim.

"Os reis e hierarcas do planeta me teriam expulsado, mas eu reuni alguns aderentes, dotando-lhes de armas superiores às da ciência marciana, e após uma grande guerra eu me estabeleci firmemente e ganhei outros seguidores. Não me importei em conquistar Marte, mas me refu­giei neste mundo cavernoso em que tenho vivido desde então, em companhia de meus discípu­los. A estes, por sua fidelidade, eu conferi uma longevidade que é quase igual à minha própria. Para assegurar tal longevidade eu também lhes dei o dom de um sono correspondente ao meu. Eles dormem e despertam comigo.

"Mantivemos esta ordem de existência por muitas eras. Raras vezes eu interferi nos feitos dos habitantes da superfície. Eles, porém, me converteram em um deus mau ou espírito, embora o mal seja, para mim, uma palavra sem significado.

"Sou possuidor de muitos sentidos e faculdades desconhecidas de vocês, ou dos marcianos. Minhas percepções podem ser estendidas, segundo meu desejo, por amplas áreas do espaço ou mesmo do tempo. Assim eu soube de seu infortúnio e os chamei aqui na esperança de obter o seu consentimento para um certo plano. Para ser breve, cansei de Marte, um mundo senil que se aproxima de sua morte, e agora desejo me estabelecer em um planeta mais jovem. A Terra serviria bem ao meu propósito. Neste exato instante os meus seguidores estão construindo uma nova nave etérea em que pretendo fazer a viagem.

“Não pretendo repetir a experiência de minha chegada a Marte pousando em meio a uma popu­lação ignorante de mim e talvez universalmente hostil. Vocês, jovens terráqueos, pode­riam preparar muitos dos seus para a minha chegada, poderiam reunir prosélitos para me ser­vi­rem. Sua recompensa — e a deles — seria o elixir da longevidade. E eu possuo muitos outros dons… como as preciosas gemas e metais que a vocês dão tanto valor. Também há flores cujo perfume é mais sedutor e persuasivo do que tudo. Inalando seus perfumes vocês entenderão que até o ouro é sem valor em comparação… e os tendo respirado, vocês e todos os outros de sua espécie me servirão alegremente.”

A voz terminou, deixando uma vibração que excitou os nervos dos ouvintes por mais alguns momentos. Foi como a cessação de uma música doce e encantadora com notas de mal que quase não podiam ser detectadas através da melodia sutil. Ela seduzia os sentidos de Haines e Chanler, transformando sua estupefação em uma espécie de aceitação sonolenta da voz e de suas declarações.
Chanler fez um esforço para se livrar do encantamento.

— Onde está você? — ele perguntou. E como podemos saber se nos disse a verdade?

— Estou perto — disse a voz — mas eu não quis me revelar ainda, neste momento. A prova de tudo que declarei, porém, lhes será revelada na hora certa. Ante vós está uma das flores de que lhes falei. Ela não é, como vocês já devem ter percebido, uma peça de escultura, mas um antó­lito, uma flor fóssil, trazida, como outras do mesmo tipo, do mundo de que sou nativo. Embora à temperatura ambiente ela não tenha cheiro, produz um perfume quando submetida ao calor. Quanto ao perfume… julguem vocês mesmos.

O ar dentro da câmara antes não era nem quente nem frio. Mas então os terráqueos notaram uma mudança, como se fogos escondidos tivessem sido acendidos. O calor parecia sair da trí­pode metálica e do bloco de cristal, incidindo sobre Haines e Chanler como a radiação de um invisível sol tropical. Ficou ardente, mas não insuportável. Ao mesmo tempo, insidiosamente, os terráqueos começaram a perceber o perfume, que não era como coisa alguma que já tives­sem inalado. Um traço discreto de uma doçura de outro mundo, ele se retorcia em suas nari­nas, aprofundando devagar, mas cada vez mais rápido, até se tornar uma torrente de especia­rias, e parecia se mesclar com a frescura agradável de uma brisa à sombra de uma folhagem, ao abrigo de um calor escaldante.

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3 thoughts on “Tradução: Vulthoom (C.A. Smith)

  1. Vulthoom – Clark Asthon Smith | Leituras Paralelas

  2. Parabéns pela tradução!
    Sei o quanto é difícil traduzir, pois também me enveredo por esses caminhos tortuosos traduzindo contos e livros pouco conhecidos ou ignorados na nossa língua inculta e bela.
    Já traduzi Metropolis, algumas coisas de Phillip K. Dick e atualmente estou concluindo a tradução de A Desagradável Profissão de Jonathan Hoag de Robert A. Heinlein.
    Bom trabalho, e continue assim! Lembre-se que sempre existirá alguém que ficará muito agradecido e será muito beneficiado com seu esforço!

  3. Vulthoom – Clark Ashton Smith « Exilado dos livros

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